Quem Ama Acredita
Nicholas Sparks


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Editorial Presena, Lisboa, 2005, 1 Edio.
Coleo: Grandes Narrativas, n 287.
Ttulo original: Lover Believer.
Traduo De Saul Barata
Copyrigth 2005 by Nicholas Sparks
Depsito legal n 228 506/05


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Dedicado a 

Rehtt e a Valerie Little, pessoas maravilhosas, amigos maravilhosos. 

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AGRADECIMENTOS 


Como sempre, tenho de agradecer  minha mulher, a Cathy, pela ajuda que me prestou 
enquanto escrevi este romance. Devo-lhe tudo o que consigo fazer. 

Tambm tenho de agradecer aos meus filhos: Miles, Ryan, Landon, Lexie e Savannah. Que 
posso eu dizer? Que cada um de vs foi uma bno para mim e que me sinto orgulhoso de 
todos. 

Theresa Park, a minha agente, merece uma grande ovao por tudo o que faz por mim. 
Parabns pela tua nova agncia -Park Literary Group (em nome de todos os escritores que 
h por a). Tenho a honra de te poder chamar minha amiga. 

Jamie Raab, o meu editor de texto,  credor do meu agradecimento, no s pela forma 
como rev os meus romances, como tambm pela confiana que deposita em mim. Sem ele, 
no saberia onde a minha carreira teria acabado. Tenho de agradecer-lhe a generosidade e 
a simpatia. 

Larry Kirshbaum e Maureen Egen so amigos e colegas, e considero-me privilegiado por 
trabalhar com eles. So pura e simplesmente os melhores naquilo que fazem. 

Denise Di Novi tambm merece os meus agradecimentos, no s pelos filmes que fez a 
partir dos meus romances, mas tambm pela oportunidade de cada um dos seus 
telefonemas que iluminam os meus dias. 

Agradecimentos tambm a Howie Sanders e Dave Park, meus agentes na UTA, bem como a 
Richard Green, na CAA. 

Lynn Harris e Mark Johnson, que ajudaram a fazer de Dirio da Nossa Paixo o maravilhoso 
filme que pudemos ver, tambm merecem a minha gratido. Obrigado por terem sempre 
acreditado no meu romance. 

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UM 

Jeremy Marsh sentou-se entre a assistncia do estdio de gravao. Naquela tarde de 
meados de Dezembro, era um de entre meia dzia de homens da assistncia. Estava vestido 
de preto, pois claro, e, com o cabelo escuro ondulado, os olhos azuis e a barba da moda, 
parecia exatamente o nova-iorquino que era. Enquanto analisava o convidado que estava no 
palco, conseguia lanar olhares sub-reptcios  atraente loura que se encontrava trs filas 
mais  frente. Na verdade, havia alturas em que a sua profisso exigia o cabal desempenho 
de mais de uma tarefa em simultneo. Ele era o jornalista de investigao  procura de uma 
histria e a loura era apenas mais um elemento da assistncia; porm, o observador 
profissional que existia nele no podia deixar de notar quanto a mulher, metida no seu 
colete curto e calas de ganga, era atraente. Em termos jornalsticos, est bem de ver. 

Tentou pr a cabea em ordem, concentrar-se no convidado. O homem era mais ridculo do 
que poderia imaginar-se. Ao v-lo iluminado pelos focos de luz da televiso, Jeremy pensou 
que o guia dos espritos parecia obstipado ao clamar que ouvia vozes vindas do almtmulo. 
Tinha adotado um tom de falsa intimidade, agindo como se fosse o irmo ou o 
melhor amigo de cada um dos presentes que, na sua maioria, pareciam tomados de uma 
reverncia temerosa -incluindo a loura e a mulher a quem o convidado estava a dirigir-se e 
o consideravam uma bno vinda do cu. O que at fazia sentido, pensava Jeremy, pois 
esse era o local para onde os entes queridos mortos acabavam sempre indo. Os espritos de 
alm-tmulo estavam sempre rodeados de uma luz angelical e imersos numa aura de paz e 
tranqilidade. Nunca Jeremy ouvira falar de um guia de espritos que estabelecesse a ligao 
com o outro local, o mais quente. Nunca um ente querido morto se queixara de estar a ser 
assado no espeto ou a ser cozido num caldeiro de leo de motores, por exemplo. Contudo, 
Jeremy tinha conscincia de que estava a ser cnico. Alm disso, no podia deixar de admitir 
que se tratava de um bom programa. Timothy Clausen era bom, bastante melhor do que a 
maioria dos charlates sobre os quais andava havia anos a escrever. 

-sei que  difcil -dizia Clausen para o microfone -, mas Frank est me dizendo que chegou 
a hora de o libertar. 

A mulher a quem ele se dirigia com modos to simpticos parecia prestes a desmaiar. Na 
casa dos cinqenta, vestia uma blusa de riscas verdes, com as espirais de cabelo ruivo a 
projetarem-se em todas as direes. As mos da mulher, erguidas  altura do peito, estavam 
to apertadas que a presso lhe tornava os dedos brancos. 

Clausen fez uma pausa e levou a mo  testa, dirigindo-se uma vez mais ao mundo do 
alm", como ele dizia. Em silncio, num movimento coletivo, toda a assistncia se inclinou 
para diante. Todos os presentes sabiam o que ia seguir-se; era o terceiro espectador que 
Clausen escolhera naquele dia. No constitua surpresa que Clausen fosse o nico convidado 
residente do programa. 

-Recorda-se da ltima carta que ele lhe escreveu? - perguntou Clausen - Antes de falecer. 
A mulher soluou. Um assistente aproximou ainda mais o microfone, de modo que todos os 
telespectadores do programa a pudessem ouvir mais facilmente. 

-Recordo, mas como  que sabe... - balbuciou. Clausen no a deixou terminar a frase. 
-Recorda-se do que dizia? - indagou. 
-Recordo - gemeu a mulher. 
Clausen assentiu, como se ele prprio tivesse lido a carta. - Era sobre de perdo, no era? 
No seu sof, a apresentadora do mais popular programa vespertino da Amrica, ora olhava 
para Clausen, ora fixava os olhos na mulher. Parecia simultaneamente maravilhada e 
satisfeita. Os guias de espritos conseguiam bons nveis de audincia. 
No momento em que a mulher, sentada entre a assistncia, concordava, Jeremy viu que ela 


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chorava e que a maquilagem comeava a escorrer-lhe pelas faces. As cmaras abriram o 
ngulo de forma a mostrarem melhor o que estava a acontecer. A televiso diurna no seu 
melhor. 

-Mas como  que pde... - repetiu a mulher. 
-Ele tambm falava da sua irm - murmurou Clausen. - E no apenas sobre dele. 
A mulher transfigurou-se, ficou olhando para ele. 
-A sua irm Ellen -acrescentou Clausen e, finalmente, ouvida mais esta revelao, a mulher 
deixou escapar um grito rouco. As lgrimas irromperam, como se o sistema de rega 
automtica tivesse entrado em funcionamento. Clausen, bronzeado e elegante no seu fato 
preto, sem um cabelo fora do lugar, continuava a acenar com a cabea, como um daqueles 
ces que algumas pessoas pem junto ao culo traseiro do automvel. Embora se 
mantivesse em absoluto silncio, toda a assistncia se voltou para a mulher. 
-O Frank deixou-lhe uma outra coisa, no  verdade? Algo referente ao seu passado. 
A despeito da claridade das luzes do estdio, a mulher pareceu empalidecer. Num dos 
cantos do estdio, fora do campo normal de viso, Jeremy viu o produtor a rodar um dedo 
erguido, a imitar a rotao das ps de um helicptero. Estava prestes a iniciar-se um 
intervalo para publicidade. Clausen olhou quase imperceptivelmente nessa direo. Para 
alm de Jeremy, ningum pareceu reparar; por vezes, perguntava a si prprio por que  que 
os telespectadores aceitavam to bem aquela seqncia sem falhas entre as comunicaes 
com o alm e os intervalos para publicidade. 

Clausen continuou: 

-Um pormenor de que ningum poderia ter conhecimento. Uma espcie de chave, no era? 
A mulher assentiu e continuou a soluar. 

-Nunca pensou que ele lhe recordasse aquilo, pois no? Ora bem, ali estava o argumento 
decisivo, pensou Jeremy. Conseguira-se mais uma verdadeira crente. 

- do hotel onde passaram a lua-de-mel. Ele p-la l para que quando a encontrasse, a 
senhora se lembrasse dos tempos felizes que viveram juntos. Ele no quer que o recorde 
com sofrimento porque a ama. 

-Ooooohhhhh... - gritou a mulher. 
Ou algo semelhante. Talvez um gemido. Do lugar onde estava sentado, Jeremy no pde ter 
a certeza, pois, de sbito, o grito foi submerso por uma exploso de aplausos entusisticos. 
O microfone foi logo retirado. As cmaras apontaram noutra direo. Terminado o seu 
momento de glria, a mulher sentada entre a assistncia deixou-se cair na cadeira. 
Aproveitando a deixa, a apresentadora levantou-se do sof e olhou de frente para a cmara. 

-Devo lembrar que o que esto vendo  verdadeiro. Nenhuma destas pessoas alguma vez 
tinha falado com Timothy Clausen -anunciou, a sorrir. -Depois deste intervalo, vamos 
apresentar mais uma comunicao. 

Mais intervalos quando o programa foi interrompido para os anncios; Jeremy recostou-se 
na cadeira. 

Como jornalista de investigao conhecido pelo seu interesse pela cincia, tinha construdo a 
carreira a escrever sobre pessoas como aquelas. Na maioria dos casos gostava do que fazia 
e orgulhava-se do seu trabalho, que considerava um valioso servio pblico, numa profisso 
to especial que tivera os seus direitos enumerados na Primeira Emenda da Constituio dos 
Estados Unidos da Amrica. Para a sua coluna regular no Scientific American, tinha 
entrevistado laureados com o Prmio Nobel, explicado as teorias de Einstein e de Stephen 
Hawking de forma a que os leigos as compreendessem, alm de, em certa ocasio, ter sido 
responsvel pelo despertar de um movimento de opinio pblica que levou a Administrao 
Federal de Medicamentos e Alimentos a retirar do mercado um perigoso antidepressivo. 

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Tinha escrito extensamente sobre do Projeto Cassini e do espelho defeituoso numa das 
lentes do telescpio espacial Hubble, alm de ser uma das primeiras pessoas a classificar de 
fraude a experincia de fuso a frio, pretensamente realizada no Utah. 

Infelizmente, embora parecesse impressionante, a sua coluna no lhe rendia muito. Era com 

o trabalho independente que pagava a maioria das suas contas e, como acontece com todos 
os jornalistas freelancer, buscava com diligncia encontrar histrias que pudessem interessar 
aos diretores de jornais e revistas. O seu nicho tinha-se alargado at incluir tudo o que 
fugisse ao habitual", pelo que, durante os ltimos quinze anos, tinha investigado fenmenos 
psquicos, guias de espritos, curandeiros espirituais e mdiuns. Tinha denunciado fraudes, 
brincadeiras e falsificaes. Tinha visitado casas assombradas, procurado criaturas msticas e 
investigado as origens de lendas urbanas. Cptico por natureza, possuindo tambm a rara 
habilidade de explicar conceitos cientficos por palavras que o leitor mdio conseguisse 
compreender, viu os seus artigos publicados em jornais e revistas de todo o mundo. Sentia 
que a desmontagem dos conceitos cientficos era uma atividade simultaneamente nobre e 
importante, mesmo que nem sempre fosse apreciada pelo pblico. Muitas vezes, depois de 
publicar os seus artigos de jornalista independente recebia cartas temperadas com adjetivos 
como idiota", atrasado mental" e o epteto seu preferido: lacaio do poder". 
O jornalismo de investigao, acabara por perceber, era uma profisso ingrata. 

De testa franzida, a Refletir sobre tudo isto, observava a assistncia conversando 
animadamente, e tentava imaginar quem seria escolhido a seguir. Jeremy olhou uma vez 
mais para a loura, que examinava a pintura dos lbios num espelho de bolso. 

Jeremy j sabia que as pessoas escolhidas por Clausen no estavam, oficialmente, ligadas ao 
programa, mesmo que as presenas de Clausen fossem anunciadas com antecedncia e as 
pessoas lutassem com denodo para obter um bilhete que lhes permitisse fazer parte da 
assistncia em estdio. O que significava,  claro, que a assistncia enxameava de crentes 
na vida para alm da morte. Para elas, Clausen era legtimo. A menos que falasse com os 
espritos, como  que poderia saber tantas coisas sobre de estranhos? Porm, como 
qualquer mgico de qualidade, o homem era obrigado a ter um repertrio fixo, pois uma 
iluso  sempre uma iluso e, imediatamente antes do programa comear, Jeremy 
conseguira no s perceber como ele fazia, mas tambm obtivera provas fotogrficas para o 
desmascarar. 

Abater Clausen seria o maior golpe de Jeremy at quela data; e o homem merecia ser 
denunciado. Clausen era um vigarista da pior espcie. No entanto, a faceta pragmtica de 
Jeremy tambm compreendera que aquela histria era de um gnero que raramente 
aparece, pelo que queria que sasse o melhor possvel. Afinal, Clausen cavalgava uma 
enorme onda de celebridade e, na Amrica, a celebridade era tudo o que interessava. 
Embora as probabilidades fossem mnimas, imaginava o que poderia acontecer se ele fosse a 
prxima escolha de Clausen. No esperava que acontecesse; ser escolhido era quase como 
ganhar a lotaria; e mesmo que no acontecesse, Jeremy sabia que tinha uma histria de 
qualidade. No entanto, um bom artigo e um artigo extraordinrio estavam, quantas vezes, 
separados por um simples golpe de sorte;  medida que o intervalo para publicidade se 
aproximava do fim, sentiu uma ligeira esperana, que nada justificava, de que a escolha de 
Clausen recasse em si. 

E, como se tambm o prprio Deus no estivesse entusiasmado com o que Clausen estava a 
fazer, foi isso exatamente que aconteceu. 

Trs semanas mais tarde, o Inverno fustigava duramente Manhattan. Uma frente fria 
descera do Canad, a temperatura baixara quase at zero e as nuvens de vapor erguiam-se 
lentamente das grelhas dos esgotos, para se transformarem em gelo nos passeios. No que 
as pessoas parecessem preocupadas. Os endurecidos cidados de Nova Iorque mostravam a 
indiferena habitual por tudo que se relaciona com o tempo, pelo que uma noite de sexta-
feira no podia ser desperdiada, quaisquer que fossem as circunstncias. As pessoas 
trabalhavam tanto durante a semana que no concebiam a idia de desperdiarem uma 

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sada  noite, especialmente quando havia qualquer coisa a comemorar. Nate Johnson e 
Alvin Bernstein j tinham comemorado durante uma hora, como acontecera com umas duas 
dzias de amigos e jornalistas, alguns do Scientific American, que se tinham juntado para 
homenagear Jeremy. Muitos dos presentes estavam na fase da bebida e divertiam-se 
imenso, principalmente porque os jornalistas tendem a fazer esticar os oramentos e, 
naquele dia, era o Nate quem pagava a conta. 

Nate era o agente de Jeremy. Alvin, fotgrafo independente, era o melhor amigo de Jeremy 
e tinham-se juntado naquele bar chique de Upper West Side para comemorar a apario de 
Jeremy no programa Primetime Live, da cadeia ABC. Os anncios de Primetime Live tinham 
estado a ser transmitidos durante a semana -na sua maioria a mostrarem Jeremy no centro 
das atenes e a prometerem a grande denncia da fraude -e os pedidos de entrevistas 
inundavam o escritrio do Nate, vindos de todos os pontos do pas. A revista People 
telefonara ao princpio da tarde, ficando a entrevista marcada para a segunda-feira seguinte. 

No houvera tempo para reservar uma sala para a reunio, mas ningum parecia 
incomodar-se com isso. Com o seu comprido balco de granito e a iluminao espetacular, a 
casa encontrava-se cheia de gente bem instalada na vida. Enquanto os jornalistas do 
Scientific American tendiam a usar casacos esportivos de tweed com protetores de bolsos e 
se tinham concentrado num dos cantos da sala a discutir as fotos, a maioria dos outros 
clientes parecia ter passado por ali depois de acabar o trabalho na Wall Street ou na Madison 
Avenue: casacos de fatos italianos pendurados nas costas das cadeiras, gravatas Hermz 
desapertadas, homens que pareciam no pretender mais nada que no fosse impressionar 
as mulheres presentes e fazer brilhar os relgios Rolex. Mulheres, vindas diretamente do 
trabalho em editoras e agncias de publicidade, que vestiam saias de marca e calavam 
sapatos de saltos incrivelmente altos, beberricavam as suas bebidas e fingiam ignorar os 
homens  sua volta. O prprio Jeremy no tirava os olhos de uma ruiva alta que estava na 
outra ponta do balco e parecia lanar olhares na direo dele. No saberia dizer se ela o 
reconhecera dos anncios da televiso, ou se procurava apenas companhia. Voltou-lhe as 
costas, aparentemente desinteressada, mas de seguida voltou a olhar para ele. Um olhar, 
desta vez, ligeiramente mais prolongado, o que levou Jeremy a erguer o copo numa 
saudao. 

-V l, Jeremy, toma ateno -pediu o Nate, a dar-lhe um toque de ombro. -Ests na 
televiso! No ests interessado em ver a tua atuao? 

Jeremy desviou os olhos da ruiva. Olhando para o monitor viu-se sentado em frente de 
Diane Sawyer. Refletiu sobre aquela situao esquisita, pois parecia estar em dois lugares ao 
mesmo tempo. Aquilo ainda no lhe parecia bem real. Apesar dos seus anos de profissional 
dos media, nada do que acontecera nas trs semanas anteriores lhe parecia real. 

No monitor, Diane estava a descrev-lo como o mais conceituado articulista cientfico da 
Amrica". A histria tinha acabado por exceder as expectativas, Nate estava ainda a negociar 
com o programa Primetime Live a possibilidade de Jeremy escrever regularmente para eles, 
alm de poder concorrer com trabalhos adicionais para o programa Good Morning Amrica. 
Embora muitos jornalistas considerassem a televiso menos importante do que outras 
formas mais srias de reportagem, tal no significava que, na sua maioria, no vissem 
secretamente a televiso como o Santo Graal, isto , como uma fonte de ganhos chorudos. 
Apesar das felicitaes, a inveja andava por ali, embora, para Jeremy, ela fosse uma 
sensao to estranha como a de viajar no espao. Afinal, os jornalistas do seu gnero no 
costumavam estar no topo da hierarquia dos media. At quele dia. 

-Ela chamou-te conceituado? -indagou Alvin. -Tu, que escreves sobre do Bigfoot e da 
lenda da Atlntida! 

-Caluda! -ordenou Nate, de olhos postos no monitor. -Estou a tentar ouvir isto. Poder vir 
a ser importante para a carreira do Jeremy -acrescentou. Como agente do jornalista, Nate 
andava sempre a promover eventos que pudessem ser importantes para a carreira do 
Jeremy", pela simples razo de que o jornalismo independente no era uma atividade muito 

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lucrativa. Anos antes, quando Nate estava a comear, Jeremy pretendera publicar um livro e 
nunca mais tinham deixado de trabalhar juntos, simplesmente por terem ficado amigos. 

-No interessa -concluiu Alvin, a ignorar o ralhete. Entretanto, no monitor, por trs de 
Diane Sawyer e de Jeremy, eram passados os ltimos momentos da exibio do jornalista no 
programa televisivo da tarde, em que ele fingira ser um homem afligido com a morte de um 
irmo adolescente, um rapaz que Clausen tinha declarado pronto a entrar em contato com 
Jeremy. 

-Ele est comigo - ouvia-se o Clausen a anunciar. - Ele quer que o liberte, Thad. 
A cmara mudou para ser mostrada a imagem de um Jeremy de rosto distorcido pela 
angstia. Em fundo, via-se Clausen a acenar com a cabea, a mostrar simpatia ou a parecer 
obstipado, de acordo com a perspectiva de cada um. 

-A sua me nunca modificou o quarto, o quarto partilhado por ambos. Insistia que fosse 
mantido sem alteraes e voc teve de continuar a dormir l - acrescentou Clausen. 


-Pois foi - balbuciou Jeremy. 
-Mas usar o quarto metia-lhe medo e, furioso, pegou numa coisa dele, um objeto muito 
pessoal, e enterrou-o no quintal das traseiras. 
Jeremy conseguiu murmurar mais uma vez: 


-Sim. 
-A prtese dentria! 
-Ooooohhhhh! - lamentou-se Jeremy, cobrindo o rosto com as mos. 
-Ele adora-o, mas tem de perceber que ele agora est em paz. No est zangado consigo. 
Jeremy gemeu de novo, a contorcer a cara ainda mais: 
-Ooooohhhh! 
Nate estava concentrado e silencioso observando as imagens. Alvin, por sua vez, continuava 
a rir-se e a erguer bem alto o copo de cerveja. 


-Dem um Oscar" a este homem! - bradou. 
-J disse que se calassem, os dois -mandou Nate, sem esconder a irritao. -Conversem 
no intervalo para publicidade. 

-No interessa -sentenciou Alvin novamente. No interessa" sempre fora a expresso 
favorita de Alvin. 

Na continuao do programa Primetime Live as imagens foram desaparecendo e a cmara 
fixou-se uma vez mais em Diane Sawyer e Jeremy, sentados frente a frente. 

-Nesse caso, nada do que Clausen nos disse  verdade? perguntou Diane. 
-Nada. Como j sabe, o meu nome no  Thad, tenho cinco irmos e todos esto vivos e de 
boa sade. 
Diane manteve a caneta assente no bloco, como se estivesse preparada para tomar notas. 

-Ento, como  que o Clausen faz isto? 
-Bom, Diane - comeou Jeremy. 
No bar, Alvin franziu o sobrolho e inclinou-se para Jeremy. 
-Trataste-a apenas por Diane? Como se fossem grandes amigos? 
-Fazes o favor! - atalhou Nate, cada vez mais exasperado. 
No monitor, Jeremy continuava: 
-O que Clausen faz  apenas uma variao do que outros tm andado a fazer h centenas 
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de anos. Em primeiro lugar,  um bom observador de pessoas e um especialista em 
estabelecer associaes vagas, mas dotadas de grande carga emocional, e de responder aos 
palpites, da assistncia. 

-Bom, mas ele foi to especfico. No apenas consigo, mas tambm com os outros 
convidados. Sabia nomes. Como  que ele faz isso? 

Jeremy encolheu os ombros. -Ouviu-me falar do meu irmo, Marcus, antes do programa. 
Limitei-me a contar, alto e bom som, uma vida imaginria. 

-E como  que a histria chegou aos ouvidos do Clausen? 
-Os vigaristas como Clausen so de h muito conhecidos por usarem uma grande variedade 
de truques, incluindo microfones e ouvintes" pagos que circulam pela sala de espera antes 
do incio do programa. Antes de me sentar, fiz questo de andar por a e de meter conversa 
com diversos membros da assistncia, sempre vendo se algum revelava um interesse 
pouco habitual pela minha histria. E, disso no tenho dvidas, houve um homem que me 
pareceu particularmente interessado. 

Por trs deles, o filme de vdeo foi substitudo por uma fotografia ampliada que Jeremy tirara 
com uma pequena mquina disfarada no relgio, um brinquedo de alta tecnologia usado 
pelos espies, cujo custo foi prontamente debitado ao Scientific American. Jeremy adorava 
brinquedos de alta tecnologia, davam-lhe quase tanto prazer como o ato de os fazer pagar 
por outras pessoas. 

-O que  que estamos vendo agora? - indagou Diane. 
Jeremy apontou. 
-Este homem andou misturando-se com a assistncia em estdio, fazendo-se passar por um 
turista vindo de Peoria. Tirei esta fotografia antes do incio do programa, enquanto 
estivemos conversando. Ampliem mais, por favor. 

No monitor, a fotografia foi aumentada e Jeremy apontou na direo dela. 
-Est a ver aquela pequena bandeira dos EUA na lapela? No  apenas um enfeite. Na 
realidade,  um microfone em miniatura, que transmite para um gravador que est nos 
bastidores. 


Diane franziu as sobrancelhas. 

-Como  que sabe isso? 
-Porque -respondeu Jeremy, por sua vez a alar uma sobrancelha -, acontece que tenho 
um aparelho igual. -Logo de seguida, meteu a mo no bolso e sacou de uma bandeira 
exatamente igual, ligada a um longo fio enrolado a um transmissor. -Este modelo  
fabricado em Israel -esclareceu Jeremy. A voz dele podia ouvir-se enquanto a cmara 
mostrava um grande plano do aparelho. - uma mquina muito avanada. Ouvi dizer que  
usada pela CIA, uma informao que, como  bvio, no posso confirmar. Posso confirmar, 
isso sim, que se trata de tecnologia de ponta: este pequeno aparelho pode gravar conversas 
numa sala barulhenta e cheia de gente e, munido dos filtros apropriados, pode at identificar 
as vozes. 

-E tem a -Diane observou a bandeira com aparente fascinao. -certeza de que este era 
realmente um microfone e no apenas uma bandeira? 

-Bom, como sabe, h muito que ando investigando o passado de Clausen e, umas semanas 
depois do incio da srie de programas, consegui obter mais algumas fotografias. 

Apareceu uma nova fotografia no monitor. Embora pouco ntida, era a imagem do mesmo 
homem que tinha sido fotografado com a bandeira dos EUA. 

-Esta fotografia foi tirada na Florida, no exterior do escritrio de Clausen. Como pode ver, o 
homem vai a entrar. Chama-se Rex Moore e  na realidade empregado de Clausen. H dois 
anos que trabalha com ele. 

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-Ooohhhh! -berrou Alvin, fazendo que o programa, que de qualquer das maneiras estava a 
terminar, fosse abafado pelo barulho de outros, invejosos ou no, que se lhe juntaram nas 
vaias e no alarido. As bebidas de graa tinham feito maravilhas e Jeremy viu-se submerso 
pelos parabns logo que o programa acabou. 
-Foste fantstico -elogiou Nate. De quarenta e trs anos, Nate era baixo, estava a ficar 
calvo e mostrava tendncia para comprar fatos um pouco apertados na cintura. Pouco 
interessava, o homem era a prpria encarnao da energia e, como a maioria dos agentes, 
andava sempre numa azfama, com um otimismo escaldante. 

- Obrigado - agradeceu Jeremy, antes de emborcar o resto da cerveja. 
-Isto vai ser importante para a tua carreira - prosseguiu Nate. 
- o teu passaporte para um espao regular na televiso. Acabaram-se as guerras para 
arranjarmos espaos em revistas. como jornalista independente, acabou procurando 
narrativas sobre o aparecimento de discos voadores. Olhando a tua figura, sempre disse que 
foste talhado para a televiso. 

-sempre o disseste -anuiu Jeremy, com o gesto de rolar os olhos de algum que tem de 
recitar um trecho muito repetido. 

-Falo a srio. Os produtores de Primetime Live e de Good Morning Amrica esto sempre a 
contatar-me, falam em utilizar-te como colaborador regular dos seus programas. Bem sabes 

o que todo este interesse pelas cincias significa para ti. Um grande salto para um reprter 
cientfico. 
Jeremy fungou: - Sou jornalista, no sou reprter. 

-Como quiseres -concedeu Nate, a fazer o gesto de quem quer afugentar uma mosca. Mas, 
como eu sempre disse, a tua cara foi feita para a televiso. 

-Tenho dito que o Nate tem razo -acrescentou Alvin com uma piscadela de olho. -Quero 
dizer, onde  que poders ser mais popular do que no meio das damas, apesar de seres um 
zero em personalidade? 

H anos que Alvin e Jeremy freqentavam bares na companhia um do outro,  procura de 
encontros. 

Jeremy riu. Alvin Bernstein, cujo nome fazia pensar num contabilista bem arranjado, de 
culos, um dos incontveis profissionais que usam sapatos Florsheim e vo de pasta para o 
trabalho, no se parecia com qualquer Alvin Bernstein. Ainda adolescente, viu Eddie Murphy 
em Delirious e decidiu passar a andar vestido de cabedal, um guarda-roupa que deixava 
horrorizado o pai, Melvin, que calava Florsheim e levava uma pasta para o emprego. 
Felizmente, o couro parecia ligar bem com as tatuagens. Alvin achava que as tatuagens 
eram um reflexo da sua esttica nica e pessoal, pelo que as adotou em ambos os braos, 
mesmo at s omoplatas. O toque final eram os mltiplos brincos nas orelhas. 

-Ento continuas pensando em nessa viagem ao sul para investigares a tal histria de 
fantasmas? -pressionou Nate. Jeremy quase conseguia ouvir as rodas que lhe faziam clique, 
clique, na mente. -Depois da entrevista com a People, claro. Jeremy afastou o cabelo preto 
dos olhos e fez sinal ao empregado do bar para pedir outra cerveja. 

-Sim, acho que sim. Com Primetime ou sem Primetime, continuo a ter contas para pagar. 
Estava pensando em usar a histria na minha coluna. 

-Mas continuas em contato, no ? No vai passar-se o mesmo que aconteceu quando 
andaste disfarado entre os Justos e os Sagrados"? 

Estava referindo-se a um artigo de seis mil palavras sobre de um culto religioso, que Jeremy 
escrevera para a Vanity Fair; na altura, cortara todos os contatos durante um perodo de trs 
meses. 

-Estaremos em contato -garantiu. -Este material  diferente. Devo conseguir o que quero 

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em menos de uma semana. Luzes misteriosas no cemitrio. Nada de especial. 

-Eh, no vais mesmo precisar de um fotgrafo? interrompeu Alvin. 
Jeremy olhou para ele. 
-Porqu? Queres ir? 
-Claro, com mil diabos. Ir para o sul no Inverno, talvez conhecer uma bela sulista, e tu a 
pagares as despesas. Ouvi dizer que as mulheres de l pem os homens malucos, mas no 
bom sentido. Sero umas frias exticas. 

-No est programado que faas umas fotografias para a Lau & Order durante a semana 
que vem? 

Por mais esquisito que fosse o seu aspecto, Alvin gozava de uma reputao impecvel e os 
seus servios eram normalmente muito procurados. 

-Sim, mas vou ficar livre mais para o fim da semana -esclareceu Alvin. -Escuta, se ests 
falando a srio sobre desta coisa da televiso, como o Nate diz que ests, talvez fosse 
interessante conseguirmos uma reportagem fotogrfica decente dessas misteriosas luzes. 

-Isso  partir do princpio de que haver algumas luzes para filmar. 
-Fazes o trabalho preliminar e depois dizes-me. Reservo um espao na minha agenda. 
-Mesmo que haja luzes, ser um artigo curto - avisou Jeremy. 
-Na televiso ningum se mostrar interessado no assunto. 
-No ms passado, talvez fosse verdade -contraps Alvin. -No entanto, depois de te verem 
esta noite, vo se interessar. Sabes o que se passa na televiso, com todos aqueles 
produtores a andarem  roda, tentando encontrar o prximo grande furo. Se o Good 
Morning Amrica se interessar subitamente, sabes que o Today no tarda a telefonar e que 
ters o Dateline batendo  porta. Nenhum produtor quer ser deixado  margem. Ser deixado 
de fora  ser despedido. A ltima coisa que desejam ter de explicar aos gestores  a razo 
por que perderam o barco. Acredita no que te digo, eu trabalho em televiso. Conheo essa 
gente. 

-Ele tem razo - corroborou Nate, interrompendo-o. 
-Nunca se sabe o que vai acontecer em seguida e fazer um plano com antecedncia ser 
uma boa idia. Esta noite marcaste pontos, sem dvida. No brinques com coisas srias. E 
se conseguires mesmo arranjar provas das luzes, esse ser o elemento de que o Good 
Morning Amrica e o Primetime precisam para tomarem as suas decises. 

Jeremy semicerrou os olhos para encarar o agente. 

-Ests falando a srio?  uma histria sobre coisa nenhuma. O motivo que me leva a ir at 
l  a necessidade de fazer uma pausa, depois do Clausen. Esta histria me custou quatro 
meses de vida. 

-E v o que conseguiste! -exclamou Nate, a pr a mo no ombro dele. -Esta pode ser uma 
pea frgil, mas com um trabalho de fotografia e uma boa histria a apoi-la, quem sabe o 
que a televiso vai pensar? 

O jornalista ficou calado por momentos, at acabar por encolher os ombros: 

-timo -concordou. E voltando-se para Alvin: -Parto na tera-feira. V se consegues estar 
l na sexta. Antes disso, telefono-te e dou-te os pormenores. 

Alvin pegou na cerveja e fez uma sade: 

-Bom, meu Deus! exclamou, a imitar Gomer Pyle. -Vou partir para a terra das papas e da 
dobrada. E prometo que a soma das minhas despesas no ser elevada. 

Jeremy soltou uma gargalhada. 

#
-J estiveste no Sul? 
-No. E tu? 
-Visitei Nova Orles e Atlanta -admitiu Jeremy. -Mas so cidades, e as cidades so iguais 
por toda a parte. Para este trabalho vamos descer ao verdadeiro Sul. Vamos para uma 
pequena vila chamada Boone Creek, Carolina do Norte. Devias ver o portal deles na Internet. 
Fala de azaleas e de abrunheiros que florescem em Abril, alm de mostrar com orgulho a 
fotografia do mais proeminente cidado da terra. Um tipo chamado Norwood Jefferson. 

-Quem? - indagou Alvin. 
-Um poltico. Serviu no Senado do estado de Carolina do Norte, de 1907 a 1916. 
-Quem  que liga a isso? 
-Ningum -esclareceu Jeremy. Olhando para a outra ponta do balco verificou com 
desgosto que a ruiva j no estava. 

-Onde  que fica exatamente esse lugar? 
-Mesmo a meio caminho entre local nenhum e este lugar onde ns estamos. Fica num lugar 
chamado Greenleaf Cottages, que a Cmara de Comrcio descreve como pitoresco e rstico; 
mas moderno. No fao idia do que isso signifique. 

Alvin soltou uma gargalhada. - Soa a aventura. 

-No te preocupes. Tenho a certeza de que vais enquadrar-te perfeitamente no lugar. 
-Achas que sim? 
Jeremy observou o couro, as tatuagens e os piercings. 
-Absolutamente.  provvel que desejem adotar-te. 
#
DOIS 

Jeremy chegou  Carolina do Norte na tera-feira, no dia a seguir  entrevista dada  revista 
People. Acabava de soar o meio-dia; deixara Nova Iorque com tempo chuvoso e cinzento, 
com expectativas de queda de mais neve. Ali, com a imensido azul estendendo-se pelos 
cus por cima da sua cabea, o Inverno parecia muito distante. 

Segundo o mapa que comprara na loja de recordaes do aeroporto, Boone Creek pertencia 
ao distrito de Pamlico, ficava situada a 160 quilmetros a sul de Raleigh e, se a viagem lhe 
indicara alguma coisa, a milhes de quilmetros daquilo que ele entendia por civilizao. De 
ambos os lados da estrada, os campos eram planos e nus, quase to excitantes como uma 
batedeira de panquecas. As herdades eram separadas por pequenas matas de pinheiros 
bravos e, como o trnsito era escasso, nada mais restava a Jeremy do que pisar o acelerador 
a fundo, s para combater a monotonia. 

Porm, tinha de o admitir, nem tudo era mau. Bem, pelo menos no que dizia respeito  
conduo. A ligeira vibrao do volante, o ronronar do motor e a sensao da velocidade 
eram conhecidos propiciadores do aumento de adrenalina, em especial nos homens (j tinha 
escrito um artigo sobre disso). No entanto, como viver na cidade tornava suprflua a posse 
de um automvel, nunca conseguia arranjar justificativos para as respectivas despesas. Por 
isso, era transportado de um ponto para outro nas carruagens apinhadas do metropolitano 
ou em txis que esparrinhavam gua e que como alguns taxistas podiam constituir 
verdadeiras ameaas de morte; porm, como um verdadeiro nativo de Nova Iorque, h 
muito que resolvera aceitar tudo isso como mais um aspecto excitante de viver num lugar a 
que chamava o seu lar. 

Tais consideraes levaram-no a pensar na ex-mulher. Maria, refletiu, teria adorado uma 
viagem como aquela. Nos primeiros anos do casamento, costumavam alugar um carro e ir 
para as montanhas ou para a praia, por vezes passando vrias horas na estrada. Maria era 
publicitria na revista Elle quando se conheceram numa festa de lanamento. Quando lhe 
perguntou se queria acompanh-lo at um caf das redondezas, no lhe passava pela 
cabea que ela viesse a ser a nica mulher que amara at ento. A princpio, pensou ter 
cometido um erro ao convid-la a acompanh-lo, pois pareciam no ter nada em comum. 
Era alegre e emotiva, mas mais tarde, quando a beijou  porta da casa dela, sentiu-se 
arrebatado. 

Acabou por apreciar a personalidade inflamada da mulher, a sua avaliao infalvel das 
pessoas e a maneira como parecia aceitar tudo o que a ele dizia respeito sem emitir juzos 
de valor, de certo ou errado. Um ano mais tarde, casaram-se na igreja, rodeados por amigos 
e familiares. Ele tinha 26 anos, ainda no era colunista do Scientific American, mas estava 
construindo lentamente uma reputao, e mal ganhavam para conseguir pagar o pequeno 
apartamento que alugaram em Brooklyn. Para a mente dele, estavam vivendo uma luta de 
jovens em xtase marital. Mas Jeremy acabou suspeitando que, na cabea dela, o 
casamento deles era forte em teoria mas fora construdo sobre alicerces frgeis. No incio, o 
problema era simples: enquanto o emprego dela a obrigava a ficar na cidade, Jeremy 
viajava,  procura de uma nova histria importante, fosse onde fosse que o material se 
encontrasse. Era freqente ausentar-se durante semanas e, embora ela assegurasse que 
conseguia agentar, na ausncia dele deve ter comeado a perceber que no conseguia. 
Logo depois do segundo aniversrio de casamento, quando ele se preparava para mais uma 
viagem, Maria sentou-se na cama, ao lado dele. Juntando as mos, levantou os olhos claros 
para o olhar de frente. 

-No est a resultar -limitou-se a dizer, esperando um momento at as palavras 
assentarem. - Nunca ests em casa e isso no  justo para mim. No  justo para ns. 

-Queres que desista? -perguntou Jeremy, a sentir uma pequena onda de pnico a erguer-
se dentro de si. 

#
-No, desistir, no. Mas talvez possas encontrar uma soluo local. No Times, por exemplo. 
Ou no Post. Ou no Daily News. 

-No vai ser assim para sempre - defendeu-se ele. -  s durante algum tempo. 
-Foi assim que me respondeste h seis meses - replicou Maria. 
-A situao nunca ir alterar-se. 
Ao olhar para trs, Jeremy reconhecia que devia ter tomado o aviso  letra, mas, na altura, 
tinha um artigo a escrever, daquela vez a respeito de Los Alamos. Quando se despediu dela 
com um beijo, Maria exibiu um sorriso fugidio; ao tomar lugar no avio, pensou, de fugida, 
na expresso da mulher, mas quando regressou ela parecia ser a mesma de sempre e 
passaram um fim-de-semana enroscados na cama. Maria comeou falando em terem um 
filho e, malgrado o nervosismo que o assaltou, Jeremy sentiu-se entusiasmado com a idia. 
Convenceu-se de que estava perdoado, mas a armadura de proteo do seu casamento 
tinha sido fendida e cada nova ausncia vinha provocar uma outra rachadura. A separao 
final veio um ano mais tarde, depois da consulta com um mdico do East Side, uma pessoa 
que os confrontou com um futuro que nenhum deles teria imaginado. Mais ainda do que a 
freqncia das viagens, a consulta foi o prenncio do final da relao; e at Jeremy 
compreendeu isso. 

-No posso ficar -confessou ela mais tarde. -Desejo ficar e, de certa maneira, nunca 
deixarei de te amar, mas no posso. 

No precisou de dizer mais nada e nos momentos de silncio, de pena de si mesmo, que se 
seguiram ao divrcio, por vezes duvidava de que ela alguma vez o tivesse amado. Podiam 
ter resolvido a questo, dizia para si prprio. Porm, no fundo percebeu intuitivamente a 
razo que a levou a ir-se embora, no lhe guardou qualquer rancor. At lhe telefonava uma 
vez por outra, embora no se dispusesse a assistir ao segundo casamento dela, trs anos 
mais tarde, com um advogado de Chappaqua. 

O divrcio tornara-se definitivo ha sete anos e, se quisesse ser honesto, teria de reconhecer 
que aquele era o nico episdio triste da sua vida. E sabia que poucas pessoas poderiam 
dizer o mesmo. Nunca sofrera verdadeiramente, tinha uma vida social ativa e emergira da 
infncia sem qualquer dos traumatismos que pareciam afligir tantos midos da sua idade. Os 
irmos e as respectivas mulheres, os pais, e at os avs, os quatro na casa dos noventa 
anos, eram pessoas saudveis. E tambm eram amigos: em dois fins-de-semana de cada 
ms, o cl sempre em crescimento reunia-se na casa dos pais, em Queens, onde Jeremy foi 
criado. Tinha dezassete sobrinhas e sobrinhos, e embora as vezes se sentisse deslocado nas 
festas de famlia, pois era o nico solteiro numa famlia de pessoas com casamentos felizes, 
os irmos respeitavam-no o suficiente para no tentarem saber as razes que o tinham 
levado ao divrcio. 

E ele tinha ultrapassado as dificuldades. Pelo menos a maior parte. Por vezes, em viagens 
como aquela, sentia uma certa angstia ao pensar como poderia ter sido a sua vida, mas 
agora era uma situao rara e o divrcio no o predispusera contra a generalidade das 
mulheres. 

Dois anos antes, Jeremy tinha acompanhado um estudo em que se procurava saber se a 
percepo da beleza era produto das normas culturais ou da gentica. Durante a 
investigao pedia-se a mulheres atraentes, e a outras menos atraentes, que pegassem em 
bebs; a seguir, comparava-se a durao do contato visual entre as crianas e as mulheres. 
O estudo concluiu pela existncia de uma correlao direta entre a beleza e o contato visual: 
os bebs olhavam as mulheres atraentes durante mais tempo, sugerindo que a percepo da 
beleza era instintiva nos seres humanos. O estudo recebeu acolhimento destacado na News 
Week e na Time. 

Quisera escrever um artigo criticando o estudo, em parte por terem sido omitidas 
qualificaes que ele considerava importantes. A beleza exterior poder sobressair de 
imediato aos olhos dos outros (ele sabia que era to susceptvel como o vizinho do lado ao 

#
fascnio provocado por uma supermodelo), mas sempre tinha considerado a inteligncia e a 
paixo bastante mais atraentes com a passagem do tempo. Tais caratersticas levavam mais 
de um simples instante a decifrar e a beleza no tinha absolutamente nada vendo com elas. 
A beleza poder prevalecer a muito curto prazo, mas a mdio, ou a longo prazo, as normas 
culturais, em especial aqueles valores e princpios influenciados pela famlia, eram mais 
importantes. Contudo, o seu editor travou a iniciativa, achou a opinio demasiado subjetiva", 
e aconselhou-o a escrever algo sobre o uso excessivo de antibiticos na alimentao das 
galinhas, uma prtica que trazia em si o potencial de transformar os estreptococos na 
prxima peste bubnica. O que, notou Jeremy com desdm, at fazia sentido: o editor era 
vegetariano e a mulher dele era simultaneamente deslumbrante e possuidora de um brilho 
parecido com um cu de Inverno no Alasca. 

Editores. H muito havia concludo que, na sua maioria, no passavam de hipcritas. Porm, 
como acontece na maioria das profisses, os hipcritas tendem a ser impetuosos e 
politicamente corretos, ou, por outras palavras, sobreviventes em qualquer empresa, o que 
significava que eram eles que atribuam as tarefas, alm de serem tambm eles que 
acabavam pagando as despesas. 

No entanto, como Nate sugerira, talvez estivesse prestes a ver-se livre daquele cartel. Bem, 
no totalmente. Era provvel que Alvin tivesse razo quando dizia que os produtores de 
televiso no eram diferentes dos editores, mas a televiso assegurava um mnimo de 
salrio, o que lhe permitiria escolher os projetos em que estivesse interessado, em vez de ter 
de andar constantemente a fazer promoo pessoal. Maria tivera razo, havia muito tempo, 
em pr em causa a sua carga de trabalho. Em quinze anos, o seu volume de trabalho no 
sofrera qualquer alterao. Ora bem, os artigos dariam talvez mais nas vistas ou, graas s 
relaes que criou ao longo dos anos, era provvel que lhe fosse mais fcil colocar os seus 
trabalhos de independente, mas nada disso alterava a necessidade essencial de encontrar 
sempre algo de novo e original. Continuava a ter de escrever uma dzia de artigos para o 
Scientific American, pelo menos um ou dois trabalhos importantes de pesquisa, e mais uns 
quinze artigos menores por ano, alguns em sintonia com os temas de cada estao. Vem a 

o Natal? Escreve um artigo sobre do verdadeiro So Nicolau, que nasceu na Turquia, tornou-
se bispo de Myra e ficou conhecido pela sua generosidade, amor pelas crianas e 
preocupao com os marinheiros.  Vero? E se escrevesses sobre: a) o aquecimento global 
e a subida de 0, 8o de temperatura, indesmentvel, durante os ltimos cem anos, que 
ameaa transformar uma parte dos Estados Unidos no deserto de Sara, ou b) como  que o 
aquecimento global pode provocar uma nova idade dos gelos e transformar o territrio dos 
Estados Unidos numa tundra gelada. Por sua vez, o Dia de Ao de Graas era bom para 
procurar saber a verdade sobre os primeiros colonos, que no deve referir-se apenas a 
jantares de amigos com os americanos nativos, pois h que no esquecer Salem e a caa s 
bruxas, as epidemias de varola e a desagradvel propenso para o incesto. 
Entrevistas com cientistas famosos e artigos sobre diversos satlites ou projetos da NASA 
mereciam sempre respeito e eram fceis de colocar, qualquer que fosse a poca do ano, 
bem como as denncias sobre drogas (legais ou ilegais), sexo, prostituio, jogo, bebidas 
alcolicas, julgamentos que envolvessem grandes empreendimentos imobilirios, mais tudo, 
literalmente tudo, o que tivesse alguma relao com o sobrenatural, que na maioria dos 
casos pouco ou nada tinha vendo com a cincia e muito vendo com vigaristas como Clausen. 

Tinha de admitir que o processo no se parecia nada com o que havia imaginado ser uma 
carreira no jornalismo. Na Universidade de Columbia -foi o nico dos irmos a freqentar a 
universidade e tornou-se o primeiro membro da famlia a conseguir uma formatura, um fato 
a que a me nunca deixava de referir-se ao falar com estranhos -fez duas licenciaturas, em 
Fsica e em Qumica, com a inteno de enveredar pelo ensino. Mas uma namorada que 
trabalhava para o jornal da universidade convenceu-o a escrever um artigo, muito bem 
apoiado em estatsticas, sobre dos critrios enviesados de classificao dos exames de 
admisso. Como o artigo provocou algumas manifestaes de estudantes, Jeremy descobriu 
que tinha jeito para a escrita. No entanto, os seus projetos de carreira no se alteraram at 
que o pai foi defraudado em 40 mil dlares por um falso agente imobilirio, pouco antes da 

#
formatura de Jeremy. Com a casa da famlia em perigo -o pai era motorista de autocarro e 
trabalhou para a Port Authority at se reformar -ps de lado a cerimnia de graduao para 
ir em perseguio do vigarista. Como um possesso, vasculhou os registos criminais e civis, 
entrevistou scios do trapaceiro e conseguiu organizar um processo detalhado. 

Como se tudo estivesse previsto, o gabinete do procurador de Nova Iorque tinha peixes 
muito maiores para pescar do que aquele pequeno trafulha, pelo que Jeremy teve de 
confirmar tudo e condensar as suas notas, para escrever a primeira denncia da sua vida. 
No final, a casa foi salva e a revista New York aproveitou o artigo. O editor da revista 
convenceu-o de que a vida de professor no o levaria a lado nenhum e, com uma mistura 
subtil de lisonja e retrica sobre da realizao de um grande sonho, sugeriu que Jeremy 
escrevesse uma prosa sobre o Leffertex, um antidepressivo que estava a ser objeto de 
intensa especulao nos meios de comunicao. 

Jeremy aceitou a sugesto e trabalhou dois meses no artigo, sem ordenado. No final, o 
artigo fez que o fabricante do medicamento retirasse o pedido de licenciamento por parte da 
Administrao Federal de Medicamentos e Alimentos. Depois disso, em vez de seguir para o 
Instituto de Tecnologia do Massachusetts para fazer o mestrado, partiu para a Esccia, a 
acompanhar um grupo de cientistas que investigavam o monstro de Loch Ness, a primeira 
das suas prosas de interesse geral. Esteve presente aquando da confisso feita, no leito de 
morte, por um cirurgio eminente que admitiu que a fotografia tirada ao monstro, em 1933 a 
imagem que trouxe a lenda para o domnio pblico -, fora forjada por ele e por um amigo, 
numa tarde de domingo, e pretendera apenas ser uma anedota. O resto, como costuma 
dizer-se, pertence  Histria. 

No entanto, quinze anos a correr atrs das histrias eram quinze anos de trabalho duro e, 
em troca, havia conseguido o qu? Tinha 37 anos de idade, vivia sozinho num apartamento 
esqulido de uma assoalhada, em Upper West Side. E agora seguia a caminho de Boone 
Creek, Carolina do Norte, para explicar um caso de aparecimento de luzes misteriosas num 
cemitrio. 

Abanou a cabea, perplexo, como sempre, pelo rumo que a sua vida tomara. O grande 
sonho. Continuava a existir e ainda sentia a paixo de o alcanar. S que, agora, comeara 
pensando em se a televiso seria o meio de o realizar. 

A histria das luzes misteriosas tivera origem numa carta que Jeremy havia recebido um ms 
antes. Quando a leu, o seu primeiro pensamento foi que aquilo daria um bom artigo para o 
Dia das Bruxas. Dependendo do que conseguisse, a Southern Living, ou at a Reader's 
Digest, poderia revelar interesse em incluir a prosa no nmero de Outubro; se o texto se 
revelasse mais literrio e narrativo, talvez interessasse  Harper's ou mesmo  New Yorker. 
Por outro lado, se a vila estivesse a tentar conseguir lucros com a situao, como Roswell, 
no Novo Mxico, fizera com a histria do disco voador, o artigo seria apropriado para um dos 
grandes jornais do Sul, que poderiam distribu-lo por toda a sua cadeia. Ou, se a prosa fosse 
curta, poderia us-la na sua coluna regular. O editor do Scientific American, a despeito da 
seriedade com que encarava os contedos da revista, manifestava igualmente um profundo 
interesse no aumento do nmero de assinantes e falava disso com insistncia. Sabia 
perfeitamente que o pblico adorava uma boa histria de fantasmas. Podia hesitar e 
pigarrear enquanto olhava para a fotografia da mulher, a fingir que estava a avaliar os 
mritos do artigo, mas nunca rejeitava uma histria daquelas. Os editores, tal como as 
outras pessoas, tambm apreciavam as bagatelas e, alm disso, os assinantes eram vitais na 
alimentao do negcio. E as bagatelas, por muito que custasse reconhec-lo, estavam a 
tornar-se o principal alimento dos media. 

No passado, Jeremy tinha investigado sete aparies diferentes de fantasmas; quatro tinham 
acabado como material da sua coluna de Outubro. Algumas revelaram-se bastante vulgares: 
vises espectrais que ningum poderia documentar cientificamente; mas trs tinham 
envolvido fenmenos de poltergeist, espritos considerados malvolos que conseguem mover 
objetos e causar estragos  sua volta. Segundo investigadores dos fenmenos paranormais um 
oxmoro, se Jeremy alguma vez tivesse ouvido algum -os poltergeist so geralmente 

#
guiados para uma pessoa e no para um lugar. Em cada caso investigado por ele, incluindo 
os bem documentados nos meios de comunicao, a fraude foi sempre a causa dos 
misteriosos eventos. 

Contudo, as luzes de Boone Creek seriam supostamente diferentes; segundo parecia, eram 
suficientemente previsveis para permitirem que a vila patrocinasse um Circuito das Manses 
Histricas e do Cemitrio Assombrado, durante o qual, prometia o folheto, os visitantes 
veriam no apenas manses datadas de meados do sculo XVIII mas tambm se as 
condies de tempo o permitissem, os angustiados antepassados da nossa vila na sua 
marcha noturna pelo mundo dos mortos. 

O folheto, que inclua imagens da bonita vila e afirmaes melodramticas, tinha-lhe 
chegado s mos juntamente com a carta. Foi recordando a carta enquanto conduzia: 

Caro Mr. Marsh, 

Chamo-me Doris Me-Clellan e, h dois anos, li o seu artigo publicado no Scientific American 
sobre a apario do poltergeist de Brenton Manor, em Newport, Rhod Island. Pensei 
escrever-lhe na altura mas, por qualquer motivo, no o fiz. 

Acho que se me varreu da memria, mas com o que atualmente se est a passar na minha 
vila, penso que chegou a altura de lhe dar conhecimento. 

No sei se alguma vez ouviu falar do cemitrio de Boone Creek, Carolina do Norte, mas a 
lenda diz que o cemitrio est assombrado pelos espritos dos antigos escravos. No Inverno, 
entre Janeiro e Fevereiro, sempre que o nevoeiro desce, as luzes azuis parecem danar 
sobre as pedras tumulares. H quem diga que parecem luzes estroboscpicas, outras 
pessoas juram que tm o tamanho de bolas de basquetebol. Tambm j as vi; para mim, 
parecem as luzes das bolas suspensas nas discotecas. De qualquer forma, no ano passado 
apareceram por aqui umas pessoas da Universidade de Duke, para procederem a uma 
investigao; julgo que eram meteorologistas, gelogos ou algo parecido. Tambm eles 
viram as luzes, mas no conseguiram explic-las, e o jornal da terra publicou um grande 
artigo sobre do mistrio. Se pudesse vir at c, talvez conseguisse uma explicao racional, 
descobrir o que so aquelas luzes. 

Se precisar de mais informaes, telefone-me para o Herbs, um restaurante aqui da vila. 

A carta oferecia mais algumas informaes para tornar o contato mais fcil e, depois de a 
ler, folheou a brochura da sociedade histrica local. Leu legendas sobre as casas que 
esperavam os visitantes, passou por cima das informaes sobre a parada e o baile de 
sexta-feira  noite, e deu consigo a franzir o sobrolho perante o anncio de que, pela 
primeira vez, a visita ao cemitrio seria includa no programa turstico de sbado  noite. Na 
contracapa da brochura, rodeados pelo que pareciam gravuras feitas  mo a partir do filme 
Casper, havia testemunhos de pessoas que haviam visto as luzes e excertos com a aparncia 
de terem sido retirados de um artigo do jornal local. No centro, destacava-se uma m 
fotografia de uma luz brilhante no local onde poderia ter estado, ou no, o cemitrio (a 
citao afirmava que sim). 

No era bem a Borely Retory, um complexo assombrado" da era vitoriana, na margem norte 
do rio Stour, em Essex, Inglaterra, a mais famosa das casas assombradas da Histria, onde 
as aparies, incluam cavaleiros decapitados, estranha msica de rgo e toques de sinos, 
mas era suficiente para despertar o interesse de um jornalista. 

Por no ter conseguido encontrar o artigo mencionado na carta (no havia arquivo no portal 
do jornal da terra na Internet), contatou vrios departamentos da Universidade de Duke e 
acabou por conseguir o projeto original de investigao. Tinha sido escrito por trs alunos de 
ps-graduao e, embora soubesse os nomes e nmeros de telefones deles, duvidava de 
que tivesse motivos para lhes telefonar. O relatrio da investigao no continha qualquer 
dos pormenores que ele esperava encontrar. Em vez disso, o estudo resumira-se a 
documentar a existncia das luzes e a reiterar o fato de o equipamento utilizado pelos 
estudantes estar a funcionar em perfeitas condies, o que mal aflorava a informao de 

#
que ele precisava. Alm disso, se alguma coisa aprendera nos ltimos quinze anos, sabia que 
s poderia contar com o seu prprio trabalho. 

Ali estava o segredo sujo da publicao de revistas. Embora todos os jornalistas se 
gabassem das suas investigaes pessoais, e havia muitos que as faziam, continuavam a 
depender muito de opinies e de meias verdades que haviam sido publicadas no passado. 
Da os erros freqentes, quase sempre pouco importantes, mas alguns colossais. Qualquer 
artigo, em qualquer revista, continha erros; dois anos antes, Jeremy tinha escrito um artigo 
sobre disso, em que denunciava os hbitos menos louvveis dos seus colegas de profisso. 

Contudo, o seu editor, proibira a publicao. E nenhum outro magazine se mostrou 
entusiasmado com a prosa. 

Ia observando os carvalhos a passarem pela janela do carro, a tentar perceber se deveria 
mudar de profisso e, de repente, lamentou no se ter documentado melhor sobre a histria 
dos fantasmas. E se no houvesse quaisquer luzes? E se a carta fosse uma brincadeira? E se 
no houvesse uma simples lenda, capaz de servir de fio condutor para um artigo? No servia 
de nada preocupar-se, pois, alm de mais, era demasiado tarde. J l estava e, em Nova 
Iorque, o Nate j estava atarefado a manusear os telefones. 

Na mala do carro, tinha todo o equipamento necessrio para a caa aos fantasmas (tal como 
 descrito em Ghost Busters for Reall, um livro que comprara por graa, depois de uma tarde 
de copos). Trazia uma mquina Polaroid, uma mquina de filmar de 35 mm, quatro cmaras 
de vdeo com trips, gravador de som e microfones, detetor de radiaes de alta-frequncia, 
detetor eletromagntico, bssola, culos de viso noturna, computador porttil, alm de 
outras quinquilharias. 

Afinal, tinha de fazer tudo como deve ser. Caar fantasmas no  tarefa para amadores. 

Como seria de esperar, o editor tinha protestado contra o preo dos equipamentos de 
compra mais recente, que sempre pareciam ser exigidos numa investigao daquele gnero. 
A tecnologia estava a andar depressa, o que tornava os equipamentos de ontem os 
equivalentes das ferramentas de pedra e de slex, explicara Jeremy ao editor, fantasiando 
sobre do emissor de laser instalado numa mochila que Bill Murray e Harold Ramis usaram no 
filme Os Caa-Fantasmas. Gostaria de ver como o editor reagiria perante uma coisa 
daquelas. Mesmo assim, antes de assinar a nota de despesas, o homem mais parecia um 
coelho alimentado a anfetaminas. Ficaria certamente maldisposto se a histria acabasse na 
televiso e no na coluna habitual. 

A sorrir com a recordao da cara do editor, Jeremy procurou em vrias estaes de rdio: 
rock, hip-hop, gospel, antes de se fixar num programa local em que estavam a ser 
entrevistados dois pescadores de linguados, que discutiam com paixo a necessidade de ser 
diminudo o peso com que os peixes podiam ser pescados. O locutor, que parecia 
extraordinariamente interessado no tema, falava com uma voz profundamente nasalada. A 
publicidade anunciava a feira de armas e moedas na Masonic Lodge, em Grifton, e as 
ltimas alteraes entre as equipes NASCAR. 

O trnsito aumentou de intensidade nas proximidades de Greenville e ele rodeou a parte 
central da vila,  volta das instalaes da Universidade de East Carolina. Atravessou a ponte 
sobre o rio Pamlico, de guas salobras, e virou para uma estrada rural. O asfalto foi 
estreitando at comear a ziguezaguear pela zona rural, apertado entre os campos 
desolados pelo Inverno, matas densas e uma ou outra herdade. Cerca de meia hora mais 
tarde, viu que estava prestes a entrar em Boone Creek. 

Passado o primeiro, e nico, semforo, o limite de velocidade desceu para os 40 quilmetros 
horrios; ao abrandar, Jeremy encarou a paisagem com desconsolo. Para alm de meia 
dzia de casas mveis, colocadas ao acaso perto da estrada e em duas ruas que se 
cruzavam, o caminho asfaltado era dominado por duas estaes de servio em estado 
precrio e pela loja de pneus Leroy. O dono da loja anunciava a sua localizao com um 
letreiro colocado em cima de uma pilha de pneus, o que em qualquer outro gnero de 

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localidade seria considerado um risco de incndio. Jeremy atingiu a outra ponta da vila num 
minuto, no ponto onde a velocidade limite voltava a aumentar. Encostou o carro  berma. 

Ou a Cmara de Comrcio tinha utilizado fotografias de qualquer outra vila no local da 
Internet ou ele se tinha enganado algures. Parou para consultar uma vez mais o mapa; 
segundo aquele mapa, estava em Boone Creek. Olhou pelo culo traseiro, pensando em 
onde diabo estaria. As ruas calmas, limitadas por renques de rvores. As azaleas em flor. As 
mulheres bonitas e bem vestidas. 

Enquanto tentava perceber, reparou num campanrio branco que despontava de entre as 
copas das rvores e decidiu que teria de seguir por uma das ruas que se cruzavam mais 
atrs. Depois de uma curva e contracurva, o cenrio mudou subitamente e no tardou que 
estivesse a circular por uma vila, que talvez j tivesse sido graciosa e pitoresca, mas agora 
estava a morrer de velhice. Os alpendres decorados com vasos de flores suspensos e 
bandeiras americanas no conseguiam esconder a tinta estalada e os fungos acumulados por 
baixo do beirado. Grandes magnlias davam sombra aos quintais, mas os rododendros 
cuidadosamente aparados s em parte conseguiam esconder as rachas das bases das casas. 
No entanto, a terra parecia bastante hospitaleira. Uns quantos casais de idosos, sentados 
nos alpendres em cadeiras de balouo, acenaram quando ele passou. 

Foram precisos vrios acenos para ele perceber que no estavam a acenar-lhe por pensarem 
que o conheciam, mas porque aquelas pessoas acenavam para qualquer carro que passasse 
por ali. Depois de andar s voltas pelo emaranhado de ruas, acabou por ir parar ao cais, o 
que o fez recordar que a vila tinha evoludo na confluncia dos rios Creek e Pamlico. Ao 
passar pelo centro, pelo que deveria ter sido uma zona movimentada de comrcio, reparou 
que a vila estava a morrer. Dispersos por entre os espaos vagos e as montras entaipadas, 
havia diversos estabelecimentos antigos; viu um restaurante fora de moda, uma taverna 
com o nome Lookilu e uma barbearia. Muitas das lojas tinham nomes de sabor local e 
pareciam ter sido fundadas havia dcadas, mas estavam a travar uma batalha inglria contra 
a extino. O nico sinal de vida moderna era dado pelas T-shirts coloridas que ostentavam 
slogans como Eu sobrevivi aos Fantasmas de Boone Creek! " expostas na montra daquilo 
que era provavelmente uma verso rural e sulista de um centro comercial. 

O Herbs, onde a Doris MeClellan trabalhava, era bastante fcil de localizar. Ficava perto do 
final do quarteiro, numa casa de estilo vitoriano, de finais do sculo XIX, princpios do 
sculo XX, restaurada e com pintura cor de pssego. Os carros estavam arrumados, com a 
frente para fora, no pequeno parque de estacionamento existente ao lado; e viam-se mesas 
por trs das cortinas das janelas e no alpendre. Tanto quanto conseguia ver, todas as mesas 
estavam ocupadas, pelo que Jeremy julgou melhor passar mais tarde, para falar com a Doris 
depois de o nmero de clientes do restaurante ter diminudo. 

Reparou na localizao da Cmara de Comrcio, um pequeno edifcio indefinvel situado  
sada da vila, e voltou a entrar na estrada. Um impulso repentino levou-o a parar numa 
estao de servio. 

Depois de tirar os culos escuros, Jeremy baixou o vidro da janela. O proprietrio usava um 
macaco em mau estado e um bon de Dale Earnhardt, piloto da NASCAR. Levantou-se com 
lentido e comeou a dirigir-se para o carro, a mastigar o que Jeremy julgou ser tabaco de 
mascar. 

-Posso ajud-lo? -perguntou, com um sotaque indiscutivelmente sulista, a mostrar os 
dentes acastanhados. O carto pregado ao peito identificava-o como TULLY. 

Jeremy pediu indicaes sobre o caminho para o cemitrio mas, em vez de responder, o 
proprietrio olhou-o de alto a baixo. 

-Quem  que morreu? - acabou por perguntar. 
Jeremy pestanejou: 
-Perdo? 
#
-Vai a um enterro, no vai? 
-No. S quero ver o cemitrio. 
O homem assentiu. 
-Bem, tem o aspecto de quem vai a um funeral. 
Jeremy olhou a roupa que vestia: casaco preto, camisola preta de gola alta, calas pretas, 
sapatos pretos Bruno Magli. O homem no deixava de ter razo. 

-No, acho que gosto de me vestir de preto. De qualquer forma, quanto s indicaes... 
O proprietrio empurrou a pala do bon para trs e falou lentamente: 
-No gosto nada de enterros. Fazem-me pensar que deveria ir mais vezes  igreja, para 
acertar as minhas contas antes que seja demasiado tarde. J lhe aconteceu? 
Jeremy no sabia muito bem o que dizer. A pergunta no era muito freqente, 
especialmente quando vem em resposta a quem pediu uma informao. 


-No me parece - acabou por arriscar. 
O proprietrio tirou um trapo da algibeira e comeou a limpar as mos sujas de leo. 
-Acho que no deve ser daqui. Tem um sotaque esquisito. 
-Nova Iorque - esclareceu Jeremy. 
-J ouvi falar, mas nunca l fui - respondeu. Deu uma olhadela ao Taurus. - O carro  seu? 
-No,  alugado. 
Fez um aceno de cabea, mas manteve-se calado. 
-Mas, quanto ao cemitrio - insistiu Jeremy. - Pode dizer-me como se vai para l? 
-Acho que sim. Qual  o que procura? 
-Chama-se Cedar Creek? 
O proprietrio olhou-o com curiosidade. 
-O que  que vai l fazer? No h l nada que ver. H cemitrios mais bonitos do outro lado 
da vila. 
-Na verdade, estou interessado apenas nesse. 
O homem no pareceu ouvi-lo. 
-Tem algum conhecido enterrado l? 
-No. 
- algum desses construtores civis ricos do Norte? Talvez pense construir condomnios ou 
centros comerciais naquele lugar? 
Jeremy negou com um movimento de cabea. 


-No. Na verdade, sou jornalista. 
-A minha mulher gosta dos centros comerciais. Dos condomnios tambm. Pode ser uma 
boa idia. 


-Ah! - exclamou Jeremy, a tentar imaginar o tempo que aquela conversa iria durar. 
-Bem gostaria de o ajudar, mas no trabalho nesse ramo. 
-Precisa de gasolina? - indagou ao dirigir-se para a traseira do carro. 
-No, obrigado. 
O outro j estava a desenroscar a tampa do depsito. 
#
-Normal ou super? 
Jeremy virou-se no assento, pensando em que o homem queria mesmo vender-lhe a 
gasolina. - Acho que  normal. 

Depois de pr a gasolina a correr, o homem tirou o bon, passou os dedos pelo cabelo e 
voltou para junto da janela do carro. 

-se tiver problemas com o carro, no hesite em passar por c. Sei reparar os dois tipos de 
carros e, alm disso, no sou careiro. 

-Os dois tipos? 
-Estrangeiros e americanos -esclareceu. -Em que  que pensou que eu estava falando ? perguntou, 
mas no esperou pela resposta; limitou-se a abanar a cabea, como se Jeremy 
fosse parvo. - A propsito, o meu nome  Tully. E o seu? 

-Jeremy Marsh. 
-E  urologista? 
-Jornalista. 
-No temos urologistas na vila. Mas em Greenville h uns quantos. 
-Ah -anuiu Jeremy, sem qualquer vontade de o corrigir. -Mas, e o caminho para Cedar 
Creek... 
Antes de responder, Tully esfregou o nariz e observou a estrada. 
-Bom, a esta hora no vai conseguir ver nada. Os fantasmas no aparecem antes da noite, 


se  para isso que est aqui. 

-No percebo. 
-Os fantasmas. Se no tem familiares enterrados no cemitrio, ento veio c por causa dos 
fantasmas, correto? 

-Ouviu falar nos fantasmas? 
-Pois ouvi, claro. Vi-os com os meus prprios olhos. Mas, se quer comprar bilhete, tem de ir 
 Cmara de Comrcio. 

- preciso bilhete? 
-Bom, no pode entrar assim de qualquer maneira pela casa das pessoas, pois no? 
Jeremy levou algum tempo a perceber o que o outro estava a dizer-lhe. 
-Oh, claro. O Circuito das Manses Histricas e do Cemitrio Assombrado, no ? 
Tully ficou a olhar para Jeremy como se ele fosse a pessoa mais estpida que alguma vez 
percorreu a superfcie da Terra. 

-Bom,  claro que estvamos falando da visita. Do que  que julgou que eu estava falando ? 
-Nem tenho a certeza - confessou Jeremy. - Mas, quanto ao caminho para l. 
Tully abanou a cabea. 
-Est bem, est bem - resmungou, como se estivesse farto da conversa. Apontou na direo 
da vila. 
-Tem de voltar ao centro da vila, depois seguir a estrada principal para norte, at chegar  
curva que h a uns seis quilmetros do local onde a estrada costumava acabar. Volte para 
oeste, continue at atingir o cruzamento e siga a estrada que passa pela casa do Wilson 
Tanner. Volte outra vez para norte, onde era o cemitrio de automveis, v em frente 
durante um bocado e vai ter mesmo em frente do cemitrio. 

Jeremy assentiu e agradeceu. 

#
-Obrigado. 
-Percebeu, de certeza? 
-Cruzamento, casa do Wilson Tanner, cemitrio de automveis - repetiu, como um rob. 
-Obrigado pela ajuda. 
-No tem de qu. Ainda bem que ajudei. E deve-me sete dlares e quarenta e nove 
cntimos. 

-Aceita cartes de crdito? 
-No. Nunca gostei dessas coisas. No gosto que o Governo saiba tudo aquilo que eu fao. 
O que eu fao no interessa a mais ningum. 
-Pois -comeou Jeremy ao pegar na carteira -, isso  um problema. Ouvi dizer que o 


Governo tem espies por todo o lado. 
Tully assentiu, assumindo um ar de quem sabe. 


-Acho que para vocs, os mdicos, ainda deve ser pior. O que me faz lembrar... 
Tully manteve-se falando sem interrupo durante os quinze minutos seguintes. Jeremy 
ficou a conhecer os caprichos do tempo, ditos ridculos do Governo e que o Wyatt, o dono 
da outra bomba de gasolina, o enganaria se fosse l atestar o depsito, pois o malandro 
modificava a calibrao das bombas logo que o camio da Unocal se afastava. Mas, ainda 
mais importante, ficou bem informado sobre o estado da prstata do Tully, que o obrigava a 
saltar da cama pelo menos cinco vezes por noite para ir  casa de banho. Estando falando 
com um urologista, no deixou de pedir a opinio de Jeremy sobre a doena. Tambm 
procurou informaes sobre o Viagra. 

Depois de ele ter enchido as bochechas pela segunda vez com tabaco de mascar, a conversa 
foi interrompida por ter parado um carro do outro lado da bomba. O condutor levantou o 
cap e Tully olhou l para dentro e mexeu em uns fios, no sem antes ter cuspido para o 
lado. Prometeu reparar a avaria, mas, como estava muito ocupado, o homem teria de deixar 
l o carro pelo menos durante uma semana. O estranho parecia j estar  espera daquela 
resposta e, momentos depois, estavam ambos falando no caso de Mrs. Dungeness e da 
sariguia que lhe entrara em casa durante a noite para comer a fruta guardada na cesta da 
cozinha. 

Jeremy aproveitou a oportunidade para desaparecer dali. Parou no centro comercial para 
comprar um mapa e uma embalagem de postais com os lugares mais importantes de Boone 
Creek; no tardou que se encontrasse numa estrada sinuosa que conduzia  sada da vila. 
Como por magia, encontrou a curva e o cruzamento, mas, infelizmente, no encontrou nem 
vestgios da casa de Wilson Tanner. Voltou para trs e chegou junto de um caminho de 
terra, quase escondido pelo excessivo crescimento das rvores de ambos os lados. 

Fazendo a curva, seguiu aos saltos por entre os inmeros buracos, at que o bosque 
comeou a ficar mais aberto. Passou por um sinal,  direita, a recordar-lhe que estava a 
aproximar-se de Riker's Hill, local de uma escaramua durante a Guerra Civil, e momentos 
depois parou em frente do porto principal do cemitrio de Cedar Creek. Um outeiro, o 
Riker's Hill, elevava-se ao fundo. Elevava-se, era uma forma de expresso, pois parecia ser a 
nica elevao de terreno naquela parte do estado. Ali, qualquer coisa se destacava. O local 
era to plano como os linguados de que ouvira falar na rdio. 

Rodeado por colunas de tijolo e por uma sebe enferrujada, o cemitrio de Cedar Creek 
localizava-se num ligeiro vale, dando a idia de que estava a afundar-se lentamente. O 
terreno recebia a sombra de diversos carvalhos e tilndsias, mas a enorme magnlia do 
centro dominava tudo. As razes saam do tronco, acima da terra, como dedos atacados pela 
artrite. 

Embora o cemitrio devesse ter sido um lugar arranjado e calmo de descanso, fora votado 
ao abandono. No caminho de terra que se seguia ao porto notavam-se sulcos profundos 

#
feitos pela chuva e um tapete de folhas a apodrecer. Os poucos relvados pareciam ali 
deslocados. Ramos cados aqui e ali, num terreno cujas ondulaes fizeram que Jeremy se 
lembrasse de ondas a rolar para a praia. Ervas altas apareciam por entre as pedras 
tumulares, que pareciam quase todas partidas. 

Tully tinha razo. No havia muito que ver. Porm, para cemitrio assombrado, era perfeito. 
Especialmente para um que acabasse por ser apresentado na televiso. Jeremy sorriu. O 
local parecia ter sido criado por especialistas de Hollywood. 

Saiu do carro e estendeu as pernas, antes de abrir a bagageira para tirar a mquina 
fotogrfica. O ar era frio, mas sem a frigidez rtica do de Nova Iorque; inspirou 
profundamente, a apreciar o odor a pinheiro e a erva fresca. Por cima dele, cmulos de 
nuvens corriam pelo cu e, l longe, um falco isolado voava em crculos. O outeiro de 
Riker's Hill era coberto de pinheiros e nos terrenos que se estendiam a partir da base viu um 
barraco abandonado que servira para secagem de tabaco. Coberto de hera, com falta de 
metade do telhado de zinco e uma das paredes a desabar, estava inclinado para um dos 
lados, parecendo que um ligeiro aumento da brisa seria suficiente para o derrubar. Para 
alm do barraco, no havia qualquer vestgio de vida civilizada. 

Jeremy ouviu ranger os gonzos quando empurrou o porto enferrujado e caminhou com 
passos lentos pelo caminho de terra. Deu uma vista de olhos s lpides de ambos os lados, 
espantado pela falta de nomes, acabando por verificar que as gravaes originais tinham 
sido quase apagadas pelos elementos e pela passagem do tempo. As poucas onde ainda se 
lia qualquer coisa datavam do final do sculo XVIII. Mais adiante, uma cripta parecia ter 
sofrido um assalto. O teto e as paredes laterais tinham cado l para dentro e, logo a seguir, 
outro monumento tinha cado para cima do caminho. Seguiam-se mais criptas danificadas e 
monumentos derrubados. Jeremy no notou vestgios de vandalismo, havia apenas sinais de 
degradao natural, embora profunda. Tambm no lhe pareceu que algum ali tivesse sido 
enterrado nos ltimos trinta anos, o que explicaria aquele ar de abandono. 

Parando  sombra da magnlia, ps-se a imaginar qual seria o aspecto daquele lugar numa 
noite de nevoeiro. Fantasmagrico, provavelmente, propcio a deixar a imaginao das 
pessoas  solta. Contudo, se havia luzes inexplicadas, donde poderiam provir? Pensou que 
os fantasmas" no passassem de luzes Refletidas transformadas em prismas pelas gotas de 
gua do nevoeiro, mas naquele lugar no havia qualquer sistema de iluminao, nem 
mesmo no cemitrio. Em Riker's Hill tambm no viu sinais de habitaes que pudessem ser 
responsveis pelo fenmeno. Sups que pudessem provir de faris de automveis, mas 
reparou que havia uma nica estrada e, se assim fosse, h muito que as pessoas teriam 
estabelecido a correlao. 

Para alm do mapa de estradas que acabava de comprar, teria de arranjar, um bom mapa 
topogrfico da zona. Talvez a biblioteca local possusse um. De qualquer forma, teria de 
passar pela biblioteca parinvestigando a histria do cemitrio e da prpria vila. Tinha de 
saber quando  que as luzes foram avistadas pela primeira vez; a data poderia dar-lhe uma 
pista sobre a causa. E no havia dvidas de que teria de passar uns dias ali, na vila dos 
fantasmas, se o nevoeiro estivesse disposto a cooperar. 

Durante algum tempo percorreu o cemitrio e foi tirando fotografias. No seriam para 
publicar; serviriam de pontos de referncia para o caso de encontrar imagens mais antigas 
do cemitrio. Pretendia saber as alteraes que fora sofrendo ao longo dos anos, talvez 
fosse bom saber quando, ou como, as destruies tinham ocorrido. Tambm fotografou a 
magnlia. Era, sem dvida, a maior que j vira. O tronco negro tinha mirrado e os ramos 
baixos teriam sido suficientes para os entreter durante horas, a ele e aos irmos, quando 
eram todos pequenos. Se no estivessem rodeados de pessoas mortas,  bom que se diga. 

Enquanto fazia uma rpida anlise das fotografias para ver se seriam suficientes, notou um 
movimento pelo canto do olho. 

Levantando os olhos, viu uma mulher a caminhar para ele. Trazia calas de ganga, botas e 
uma camisola ligeira que casava bem com a mala de tela que transportava, e tinha cabelo 

#
castanho que lhe descia para os ombros. A pele, com um ligeiro toque cor de azeitona, 
tornava desnecessria a maquilagem, mas foi a cor dos olhos que lhe despertou a ateno: 
 distncia, pareciam quase violeta. Fosse quem fosse, tinha estacionado o carro 
imediatamente atrs do dele. 

Por momentos, pensou que ela estava a aproximar-se para o convidar a sair dali. Talvez o 
cemitrio estivesse condenado e j no fosse propriedade pblica. Mas poderia tratar-se de 
uma simples coincidncia. 

E continuou a avanar para ele. 

Pensando melhor, a coincidncia era bastante atrativa. Jeremy endireitou-se, enquanto 
guardava a mquina fotogrfica na bolsa. Sorriu abertamente quando a mulher estava 
prxima. 

-Ol, boa tarde - cumprimentou. 
Ao ouvir a saudao, abrandou um pouco o passo, como se no tivesse reparado nele. 
Mostrava uma expresso quase divertida, Jeremy desejou que ela parasse. Em vez disso, 
ouviu-a rir ao passar-lhe ao lado. 

Com olhos apreciativos, Jeremy ficou a v-la seguir. Ela no olhou para trs. Antes que 
pudesse evit-lo, deu um passo para a seguir. 

-Eh! - bradou. 
Em vez de parar, ela limitou-se a virar-se e continuou a andar, a recuar, com a cabea 
descada, inquisitiva. Jeremy notou-lhe a mesma expresso divertida. 

-Sabe uma coisa, no devia olhar dessa maneira -repreendeu, em voz alta. -As mulheres 
gostam de homens que saibam ser subtis. 

Voltou-se de novo, ajustou a mala ao ombro e continuou a andar. 

Jeremy voltou a ouvi-la rir, de longe. 

Deixou-se ficar, de boca aberta, pela primeira vez na vida no conseguira encontrar uma 
resposta. 

Muito bem, no estava interessada. No era problema. No entanto, a maioria das pessoas 
teria pelo menos correspondido  saudao. Talvez fosse um costume do Sul. Talvez os 
homens estivessem sempre a mir-la, talvez estivesse farta dos olhares. Ou talvez no 
desejasse ser interrompida enquanto andava. Andava a fazer o qu? 

Suspirou, aquele era o problema do jornalismo. Tornara-o curioso. Na verdade, no tinha 
nada vendo com aquilo. Alm do mais, recordou a si mesmo que estava num cemitrio. A 
mulher poderia estar ali de visita aos defuntos. As pessoas fazem isso constantemente, no 
fazem? 

Franziu o cenho. A nica diferena era que a maioria dos cemitrios apresentava sinais de 
ter quem viesse cuidar deles de vez em quando, enquanto este parecia a cidade de So 
Francisco depois do terramoto de 1906. Julgava que poderia ter ido no encalo da mulher 
para ver o que ela andava a fazer, mas conhecia o suficiente das mulheres para 
compreender que espiar era bastante mais repreensvel do que o simples apreciar com os 
olhos. E ela parecera no gostar de ser apreciada. 

Jeremy esforou-se para no olhar enquanto ela desaparecia por trs de um dos carvalhos, 
com a mala de tela a balouar a cada uma das suas graciosas passadas. 

S depois de ela ter desaparecido conseguiu recordar-se de que, naquele preciso momento, 
as moas bonitas no eram para ali chamadas. Tinha um trabalho a fazer e o seu futuro 
podia depender dele. Dinheiro, fama, televiso, bl, bl, bl. Ora bem, e a seguir j vira o 
cemitrio. poderia tambm dar uma vista de olhos pela zona adjacente. Como quem se 
enquadra num lugar. 

#
Regressou ao carro e quase danou de contente por nem sequer ter olhado para trs, para 
ver se ela estava a observ-lo. Aquele era um jogo a dois. O que pressupunha, era evidente, 
que a mulher estivesse interessada naquilo que ele estava a fazer; e ele tinha quase a 
certeza de que no estava. 

Uma rpida vista de olhos pelo retrovisor provou-lhe que tinha razo. 

Ligou o motor e acelerou ligeiramente; quanto mais se afastava do cemitrio mais fcil se 
lhe tornava deixar desvanecer-se a imagem da mulher, para se concentrar na tarefa que 
tinha entre mos. Continuou pela estrada para ver se havia outras estradas, de terra ou 
pavimentadas, que interceptassem aquela. alm de se manter alerta, sem resultado, para a 
existncia de moinhos de vento ou construes com tetos de zinco. Tambm no encontrou 
algo to simples como uma casa de verdade. 

Fez inverso de marcha e percorreu o mesmo caminho,  procura de uma estrada que o 
levasse ao cimo de Riker's Hill, mas acabou por desistir, em completa frustrao. Ao 
aproximar-se de novo do cemitrio, deu consigo pensando em quem seria o proprietrio dos 
terrenos que o rodeavam e se Riker's Hill seria propriedade pblica ou privada. Os servios 
de finanas deviam dispor dessa informao. O olho treinado de jornalista tambm notou 
que o carro da mulher tinha desaparecido, o que lhe provocou uma ligeira, embora 
surpreendente, sensao de desapontamento, que desapareceu com a mesma rapidez com 
que se tinha manifestado. 

Consultou o relgio; passava pouco das 14 horas, o que o levou pensando em que o Herbs 
estaria agora mais acessvel. Poderia at tentar falar com Doris. Era provvel que ela 
pudesse lanar alguma luz" sobre o caso. 

Sorriu para si mesmo, pensando em se a mulher que vira no cemitrio tambm teria achado 
graa ao trocadilho. 

#
TRS 

Quando chegou ao restaurante Herbs s algumas das mesas do alpendre estavam ainda 
ocupadas. Ao subir os degraus para chegar  porta, notou que as conversas foram 
interrompidas e que as pessoas ficaram a observ-lo. S a mastigao continuou, o que fez 
Jeremy lembrar-se do olhar curioso com que as vacas observam quem se aproxima da 
vedao do campo de pastagem. Cumprimentou com acenos de cabea e de mos, como 
vira fazer aos velhotes sentados nos alpendres. 

Tirou os culos escuros e empurrou a porta. As pequenas mesas quadradas espalhavam-se 
pelas duas salas principais, uma de cada lado do edifcio, separadas por um lano de 
escadas. As paredes cor de pssego eram ofuscadas pelas madeiras brancas, o que dava ao 
lugar um ar de conforto caseiro; viu num relance que a cozinha era no fundo da casa. 

Uma vez mais, ao passar, foi analisado pelos mesmos olhares vagarosos, como os das vacas. 
As pessoas calavam-se. Os olhos seguiam-no. Quando ele saudava com as mos e com a 
cabea os olhos baixavam e o murmrio das conversas voltava a ouvir-se. Aquela histria 
dos acenos parecia ter uma espcie de efeito mgico. 

Deixou-se ficar de p, a brincar com os culos escuros, esperando que a Doris l estivesse, e 
viu uma empregada de mesa a sair da cozinha. Estaria no final da casa dos vinte anos, alta e 
magra como uma cana, com uma cara cheia de alegria. 

-sente-se onde quiser, amor - chilreou. - Vou j atend-lo. 

Depois de confortavelmente instalado junto de uma janela, viu a empregada aproximar-se. O 
carto de identificao dizia que se chamava Rachel. Jeremy Refletiu sobre o hbito ali 
existente do uso de cartes de identificao. Cada trabalhador teria um? Gostaria de saber 
se era uma espcie de norma. Como o hbito de acenar com a cabea e com a mo. 

-Querido, posso trazer-lhe qualquer coisa para beber? 
-Tem capuccino? - arriscou. 
-Lamento, no tenho. Mas temos caf. 
Jeremy sorriu. 
-Caf serve perfeitamente. 
-Vem j a seguir. A ementa est em cima da mesa, se quiser comer qualquer coisa. 
-Na verdade, estava pensando em se a Doris MeClellan estava por c. 
-Oh, est nas traseiras - informou uma Rachel radiante. - Deseja que a chame? 
-se no se importa. 
Sorriu. 
-No me importo nada, querido. 
Ficou a observ-la a dirigir-se para a cozinha e a empurrar a porta. Uns momentos depois, 
emergiu outra mulher, que sups ser a Doris. Era o oposto de Rachel: baixa e forte, com 
cabelo louro que comeava a embranquecer, vinha de avental, mas no tinha carto de 
identificao na blusa com flores. Parecia ter cerca de sessenta anos. Parou junto da mesa, 
ps as mos nas ancas e abriu num sorriso. 

-Ora bem, deve ser o Jeremy Marsh. 
A pestanejar, Jeremy, perguntou: 
-Conhece-me? 
- claro que sim. O vi no Primetime Live de sexta-feira. Deve ter recebido a minha carta. 
-Pois recebi, obrigado. 
#
-E veio at c para escrever um artigo sobre dos fantasmas? 
Ele ergueu as duas mos: 
-Assim parece. 
-Bem, assim ter de ser -concordou ela. O sotaque fazia parecer que as letras eram ditas 
uma por uma. -Por que no me disse que vinha? 

-Gosto de surpreender as pessoas. Por vezes, a surpresa facilita a recolha de informaes. 
Desvanecido o efeito da surpresa, ela resolveu puxar uma cadeira. 
-Importa-se que me sente? Suponho que veio aqui para falar comigo. 
-No desejo que arranje problemas com o seu patro, se est na sua hora de trabalho. 
Doris olhou por cima do ombro e bradou: 
-Eh, Rachel, achas que a patroa se zanga se eu me sentar? Este homem quer falar comigo. 
A cabea de Rachel apareceu a espreitar da cozinha. Jeremy reparou que trazia um bule de 
caf. 
-No, acho que a patroa no vai preocupar-se com isso -respondeu. -Ela adora conversar. 


Especialmente com um homem bonito como esse. 
Doris virou-se novamente para ele, e disse: 


-Est vendo. No h problema. 
Jeremy sorriu. 
-Parece um belo local para se trabalhar. 
-Pois . 
-segundo percebi,  a patroa. 
-Confesso-me culpada - respondeu Doris, com os olhos a brilhar de satisfao. 
-H quanto tempo tem este negcio? 
-H quase trinta anos, abri para fornecer cafs da manh e almoos. Fornecamos comida 
saudvel ainda antes de ela se tornar popular e fazemos as melhores omeletas deste lado de 
Raleigh -informou. Inclinou-se para diante e perguntou: -Est com fome? Devia 
experimentar uma das nossas sanduches de almoo; at fabricamos o po, todos os dias. 
Est com ar de quem comia qualquer coisa e, pelo seu aspecto... -hesitou, para o observar 
melhor. -Diria que adoraria uma sanduche de galinha com molho pesto. Leva couve, 
tomate, pepino e o pesto  feito segundo uma receita minha. 

-No tenho assim tanta fome. 
Rachel aproximou-se com duas canecas de caf. 
-Bom, s para que saiba... se lhe vou contar uma histria, prefiro que esta seja 
acompanhada com uma boa refeio. E tenho propenso a ser lenta a contar histrias. 
Jeremy rendeu-se. 


-A sanduche de galinha com pesto parece-me excelente. 
Doris sorriu. 
-Rachel, fazes o favor de nos trazeres um par de Albermarles? 
-Com certeza -respondeu a Rachel. Olhou com ares de apreciadora. -A propsito, quem  
o seu amigo? Nunca o tinha visto por aqui. 
-Chama-se Jeremy Marsh -esclareceu Doris. - um famoso jornalista que veio at c para 
escrever um artigo sobre a nossa bela vila. 

#
Rachel pareceu interessada: 

-De verdade? 
- verdade - respondeu Jeremy. 
-Oh, graas a Deus - respondeu Rachel a piscar um olho. 
-Cheguei pensando em que vinha assistir a um funeral. 
Jeremy fez uma cara de espanto quando ela se retirou. Doris riu ao ver a cara dele. 

-O Tully passou por c depois de lhe ter ensinado o caminho para o cemitrio -explicou. Penso 
que ter julgado ser essa a razo da sua vinda, mas quis certificar-se. Bom, de 
qualquer modo, repetiu toda a vossa conversa e a Rachel nunca poderia resistir. Todos ns 
achamos muita graa ao comentrio dele. 

-Ah! - foi a nica resposta de Jeremy. 
Doris inclinou-se para diante. 
-Aposto que ele lhe encheu os ouvidos. 
-Um pouco. 
- sempre o mesmo fala-barato. Se no houvesse ningum por perto para o ouvir, seria 
capaz de falar com uma caixa de sapatos; juro que no sei como  que a mulher dele, a 
Bonnie, conseguiu agentar durante tanto tempo. Mas, h doze anos, ficou surda e, por isso, 
ele agora fala com os clientes. Ningum consegue sair de l em menos tempo que o que os 
cubos de gelo levam a derreter-se durante o Inverno. Hoje mesmo, quando passou por c, 
tive de o afugentar. No consigo trabalhar com ele ao p de mim. 

Jeremy pegou na caneca do caf. 

-A mulher ensurdeceu? 
-Julgo que Deus Nosso Senhor se apercebeu de que ela j tinha sofrido demasiado. Bendito 
seja. 
Depois de um gole, Jeremy soltou uma gargalhada. 
-Diga-me uma coisa, como  que ele percebeu que eu estava c por ter sido contatado por 


si? 


-sempre que acontece qualquer coisa fora do habitual, a culpa recai sobre mim. Acho que  
da terra, do fato de eu estar ligada aos fenmenos psquicos, e de outras coisas. 
Jeremy ficou a olhar para Doris, que lhe sorria. 


-Presumo que no acredita em espritas - notou ela. 
-No, na verdade no acredito. 
Doris alisou o avental. 
-Bom, na maior parte dos casos eu tambm no. Na sua maioria, so uns excntricos. Mas 
vendodade  que algumas pessoas tm um dom. 


-Assim sendo... poder ler os meus pensamentos? 
-No, no  nada disso - esclareceu Doris, a abanar a cabea. 
-Pelo menos, na maioria das situaes. Sou bastante intuitiva sobre das pessoas, mas ler o 
que lhes vai na mente era mais para a minha me. Ningum conseguia esconder-lhe nada. 
At sabia o que eu tencionava comprar-lhe como presente de aniversrio, o que anulava 
uma boa parte do prazer que eu sentia. Os meus dons so diferentes. Sou adivinha. E 
tambm posso dizer o sexo de um beb antes de ele nascer. 

-Estou a perceber! 
#
Doris olhou-o atentamente. 

-No acredita em mim. 
-Bom, vamos partir do princpio de que  adivinha. Isso quer dizer que pode descobrir gua 
e dizer-me onde devo construir um poo. 

-Com certeza. 
-E se lhe pedisse que fizesse um teste, controlado por mtodos cientficos, sob estrita 
superviso... 

-At podia ser o senhor o supervisor, ter de me ligar com fios como se fosse uma rvore de 
Natal, no teria qualquer problema com isso. 

-Estou vendo - admitiu Jeremy, pensando em em Uri Geller. Geller tinha tanta confiana nos 
seus poderes de telecinesia que aceitou ir  televiso britnica, em 1973, onde se 
apresentou perante cientistas e uma assistncia em estdio. Quando balanou uma colher 
num dedo, para estupefao dos observadores, ambos os lados da colher comearam a 
dobrar-se para baixo. S mais tarde  que se soube que, antes do programa comear ele 
tinha dobrado a colher repetidamente, provocando a chamada fadiga do material. 
Doris pareceu saber aquilo que ele estava a pensar. 

- como lhe digo... pode pr-me  prova quando quiser, como quiser. Contudo, no foi para 
isso que veio at c. Quer que lhe fale dos fantasmas, no  verdade? 
-Com certeza - anuiu Jeremy, aliviado por passar  ao. 
-Importa-se que eu grave a nossa conversa? 
-De maneira nenhuma. 
Jeremy meteu a mo no bolso e tirou de l um pequeno gravador. Colocou-o em cima da 
mesa e carregou nos botes apropriados. Antes de comear, Doris bebeu um gole de caf. 

-Muito bem, a histria comea por volta de 1890. Na altura, esta era ainda uma vila 
segregada e a maioria dos negros vivia num local chamado Watts Landing. J no resta 
nada da aldeia, por causa do Hazel, mas, naquele tempo... 

-Desculpe... Hazel? 
-O furaco de 1954. Atingiu a costa perto da fronteira com a Carolina do Norte. Boone 
Creek ficou praticamente submersa, o que restava de Watts Landing foi arrastado pelas 
guas. 

-Ah, pois. Desculpe. Continue. 
-De qualquer das formas, como eu estava a dizer, no conseguir encontrar o que quer que 
seja da aldeia, mas, no virar do sculo XIX para o sculo XX, calculo que vivessem ali cerca 
de trezentas pessoas. Na sua maioria descendentes de escravos que tinham fugido da 
Carolina do Sul durante a Guerra de Agresso do Norte, ou seja, aquela a que as pessoas do 
Norte chamam a Guerra Civil. 

Piscou um olho e Jeremy sorriu. 

-Ora bem, a Union Pacific apareceu para construir o caminho-de-ferro, que,  claro, 
transformaria esta terra numa grande zona cosmopolita. Pelo menos era isso que 
prometiam. E o traado que propunham atravessava diretamente o cemitrio dos negros. A 
lder da aldeia era uma mulher chamada Hettie Doubilet. Viera das Carabas, no sei de qual 
das ilhas, e quando percebeu que iam exumar todos os corpos e transferi-los para outro 
local, ficou fora de si e tentou que o municpio fizesse qualquer coisa, que obrigasse  
correo do traado da linha. Mas os tipos que dirigiam o municpio nem queriam ouvir falar 
disso. Nem lhe deram qualquer oportunidade de expor o caso. 

Naquele momento, a Rachel chegou com as sanduches e deixou os dois pratos em cima da 

#
mesa. 
Jeremy pegou na sua e deu-lhe uma dentada. Ergueu as sobrancelhas e Doris sorriu. 


-Melhor do que tudo o que consegue encontrar em Nova Iorque, no ? 
-sem dvida. Os meus cumprimentos  chefe. 
Doris olhou para ele com uma expresso quase coquete. 
- um sedutor, Mr. Marsh -insinuou, e Jeremy admirou-se ao pensar que, quando jovem, 
ela deveria ter despedaado uns quantos coraes. Doris continuou a sua narrativa, como se 

no tivesse havido qualquer interrupo. 
-Naquele tempo muitas das pessoas eram racistas. Algumas ainda o so, mas agora esto 
em minoria. Sendo do Norte,  provvel que pense que estou a mentir, mas no estou. 


-Acredito em si. 
-No, no acredita. Entre os do Norte ningum acredita, mas isso para agora no interessa. 
Continuando a histria, Hettie Doubilet ficou furiosa com os tipos do municpio e, segundo a 
lenda, quando lhe foi recusada a entrada no gabinete do presidente da Cmara, rogou-nos 
uma praga, aos brancos. Disse que, caso as campas dos seus antepassados fossem violadas, 
as dos nossos seriam igualmente violadas. Que os antepassados do seu povo percorreriam a 
Terra  procura do seu local de descanso original, que calcariam Cedar Creek durante o 
caminho e que, no final, o cemitrio seria engolido inteiro. Como era de prever, ningum lhe 
prestou ateno. 

Doris deu uma dentada na sanduche. -Bom, para encurtar uma longa histria, os negros 
mudaram os mortos, um a um, para outro cemitrio, a construo do caminho-de-ferro 
avanou e, depois disso, tal como a Hettie tinha previsto, o cemitrio de Cedar Creek 
comeou a ter problemas. Umas quantas lpides partidas, coisas do gnero, como se a 
responsabilidade fosse de quaisquer vndalos. Os homens do municpio, julgando que Hetel 
era a responsvel, colocaram l guardas. Mas os distrbios continuaram, qualquer que fosse 

o nmero de guardas que mandassem para l. E, ao longo dos anos, a situao foi sempre 
piorando. Esteve l, no esteve? 
Jeremy assentiu. 

-Portanto, pde verificar o que est a acontecer. Parece que o lugar est a afundar-se, no 
, como a Hettie disse que havia de acontecer? De qualquer maneira, uns anos mais tarde, 
comearam a aparecer as luzes. E, depois disso, as pessoas nunca mais deixaram de 
acreditar que os espritos dos escravos andam por ali. 

-Portanto, j no utilizam o cemitrio? 
-No, o lugar foi definitivamente abandonado em finais da dcada de 1970, mas, mesmo 
antes disso, em vista do que estava a acontecer, a maioria das pessoas comeou a optar 
pelo enterramento em outros cemitrios que h  volta da vila. Agora  propriedade 
municipal, mas ningum cuida daquele lugar: H vinte anos que no  tratado. 

-J se preocuparam em avaliar as razes por que o cemitrio est a afundar-se? 
-No sei ao certo, mas diria que algum o deve ter feito. H muitas pessoas poderosas que 
tm antepassados sepultados naquele cemitrio e as campas dos avs partidas seria a ltima 
coisa que gostariam de ver. Estou certa de que pretendem uma explicao e at ouvi dizer 
que veio gente de Raleigh para tentar descobrir o que est a acontecer. 

-Est falando dos alunos da Universidade de Duke? 
-Oh, no, no  desses, meu querido. Eram uns midos, que s estiveram c no ano 
passado. No, estou falando de tentativas mais antigas. Talvez da altura em que os estragos 
comearam. 

-Sabe o que descobriram? 
#
-No. Lamento -admitiu, fazendo uma pausa, com um brilho maroto nos olhos. -Mas acho 
que tenho uma idia aproximada. 

Jeremy ergueu as sobrancelhas. 

-O que foi? 
A resposta veio, muito simples: 
-gua. 
-gua? 
-Lembre-se de que sou adivinha. Sei onde existe gua. E digo-lhe sem rodeios que aquela 
terra est a afundar-se por causa da gua que existe no subsolo. Tenho a certeza. 

-Estou a perceber - comentou Jeremy. 
Doris soltou uma gargalhada. 
- to engraado, Mr. Marsh. Sabia que fica com uma cara muito sria sempre que algum 
lhe est a dizer qualquer coisa em que o senhor no est disposto a acreditar? 


-No. Nunca me tinham dito isso. 
-Pois bem,  verdade. Acho a expresso amorosa. A minha me teria um xito enorme 
consigo.  muito fcil perceb-lo. 
-sendo assim, diga-me em que  que eu estou a pensar? 
Doris hesitou. 
-Bom, como eu disse, os meus dons so diferentes dos da minha me. Ela conseguiria ler 


em si como num livro. E, alm do mais, no quero assust-lo. 

-Avance. Assuste-me. 
-Muito bem - comeou. Encarou-o com um olhar penetrante. 
-Est pensando em em algo que eu talvez no possa saber. E lembre-se de que o meu dom 
no  ler a mente das pessoas. Apenas consigo... um ou outro palpite; e apenas quando 
existem sentimentos fortes. 

-Muito bem -anuiu Jeremy, disposto a colaborar. -No entanto, apercebe-se de que neste 
caso est a expor-se. 

-Oh, silncio -mandou Doris ao pegar-lhe nas mos. -Deixe-me segurar-lhe as mos, est 
bem? 

Jeremy assentiu. 

- vontade. 
-Agora pense em algo pessoal que eu no deveria poder saber. 
-Est bem. 
Ela apertou-lhe a mo. 
-A srio. Neste momento est apenas a troar de mim. 
-timo. Vou pensar em qualquer coisa. 
Jeremy fechou os olhos. Pensou no motivo que levara Maria a deix-lo e, durante largos 
momentos, Doris manteve-se em absoluto silncio. Limitou-se a olhar para ele, como se 
tentasse que ele lhe dissesse qualquer coisa. 

Ele j tinha passado por aquilo. Vezes sem conta. Sabia o suficiente para no se manifestar, 
pelo que ao v-la permanecer em silncio pensou t-la apanhado. De sbito, Doris 
estremeceu (nenhuma surpresa, pensou Jeremy, aquilo fazia parte do espetculo) e logo a 
seguir soltou-lhe as mos. 

#
Jeremy abriu os olhos e encarou-a. 

-Ento? 
Doris estava a observ-lo com um olhar estranho. 
-Nada. 
-Ah - acrescentou Jeremy -, parece que hoje no consegue ler as cartas,  isso? 
-Como lhe disse, sou adivinha -esclareceu, a sorrir, quase como quem pede desculpa. -No 
entanto, posso garantir-lhe que no est grvido. 
Ele sorriu. 


-Tenho de concordar que tem razo quanto a isso. 
Doris voltou a sorrir-lhe e olhou de novo para a mesa. Voltou a levantar os olhos para ele. 
-Desculpe. No devia ter feito o que fiz. No foi apropriado. 
-No tem importncia - retorquiu Jeremy com convico. 
- No - insistiu Doris. Olhou-o nos olhos e voltou a pegar-lhe na mo, Apertou suavemente. Peo 
imensa desculpa. 

Jeremy no sabia muito bem como havia de reagir quando ela voltou a pegar-lhe na mo, 
mas o que o confundiu foi a compaixo que notou nos olhos dela. 

Teve a sensao desconfortvel de que Doris ficara a saber mais pormenores da sua histria 
pessoal do que em condies normais deveria saber. 

As capacidades paranormais, as premonies e a intuio so apenas um produto da 
interligao entre experincia, senso comum e conhecimento adquirido. Na sua maioria, as 
pessoas desvalorizam muito a quantidade de informao que acumulam no decurso da vida, 
alm de que o crebro humano tem a capacidade de, num instante, correlacionar as 
informaes de uma forma que no est ao alcance das outras espcies, ou de uma 
mquina. 

Contudo, o crebro aprende a desfazer-se da maior parte da informao que recebe, pois, 
por razes bvias, no  essencial que se recorde de tudo.  verdade que algumas pessoas 
tm melhor memria do que outras, um fato que muitas vezes se revela em ambientes de 
exames, e a capacidade de treino da memria est bem documentada. No entanto, at os 
piores estudantes recordam 99,99 por cento daquilo que lhes aconteceu durante a vida. A 
restante percentagem de 0,01 por cento  muitas vezes o que distingue uma pessoa de 
outra. Para algumas pessoas revela-se na capacidade de memorizar pormenores 
insignificantes, mas pode servir para formar um mdico excelente, ou para interpretar dados 
financeiros da maneira mais conveniente e para permitir que um indivduo ganhe milhares de 
milhes a comprar e a vender fundos de investimento. Para outras pessoas, manifesta-se na 
capacidade de analisar os outros; essas pessoas, dotadas da capacidade inata para se 
servirem das lembranas, do senso comum e da experincia, alm de serem capazes de 
codificar tudo de forma rpida e exata, manifestam aptides que aos outros seres humanos 
parecem sobrenaturais. 

Mas o que Doris tinha conseguido estava um pouco para alm disso, pensou Jeremy. Ela 
conseguira saber. Ou, pelo menos, foi essa a primeira impresso de Jeremy, at tentar 
refugiar-se na explicao lgica do que teria sucedido. 

E, de fato, no tinha realmente acontecido coisa alguma, recordou a si mesmo. Doris no 
dissera o que quer que fosse; fora apenas a maneira como olhara para ele que o tinha 
levado pensando em que ela sabia coisas que lhe deviam ser desconhecidas. E tal crena 
estava a ser elaborada na cabea dele, no provinha de Doris. 

As verdadeiras respostas estavam na cincia, mas, apesar de tudo, ela parecia uma 
excelente pessoa. E se acreditava possuir certas aptides, que mal havia nisso? Era provvel 

#
que para ela no parecessem sobrenaturais. 
Uma vez mais, ela pareceu perceber exatamente o que ele estava a pensar. 


-Bom, parece que acabo de confirmar que sou maluca, no ? 
-No, de maneira nenhuma. 
Ela voltou a pegar na sanduche. 

-Bom, de qualquer das maneiras, como estava decidido que aprecissemos esta bela 
refeio, talvez seja melhor conversarmos um pouco mais. H mais alguma coisa que eu 
deva dizer-lhe? 

-Fale-me da vila de Boone Creek - pediu ele. 
-De que aspecto? 
-Oh, de tudo. Penso que se tenho de c ficar por uns dias, ser conveniente conhecer um 
pouco melhor este lugar. 

Passaram a meia hora seguinte conversando... bom, por parte de Jeremy no falaram de 
grande coisa. Mais ainda do que Tully, Doris parecia saber tudo o que se passava na vila. 
No por obra e graa das suas aptides, e ela estava pronta a admiti-lo, mas porque a 
informao corre numa povoao pequena como o sumo de ameixa pela barriga de uma 
criana. 

Doris falava quase sem interrupo. Jeremy soube quem namorava quem, as pessoas com 
quem era difcil trabalhar e o caso do ministro da igreja pentecostal da terra com uma das 
suas paroquianas. Mais importante, segundo a opinio da Doris, era nunca chamar o 
reboque do Trevor se o meu carro se avariasse, pois o mais provvel era o Trevor estar 
bbado, qualquer que fosse a hora do dia. 

-O homem  uma ameaa na estrada -declarou Doris. -Toda a gente sabe isso, mas como 

o pai dele  o xerife, ningum est disposto a agir. No entanto, acho que no deve ficar 
surpreendido. Com todas aquelas dvidas de jogo, o xerife Wanner tambm tem os seus 
problemas. 
-Pois, faz sentido -respondeu Jeremy, como se estivesse a par de tudo o que acontecia na 
vila. 

Por momentos, ficaram ambos calados. Aproveitando a acalmia, Jeremy consultou o relgio. 

-Suponho que est na hora de ir -sugeriu Doris. Ele pegou no gravador, interrompendo a 
gravao, aps o que o meteu na algibeira do casaco. 

-Julgo que sim. Pretendo passar pela biblioteca antes que feche, quero ver o que encontro 
por l. 

-Bom, o almoo foi por conta da casa. No  todos os dias que recebemos um visitante 
famoso. 

-Uma breve apario no Primetime no faz uma pessoa famosa. 
-Eu sei. Mas estava falando da sua coluna. 
-J a leu? 
-Todos os meses. O meu marido, que Deus o tenha em descanso, passava o tempo na 
garagem e adorava o magazine. Depois de ele falecer, faltou-me a coragem para anular a 
assinatura. Foi como se apanhasse o facho onde ele o deixara cair. O senhor  um homem 
muito inteligente. 

-Obrigado. 
Doris levantou-se da mesa e comeou a conduzi-lo para a sada do restaurante. Os poucos 
clientes que restavam seguiram-nos com os olhos. No  preciso dizer que tinham ouvido 

#
tudo e, logo que Jeremy e Doris saram, comearam a murmurar entre si. Aquilo, toda a 
gente decidiu de imediato, era um assunto excitante. 

-Ouvi-a dizer que ele tinha estado na televiso? - perguntou um. 
-Julgo que o vi num desses programas em que as pessoas discutem. 
-Mas no  mdico - acrescentou outro. - Ouvi-o falar de um artigo para um magazine. 
-Gostaria de saber como  que a Doris o conheceu. Conseguiste perceber essa parte? 
-Bom, pareceu-me bastante simptico. 
-Eu acho-o um verdadeiro sonho -insinuou Rachel. Entretanto, Jeremy e Doris tinham 
parado no alpendre, alheios ao debate que se desenrolava l dentro. 

-Julgo que vai ficar no Greenlea -indagou Doris. Quando Jeremy acenou que sim, ela 
continuou. - Sabe onde fica?  um bocado fora de mo. 

-Tenho um mapa -esclareceu Jeremy, a tentar dar a impresso de que tinha tudo 
preparado. -Tenho a certeza de conseguir orientar-me. Mas, poderia dizer-me onde fica a 
biblioteca? 

-Com certeza,  mesmo ao virar da esquina -esclareceu, a apontar para a rua. -Est vendo 
aquele edifcio de tijolos? O que tem os toldos azuis? 

Jeremy acenou que sim. 

-Vire  esquerda e siga at ao sinal de stop seguinte. Na primeira rua depois de passar o 
sinal de stop, vire  direita. A biblioteca fica num canto, mesmo ao cimo da rua.  um 
grande edifcio branco. Era a Manso Middleton, por pertencer a Horace Middleton, antes de 

o municpio a comprar. 
-No construram um edifcio de raiz? 
-A vila  pequena, Mr. Marsh, e, alm disso, a manso  suficientemente grande. Logo ver. 
Jeremy estendeu a mo. 
-Obrigado. A senhora foi fantstica. E o almoo estava uma delcia. 
-Fao o que posso. 
-Importa-se que volte c com novas perguntas? Parece-me ser bastante eficiente a lidar 
com as coisas. 

-sempre que quiser conversar, aparea. Estou sempre disponvel. S lhe peo que no 
escreva coisas que nos faam parecer um molho de nabos. Muitas pessoas, eu includa, 
adoram esta terra. 

-S escrevo vendodade. 
-Eu sei. Foi por isso que o contatei. Tem uma cara que inspira confiana e estou certa de 
que vai acabar com a lenda de uma vez para sempre, fazer o que tem de ser feito. 
Jeremy franziu a testa. 

-No cr que os fantasmas andem por 
Cedar Creek? 
-Oh, meu Deus, no. Sei que no h l espritos. Ando a dizer isso h anos, mas ningum 
me ouve. 
Jeremy olhou-a com curiosidade. 


-Ento, por que  que me pediu para vir at c? 
-Porque as pessoas no sabem o que se passa e vo continuar a acreditar, at que 
encontrem uma explicao. Como sabe, depois daquele artigo de jornal que falava da vinda 

#
das pessoas da Universidade de Duke, o presidente da Cmara tem feito uma publicidade 
louca da idia; aparecem por c estranhos, vindos de todos os lados, com a esperana de 
verem as luzes. Para lhe ser franca, isso est a causar muitos problemas. O cemitrio est 
quase a desmoronar-se e os estragos so cada vez maiores. -Teve de interromper-se por 
momentos, mas depois continuou: -Como seria de esperar, o xerife no faz nada sobre dos 
adolescentes que andam por l, ou dos estranhos que tripudiam por ali, sem nada dentro 
das cabeas. Ele e o presidente da Cmara costumam ir  caa juntos, com a agravante de 
que quase toda a gente, exceto eu, acha que promover os fantasmas  uma boa idia. 
Depois que fecharam a fbrica de txteis e a mina, a vila tem vindo a murchar; penso que, 
na idia deles, os fantasmas podem ser uma espcie de salvao. Jeremy olhou para o carro 
e voltou-se de novo para a Doris, a Refletir sobre o que ela acabava de dizer. Fazia sentido, 
sem dvida, mas... 

-J se apercebeu de que est a contar-me uma histria diferente da que me contou na 
carta? 

-No -respondeu -, no estou. S escrevi que havia luzes misteriosas no cemitrio, que 
eram atribudas a uma velha lenda e que muito boa gente pensava que havia fantasmas 
envolvidos e que os midos da Duke no tinham conseguido descobrir vendodadeira origem 
das luzes. Tudo verdade. Se no me acredita, volte a ler a carta. Eu no minto, Mr. Marsh. 
Posso no ser perfeita, mas no sou mentirosa. 

-Nesse caso, por que pretende que eu desacredite a histria? 
-Porque  de justia -respondeu de imediato, como se a resposta fosse apenas uma 
questo de bom senso. -As pessoas sempre s voltas por ali, os turistas que vm c para 
acampar nas redondezas, no me parecem atitudes muito respeitosas para com os falecidos, 
mesmo que o cemitrio esteja abandonado. As pessoas que esto l sepultadas merecem 
jazer em paz. E combinar isso com interesses materiais, como o Circuito das Manses 
Histricas e do Cemitrio Assombrado,  um erro puro e simples. Contudo, nos tempos que 
correm, sou uma voz a clamar no deserto. 

Jeremy enfiou as mos nas algibeiras, enquanto pensava no que acabara de ouvir. 

-Posso ser franco? - perguntou. 
Doris acenou que sim e ele mudou o peso do corpo de um p para o outro. 
-se acredita que a sua me era mdium, e que pode adivinhar o sexo dos bebs, parece-
me... 
Quando Jeremy se calou, Doris olhou para ele. 


-Que eu deveria ser a primeira pessoa a crer em fantasmas? 
Jeremy assentiu. 
-Pois bem, na verdade creio. S no acredito que eles andem pelo cemitrio. 
-Por que no? 
-Porque estive l e no senti a presena de espritos. 
-Ento, tambm  capaz disso? 
Ela encolheu os ombros, ignorando a pergunta. 
-Posso falar com franqueza, agora? 
-Com certeza. 
-Um dia, o senhor vai saber uma coisa que no pode ser explicada pela cincia. E quando 
isso acontecer, a sua vida vai sofrer uma transformao que nem lhe passa pela cabea. 
Ele sorriu. 


-Isso  uma promessa? 
#
- uma promessa -respondeu. Fez uma pausa e olhou-o nos olhos. -E tenho de confessar 
que apreciei verdadeiramente o almoo. No  freqente eu desfrutar da companhia de um 
jovem to encantador. Quase me fez sentir outra vez jovem. 

-Tambm passei um tempo maravilhoso. 
Rodou para ir-se embora. As nuvens haviam tapado o azul enquanto eles comiam. Sem estar 
carrancudo, j parecia um cu de Inverno, fazendo Jeremy levantar a gola enquanto se 
dirigia para o carro. 

-Mr. Marsh! - chamou Doris, por trs dele. 
Jeremy voltou-se. 
-O que ? 
-Cumprimente Lex por mim. 
-Lex? 
-Sim. Est na sala de leitura da biblioteca.  a pessoa por quem deve perguntar. 
Ele sorriu. 
- o que vou fazer. 
#
QUATRO 

A biblioteca acabou por revelar-se uma macia estrutura gtica, em tudo diferente de 
qualquer outra construo da vila. Para Jeremy, era como se o prdio tivesse sido arrancado 
de um outeiro da Romnia por um bbado, que depois o deixara cair em Boone Creek. 

O edifcio ocupava a maior parte do quarteiro, tinha dois andares adornados com janelas 
altas e estreitas, um telhado de grande inclinao e uma porta principal de madeira, em 
arco, e com puxadores descomunais. Edgar Allan Poe teria adorado aquele lugar, mas, 
apesar da arquitetura de casa assombrada, as gentes da vila tinham feito o possvel para lhe 
dar um aspecto mais acolhedor. Os tijolos do exterior, que certamente teriam sido 
vermelhos, tinham sido pintados de branco, as janelas foram protegidas com gelosias pretas, 

o caminho de acesso e o crculo  volta do mastro da bandeira foram delimitados por 
canteiros de amores-perfeitos. Uma tabuleta escrita em cursivo dourado anunciava a 
entrada da Biblioteca de Boone Creek". Mesmo assim, o conjunto geral no revelava 
qualquer harmonia. Era como, pensava Jeremy, ir visitar a elegante casa de um mido rico 
da cidade para depois ser recebido pelo mordomo, com bales e bisnagas carnavalescas. 
No vestbulo de iluminao suave, de um amarelo-plido -pelo menos o casaro mostrava 
consistncia na sua inconsistncia -fora colocada uma secretria em forma de L, com a 
perna mais comprida a apontar para a traseira do edifcio, onde Jeremy notou que havia 
uma grande sala envidraada dedicada s crianas. As casas de banho eram do lado 
esquerdo e  direita, por trs de outra parede de vidro, ficava o que parecia ser a rea 
principal. Jeremy saudou, com acenos 

de cabea e da mo, a senhora idosa que estava sentada  secretria. 

Ela sorriu e correspondeu, para logo de seguida voltar a concentrar-se no livro que estava a 
ler. Empurrou a pesada porta de vidro para entrar na rea principal, orgulhoso de estar a 
ajustar-se  maneira como a vida funcionava em terras do Sul. 

Contudo, chegado  rea principal, sentiu-se desapontado. Iluminadas por brilhantes luzes 
fluorescentes, havia apenas seis estantes com livros, colocadas relativamente perto umas 
das outras, num espao no muito maior do que o seu apartamento. Nos dois cantos mais 
prximos tinham instalado computadores desatualizados, mais ao fundo,  direita, havia um 
conjunto de lugares sentados e uma pequena coleo de jornais. Quatro mesas pequenas 
estavam espalhadas pela sala; a busca nas estantes estava de momento limitada a trs 
pessoas, incluindo um homem idoso, com uma prtese auditiva, atarefado a arrumar livros. 
Ao olhar  volta, Jeremy teve a noo que j tinha comprado maior nmero de livros do que 
os existentes na biblioteca. 

Encaminhou-se para a secretria do bibliotecrio mas verificou, sem surpresa, que no 
estava l ningum. Parou junto da secretria,  espera de Lex. Voltando-se para se apoiar 
nela, compreendeu que Lex devia ser o idoso de cabelo branco que estava a arrumar os 
livros, mas resolveu no sair de onde estava. 

Viu as horas. Dois minutos depois voltou a consultar o relgio. 

Passados mais dois minutos, depois de Jeremy ter pigarreado com fora, o homem acabou 
por dar pela presena dele e fez-lhe um gesto com a mo, a dar a entender que se 
apercebera de que o visitante precisava de ajuda; porm, em vez de caminhar na direo 
dele, o homem acenou com a cabea e com a mo, antes de prosseguir com a tarefa de 
arrumar os livros. Era, sem dvida, uma pessoa que gostava de evitar as pressas. Um 
exemplo da lendria eficincia sulista, Refletiu Jeremy. Muito impressionante, aquele lugar. 

No pequeno e atravancado gabinete do andar superior da biblioteca, ela estava a olh-lo 
atravs da janela. Sabia que ele viria. Logo que Jeremy deixou o Herbs, Doris telefonou e 
falou-lhe do homem vestido de preto, que viera de Nova Iorque para escrever um artigo 
sobre os fantasmas do cemitrio. 

#
Abanou a cabea. Segundo parecia, o homem tinha acreditado na Doris. Uma vez que uma 
idia se lhe metesse na cabea, tendia a ser bastante persuasiva, sem se preocupar muito 
com os possveis prejuzos que um artigo daquele gnero poderia provocar. Tinha lido 
artigos anteriores de Mr. Marsh e conhecia perfeitamente a maneira de ele agir. No seria 
suficiente obter a prova de que no havia fantasmas envolvidos -e sobre isso ela no tinha 
dvidas -mas Mr. Marsh no pararia a. Iria entrevistar pessoas, com os seus modos 
sedutores, para depois selecionar o material e distorcer vendodade como lhe apetecesse. 
Logo que ele acabasse o trabalho de investigao e publicasse o artigo, todo o pas ficaria 
pensando em que as gentes daquela terra eram crdulas, parvas e supersticiosas. 

No. No apreciava nada a idia de o ver por ali. 

Fechou os olhos, a torcer maquinalmente entre os dedos uma mecha do cabelo escuro. O 
problema era que ela tambm no gostava de ver as pessoas a tripudiarem pelo cemitrio. 
Doris tinha razo: era uma falta de respeito; e desde que aqueles midos da Duke l tinham 
ido e o artigo aparecera no jornal, tudo se tinha precipitado. Por que no deixar tudo como 
estava? Aquelas luzes eram vistas h dcadas e, conquanto toda a gente soubesse da sua 
existncia, ningum se preocupava muito com isso. Certamente que, uma vez por outra, 
algumas pessoas iam at l para dar uma vista de olhos -em especial os que tinham estado 
a beber no Lookilu, ou adolescentes -mas mandar fazer T-shirts? Canecas de caf? Postais 
de m qualidade? Combinar tudo aquilo no Circuito das Manses Histricas e do Cemitrio 
Assombrado? 

No conseguia perceber muito bem todas as razes que estavam por trs do fenmeno. 
Seria assim to importante aumentar o nmero de turistas que visitavam a regio? O 
dinheiro fazia jeito, sem dvida, mas as pessoas no viviam em Boone Creek porque 
queriam ser ricas. Bem, pelo menos a maioria. Havia sempre algum a tentar ganhar uns 
cobres, a comear pelo mais ganancioso de todos: o presidente da Cmara. Mas sempre 
acreditara que a maioria das pessoas vivia ali pelo mesmo motivo que ela prpria: pelo 
encantamento que sentia quando o Sol poente transformava o rio Pamlico numa fita 
dourada, pela confiana que depositava nos vizinhos, porque as pessoas deixavam os filhos 
andar na rua  noite, sem temer que lhes acontecesse algum mal. Num mundo cada vez 
mais atarefado, Boone Creek era uma vila que nem sequer procurara um lugar na vida 
moderna, caraterstica que fazia dela uma terra especial. 

Afinal, era por isso que vivia ali. Adorava tudo naquela vila: o odor a pinheiro e a sal em 
cada amanhecer de Primavera, as tardes sufocantes de Vero que lhe faziam reluzir a pele, a 
glria flamejante das folhas cadas do Outono. Mas, mais do que tudo, adorava as pessoas e 
no conseguia imaginar-se vivendo em qualquer outra terra. Confiava nelas, falava-lhes, 
gostava delas. Como seria de esperar, algumas das suas amigas tinham sado para 
freqentar a universidade e nunca mais regressaram. Tambm ela se tinha ausentado 
durante algum tempo mas, mesmo ento, sempre soube que acabaria por regressar; uma 
boa idia, afinal, pois durante os ltimos dois anos tinha vivido preocupada com a sade da 
Doris. E tambm sabia que tinha de ser a bibliotecria, tal como a sua me fora, para 
transformar a biblioteca em algo de que a vila se pudesse orgulhar. 

No era, certamente, a profisso mais atraente, nem se ganhava muito. A biblioteca era uma 
obra inacabada, mas as primeiras impresses haviam sido decepcionantes. O primeiro piso 
continha apenas fico contempornea, enquanto o andar superior guardava os clssicos, de 
fico e de ensaio, alm de ttulos de autores modernos e colees nicas. Duvidava que Mr. 
Marsh soubesse que os livros estavam dispersos por dois andares, pois as escadas de acesso 
comeavam nas traseiras do edifcio, perto da sala das crianas. Um dos inconvenientes de 
terem instalado a biblioteca numa antiga manso residia no fato de o projeto de construo 
no contemplar a utilizao pblica do espao. Porm, achava o local agradvel. 

O seu gabinete do primeiro andar estava quase sempre em silncio, alm de ser contguo  
parte da biblioteca que preferia. Numa pequena diviso adjacente ao gabinete estavam os 
ttulos raros, livros que ela fora adquirindo em vendas de casas e de garagens, atravs de 
doaes, visitas a alfarrabistas e negociantes espalhados por todo o estado, um projeto 

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iniciado ainda no mandato da sua me. Tinha tambm uma coleo, sempre em 
crescimento, de manuscritos e mapas, alguns dos quais anteriores  Guerra da 
Independncia. Eram a sua paixo. Andava sempre  procura de algo especial e, para 
conseguir o que queria, no era avessa a valer-se do charme, da astcia ou da pedinchice. 
Quando nada disso resultava, punha em relevo a possibilidade de reduo dos impostos e, 
como trabalhava arduamente para manter contatos com advogados especialistas em 
propriedades e impostos espalhados por todo o Sul, por vezes recebia certas obras ainda 
antes de as outras bibliotecas saberem que elas existiam. Embora no dispusesse dos 
recursos das universidades de Duke, de Wake Forest ou de Carolina do Norte, a sua era 
considerada uma das pequenas bibliotecas mais importantes do estado, ou at do pas. 

E era assim que a via agora. A sua biblioteca, tal como aquela era a sua vila. E aparecia um 
estranho, naquele momento  sua espera, um estranho que pretendia escrever uma histria 
que poderia no ser boa para a gente da vila. 

Tinha-o visto chegar. Observara-o a descer do carro e a dirigir-se para a entrada. Abanara a 
cabea ao reconhecer quase imediatamente nele o fanfarro confiante da cidade grande. Era 
apenas mais um numa longa lista de visitantes de lugares mais exticos, pessoas 
convencidas de terem uma superior compreenso das realidades do mundo. Pessoas 
convencidas de que, pelo fato de andarem de um lado para o outro, tornavam a sua vida 
bem mais excitante e mais completa. Poucos anos antes, tinha-se apaixonado por algum 
que acreditava em coisas desse gnero; agora, recusava-se a alimentar idias semelhantes. 

Um pssaro veio aterrar no peitoril da janela, Ficou a observ-lo, a desanuviar a cabea e 
suspirou. Muito bem, decidiu, talvez devesse ir falar com Mr. Marsh, de Nova Iorque. Afinal, 
ele estava  sua espera. O homem tinha feito uma longa viagem e a hospitalidade sulista, 
mais as exigncias do seu cargo, exigiam que lhe desse toda a ajuda de que ele precisasse. 
Contudo, o que era ainda mais importante, agindo assim poderia mant-lo debaixo de olho. 
Poderia filtrar a informao de modo que ele compreendesse tambm o que a vida nesta 
parte do pas tinha de bom. 

Sorriu. Poderia, certamente, controlar Mr. Marsh. E, alm do mais, tinha de admitir que, 
mesmo no sendo de confiana, o homem era bastante bem-parecido. 

Jeremy Marsh parecia prestes a explodir. 

Percorria os corredores, de braos cruzados, a olhar os ttulos de autores contemporneos. 
De vez em quando carregava o cenho, como se gostasse de conhecer os motivos de no 
encontrar ali qualquer obra de Dickens, Chaucer ou Austen. No caso de ele formular a 
pergunta, ela gostaria de saber qual seria a reao do homem se lhe perguntasse: Quem? 
Conhecendo-o -e no tardou a admitir que no sabia nada sobre dele, que estava 
simplesmente a presumir -era provvel que ele se limitasse a arregalar os olhos e ficasse 
sem fala, como acontecera quando o vira pela primeira vez, no cemitrio. Homens", pensou. 
Sempre previsveis". 

Ajeitou a camisola, a adiar o mais possvel o momento de ir ao encontro dele. Recordou a si 
mesma a necessidade de agir com profissionalismo, que tinha uma misso a cumprir. 

-Suponho que est  minha procura - anunciou, a forar um sorriso: 
Ao ouvir o som da voz, Jeremy virou-se e, por momentos, pareceu paralisado. Porm, ao 
reconhec-la, logo de seguida, sorriu. Um sorriso bastante amigvel, a covinha do rosto dele 
era bonita, mas demasiado treinado para fazer esquecer a confiana demonstrada pelo 
olhar. 

- a Lex? - indagou. 
- um diminutivo de Lexie. Lexie Darnell.  o que a Doris me chama. 
-E  a bibliotecria? 
-Tento s-lo, quando no ando a passear em cemitrios e a ignorar os olhares dos homens. 
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-Interessante -disse ele, a tentar o sotaque arrastado da Doris. Lexie sorriu ao passar por 
ele, para ir endireitar alguns livros na estante que Jeremy tinha estado a examinar. 

-O seu sotaque no pega, Mr. Marsh. Parece estar a tentar encontrar sinnimos para um 
problema de palavras cruzadas. 

Nada afetado pelo comentrio, ele riu-se abertamente, a perguntar: 

-Acha que sim? 
Um mulherengo, sem dvida", pensou Lexie. 
-sei que sim - asseverou, continuando a ajeitar os livros. 
-Ora bem, Mr. Marsh, em que  que posso ajud-lo? Julgo que procura informaes sobre 
do cemitrio? 


-A minha reputao precede-me. 
-A Doris telefonou a informar-me que vinha a caminho. 
-Ah! Devia ter percebido. Doris  uma mulher interessante. 
- minha av. 
As sobrancelhas de Jeremy pareceram saltar. Que interessante! 
-Ela falou-lhe do nosso delicioso almoo? - perguntou. 
-Na verdade, no lhe perguntei -confessou Lexie, a ajeitar o cabelo atrs das orelhas, a 
notar que a covinha dele era das que incitava as crianas a enfiarem l o dedo. No que ela 
estivesse interessada,  claro. Acabou de arrumar os livros e encarou-o, mantendo a voz 
firme. -Acredite ou no, de momento estou bastante ocupada. Tenho um monte de tarefas 
burocrticas para acabar ainda hoje. De que gnero de informaes  que anda  procura? 

Jeremy encolheu os ombros. 

-De qualquer coisa que me ajude a conhecer a histria do cemitrio e da vila. Quando  que 
as luzes apareceram. Quaisquer estudos feitos no passado. Narrativas que faam meno 
das lendas. Mapas antigos. Informaes sobre a topografia e sobre Riker's Hill. Registos 
histricos. Coisas desse gnero -concluiu, olhando de novo aqueles olhos cor de violeta, 
verdadeiramente exticos. E a dona estava ali, prxima, e no a afastar-se dele. 
Tambm achou isso interessante. 

-Deixe-me dizer-lhe que isto  espantoso, no acha? -indagou Jeremy, perto dela, 
encostado  estante. 

Ela olhou-o fixamente: 

-Desculpe, o que  que acha espantoso? 
-V-la no cemitrio e agora aqui. A carta da sua av que me trouxe at c. Uma grande 
coincidncia, no acha? 

-No posso dizer que tenha pensado muito nisso. 
Jeremy no estava disposto a deter-se. Raramente se deixava intimidar, especialmente 
quando estava interessado em qualquer coisa. 

-Ora bem, como no sou da regio, talvez pudesse esclarecer-me sobre aquilo que as 
pessoas de c fazem para se descontrarem. Isto , dizer-me se h algum lugar onde se 
beba um caf? Ou se coma qualquer coisa? -perguntou. Depois de uma ligeira pausa, nova 
pergunta: 

-Talvez um pouco mais tarde, depois de sair? 
Sem saber se teria compreendido bem, Lexie pestanejou, antes de perguntar: 
-Est a convidar-me para sair? 
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-S se estiver disponvel. 
-Penso -replicou ela, a readquirir a compostura -, que terei de recusar. Mas agradeo-lhe a 
sugesto. 
Encarou-o de olhar fixo, at que ele acabou por erguer as mos. 


-Tudo bem, muito razovel - defendeu-se, em tom cordato. - Mas no se pode condenar um 
homem por tentar -acrescentou, com a covinha a dardejar de novo. -E agora, poderamos 
iniciar a busca? 
Se no est demasiado ocupada com a papelada,  claro. Se lhe for mais conveniente, 
poderei passar por c amanh. 


-H algo especial por onde prefira comear? 
-Gostaria de ler o artigo que apareceu no peridico local. Ainda no tive a oportunidade de 
o ler. Certamente que o tm. 
Ela assentiu. 
- provvel que esteja nas microfichas. H dois anos que comeamos a microfilmar o jornal, 
pelo que no terei dificuldade em encontrar o artigo. 
-timo. E informaes sobre a vila em geral? 
-Esto no mesmo local. 
Jeremy olhou  volta, a tentar imaginar que local seria aquele. Ela comeou a andar em 
direo ao vestbulo. 


-Por aqui, Mr. Marsh. L em cima encontraremos aquilo de que precisa. 
-H um andar superior? 
Voltou a cabea, falando por cima do ombro. 
-se me seguir, prometo mostrar-lhe. 
Jeremy teve de se apressar para conseguir acompanh-la. 
-Importa-se que faa uma pergunta? 
Ela abriu a porta principal e hesitou. 
-De maneira nenhuma - replicou, sem alterar a expresso. 
-Por que motivo foi hoje ao cemitrio? 
Em vez de responder, continuou a fit-lo, sem mudar de expresso. 
-Quero dizer, tenho estado pensando em - prosseguiu Jeremy. 
-Fiquei com a impresso de que atualmente aquele lugar no recebe muitas visitas. 
Ela continuou calada, manteve um silncio que o encheu de curiosidade e, finalmente, de 
desconforto. 


-Vai ficar calada, a olhar para mim? - indagou. 
Lexie sorriu e, para surpresa dele, piscou os olhos ao passar pela porta. 
-Eu disse que podia perguntar, Mr. Marsh. No prometi responder-lhe. 
Ao v-la caminhar  sua frente, Jeremy no podia fazer mais do que isso: olhar. Era um 
espanto, no era? Confiante, bonita e sedutora, tudo ao mesmo tempo; e depois de ter 
deitado por terra o convite para sair com ele. 

Pensou que talvez o Alvin tivesse razo. Talvez aquelas beldades do Sul tivessem qualquer 
coisa que punha os homens malucos. 

Passaram pelo vestbulo, pela sala de leitura das crianas e Lexie seguiu  frente, escada 

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acima. Ao parar no patamar do primeiro andar, Jeremy olhou  sua volta. 

O lugar no se resumia a umas quantas estantes cambadas cheias de livros. Havia bastante 
mais. E tambm uma sensao de antigo, do odor a p que se respira numa biblioteca 
particular. De paredes forradas com painis de carvalho, cho de mogno e cortinas cor de 
vinho, a sala enorme, sem divisrias, contrastava com o espao do rs-do-cho. Nos cantos, 
havia cadeiras de estofos espessos e imitaes de candeeiros Tiffany. Na parede mais 
distante, ficava a lareira de pedra, com uma pintura pendurada mais acima e as janelas, 
estreitas como eram, s deixavam passar a luz suficiente para transmitir ao lugar um ar 
quase domstico. 

-Agora percebo -observou Jeremy. -O rs-do-cho  apenas um acepipe. Aqui  onde se 
encontra o que  importante. 

Lexie concordou. 

-Na sua maioria, os nossos visitantes de todos os dias vm  procura de ttulos recentes, de 
autores que conhecem, e por isso reservei-lhes a sala do andar inferior. A sala do rs-docho 
 pequena porque era l que, antes da reconverso, tnhamos os nossos escritrios. 

-Onde ficam agora os escritrios? 
-Acol -indicou, a apontar para o espao por trs da ltima estante. -A seguir  sala dos 
espcimes raros. 

-Caramba! Estou impressionado. 
Ela sorriu. 
-Vamos, vou mostrar-lhe tudo e depois falaremos deste lugar. 
Os minutos seguintes foram passados conversando e a andar por entre as estantes. Jeremy 
ficou a saber que a manso havia sido construda em 1874 por Horace Middleton, um 
capito de navios que fizera fortuna a transportar madeira e tabaco. Tinha construdo a 
manso para ali viver com a mulher e sete filhos mas, infelizmente, nunca chegou a habitar 
a casa. Quando a manso estava em acabamento, a mulher faleceu, o que o levou a decidir 
mudar-se para Wilmington, juntamente com a famlia. A casa esteve vazia durante anos, 
sendo ocupada por outra famlia at  dcada de 1950, quando acabou por ser vendida  
Sociedade Histrica, que mais tarde a revendeu ao municpio para ser usada como 
biblioteca. 

Jeremy ouvia tudo com a mxima ateno. Caminhavam devagar e Lexie ia fazendo 
interrupes na narrativa para apontar alguns dos seus livros preferidos. Lexie era, como 
Jeremy no tardou a perceber, mais culta do que ele, especialmente no que dizia respeito 
aos autores clssicos, o que no deixava de fazer sentido, agora que pensava no assunto. A 
no ser o amor aos livros, o que  que a levaria a tornar-se bibliotecria? Como se 
conseguisse perceber o que ele estava a pensar, ela interrompeu-se e apontou com o dedo 
uma placa que se distinguia numa das estantes. 

-Mr. Marsh, esta seo ser provavelmente a sua preferida. 
Olhou de relance para a placa e leu: Sobrenatural/Feitiaria". Abrandou o passo, no parou, 
mas tomou nota de alguns ttulos, incluindo um sobre as profecias de Miguel de 
Nostradamus. Em 1555, Nostradamus, como geralmente  conhecido, deu  estampa um 
livro, o primeiro dos dez que publicou em vida, com uma centena de previses 
excepcionalmente vagas. Das mil profecias publicadas por Nostradamus, hoje continuam a 
ser citadas apenas umas cinqenta ou sessenta, o que d uma desprezvel taxa de 
aproveitamento da ordem dos cinco por cento. 

Jeremy enfiou as mos nas algibeiras. 

-se no se importa, talvez pudesse fazer-lhe umas recomendaes interessantes. 

-Faa favor. No sou to orgulhosa para julgar que no necessito de ajuda. 
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-Alguma vez leu isto? 
-No. Para lhe ser franca, no julgo que o assunto tenha suficiente importncia. Quero 
dizer, folheio todos esses livros  medida que chegam, observo as gravuras e leio algumas 
das concluses para analisar se so apropriados, nada mais. 

-Boa idia - aprovou Jeremy. - Ficar mais bem servida. 
-Mas  espantoso. H residentes na vila que no querem que eu guarde livros sobre esses 
temas. Especialmente os que so dedicados  bruxaria. Dizem que exercem ms influncias 
sobre os jovens. 

-Pois exercem.  tudo mentira. 
Lexie sorriu. 

-Isso pode ser verdade, mas est a esquecer-se do essencial. Eles querem que retire os 
livros por julgarem que  realmente possvel conjurar os maus espritos e que, ao lerem 
estas obras, os midos podero, por acidente, inspirar Satans a provocar malfeitorias na 
vila. 

Jeremy concordou. 

-A juventude impressionvel da Cintura Bblica". Faz sentido. 
-Mas no cite estas minhas opinies. Sabe que, quanto a isto, estamos falando em 
particular, no sabe? 
Ele ergueu dois dedos. 


-Palavra de escuteiro! 
Caminharam em silncio durante uns momentos. O sol de Inverno mal conseguia romper por 
entre as nuvens acinzentadas e Lexie foi acendendo os candeeiros um a um. A sala foi 
inundada por uma luz amarelada. 

Com ar ausente, Jeremy apontou o retrato pendurado por cima da lareira: 

-Quem  esta? 
Lexie parou e seguiu o olhar dele. 
-A minha me - respondeu. 
Jeremy olhou-a com ar inquisidor e Lexie deixou escapar um longo suspiro. 

-Depois de a biblioteca original ter sido arrasada por um incndio, em 1964, a minha me 
empenhou-se em encontrar um novo edifcio e em comear um novo acervo, uma misso 
que toda a populao da vila havia considerado impossvel. Tinha apenas 22 anos, mas 
passou anos a pressionar os responsveis estaduais e distritais para cederem verbas, fez 
leiles, foi de porta em porta a pedir ajuda aos comerciantes locais, insistindo at que lhe 
dessem dinheiro ou lhe passassem um cheque. Levou anos, mas acabou por conseguir. 

Enquanto Lexie falava, Jeremy deu consigo a olhar alternadamente para ela e para o retrato. 
Julgou detectar parecenas, pelo menos uma em que deveria ter reparado de imediato: os 
olhos. Embora a cor violeta o tivesse impressionado desde o incio, agora que os via mais de 
perto, notou que os de Lexie possuam um toque de luz a toda a volta, que de certa forma 
lhe fazia lembrar a cor da simpatia. Embora o pintor tivesse tentado captar aquela luz nada 
habitual, no tinha conseguido sequer aproximar-se do original. 

Quando Lexie findou a narrativa, ajeitou uma mecha de cabelo atrs da orelha. Jeremy 
notou que era um gesto freqente nela. Tratava-se provavelmente de um tique nervoso. O 
que significava, era evidente, que estava a p-la nervosa. Viu no gesto um sinal animador. 

Por enquanto, limitou-se a aclarar a voz: 

-Parece ter sido uma mulher fascinante. Adoraria t-la conhecido. 
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Um sorriso passou rapidamente pelo rosto de Lexie, como se houvesse muito mais a dizer 
mas, em vez disso, abanou a cabea. 

-Lamento. Suponho que j palrei o suficiente. O senhor tem de trabalhar e eu estou a 
empat-lo -admitiu, a apontar para a sala dos livros raros. -ser melhor mostrar-lhe o local 
onde vai ficar preso durante os prximos dias. 

-ser preciso assim tanto tempo? 

-Pretende referncias histricas e o artigo, no ? Gostaria de poder dizer-lhe que a 
informao est catalogada, mas no posso. Tem pela frente uma pesquisa bem montona. 

-No h assim muitos livros para consultar, ou estarei enganado? 
-No se trata apenas de livros, embora tenhamos vrios que talvez ache interessantes. O 
meu palpite  que venha a encontrar muitas das informaes que procura em dirios. 
Estabeleci como meu objetivo reunir tantos quantos conseguisse, de pessoas que viveram na 
regio, e j dispomos de uma boa coleo. At consegui uns quantos que datam do sculo 

XVIII. 
-No ter, por acaso, o de Hettie Doubilet? 
-No. Mas tenho o de um casal que viveu em Watts Landing, e at um de algum que se 
considerava o historiador amador da regio. No entanto, no podem sair da biblioteca, e 
talvez leve algum tempo a conseguir decifr-los. Lem-se com dificuldade. 

-Estou ansioso por comear - atalhou Jeremy. - Adoro pesquisas montonas. 
Lexie sorriu. 
-Apostaria que  bastante bom nisso. 
Olhou para ela com ar superior. 
-Ah, pois sou. Sou bom numa quantidade de coisas. 
-No tenho dvidas quanto a isso, Mr. Marsh. 
-Jeremy. Trate-me por Jeremy. 
Ela ergueu uma sobrancelha. 
-No me parece que seja muito boa idia. 
-Pelo contrrio,  uma excelente idia. Acredite! 
Lexie respirou fundo. Aquele era dos que nunca param. 

- uma oferta tentadora -insinuou. -De verdade! E sinto-me lisonjeada. Mas, mesmo 
assim, ainda no o conheo suficientemente para confiar em si, Mr. Marsh. 

Divertido, Jeremy ficou a v-la voltar-lhe as costas, pensando em que j encontrara outras 
daquele gnero. As mulheres que se valiam da sagacidade para manter os homens  
distncia tinham quase sempre uma faceta desagradvel, mas naquela, sem ele saber por 
qu, era uma caraterstica que... bom, se podia considerar sedutora e agradvel. Seria do 
sotaque? Provavelmente. Da maneira como cantava as palavras, talvez at conseguisse 
convencer um gato a atravessar o rio a nado. 

Depois, corrigindo-se a si prprio, decidiu que no era apenas do sotaque. Nem da 
sagacidade, que ele apreciava. Nem sequer dos espantosos olhos ou da maneira como lhe 
assentavam as calas de ganga. Muito bem, tudo isso concorria, mas havia ali mais qualquer 
coisa. Seria... o qu? No a conhecia, no sabia nada dela. Lexie falara muito sobre livros e 
sobre a me, mas, para alm disso, ele no ficara a saber fosse o que fosse sobre dela. 

Estava ali para escrever um artigo mas, de repente, teve a sensao profunda de que 
preferiria passar as horas seguintes na companhia de Lexie. Desejaria passear com ela pelo 
centro de Boone Creek ou, ainda melhor, jantar com ela num restaurante romntico, fora da 

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vila, onde os dois pudessem estar ss para ficarem a conhecer-se melhor. Era uma mulher 
misteriosa e ele adorava mistrios. Os mistrios conduzem sempre a surpresas e, enquanto a 
seguia a caminho da sala de livros raros, no pde deixar de pensar que esta viagem s 
terras do Sul estava a tornar-se muito mais interessante. 

A sala de livros raros era pequena, provavelmente fora um quarto; alm disso, estava 
dividida por um balco baixo, de madeira, que ia de um lado ao outro. As paredes tinham 
sido pintadas da cor bege da areia do deserto, o cho de madeira dura estava gasto, mas 
continuava direito. Por trs do pequeno balco, a parede estava ocupada por estantes com 
livros; num dos cantos, havia uma caixa com tampa de vidro, como se albergasse uma 
relquia, com um televisor e um gravador de vdeo ao lado, onde certamente se guardavam 
as cassetes com a Histria do Estado de Carolina do Norte. Do lado oposto  porta havia 
uma janela e, por baixo desta, uma antiga secretria com tampo de correr. Uma pequena 
mesa com uma mquina de leitura de microfichas estava  direita de Jeremy. Lexie dirigiu-se 
para l. Abriu o tampo da secretria, de onde retirou uma pequena caixa de carto. 

Colocada a caixa em cima da mesa, procurou por entre as transparncias e escolheu uma. 
Inclinando-se diante dele, ligou a mquina e inseriu a placa transparente, ajeitando-a at o 
artigo ficar devidamente centrado. Uma vez mais, Jeremy sentiu um ligeiro odor ao perfume 
dela e, momentos depois, tinha o artigo  frente dos olhos. 

-Pode comear por este -sugeriu Lexie. -Vou procurar durante mais uns minutos, vendo se 
encontro mais algum material para si. 

-Foi rpido - elogiou ele. 
-No foi muito difcil. Lembrava-me da data do artigo. 
-Impressionante. 
-Nada de verdadeiramente difcil.  o dia dos meus anos. 
-Vinte e seis? 
- volta disso. Ora bem, vamos l ver o que consigo encontrar a seguir. 
Voltou-se e tornou a passar pela porta giratria. 
-Vinte e cinco? - bradou para as costas dela. 
-Boa tentativa, Mr. Marsh. Mas, no me apetece jogar. 
Ele soltou uma gargalhada. Aquela ia ser, sem dvida, uma semana muito interessante. 

Jeremy concentrou a ateno no artigo e comeou a ler. Escrito tal qual como ele esperava, 
com jatncia e sensacionalismo, com suficiente altivez para presumir que todas as pessoas 
que viviam em Boone Creek sabiam, desde sempre, que aquele era um lugar extra-especial. 

Leu muito pouca coisa que no conhecesse j. O artigo falava da lenda original, 
descrevendo-a, embora com pequenos pormenores, quase nos mesmos termos que a Doris 
utilizara. No artigo, Hettie tinha reunido com os vereadores e no com o presidente da 
Cmara, alm de ser natural da Louisiana e no das Carabas. O interessante  que, segundo 
parecia, ela tinha proferido a maldio  porta da Cmara, o que provocou um tumulto, em 
conseqncia do qual foi metida na cadeia. Na manh seguinte, quando os guardas iam abrir 
a cela para a soltar, a mulher tinha desaparecido, desvanecera-se no ar. Depois disso, por 
recear que ela lanasse uma maldio sobre a famlia dele, o xerife recusara-se a prend-la 
de novo. Contudo, aquilo acontecia com todas as lendas: narrativas que iam sendo 
renovadas, ligeiramente alteradas para se tornarem mais atrativas. E ele no podia deixar de 
admitir que a parte respeitante ao desaparecimento era interessante. Tinha de descobrir se a 
mulher fora efetivamente presa e se conseguira realmente fugir. 

Olhou por cima do ombro. Ainda no havia sinais de Lexie. Voltando a concentrar-se no 
monitor, pensou que poderia tentar ampliar o que Doris lhe contara sobre de Boone Creek, 
pelo que moveu a placa de vidro que albergava a microficha e passou a ler outros artigos. 

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Num total de quatro pginas eram concentradas as notcias de toda uma semana, o jornal 
saa  tera-feira, e depressa ficou a conhecer aquilo que a vila tinha para oferecer. Uma 
leitura emocionante, a menos que se pretendesse saber de algum acontecimento que 
estivesse a passar-se em qualquer outra parte do mundo, ou se algum procurasse algo 
para se manter acordado. Leu a histria de um jovem que ajardinara a frente do edifcio 
VFW, para conquistar o direito de entrada nos Eagle Scouts, a notcia da abertura de uma 
nova loja de limpeza a seco, na Main Street, e o relato da reunio do Conselho Municipal em 
que o tema principal era deciso de colocar, ou no colocar, um sinal de trnsito em Leary 
Point Road. Um acidente de trnsito, em que dois homens da terra sofreram ferimentos 
ligeiros, teve direito a primeira pgina em dois nmeros seguidos. 

Jeremy recostou-se na cadeira. 

Ora bem, a vila era justamente aquilo que ele esperava. Calma e sonolenta, especial no 
sentido em que todas as pequenas comunidades reclamam s-lo, mas nada mais do que 
isso. Era o gnero de vila que continuava a existir mais como resultado de um hbito do que 
por qualquer qualidade digna de realce, que nas dcadas seguintes, com o envelhecimento 
da populao, iria desaparecendo. No havia ali futuro, pelo menos a longo prazo... 

-A informar-se sobre a nossa excitante vila? -perguntou Lexie. Ele deu um salto, 
surpreendido por no a ter ouvido chegar perto de si e a sentir-se estranhamente triste com 
as condies de existncia da vila. 

-Pois estou. E  excitante, tenho de o admitir. A histria do escuteiro foi espantosa. 
Caramba! 

-Jimmie Telson -informou Lexie. -, na realidade, um mido fantstico. Certinho e 
bastante bom no basquetebol. O pai dele morreu no ano passado, mas ele continuou a fazer 
trabalho voluntrio por toda a vila, mesmo que agora tenha um emprego a tempo parcial no 
Pete's Pizza. Temos orgulho nele. 

-J sei tudo sobre o mido. 
Ela sorriu, a pensar:  claro que sabes. " 
-Veja isto - pediu, a pr uma pilha de livros ao lado dele -, estes devem ser suficientes, para 
j. 
Jeremy deu uma vista de olhos, cerca de uma dzia de ttulos. 

-Julgo ter ouvido dizer que seria melhor utilizar dirios. Todos estes livros so de histria 
geral. 

-Eu sei. Mas no quer comear por perceber o perodo em que foram escritos? 
Ele hesitou, mas acabou por anuir: 
-Suponho que sim. 
-timo -disse Lexie com ar ausente ao puxar para cima a manga da camisola. -E encontrei 
um livro de fantasmas em que poder estar interessado. Tem um captulo em que discute 
Cedar Creek. 

-Isso  excelente. 
-Bom, nesse caso, deixo-o. Voltarei mais tarde para ver se precisa de mais alguma coisa. 
-No vai ficar aqui? 
-No. Como lhe disse, tenho muito que fazer. Quanto a si, pode ficar aqui ou sentar-se 
numa das mesas da rea principal. No entanto, preferia que os livros no sassem deste 
andar. Nenhum desses livros pode ser requisitado para leitura domiciliria. 

-Nem eu me atreveria - confessou Jeremy. 
-Agora, Mr. Marsh, se me permite, tenho mesmo de ir. E no se esquea que, embora a 
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biblioteca esteja aberta at as 19 horas, a seo de livros raros fecha s 17. 

-Mesmo para os amigos? 
-No. Deixo-os ficar o tempo que desejarem. 
-Nesse caso, vejo-a s 19? 
-No, Mr. Marsh. Virei c s 17 horas. 
Ele riu. - Talvez amanh me deixe ficar at mais tarde. Lexie ergueu o sobrolho, mas no lhe 
deu resposta, para depois dar uns passos em direo  porta. 

-Lexie. 
Ela voltou-se. 
-O que ? 
-At agora, a sua ajuda tem sido fantstica. Obrigado. 
Presenteou-o com um sorriso adorvel, espontneo. 
-No tem de qu. 
Jeremy passou as duas horas seguintes a analisar informaes sobre a vila. Folheou os livros 
um por um, e foi observando as gravuras e lendo os captulos que lhe pareceram mais 
apropriados. 

A maior parte da informao disponvel referia  histria primitiva da vila; no bloco de notas 
que tinha ao seu alcance, foi tomando nota dos elementos que lhe pareceram relevantes. 
Verdade que ainda no tinha certezas sobre do que era relevante; era demasiado cedo para 

o saber mas, mesmo assim, no tardou que tivesse duas pginas inteiras de apontamentos. 
Por experincia, tinha a noo de que a melhor maneira de abordar uma histria daquelas 
era comear pelo que sabia; ora bem, o que  que ele sabia ao certo? Que o cemitrio 
estivera em uso durante mais de cem anos sem quaisquer sinais das misteriosas luzes. Que 
as luzes tinham comeado a aparecer uns cem anos antes e que as aparies eram 
regulares, mas s ocorriam quando havia nevoeiro. Que tinham sido avistadas por muitas 
pessoas, o que significava no ser provvel que as luzes fossem meras figuras da 
imaginao. Alm de no ter dvidas de que, agora, o cemitrio estava a afundar-se. 

Portanto, passado um par de horas, no sabia muito mais do que quando comeara. Como a 
maioria dos mistrios, este era um quebra-cabeas com muitas peas dispersas. A lenda, 
quer Hettie tenha ou no lanado uma maldio sobre a vila, era, no essencial, uma 
tentativa de juntar algumas peas numa forma compreensvel. Contudo, como a lenda tinha 
por base uma razo falsa, isso significava que algumas peas, estivessem onde estivessem, 
estavam a ser mal interpretadas ou ignoradas. J no lhe restavam dvidas de que Lexie 
tinha toda a razo. Havia que ler tudo, de modo a no lhe escapar qualquer pormenor. 

Nenhum problema. De fato, aquela era a parte mais agradvel. Muitas vezes, a pesquisa da 
verdade era bastante mais interessante do que o prprio ato de redigir as concluses; por 
isso, deu consigo imerso no assunto. Descobriu que Boone Creek foi fundada em 1729, o 
que fazia dela uma das mais antigas povoaes do estado e que, durante muito tempo, no 
passara de um pequeno entreposto, nas margens dos rios Pamlico e Creek. Com o avanar 
do sculo, tornou-se um porto pouco importante do sistema interior de canais de navegao 
e, com o aparecimento dos barcos a vapor, em meados do sculo XIX, o crescimento da 
povoao acelerou-se. Para finais do sculo XIX, a febre do caminho-de-ferro atingiu a 
Carolina do Norte, muitas florestas desapareceram e instalaram-se numerosas pedreiras. A 
vila foi uma vez mais afetada, devido  sua localizao, como uma espcie de porta de 
acesso  costa. Depois disso, a vila seguiu a tendncia de altos e baixos da economia do 
resto do estado, embora a populao se tivesse mantido estvel at 1930. No 
recenseamento mais recente, a populao da regio sofrera uma reduo efetiva, o que no 

o surpreendeu nada. 
#
Tambm leu o artigo sobre o cemitrio includo no livro dos fantasmas. Na nova verso, 
Hettie amaldioava a vila, no por causa da remoo dos cadveres do cemitrio, mas por 
ter-se recusado a sair do passeio na altura em que a mulher de um dos vereadores se 
cruzara com ela. Contudo, como ela era olhada quase como uma figura espiritual em Watts 
Landing, escapou  priso, o que levou alguns dos habitantes mais racistas a tomar a causa 
nas suas prprias mos e a provocar grandes estragos no cemitrio dos negros. Num ataque 
de fria, Hettie amaldioou o cemitrio de Cedar Creek e jurou que os seus antepassados 
haviam de minar as terras do cemitrio at que a terra o engolisse inteiro. 

Jeremy recostou-se na cadeira, a pensar. Trs verses completamente distintas da mesma 
lenda. Bem gostaria de saber o que isso significava. 

Como pormenor interessante, o autor do livro, A. J. Morrison, tinha includo um post 
scriptum em que dizia que o cemitrio de Cedar Creek tinha efetivamente comeado a 
afundar-se. De acordo com os estudos realizados, o cemitrio tinha-se afundado cerca de 
cinqenta centmetros; o autor no dava qualquer explicao. 

Jeremy verificou a data de publicao. O livro fora escrito em 1954 e, pelo aspecto que o 
cemitrio agora apresentava, ele calculava que teria descido mais uns sete ou oito 
centmetros. Escreveu uma nota para procurar observaes feitas nesse perodo, bem como 
as efetuadas em datas mais recentes. 

No entanto, enquanto absorvia os dados, de vez em quando espreitava por cima do ombro, 
na expectativa de ver a Lexie regressar. 

Do outro lado da vila, na parte lisa do campo de golfe, na zona do dcimo quarto buraco e 
com o celular apertado contra a orelha, o presidente da Cmara ficou muito atento a ouvir 
quem tinha feito a chamada, uma tarefa difcil devido ao rudo da esttica. A recepo era 
m naquela parte da vila e o presidente gostaria de saber se pr o ferro nmero cinco acima 
da cabea o ajudaria a encontrar um sentido para o que estavam a comunicar-lhe. 

-Esteve no Herbs? Hoje, ao almoo? Viste o Primetime Live? 
Acenou, a fingir que no tinha visto que o seu adversrio do golfe, que por sua vez fingia 
no ver onde tinha cado a sua bola, a encontrara atrs de uma rvore e lhe dera um 
pontap para a colocar numa posio mais favorvel. 

-Achei-a! -gritou o outro, ao comear a preparar nova tacada. O companheiro de jogo do 
presidente era useiro e vezeiro naquelas manigncias, que por acaso no o perturbavam 
muito, pois ele fazia exatamente a mesma coisa. De outra forma, no lhe seria possvel 
manter o seu handicap de trs pontos. 

Entretanto, com a chamada prestes a terminar, o companheiro voltou a enviar a bola para o 
meio das rvores. 

-Maldio! - gritou. O presidente ignorou-o. 
-Bom, isto est a ficar interessante - comentou para o bocal, a sentir a cabea s voltas com 
as possibilidades que se ofereciam -, e agradeo o teu telefonema. Agora, tem cuidado. 
Adeus. 
Fechou o celular no preciso momento em que o companheiro se aproximava. 

-Espero ter conseguido um bom ponto de queda para esta bola. 
-No me preocuparia muito com isso -respondeu o presidente, a ponderar os ltimos 
acontecimentos na vila. - Estou certo que vais ach-la exatamente onde a queres. 

-Quem  que estava ao telefone? 
-O destino - anunciou. - E, se fizermos as jogadas certas, talvez seja a nossa salvao. 
Duas horas depois, quando o Sol comeava a desaparecer abaixo das copas das rvores e as 
sombras comeavam estendendo-se sobre as janelas, Lexie enfiou a cabea  entrada da 
sala dos livros raros. 

#
-Como  que correu? 
Olhando por cima do ombro, Jeremy sorriu. Ao afastar a cadeira da secretria e passando os 
dedos pelos cabelos, comentou: 

-timo. Aprendi bastante. 
-J conseguiu encontrar a resposta mgica? 
-No, mas estou a aproximar-me. Sinto-o. 
Lexie entrou na sala. 
-Ainda bem. Mas, como lhe tinha dito, costumo fechar esta parte s 17 horas, de modo a 
preparar-me para a chegada dos leitores que vm c depois de sarem dos empregos. 
Ele ps-se de p. 


-No h problemas. De qualquer forma, estou a ficar um pouco cansado. Foi um longo dia. 
-Estar aqui amanh logo pela manh, no ? 
-Estava pensando em nisso. Porqu? 
-Bom, normalmente, no final do dia, volto a pr os livros nas estantes. 
-No seria possvel deix-los ficar como esto agora? Tenho a certeza de que terei de voltar 
a consultar a maioria deles. 
Ela ficou a Refletir por momentos. 
-Acho que no faz mal. No entanto, fica avisado de que se no estiver c logo pela manh, 


concluirei que me enganei consigo. 
Ele assentiu, de aspecto solene. 

-Prometo que no a deixarei ficar mal. No sou esse gnero de homem. 
Lexie rolou os olhos, pensando em na insistncia dele. Tinha de concordar que o homem era 
persistente. 

-Tenho a certeza de que diz isso a todas as mulheres, Mr. Marsh. 
Ele negou, mantendo-se apoiado na secretria. 
-No. De fato, sou muito tmido. 
A bibliotecria encolheu os ombros. 
-Isso diz-me o que eu j sabia. Sendo um jornalista da grande cidade, julguei-o um 
mulherengo. 


-E isso incomoda-a? 
-No. 
-timo. Porque, como sabe, as primeiras impresses podem ser enganosas. 
-Oh, compreendi isso desde o princpio. 
-Deveras? 
-sem dvida. Quando o vi pela primeira vez, no cemitrio, pensei que tinha vindo assistir a 
um funeral. 

#
CINCO 

Quinze minutos mais tarde, depois de percorrer uma estrada asfaltada que deu lugar a uma 
outra estrada de terra batida com gravilha, um tipo de estrada de que as gentes da regio 
deviam apreciar muito, Jeremy deu consigo a parar o carro no meio de um brejo, mesmo em 
frente de um sinal pintado  mo onde se lia Greenleaf Cottages". O que o levou a recordar 
a noo de que nunca se deve confiar numa Cmara de Comrcio local. 

Moderno no era. Ou teria sido moderno trinta anos antes. Ao todo, havia seis pequenas 
vivendas dispostas ao longo da margem do rio. Construdas em madeira, a precisar de 
pintura, telhados de zinco, chegava-se  porta de cada uma atravs de um estreito carreiro 
de terra, que irradiava de uma vivenda central, onde, pensou Jeremy, deveria ser o 
escritrio. Era buclico, tinha de admitir, mas parte da rusticidade inclua provavelmente 
mosquitos a jacars, animais que no lhe aumentavam muito a vontade de ficar ali. 

Enquanto estava a Refletir sobre a idia de procurar sequer o escritrio, pois recordava-se 
de ter passado por cadeias de hotis em Washington, a cerca de quarenta minutos de Boone 
Creek, ouviu o som de um carro que vinha pela estrada e reparou num Cadillac castanho 
que vinha na sua direo, a balouar  toa por causa dos buracos do piso e depois a cuspir 
pedras, ao parar. 

Da porta do automvel irrompeu um homem obeso e calvo, que parecia enervado. Metido 
numas calas de polister verde e numa camisola azul de gola alta, o homem parecia ter-se 
vestido s escuras. 

-Mr. Marsh? 
Jeremy olhou-o, estupefato. 
-Sou. 
O homem apressou-se a dar a volta ao carro. Nele, tudo parecia mexer-se depressa. 
-Bom, ainda bem que consegui apanh-lo antes de entrar no hotel! Queria ter uma 
oportunidade de conversar consigo! Nem sou capaz de lhe exprimir o quanto todos estamos 
excitados com a sua presena entre ns! 
Parecia sem flego ao estender a mo para apertar vigorosamente a de Jeremy. 


-Eu conheo-o? - indagou Jeremy. 
-No, no,  claro que no -replicou o homem, a rir-se com vontade. -Sou Tom Gherkin, o 
presidente da Cmara. Como o dos pickles, mas pode tratar-me por Tom -esclareceu, 
soltando nova gargalhada. -Desejaria ter estado presente para lhe dar as boas-vindas  
nossa bonita vila. Desculpe a minha aparncia. T-lo-ia recebido no edifcio da Cmara, mas, 
logo que soube que estava c, vim diretamente do campo de golfe. 

Ainda em estado de choque, Jeremy analisou o homem. Pelo menos, a indumentria estava 
explicada. 

-O senhor  o presidente da Cmara? 
-Desde 1994.  uma espcie de tradio de famlia. O meu pai, Owen Gherkin, foi 
presidente durante vinte e quatro anos. Manifestava grande interesse pela vila, o meu pai. 
Sabia tudo o que havia a saber sobre desta terra. Como se sabe, ser presidente da Cmara  
um emprego a tempo parcial.  mais uma posio honorria. Se quer saber vendodade, 
passo mais tempo nas minhas atividades de comerciante. Sou o dono do centro comercial e 
da estao de rdio, no centro da vila. Melodias antigas. Gosta das melodias de 
antigamente? 

-Claro - respondeu Jeremy. 
-Bom, bom. Calculei isso no preciso momento em que o vi. Disse para comigo A est um 
#
homem que aprecia boa msica". Eu no consigo suportar a maior parte dessas porcarias a 
que agora chamam msica. Provocam-me dores de cabea. A msica deveria servir para 
confortar a alma. Compreende o que quero dizer? 

-Claro - repetiu Jeremy, a tentar conter o riso. 
O outro riu. 

-Tinha a certeza de que compreenderia. Bom, como eu disse, nem consigo dizer quanto nos 
sentimos entusiasmados por o senhor estar aqui para escrever uma histria sobre a nossa 
bonita vila.  exatamente disso que a vila necessita. Quero dizer, quem  que no aprecia 
uma boa histria de fantasmas? As gentes de c esto verdadeiramente excitadas, pode 
crer. Primeiro, foram os tipos da Duke, depois, o jornal da terra. E agora um jornalista da 
grande cidade. A notcia est a espalhar-se, o que  bom. Ora, ainda na semana passada 
recebemos um pedido de um grupo do Alabama, que deseja passar c uns dias no prximo 
fim-de-semana para fazer o Circuito das Manses Histricas. 

Jeremy abanou a cabea, a tentar acalmar as guas. 

-Mas como  que soube que eu estava c? 
O presidente Gherkin assentou-lhe uma palmada amigvel no ombro e, quase sem Jeremy 
dar por isso, estavam a encaminhar-se para a vivenda de recepo. 

-As novidades correm, Mr. Marsh. Progridem como os fogos florestais. Sempre foi assim e 
nunca dei xar de ser assim. Faz parte da seduo deste lugar. Isso, mais a beleza natural. 
Dispomos de algumas das melhores zonas de pesca e de caa aos patos de todo o estado, 
sabia? Vem gente de todo o lado, mesmo pessoas famosas, e na sua maioria ficam aqui, no 
Greenleaf. Isto  uma pequena amostra do Paraso, se quer saber a minha opinio. Uma 
vivenda s para si, calma, no meio da Natureza. Poder ouvir os pssaros e os grilos durante 
toda a noite. Aposto que o vai obrigar a encarar todos aqueles hotis de Nova Iorque com 
olhos diferentes. 

-J est acontecendo - admitiu Jeremy. O homem era um poltico da cabea aos ps. 
-E no se preocupe com as serpentes. 
Os olhos de Jeremy esbugalharam-se: 

-serpentes? 

-Estou certo de que deve ter ouvido falar do assunto, mas no se esquea de que todo o 
caso no passou de um mal-entendido. H pessoas que no tm um mnimo de bom senso. 
Contudo, como lhe disse, no se preocupe com elas. De qualquer forma, normalmente as 
serpentes s aparecem durante o Vero.  claro que no o aconselho a procur-las debaixo 
das moitas, ou coisa do gnero. As serpentes da zona costeira podem tornar-se perigosas. 

-Ah! -exclamou Jeremy, a tentar resumir numa resposta a viso que sentia a formar-se 
dentro da cabea. Odiava serpentes. Ainda mais do que mosquitos e jacars. 

-Na verdade, estava a pensar. 
O presidente Gherkin suspirou profundamente, o suficiente para interromper a resposta de 
Jeremy e olhou  volta, como se quisesse ter a certeza de que o seu ouvinte notava o 
quanto ele, presidente, apreciava aquele cenrio natural. 

-Ora diga-me, Jeremy... no se importa que o trate por Jeremy? 
-No. 
-Muito amvel da sua parte. Muito amvel. Portanto, Jeremy, estava eu pensando em se 
acha que um desses programas de televiso poder pegar na histria que escrever sobre da 
terra. 

-No fao idia. 
#
-Bom, porque se o fizerem, vamos desenrolar a passadeira vermelha para os recebermos. 
Mostrar-lhes vendodadeira hospitalidade sulista. Vamos aloj-los aqui mesmo, no Greenleaf, 
despesas por nossa conta. Alm de que tero, sem dvida, uma enorme histria para contar. 
Muito melhor do que o senhor fez no Primetime. Porque ns temos aqui o produto genuno. 

-Tem de perceber que eu sou antes de mais um jornalista. Normalmente, no tenho nada 
vendo com a televiso. 

-No, certamente que no -disse o presidente Gherkin, a erguer as sobrancelhas, com 
notria descrena. - S faz o seu trabalho e depois veremos o que acontece. 

-Estou falando a srio - insistiu Jeremy. 
Franziu de novo a testa. 
-Pois  claro que est. 
Jeremy no sabia muito bem o que poderia dizer para o dissuadir; um dos motivos era a 
possibilidade de ele ter razo; momentos depois, o presidente Gherkin estava a empurrar a 
porta da recepo. Se  que assim se lhe poderia chamar. 

O aspecto era o de um lugar que no sofrera qualquer remodelao durante a ltima 
centena de anos; as paredes de madeira recordavam os rolos que se encontram nas cabanas 
feitas com rolos de rvores. Por trs do balco, preso  parede, estava um grande peixe de 
gua doce, um micropterus salmoides muito apreciado para pesca desportiva; por todo o 
lado, em todos os cantos e paredes, em cima do armrio de arquivo e da secretria, viam-se 
animais embalsamados: coelhos, esquilos, sariguias, jaritatacas e um texugo. Contudo, ao 
contrrio de muitos animais empalhados que Jeremy j tinha visto, todos estes tinham sido 
montados em atitude de defesa, como se estivessem encurralados. As bocas estavam 
arranjadas em atitude de rosnar, os corpos arqueados, dentes e mandbulas  mostra. 
Jeremy estava ainda a tentar absorver as imagens quando, ao olhar para um canto, viu um 
urso e deu um salto. Como acontecia com os outros animais, tambm o urso tinha as garras 
estendidas em posio de ataque. O lugar era um Museu de Histria Natural transformado 
num filme de terror e apertado no espao de um armrio. 

Por trs do balco, estava um homem de barba forte, com os ps levantados, sentado em 
frente de um televisor. A imagem era m, com linhas verticais a percorrerem o monitor com 
intervalos de segundos, tornando quase impossvel perceber o que  que estava a ser 
transmitido. 

O homem ps-se de p e foi-se estendendo at ficar com a cabea bem acima da de 
Jeremy. Tinha mais de 2, 10 de altura, os ombros mais largos do que os do urso empalhado 
ao canto do escritrio. Vestido com um fato-macaco de alas e uma camisa de quadrados, 
agarrou numa ficha e colocou-a em cima do balco. 

Apontou para Jeremy e para a ficha. No sorriu; para todos os efeitos, parecia no querer 
nada mais que no fosse estender os braos para o corpo do Jeremy e bater-lhe, para 
depois o empalhar e suspender na parede. 

Gherkin riu, o que no constituiu surpresa. Jeremy j tinha reparado que o homem se ria 
muito. 

-No tenha quaisquer preocupaes a respeito dele 
-apressou-se a aconselhar o presidente. -Aqui o nosso Jed no gosta muito de falar com 
estranhos. Preencha a ficha e estar pronto para conseguir o seu pequeno lugar no Paraso. 

De olhos esbugalhados, Jeremy continuava a fitar o homem, que era a pessoa mais 
medonha que alguma vez encontrara. 

-No  apenas o dono do Greenleaf; tambm  membro do Conselho Municipal e  o 
taxidermista local - acrescentou Gherkin. 

-No acha que  uma atividade incrvel? 
#
-Incrvel - repetiu Jeremy, forando-se a sorrir. 
-se caar qualquer coisa aqui  volta, venha ter com o Jed. Ele far o que deve ser feito. 
-Vou tentar no me esquecer disso. 
Os olhos do presidente brilharam de sbito. 
-Voc  caador, no  verdade? 
-Para lhe ser franco, no cao muito. 
-Pois bem, talvez mude de idias enquanto c estiver. J lhe disse que temos aqui 
condies espetaculares para a caa aos patos, no disse? 
Enquanto Gherkin falava, Jed apontou novamente a ficha com o seu dedo macio. 
-Olha l, no estejas a intimidar o nosso amigo -interveio o presidente. -Ele  de Nova 


Iorque,  um jornalista da grande cidade, tens de o tratar bem. 
O presidente Gherkin voltou a concentrar a ateno em Jeremy. 

-E Jeremy, s para que saiba, a vila ter muito gosto em custear a sua acomodao aqui. 
-No  necessrio. 
-Nem mais uma palavra -interrompeu, acompanhando as palavras com um gesto de 
recusa. -A deciso j foi tomada pelas mais altas instncias -prosseguiu, erguendo o 
sobrolho. -A propsito, sou eu. Mas  o mnimo que podemos fazer por um hspede to 
distinto. 

-Bom, obrigado. 
Jeremy pegou na caneca e comeou a preencher a ficha de registo, a sentir os olhos de Jed 
fixos nele e pensando em no que poderia acontecer se mudasse de idias e resolvesse no 
ficar ali. Gherkin inclinou-se sobre o seu ombro. 

-J lhe disse quanto estamos excitados por o termos na vila? 
Do outro lado da vila, numa vivenda branca com gelosias azuis situada numa rua calma, 
Doris estava a saltear bacon, cebolas e alhos, enquanto uma panela de massa cozia noutro 
bico do fogo. Lexie encontrava-se junto ao lava-loua, a cortar tomates e cenouras que ia 
passando por gua. Depois de sair da biblioteca, passara por casa de Doris, como fazia em 
alguns dias da semana. Embora tivesse casa prpria ali perto, era freqente jantar com a 
av. Manter os velhos hbitos e tudo isso. 

O rdio colocado no peitoril da janela transmitia msica de jazz. Para alm da conversa 
superficial tpica entre pessoas de famlia, nenhuma dissera algo de importante. Para Doris, o 
motivo era o seu longo dia de trabalho. Depois de um ataque cardaco, dois anos antes, 
cansava-se mais facilmente, mesmo que no estivesse disposta a admitir tal coisa. Para 
Lexie, o motivo chamava-se Jeremy Marsh, embora a conhecesse suficientemente bem para 
no contar nada  av. Esta sempre manifestara um profundo interesse pela vida pessoal da 
neta, pelo que Lexie tinha apreendido a evitar o tema sempre que possvel. 

Lexie sabia que a av s queria o bem dela. Doris no conseguia perceber como  que 
algum na casa dos trinta anos ainda no tinha assentado, chegara ao ponto em que se 
punha a imaginar motivos para a neta no se ter casado. Por mais esperta que se 
mostrasse, Doris era da velha escola; casara aos vinte anos e passara os quarenta anos 
seguintes com o homem que adorava, at ele ter falecido, trs anos antes. Afinal, Lexie fora 
criada pelos avs, pelo que podia perfeitamente, em poucas palavras, condensar todas as 
preocupaes e desejos de Doris sobre dela: era tempo de encontrar um bom homem, 
assentar, mudar-se para uma casa rodeada por uma sebe branca e ter filhos. 

Lexie sabia que no havia nada de extraordinrio naqueles desejos da av. Naquela terra era 

o que se esperava das mulheres. E, quando algumas vezes se decidia a ser franca consigo 
mesma, Lexie tambm se sentia atrada por esse gnero de vida. Contudo, para isso era 
#
preciso comear por encontrar o homem certo, algum que lhe inspirasse confiana, a quem 
ela sentisse orgulho em chamar o seu homem. Era aqui que neta e av divergiam. Doris 
parecia pensar que um homem decente, de bons costumes, com um bom emprego, era tudo 
aquilo a que uma mulher podia razoavelmente aspirar. No passado, talvez aquelas 
qualidades fossem as necessrias e suficientes. Mas Lexie no queria comprometer-se com 
algum s por se tratar de um homem decente e com um bom emprego. Era provvel que 
alimentasse expectativas irrealistas, mas Lexie pretendia tambm estar apaixonada por ele. 
Por mais gentil e responsvel que um homem se mostrasse, se no sentisse qualquer paixo 
por ele, no conseguiria deixar de pensar que apenas pretendia arrumar-se, com algum; 
assim no lhe servia. No seria justo para ela; tambm no seria justo para ele. Pretendia 
um homem sensvel e meigo que, simultaneamente, a entusiasmasse. Queria algum que se 
oferecesse para lhe massajar os ps depois de um longo dia de trabalho, mas que tambm 
fosse capaz de a desafiar em termos intelectuais. Um romntico, certamente, o gnero de 
homem que no precisasse de um motivo especial para lhe oferecer flores. 

No era pedir muito. Ou seria? 

Segundo a Glamour, a Ladies' Home Journal e a Good Houseeeing, todas elas recebidas na 
biblioteca, era. Ao ler aquelas revistas, parecia que todos os artigos salientavam que manter 
vivo o interesse de uma relao era uma tarefa exclusiva das mulheres. Contudo, aquilo 
seria tudo o que deveria pedir-se de uma relao? Uma relao? Com cada um dos parceiros 
a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para manter o outro satisfeito? 

Ora, aquele era o problema com muitos dos casais que conhecia. Em qualquer casamento, 
existe um equilbrio subtil entre o que um pretende fazer e aquilo que o parceiro deseja; e, 
desde que o marido e a mulher faam aquilo que o outro deseja, nunca haver qualquer 
problema. As dificuldades acontecem quando uma das pessoas comea a fazer coisas sem se 
preocupar com a outra. O marido, de repente, decide que necessita de mais atividade sexual 
e trata de procur-la fora do casamento; a esposa decide que carece de mais afeto, o que a 
pode levar a fazer exatamente o mesmo. Um bom casamento, como qualquer outra relao, 
implica a necessidade de subordinar as necessidades pessoais de um parceiro s 
necessidades do outro, na expectativa de que o outro aja da mesma maneira. Tudo estar 
bem desde que cada um dos parceiros se mantenha fiel  sua parte do contrato. 

Porm, se a mulher no sentir paixo pelo marido, poder esperar-se isso? Lexie no tinha a 
certeza. A av teria, sem dvida, uma resposta pronta. Acredita em mim, meu amor, isso 
passa ao fim de um par de anos", diria, apesar de, na opinio da neta, os avs terem 
desfrutado de um tipo de relacionamento que faria a inveja de qual quer pessoa. O av era 
um daqueles homens naturalmente romnticos. At ao Fim, nunca deixou de abrir a porta do 
carro  mulher, ou de lhe dar a mo quando passeavam pela vila. Tinha-lhe sido to 
dedicado quanto fiel. Era evidente que a adorava e comentava com freqncia quanto era 
feliz por ter uma mulher como ela. Depois de ele morrer, uma parte de Doris comeou a 
morrer tambm. Primeiro o ataque cardaco, agora a artrite a piorar; era como se cada um 
sempre tivesse sido destinado a estar junto do outro. Tendo em mente o conselho dado pela 
Doris  neta, o que  que se conclua? Conclua-se apenas que Doris teve a felicidade de 
encontrar um homem como ele? Ou teria ela, antes de mais, visto nele algo que confirmava 
ser aquele o homem perfeito para ela? 

E, ainda mais importante, por que motivo estaria Lexie pensando em de novo em 
casamento? 

Provavelmente por estar em casa da av, a casa onde tinha crescido depois da morte dos 
pais. Havia uma familiaridade reconfortante no fato de estar ali, a cozinhar com a av, e 
recordava-se de que crescera pensando em que um dia havia de habitar numa casa como 
aquela. Madeira batida pelas intempries, teto de zinco que amplificava o som da chuva, 
fazendo crer que no estava a chover em qualquer outra parte do mundo; janelas fora de 
moda, com aros pintados tantas vezes que se haviam tornado quase impossveis de abrir. E 
tinha vivido numa casa como aquela. Bom, quase.  primeira vista, a casa dela e a da av 
eram semelhantes, ficavam na mesma zona, mas nunca lhe fora possvel replicar os aromas. 

#
Os guisados de sbado  tarde, o odor dos lenis secos ao sol, o cheiro ligeiramente 
bolorento da cadeira de balouo que o av tinha utilizado durante anos para descansar. 
Cheiros desses Refletiam uma maneira de viver tornada aprazvel com o conforto de muitos 
anos e, sempre que passava da porta da frente, sentia-se a imergir nas memrias 
eternamente presentes da infncia. 

Sempre imaginara, como  bvio, que viria a ter uma famlia prpria, talvez at filhos, mas 
no acontecera. Duas relaes tinham-se aproximado do modelo. Com Avery, uma relao 
que datava da faculdade e, depois dele, uma outra envolvendo um jovem de Chicago que, 
s durante um Vero, veio a Boone Creek visitar um primo. Parecia o clssico homem do 
Renascimento: falava quatro lnguas, passara um ano a estudar na Faculdade de Economia 
de Londres e pagava os estudos com uma bolsa de jogador de basquetebol. Mr. Renaissance 
era sedutor e extico; foi para ela uma paixo  primeira vista. Pensou que ele ia ficar ali, 
que iria amar aquela terra quanto ela a amava, mas, numa manh de sbado, acordou para 
saber que ele estava de regresso a Chicago. Nem sequer se dignara dizer-lhe adeus. 

E depois? Nada de verdadeiramente especial. Houve um par de tentativas, cada uma a durar 
uns seis meses, mas das quais mal se recordava. Uma fora com um mdico local, outra com 
um advogado; ambos a tinham pedido em casamento mas em qualquer das situaes no 
sentira a magia, a emoo ou o quer que fosse, aquilo que devemos sentir para sabermos 
que no  preciso procurar mais. Nos ltimos dois anos, as sadas com homens tinham sido 
mais raras e mais espaadas entre si, a no ser que inclusse as vezes que sara com Rodney 
Hopper, um ajudante do xerife da vila. Tinham sado cerca de uma dzia de vezes, mais ou 
menos uma sada em cada ms, sempre que havia festas de caridade em que ela era 
convidada a comparecer. Tal como Lexie, Rodney nascera e fora criado na vila e quando 
eram midos tinham participado juntos nas brincadeiras prprias da idade nos terrenos da 
igreja episcopaliana. Desde esse tempo, ele nunca deixou de procurar a companhia de Lexie 
e um par de vezes convidou-a para irem beber um copo  Lookilu Tavern. Por vezes, Lexie 
perguntava a si mesma se deveria acompanh-lo quando ele lhe pedia ou se deveria 
namor-lo normalmente, mas Rodney... bom, manifestava-se demasiado empenhado na 
pesca, na caa e nos exerccios de musculao e quase nada interessado em livros e em 
tudo o resto que acontecia pelo mundo fora. Era, contudo, um rapaz simptico e, pensava 
ela, poderia vir a ser um excelente marido. Mas no para ela. 

Ora bem, e ela, em que  que ficava? 

A vir a casa da av trs vezes por semana, pensava,  espera das inevitveis perguntas 
sobre a sua vida amorosa. 

-Ento, o que  que pensaste dele? - perguntou Doris logo que teve oportunidade. 
Lexie no pde deixar de sorrir. 
-De quem? - indagou, fazendo-sede inocente. 
-De Jeremy Marsh. De quem  que julgas que eu estava falando ? 
-No fao idia. Foi por isso que perguntei. 
-Deixa-te de fugir ao assunto. Ouvi dizer que ele passou umas horas na biblioteca. 
A neta encolheu os ombros. 
-Pareceu-me bastante simptico. Ajudei-o a procurar uns livros para ele poder comear o 
trabalho, nada mais. 

-No conversaste com ele? 
- claro que conversamos. Como disseste, ele demorou-se por l um bocado. 
Doris esperou que a neta prosseguisse, mas, ao reparar que ela no se mostrava disposta a 
isso, suspirou. 

-Pois bem, eu gostei dele - confessou. 
#
-Pareceu-me um verdadeiro cavalheiro. 
-Oh, e foi - concordou Lexie. 
-Perfeito. 
-No me parece que estejas falando com convico. 
-Que mais queres que eu diga? 
-Bom, gostaria de saber se deixou que o seduzisses com a tua brilhante personalidade? 
-Por que diabo havia isso de o interessar? S ficar uns dias na vila. 
-J te contei como foi que conheci o teu av? 
-Muitas vezes -respondeu Lexie, que se recordava muito bem da histria. Tinham-se 
conhecido num comboio, a caminho de Baltimore; ele era de Grifton e ia a uma entrevista 
para um posto de trabalho que nunca viria a ocupar, por ter escolhido ficar com ela. 

-Nesse caso sabes que  mais provvel encontrares algum quando menos o esperares. 
-Ests sempre a dizer isso. 
Doris enrugou a testa. 
-Porque tu achas que no precisas de me ouvir. 
Lexie trouxe a terrina da salada para a mesa. 
-No  preciso que te preocupes comigo. Sou feliz. Adoro o meu trabalho, tenho bons 
amigos e disponho de tempo para ler, para fazer desporto e outras coisas de que gosto. 

-E no te esqueas que tambm sou uma bno para ti. 
-Pois,  claro. Como  que poderia esquecer-me disso? 
Doris sorriu e prosseguiu com o cozinhado. Por momentos, fez-se silncio na cozinha e Lexie 
soltou um suspiro de alvio. Graas a Deus, tinha acabado, pelo menos por agora. E a av 
nem tinha pressionado muito. Agora, pensava, poderiam apreciar um jantar agradvel. 

-Achei-o bastante bonito - opinou Doris. 
A neta no respondeu; em vez disso, pegou em dois pratos e talheres que foi pr na mesa. 
Talvez fosse prefervel fingir que no estava a ouvir. 

-E, s para que saibas, ele tem muito mais do que tu pensas -prosseguiu a av. -Ele no  
aquilo que tu imaginas. 

Foi a maneira como disse aquilo que obrigou Lexie a deter-se. No passado reparara vrias 
vezes naquele tom de voz, quando ela queria sair com amigos do liceu e a av a convencia a 
no ir; quando quisera fazer uma viagem a Miami, uns anos antes, mas fora convencida a 
no ir. No primeiro caso, os amigos com quem pretendia sair tiveram um acidente de 
trnsito; no segundo, houve tumultos na cidade que se estenderam ao hotel onde ela 
planeara ficar. 

Sabia que por vezes a av tinha premonies. No tantas como a bisav. Contudo, mesmo 
que Doris no gostasse de dar explicaes adicionais, Lexie tinha plena conscincia de que a 
av intua sempre vendodade. 

A ignorar por completo que as linhas telefnicas estivessem ocupadas um pouco por todo o 
lado, com as pessoas a discutirem entre si a presena dele na vila, Jeremy estava na cama, 
coberto de roupa, vendo o noticirio da televiso local e  espera das previses 
meteorolgicas, enquanto lamentava no ter seguido o impulso inicial, no ter procurado 
outro hotel. Se o tivesse feito no teria de suportar as obras de arte artesanais de Jed, que o 
punham nervoso. 

Era bvio que o homem dispunha de muito tempo para trabalhar com as mos. 

#
E de muitas balas. Ou de chumbos. Ou de um bom pra-choques na carrinha. Ou l o que 
era que ele usava para matar todos aqueles animais selvagens. S ali no quarto havia doze 
animais empalhados; com a excepo de um segundo urso empalhado, de momento gozava 
da companhia de todas as espcies zoolgicas do estado de Carolina do Norte. No tinha 
dvidas de que Jed teria includo um urso, se tivesse um segundo espcime. 

Excluindo aquelas coisas, o quarto nem era mau de todo, desde que ele no estivesse  
espera de uma ligao de banda larga  Internet, ou de aquecer o quarto sem usar a lareira, 
pedir algo ao servio de quartos, ver televiso por cabo ou at fazer uma ligao num 
telefone com teclas. H quanto tempo no via um telefone de marcador circular? Dez anos? 
Quanto ao telefone, at a me dele tinha sucumbido perante o mundo moderno. 

O que ainda no acontecera com o Jed. O velho Jed deveria ter idias prprias sobre o que 
era importante para os seus hspedes. 

Contudo, se aquele quarto tinha algo de decente tratava-se, sem dvida, da varanda coberta 
das traseiras, de onde se avistava o rio. At continha uma cadeira de balouo, onde Jeremy 
chegou pensando em sentar-se, antes de desistir por recear as vboras. O que o levou a 
magicar o que  que o Gherkin quisera dizer quando falara num mal-entendido. No tinha 
gostado do tom da voz do homem. Deveria, sem dvida, ter feito umas quantas perguntas, 
tal como deveria ter indagado onde poderia encontrar lenha. O quarto estava absolutamente 
gelado, mas Jeremy alimentava uma suspeita engraada: estava convencido de que o Jed 
no atenderia a chamada se ele resolvesse telefonar para a recepo a perguntar pela lenha. 
Alm disso, o Jed metia-lhe medo. 

Chegou a altura de aparecer o meteorologista no noticirio. Com esforo, Jeremy levantou-
se da cama para ir aumentar o volume de som. Mexendo-se o mais rapidamente que podia, 
a tremer de frio, ajustou o aparelho e voltou a mergulhar para debaixo dos cobertores. 

O meteorologista foi de imediato substitudo por anncios. S imagens. 

Tinha estado a matutar se deveria sair e ir ao cemitrio, se houvesse hipteses de nevoeiro: 
No havendo, tentaria descansar. O dia fora longo; comeara no mundo moderno, tinha 
recuado cinqenta anos e agora tinha de dormir sob a ameaa do gelo e da morte. No era 
certamente o curso da sua vida de todos os dias. 

E havia que no esquecer a existncia da Lexie. Lexie, qualquer que fosse o apelido. Lexie, a 
misteriosa. Lexie que se expunha, retirava-se e voltava a expor-se. 

Ela tinha estado a espica-lo, no tinha? A maneira como insistia em trat-lo por Mr. 
Marsh? O fato de fingir que o tinha compreendido imediatamente? O comentrio sobre o 
funeral? Sem dvida estivera a espica-lo. 

Ou no estaria? 

O meteorologista reapareceu, parecendo acabado de sair da faculdade. O homem no teria 
mais de 23 ou 24 anos e aquele era certamente o seu primeiro emprego. Mostrava bem o 
entusiasmo de quem est a comear. Parecia, contudo, competente. No tropeava nas 
palavras e Jeremy percebeu, logo desde o incio, que no iria sair do quarto. Esperava-se 
cu limpo durante a noite e o homem no falou de qualquer possibilidade de nevoeiro para o 
dia seguinte. 

#
SEIS 

Na manh seguinte, depois de tomar duche com um fio de gua tpida, Jeremy enfiou-se 
numas calas de ganga, numa camisola e num bluso de couro castanho, e seguiu para o 
Herbs, que parecia ser o lugar mais popular da vila a fornecer cafs da manh. No centro da 
sala, verificou a presena do presidente Gherkin, que falava com dois homens de fato 
completo, e Rachel no tinha mos a medir com o servio das mesas. Jed estava sentado no 
lado mais afastado da sala, com as costas a parecerem uma montanha. Tully sentava-se 
numa das mesas do centro da sala, acompanhado de mais trs homens e, como seria de 
esperar, era de todos quem falava mais. Havia quem acenasse com a cabea e com as mos 
ao ver Jeremy passar e o presidente saudou-o erguendo a caneca de caf. 

-Viva, bom dia, Mr. Marsh - cumprimentou o presidente Gherkin em voz alta. - pensando em 
em coisas positivas para escrever sobre da nossa vila, segundo espero? 
-Tenho a certeza disso - cantarolou Rachel. 
-Espero que tenha encontrado o cemitrio -comentou Tully com voz arrastada. Inclinou-se 
para os companheiros de mesa. - Este  o mdico de que estava falando -vos. 

Jeremy acenava com a cabea e com as mos em resposta, a tentar evitar que o 
envolvessem em qualquer conversa. Nunca tinha sido madrugador e, ainda por cima, no 
tinha dormido bem. Gelo e morte, mais pesadelos em que entram vboras, conseguem 
provocar m disposio seja a quem for. Sentou-se a uma mesa do canto e Rachel moveu-se 
com eficincia na direo dele, levando consigo um bule de caf. 

-Hoje no h funeral? - escarneceu. 
-No. Decidi-me por um traje menos formal - explicou. 
-Caf, meu querido? 
-se faz favor. 
Pousada a chvena, encheu-a at ao bordo. 
-Esta manh, quer o especial? As pessoas nunca mais deixam de o pedir. 
-O que  o especial? 
-Uma omeleta Carolina. 
-timo -aceitou, sem fazer idia do que era uma omeleta Carolina, mas, com o estmago a 
dar horas qualquer comida lhe parecia boa. 

-Com aveia e um biscoito? 
-Porque no? 
-Volto dentro de uns minutos, meu querido. 
Jeremy foi beberricando o caf enquanto passava uma vista de olhos pelo jornal do dia 
anterior. Todas as quatro pginas, incluindo a primeira, com um artigo de fundo, eram 
dedicadas a Miss Judy Roberts, que acabava de celebrar o seu centsimo aniversrio, um 
marco agora atingido por 1,1 por cento da populao do pas. Junto do artigo fora includa 
uma fotografia da redao do jornal na casa de repouso, com um bolo de anos com uma 
nica vela acesa, enquanto Miss Roberts estava mais atrs, deitada na cama, com aspecto 
comatoso. 

Olhou pela janela, a perguntar a si mesmo o que o levara a olhar para o jornal da terra. Em 
frente do restaurante havia uma mquina de venda com o USA Today; estava a meter as 
mos nas algibeiras,  procura de moedas, quando um ajudante uniformizado se sentou do 
outro lado da mesa. 

O homem parecia simultaneamente zangado e extremamente robusto; os bceps faziam 

#
esticar as costuras da camisa e usava culos espelhados que tinham passado de moda... ora, 
uns vinte anos antes, pensou Jeremy, quando a srie CHiPS foi retirada. A mo estava 
apoiada na cartucheira, mesmo em cima do punho do revlver. Trazia um palito entre os 
dentes e fazia-o mudar de um canto para o outro da boca. No abriu o bico, preferindo olhar 
em frente, dar a Jeremy o tempo suficiente para apreciar a sua prpria imagem Refletida 
pelas lentes escuras. 

Uma situao, Jeremy tinha de o admitir, algo intimidativa. 

-Deseja alguma coisa? - indagou Jeremy. 
O palito mudou uma vez mais de lugar. Jeremy fechou o jornal, sem qualquer idia do que 
estava a acontecer. 

-Jeremy Marsh? - inquiriu a autoridade. 
-Sou. 
-Bem me pareceu. 
Acima do bolso do peito do ajudante, Jeremy notou uma chapa brilhante com o nome do 
agente gravado. Mais uma etiqueta. 

-E o senhor deve ser o xerife Hopper? 
-Ajudante Hopper - corrigiu. 
-Peo desculpa. Fiz algum mal, senhor ajudante? 
-No sei - respondeu Hopper. 
-Fez? 
-Que eu saiba, no. 
O ajudante Hopper fez o palito mudar novamente de posio. 
-Est a planear ficar por c uns tempos? 
-Durante uma semana ou duas. Estou c para escrever um artigo. 
-sei o motivo por que est c - interrompeu o ajudante. 

-S quis verificar por mim mesmo. Gosto de falar com estranhos que decidem ficar por aqui 
uns tempos. 

Deu muito nfase  palavra estranhos, como que a fazer sentir a Jeremy que isso era uma 
espcie de crime. No tinha a certeza de que uma resposta, qualquer que ela fosse, pudesse 
dissipar a hostilidade; por isso, resolveu aceitar o bvio. 

-Ah! - foi o seu nico comentrio. 
-Ouvi dizer que tenciona passar bastante tempo na biblioteca. 
-Bom. acho que poder acontecer. 
-Hum -rosnou o ajudante, a interromp-lo de novo. Jeremy estendeu a mo para a caneca 
de caf e bebeu um gole, a tentar ganhar tempo. 

-Lamento muito, ajudante Hopper, mas no fao idia do que est a acontecer. 
-Hum. 
-Olha l, Rodney, no ests a maar o nosso convidado, pois no? -bradou o presidente do 
outro lado da sala. 

- um visitante especial, est aqui para fazer aumentar o interesse pelo nosso folclore. 
O ajudante Hopper no vacilou nem desviou os olhos de Jeremy. Por qualquer motivo, 
parecia absolutamente furioso. 

#
-Estou apenas conversando com ele, senhor presidente. 
-Pois bem, deixa o homem tomar o caf da manh em paz -repreendeu Gherkin, a 
caminhar para a mesa. Agitou uma das mos. -Chegue aqui, Jeremy. H aqui umas pessoas 
que gostaria que conhecesse. 

O ajudante Hopper carregou o cenho ao ver Jeremy levantar-se da mesa para ir ao encontro 
do presidente Gherkin. 

Quando se aproximou, o presidente Gherkin apresentou-o a duas pessoas: uma era o 
macilento jurista do municpio, a outra um mdico de aspecto pesado que trabalhava no 
centro de sade local. Ambos pareceram avali-lo com a mesma intensidade usada pelo 
ajudante Hopper. Para reservarem a sua opinio, como eles dizem. Entretanto, o presidente 
estava a descrever a excitao provocada pela visita de Jeremy e o servio que ele podia 
prestar  vila. Inclinando-se para os outros dois, acenou com ares de conspirador. 

-Poderemos acabar no Primetime Live - sussurrou. 
-De verdade? -indagou o advogado. Jeremy pensou que o homem podia ser usado como 
esqueleto de estudo. 
Jeremy mudou o peso do corpo de um para o outro p. 


-Bom, como tenho estado desde ontem a tentar explicar ao senhor presidente... 
O presidente Gherkin interrompeu-o ao aplicar-lhe uma palmada nas costas. 
-Muito excitante - acrescentou o presidente. 
-Importante presena na televiso. 
Os outros deram mostras de solene assentimento. 

-E por falar da vila -acrescentou o presidente, numa sbita inspirao: -Hoje gostaria de o 
convidar para um jantar com alguns amigos ntimos. Nada de extravagncias,  claro, mas 
como vai ficar por c durante alguns dias, gostaria de lhe dar a oportunidade de conhecer 
algumas pessoas da terra. 

Jeremy ergueu ambas as mos. 

-Na verdade, no  necessrio... 
-Disparate - atalhou o presidente Gherkin. 
- o mnimo que podemos fazer. E, no se esquea, de que muitas das pessoas que vou 
convidar viram os fantasmas, pelo que ter a possibilidade de lhes arrancar as suas 
impresses, em conjunto. Vo contar-lhe coisas que talvez lhe provoquem pesadelos. 

Ergueu as sobrancelhas; o advogado e o mdico mantiveram-se na expectativa. A hesitao 
de Jeremy foi tudo o que o presidente precisava para concluir. 

-Poder ser por volta das 19 horas? 
-Sim... claro. Acho timo - concordou Jeremy. - Onde  que ser o jantar? 
-Informo-o um pouco mais tarde. Presumo que estar na biblioteca, certo? 
- provvel. 
O presidente ergueu as sobrancelhas. 
-Julgo que j conhece a nossa excelente bibliotecria, Miss Lexie? 
-Sim, j a conheo. 
-Uma pessoa impressionante, no ? 
Notava-se uma ligeira insinuao na maneira como a frase fora construda, algo parecido 
com uma conversa de balnerio. 

#
-Tem sido uma grande ajuda - confessou Jeremy. 
-Vamos, meu querido. Trago-lhe o caf da manh. 
Jeremy olhou de relance para o presidente. 
-Faa favor - pediu o presidente Gherkin, a acenar com as duas mos. 
Jeremy seguiu a empregada de regresso  sua mesa. Graas a Deus, o ajudante Hopper j 
tinha sado e Jeremy deslizou para a cadeira. Raquel colocou-lhe o prato em cima da mesa. 

-Bom proveito. Pedi-lhes que fizessem uma extra-especial, por se tratar de um visitante 
vindo de Nova Iorque. Adoro a cidade, absolutamente! 

-Oh, j l esteve? 
-Bem, ainda no. Sempre desejei l ir. A cidade parece-me to... deslumbrante, to 
excitante. 

-Devia ir.  um lugar nico em todo o mundo. 
Rachel sorriu, com um ar recatado. 
-Ora, Mr. Marsh... est a convidar-me? 
Jeremy ficou de boca aberta. Como? 
Por sua vez, a Rachel no pareceu reparar na expresso dele. 
-Bom,  bem provvel que tenha de me contentar com isso - chilreou. 
-E terei todo o prazer em lhe mostrar o cemitrio, numa noite qualquer em que tenha 
vontade de l ir. Habitualmente, despacho-me daqui por volta das dez horas. 

-Prometo no me esquecer -murmurou Jeremy. Durante os vinte minutos seguintes, 
enquanto Jeremy comia, Rachel veio junto da mesa uma dzia de vezes, despejando caf na 
caneca, uns milmetros de cada vez, sem nunca deixar de sorrir. 

Jeremy dirigiu-se para o carro, a recuperar do que deveria ter sido um caf da manh 
repousado. 

Ajudante Hopper. Presidente Gherkin. Tully. Rachel. Jed. Uma pequena cidade dos EUA era 
mais do que podia suportar-se antes do caf. 

No dia seguinte iria beber um caf noutro local qualquer. No estava convencido de que a 
comida do Herbs, que era fantstica, compensasse todas as maadas. At tinha de admitir 
que era bem melhor do que pensava que fosse. Conforme Doris afirmara no dia anterior, 
sabia a fresco, como se os ingredientes tivessem sido colhidos naquela mesma manh. 

No entanto, o caf do dia seguinte seria noutro local. Mas tambm no seria na estao de 
servio do Tully, mesmo que ele servisse caf. No queria meter-se em conversas, tinha 
mais que fazer. 

Parou subitamente, espantado. Meu Deus", pensou, j estou pensando em como esta gente. 
" 

Sacudiu a cabea e tirou as chaves da algibeira enquanto se dirigia para o carro. Pelo 
menos, o caf da manh estava despachado. Consultando o relgio, verificou que eram 
quase nove horas. timo. 

Lexie deixou-se ficar a olhar pela janela do seu gabinete, desde o momento exato em que 
Jeremy Marsh parou o carro no parque de estacionamento. 

Jeremy Marsh. Que no lhe saa da cabea, mesmo quando se dispunha a trabalhar. E 
vejam-no agora. A procurar vestir-se de forma mais casual, a tentar, supunha ela, misturar-
se com a gente da terra. E, de certo modo, quase o conseguia. 

Todavia, bastava de tretas. Tinha trabalho a fazer. O gabinete dela tinha estantes a toda a 
volta, a abarrotar de livros desde o teto at ao cho; livros empilhados de todas as 

#
maneiras, na vertical e na horizontal. O armrio de arquivo estava arrumado a um canto, a 
secretria e cadeira eram bastante funcionais. Havia ali pouco que pudesse ser considerado 
decorativo, mas apenas por falta de espao; havia pilhas de papis por todos os lados: nos 
cantos, por baixo da janela, em cima da cadeira extra encostada a um canto. Em cima da 
secretria tambm se viam pilhas altas, onde estavam os documentos de tarefas 
consideradas urgentes. 

O subsdio era recebido ao fim do ms; tinha de analisar um monte de catlogos de editoras 
para poder fazer a encomenda semanal. Ao trabalho normal havia que acrescentar a 
necessidade de encontrar o conferencista para o almoo dos Amigos da Biblioteca e de 
preparar tudo para o Circuito das Manses Histricas, de que a biblioteca fazia parte, tendo 
ela prpria a sede numa dessas vivendas. Mal tinha tempo para respirar. Tinha dois 
funcionrios com horrio completo, mas chegara  concluso de que o trabalho corria 
melhor se no delegasse funes. Os funcionrios eram excelentes para recomendar ttulos 
recentes e ajudar os estudantes a procurarem aquilo de que precisavam, mas, da ltima vez 
que deixara um deles decidir quais os livros a encomendar, acabara por ter seis obras 
diferentes sobre orqudeas, as flores preferidas do funcionrio. Naquela manh, sentada em 
frente do computador, tentara, sem o conseguir, gizar um plano de organizao da sua 
agenda. Por mais que tentasse, a mente acabava sempre por regressar a Jeremy Marsh. No 
queria pensar nele, mas o que Doris lhe dissera fora suficiente para lhe despertar a 
curiosidade. 

Ele no  aquilo que tu imaginas. 

O que  que a av quereria dizer? Na noite anterior, quando fora pressionada, Doris fechara-
se, como se no tivesse dito nada com interesse. No voltou referindo-se  vida amorosa de 
Lexie, nem tornou referindo-se a Jeremy Marsh. Em vez disso, rodeara o tema: como correra 

o dia de trabalho, o que estava a acontecer com pessoas conhecidas, como estava a ser 
organizado o Circuito das Manses Histricas do fim-de-semana. Doris era presidente da 
Sociedade Histrica e o circuito era um dos eventos mais importantes do ano, embora no 
exigisse um planeamento muito exigente. A situao era facilitada pelo fato de as mesmas 
doze manses serem escolhidas praticamente todos os anos, a que se juntavam quatro 
igrejas e a biblioteca. Enquanto a av ia falando, Lexie no deixava de pensar na insinuao 
sobre de Jeremy. 
Ele no  aquilo que tu imaginas. Ento, seria o qu? Um tipo da grande cidade? Um 
mulherengo? Algum  procura de uma aventura fcil? Algum que escarneceria da vila logo 
que partisse? Algum  procura de uma histria e disposto a tudo para a encontrar, mesmo 
que tivesse de magoar outras pessoas durante o caminho? 

E por que diabo teria ela de se preocupar? O homem estaria ali apenas uns dias, quando se 
fosse embora tudo regressaria  normalidade. Com a ajuda de Deus. 

Naquela manh, j ouvira mexericos. Na padaria, onde parara para comprar um bolo, ouvira 
duas mulheres falando dele. Que ia tornar a vila famosa, que a situao ia tornar-se um 
pouco melhor em termos de negcios. Logo que a viram, crivaram-na de perguntas sobre o 
homem e deram as suas opinies sobre a melhor forma de ele encontrar a origem das 
misteriosas luzes. 

Afinal, na vila havia pessoas que acreditavam que as luzes eram mesmo provocadas por 
fantasmas. Outras eram claramente cpticas. O presidente Gherkin, por exemplo. A posio 
dele era outra; encarava a investigao de Jeremy como uma espcie de promoo. Se 
Jeremy Marsh no conseguisse descobrir a causa, seria bom para a economia, era nisso que 

o presidente apostava. Afinal, o presidente Gherkin sabia algo que s era do conhecimento 
de um pequeno grupo de pessoas. 
O mistrio andava a ser investigado h anos. No tinham sido apenas os alunos da 
Universidade de Duke. Para alm de historiadores locais que, na opinio de Lexie, tinham 
encontrado uma explicao plausvel, pelo menos dois outros grupos de pessoas estranhas  
vila tinham investigado o fenmeno, sem xito. Na realidade, fora o presidente Gherkin 

#
quem convidara os estudantes a visitar o cemitrio, na esperana de que eles tambm no 
conseguissem descobrir o que quer que fosse. E no restavam dvidas, o afluxo de turistas 
nunca mais deixara de aumentar. 

Lexie pensava que poderia ter mencionado isso a Mr. Marsh, no dia anterior. Contudo, ele 
no perguntara e ela no tomara a iniciativa. Estava demasiado ocupada a defender-se dos 
avanos do visitante e a fazer-lhe crer claramente que no estava interessada nele. Pois, ele 
tentara ser sedutor... bom, tudo bem, ele tinha um certo encanto pessoal, o que no 
alterava o fato de ela no ter a inteno de deixar que as emoes a dominassem. Na noite 
anterior, quando ele sara, tinha sentido uma espcie de alvio. 

Mas depois a av tinha feito aquele comentrio ridculo; no essencial, Doris quisera dizer-lhe 
que era de opinio de que a neta deveria conhec-lo melhor. Porm, o que verdadeiramente 
a preocupava era saber que a av no teria dito fosse o que fosse de que no tivesse a 
certeza. Por qualquer razo, tinha visto algo de especial em Jeremy. 

Por vezes, detestava as premonies da av. 

Era claro que no tinha de dar ouvidos  Doris. Afinal, Lexie j uma vez tinha feito a rbula 
da conversa com o visitante" e no estava disposta a repetir a dose. Apesar da resoluo, 
tinha de admitir que tudo aquilo estava de certo modo a roubar-lhe o equilbrio. Enquanto 
ponderava a situao, ouviu o ranger da porta a abrir-se. 

-Bom dia - saudou Jeremy, enfiando a cabea no gabinete. 
-Pensei ter visto luz aqui. 
Fazendo rodar a cadeira, Lexie reparou que ele trazia o casaco ao ombro. 
-Ol - cumprimentou delicadamente. 
-Ia agora iniciar o trabalho. 
Ele mostrou o casaco. 
-Tem um lugar onde possa pendurar isto? No h muito espao na mesa da sala de livros 
raros. 

-Deixe ficar. O cabide est atrs da porta. 
Entrou e entregou-lhe o casaco. Lexie pendurou-o ao lado do seu, no cabide que havia atrs 
da porta. Jeremy olhou  volta do gabinete. 

-Ento,  aqui a ponte de comando? Onde tudo  decidido? 
-Pois  - confirmou Lexie. - O espao no  grande, mas serve para o que h a fazer. 
-Gosto do seu sistema de arquivo - confessou, a apontar para as pilhas de papis. 
-Em casa, uso o mesmo sistema. 
Lexie deixou escapar um sorriso ao encaminhar-se para a secretria, depois de dar uma vista 
de olhos para fora da janela. 

-Uma bonita vista, tambm. Pode ver tudo at  casa seguinte. No esquecendo o parque 
de estacionamento. 

-Esta manh parece estar muito bem disposto. 
-Como podia no estar? Dormi num quarto gelado, na companhia de animais mortos. Ou 
melhor, mal preguei olho. Passei a noite a ouvir aqueles rudos estranhos, vindos da mata. 

-Estive a imaginar se gostaria de Greenleaf. Ouvi dizer que  rstico. 
-A palavra rstico, no faz inteira justia quele lugar. E depois, esta manh. Metade da vila 
a tomar o caf da manh. 

-Estou vendo que foi ao Herbs - observou Lexie. 
#
-Pois fui. Reparei que no estava l. 
-No. Demasiado barulhento. Gosto de uma certa calma para comear o dia. 
-Devia ter-me avisado. 
Ela sorriu. 
-Devia ter-me perguntado. 
Jeremy soltou uma gargalhada e Lexie apontou para a porta. Ao caminhar ao lado dele a 
caminho da sala de livros raros, sentiu que ele estava bem disposto apesar da exausto, mas 
continuava a no ver motivos para confiar no homem. 

-Por acaso conhece um certo ajudante chamado Hopper? perguntou Jeremy. 
Ela olhou-o, surpreendida: 
-Rodney? 
-Acho que foi o nome que disse. Bom, que interesse  que tem o nome? Pareceu um pouco 
perturbado pela minha presena na vila. 

-Oh,  inofensivo. 
-No me pareceu inofensivo. 
Lexie encolheu os ombros. 
- provvel que tenha ouvido dizer que voc passou algum tempo na biblioteca. Julga-se 
uma espcie de protetor quando isso acontece. H muitos anos que gosta de mim. 


-D-lhe uma palavrinha em minha defesa, est bem? 
-Acho que posso fazer isso. 
Como esperava um outro comentrio mordaz, ergueu um sobrolho, agradavelmente 
surpreendido. 

-Obrigado. 
-No tem de qu. Limite-se a no fazer nada que me obrigue a mais tarde dizer o contrrio. 
Continuaram em silncio at  sala de livros raros. Ela entrou primeiro e acendeu a luz. 
-Tenho estado pensando em no seu projeto e h uma coisa que acho que talvez deva 
saber. 


-O que ? 
Lexie falou-lhe de duas investigaes anteriores no cemitrio, antes de acrescentar: 
-se me der uns minutos, julgo que consigo encontr-las. 
-Fico-lhe muito grato. Mas por que motivo no me falou delas ontem? 
Ela sorriu, sem responder. 
-Deixe-me adivinhar. Foi por eu no ter perguntado. 
-Sou apenas bibliotecria, no sou adivinha. 
-Como a sua av. Oh, espere, ela  adivinha, no ? 
-De fato, . E consegue adivinhar o sexo antes de os bebs nascerem. 
-Foi o que me disseram - troou Jeremy. 
Os olhos dela lanaram chispas. 
- verdade, Jeremy. Acredite ou no, ela consegue esse gnero de coisas. 
Ele sorriu-lhe. 
#
- verdade que acaba de me tratar por Jeremy? 
-. Mas no d excessiva importncia ao fato. Foi um pedido que me fez, recorda-se? 
-Pois recordo, Lexie. 
-No abuse -aconselhou Lexie mas, mesmo ao diz-lo, Jeremy notou que ela o olhava um 
pouco mais demoradamente do que antes; e gostou do que viu. 
Gostou mesmo muito. 


#
SETE 

Jeremy passou o resto da manh debruado sobre uma pilha de livros e dos dois artigos que 
Lexie lhe trouxe. O primeiro, escrito em 1958 por um professor de etnografia da 
Universidade de Carolina do Norte e publicado no Journal of the South, parecia ter sido 
redigido com a inteno de refutar a forma como A. J. Morrison tratara a lenda. Citava 
alguns trechos do trabalho de Morrison, resumia a lenda e narrava a permanncia do 
professor junto do cemitrio, durante mais de uma semana. Viu as luzes em quatro das 
noites. Parecia ter feito pelo menos uma tentativa preliminar de encontrar a causa: contou o 
nmero de casas na zona envolvente (havia dezoito num raio de mil e seiscentos metros do 
cemitrio e, pormenor interessante, nenhuma em Riker's Hill), alm de ter contado o nmero 
de automveis que passaram nos dois minutos que se seguiram ao aparecimento das luzes. 
Em dois dos casos, o intervalo foi inferior a um minuto. Contudo, nas outras duas ocasies 
no se verificou a passagem de veculos, o que parecia eliminar a possibilidade de os faris 
estarem na origem dos Fantasmas. 

O segundo continha apenas um pouco mais de informao. Publicado num nmero de 1969 
da Coastal Carolina, uma pequena revista que foi  falncia em 1980, referia ao fato de o 
cemitrio estar a afundar-se e aos estragos da resultantes. O autor tambm se referia  
lenda e  proximidade de Riker's Hill e, embora no tivesse avistado as luzes (visitara o lugar 
durante os meses de Vero), recorria abundantemente a relatos de testemunhas para 
especular sobre de diversas possibilidades, todas elas j encaradas por Jeremy. 

A primeira era a vegetao apodrecida que por vezes se incendeia, provocando vapores 
conhecidos como gs dos pntanos. Numa zona costeira como aquela, Jeremy sabia que a 
possibilidade no podia ser inteiramente descartada, embora no a julgasse credvel, pois as 
luzes mostravam-se em noites frias e com nevoeiro. Tambm podiam ser luzes de tremores 
de terra", isto , descargas eltricas produzidas pelo movimento de rochas, por baixo da 
crusta terrestre. Falava uma vez mais da teoria dos faris de automveis, bem como da 
refrao da luz e do brilho fosforescente emitido por certos fungos. As algas, notava, podiam 
tambm emitir brilho fosforescente. O autor at mencionava a possibilidade da existncia do 
efeito de Nova Zembla, em que os focos de luz so dobrados por camadas de ar a diferentes 
temperaturas, que assim parecem brilhar. E, como ltima possibilidade, o autor conclua que 
podia tratar-se de fogos de Santelmo, que so produzidos por descargas eltricas em objetos 
pontiagudos e ocorrem durante as trovoadas. 

Por outras palavras, o autor reconhecia que podia ser qualquer coisa. 

Embora inconclusivos, os artigos ajudaram Jeremy a clarificar as suas prprias idias. Era de 
opinio de que as luzes tinham tudo vendo com acidentes geogrficos. O morro por trs do 
cemitrio parecia ser o ponto mais alto, qualquer que fosse a direo em que se olhasse, 
alm do afundamento do cemitrio tornar mais denso o nevoeiro numa rea bem 
determinada. Tudo a apontar para luz refratada ou Refletida. 

Tinha de determinar a origem e para o fazer precisava de encontrar a primeira referncia  
apario das luzes. Nada de generalidades, precisava de uma data precisa, de modo a poder 
demonstrar o que naquela altura estava a acontecer na vila. Se a vila estava a passar por 
uma transformao profunda, se havia um novo projeto de construo, uma nova fbrica, 
algo desta ordem de grandeza, poderia encontrar a causa. Ou, caso avistasse as luzes, e no 
estava a contar com isso, o seu trabalho poderia simplificar-se ainda mais. Se ocorressem a 
meio da noite, por exemplo, e no se registasse a passagem de carros, poderia pesquisar a 
zona, notar a localizao das casas ocupadas e com lmpadas a iluminar as janelas, a 
proximidade da estrada, ou talvez at o trfego fluvial. Suspeitava que os barcos pudessem 
oferecer uma possibilidade, desde que fossem de dimenses suficientes. 

Analisando novamente a pilha de livros, tomou mais apontamentos sobre das 
transformaes sofridas pela vila ao longo dos anos, com incidncia especial nas que 
aconteceram na passagem do sculo XIX para o sculo XX. 

#
A lista foi-se alongando com o passar das horas. No incio do sculo XX, houve um pequeno 
surto de construo de casas que durou entre 1907 e 1914, altura em que se deu o 
crescimento da parte norte da vila. O pequeno porto foi alargado em 1910, depois em 1916, 
e uma terceira vez em 1922; muitas escavaes, se acrescentarmos a explorao das 
pedreiras e as minas de fsforo. O caminho-de-ferro teve incio em 1898 e, de 1908 a 1915, 
foram construdas trs grandes instalaes industriais: uma fbrica de txteis, uma mina de 
fsforo e uma fbrica de papel. Das trs, s a fbrica de papel continuava a laborar -a 
fbrica de txteis tinha fechado quatro anos antes e a mina foi encerrada em 1987 -o que 
parecia torn-la a nica possibilidade a ter em conta. 

Voltou a confirmar os fatos para se assegurar que estavam certos e arrumou os livros, de 
forma a que Lexie pudesse voltar a coloc-los nas estantes. Recostou-se na cadeira, 
espreguiou-se e deu uma olhadela ao relgio. Era quase meio dia. No conjunto, pensou que 
aquelas horas tinham sido teis e olhou por cima do ombro para a porta aberta por trs de 
si. 

Lexie no voltara para ver como ele estava. De certo modo, agradava-lhe a idia de no 
conseguir compreend-la e, por momentos, desejou que ela vivesse na terra dele, ou mesmo 
nos arredores. Seria interessante ver o desenvolvimento das relaes entre eles. Momentos 
depois, ela entrou na sala. 

-Ol! - saudou Lexie. - Como  que isso vai? 
Jeremy voltou-se. 
-Bem, obrigado. 
Ela enfiou o casaco. 
-Oua, estava pensando em em sair para comprar o almoo e vim perguntar-lhe se queria 
que lhe trouxesse qualquer coisa. 

-Vai ao Herbs? - perguntou ele. 
-No. Se achou que ao caf da manh aquilo era mau, devia ver o que acontece  hora do 
almoo. Mas no me importo de, no regresso, lhe trazer comida feita. 

Ele hesitou, mas por pouco tempo. 

-Ora bem, seria correto eu acompanh-la aonde decidiu ir? No me importava de ir esticar 
as pernas. Estive aqui sentado durante toda a manh e adoro conhecer locais novos. Talvez 
at pudesse mostrar-me um pouco da vila - insinuou Jeremy. -se no se importa,  claro. 

Lexie esteve para dizer no mas, uma vez mais, recordou as palavras da av e ficou com as 
idias baralhadas. Devia ou no devia? Apesar de todo o seu bom senso (obrigadinha, av! 
), disse apenas: 

-No me importo nada. Mas como disponho apenas de uma hora no o poderei ajudar 
muito. 

Jeremy pareceu quase to surpreendido quanto ela e deixou-se ficar parado onde estava, 
mas depois seguiu-a. 

-Tudo ter a sua utilidade -sentenciou. -Ajuda-me a preencher os espaos vazios, percebe. 
 importante ver como correm as coisas em lugares como este. 

-Na nossa vila de rsticos,  isso que quer dizer? 
-No disse que era uma vila de rsticos. As palavras so suas. 
-Pois. Mas os pensamentos so seus, no so meus. Adoro esta terra. 
-Certamente que sim. Que outro motivo a levaria vivendo aqui? 
-Um dos motivos  no ser Nova Iorque. 
-J viveu l? 
#
-Morei em Manhattan. Em West Sixty-Nine. 
Ele quase tropeou nos prprios sapatos. 
-Isso fica a uns quarteires da minha casa. 
Lexie sorriu. 
-O mundo  pequeno, no ? 
A andar depressa, Jeremy lutava para se manter ao lado dela enquanto Lexie se dirigia para 
a escada. 

-Est a brincar, no est? 
-No. Morei l, mais o meu namorado, durante quase um ano. Ele trabalhava na Morgan 
Stanley, enquanto eu estagiava na Biblioteca da Universidade de Nova Iorque. 

-Nem posso acreditar. 
-Em qu? Que vivi em Nova Iorque e voltei para aqui? Ou que vivi perto de si? Ou que vivi 
com o meu namorado? 

-Em tudo isso. Ou em coisa nenhuma. No tenho a certeza -confessou Jeremy. Estava a 
tentar absorver a idia de que esta bibliotecria de vila de provncia tinha vivido no bairro 
em que ele morava. 

Ao reparar na expresso dele, Lexie no conseguiu conter o riso. 

-Sabe que vocs so todos iguais, no sabe? 
-Quem? 
-Os habitantes das grandes cidades. Levam a vida pensando em que no existe no mundo 
um lugar to especial como Nova Iorque e que nenhum lugar tem tanto para oferecer. 

-Tem razo - admitiu Jeremy. 
-Mas isso  porque o resto do mundo no resiste  comparao. 
Olhando-o de relance, ela fez uma expresso que dizia claramente: No acabaste de dizer 
aquilo que eu penso que disseste, pois no Jeremy encolheu os ombros, a fingir-se inocente. 
-Isto , digamos... que Greenleaf no pode comparar-se exatamente com o Four Seasons 

ou com o Plaza, pois no? Quero dizer, at voc tem de admitir isso. 

Ela mostrou-se indignada com a atitude dele e aumentou o ritmo da passada. Decidira, 
naquele preciso momento, que a av no sabia o que estava a dizer. 
Mas ele ainda no desistira. 


-V l... admita isso. Sabe que tenho razo, no sabe? 
Tinham atingido a porta principal da biblioteca e Jeremy segurou a porta para ela passar. Por 
trs deles, uma mulher idosa que trabalhava no vestbulo estava a olh-los intensamente. 
Lexie agentou at sair, mas, chegada  rua, voltou-se para ele. 

-As pessoas no vivem em hotis - contraps. 
-Vivem em comunidades. E  isso que temos aqui. Uma comunidade. Em que as pessoas se 
conhecem e se preocupam umas com as outras. Em que as crianas podem brincar na rua  
noite, sem terem medo de estranhos. 

Ele ergueu as duas mos. 

-Oh, no me interprete mal. Adoro comunidades. Cresci no seio de uma. Sabia o nome de 
todas as pessoas do meu bairro, que viviam ali havia anos. Algumas ainda l vivem; por isso, 
acredite no que lhe digo, conheo bem a importncia de conhecer os vizinhos e quo 
importante  que os pais saibam o que os Filhos esto a fazer, com quem  que eles andam. 
Foi assim que cresci. Mesmo quando me ausentava, as pessoas reparavam. O que estou a 

#
tentar dizer  que Nova Iorque tambm tem comunidades, que depende da zona onde se 
vive.  claro que o meu bairro est cheio de jovens em incio de carreira. Contudo, se for a 
Park Slope, em Brooklyn, ou a Astoria, em Queens, ver os midos a passear pelos jardins, a 
jogar basquetebol ou futebol, entretidos a fazer as mesmas coisas que fazem os midos 
daqui. 

-Como se eu acreditasse que costuma pensar nessas coisas. 
Logo de seguida, lamentou o tom desagradvel com que repreendera Jeremy. Ele, porm, 
no parecia afetado. 

-Costumo -replicou.-E acredite no que lhe digo, se tivesse filhos, gostaria de morar onde 
moro. Tenho um monte de sobrinhos e sobrinhas vivendo na cidade, qualquer deles em 
bairros onde h muitas outras crianas e pessoas que se preocupam com elas. Em vrios 
aspectos, so bairros muito parecidos com esta terra. 

Sem poder avaliar se ele lhe estava a contar vendodade, Lexie manteve-se calada. 

-Escute -prosseguiu Jeremy -, no estou a tentar arranjar uma zaragata. Na minha opinio 
os midos crescero bem desde que os pais se envolvam na educao deles, seja aonde for 
que vivam. As pequenas cidades no possuem um monoplio dos valores. Isto , tenho a 
certeza de que, se investigar um pouco, tambm encontrarei aqui muitos midos com 
problemas. Midos so midos, seja aonde for que vivam -acrescentou, a sorrir, a tentar 
demonstrar-lhe que no se sentia ofendido. -E, alm disso, no percebo muito bem como  
que nos deixamos envolver nesta conversa sobre midos. A partir de agora, prometo no 
voltar a tocar no assunto. Apenas tentava demonstrar a minha surpresa por voc ter morado 
em Nova Iorque, a poucos passos de mim. 

Fez uma pausa. 

-Paz? 
Olhou fixamente para ele, antes de respirar fundo. Talvez ele tivesse razo. No, sabia que 
ele tinha razo. E teve de admitir que fora ela quem provocara aquela escalada. O que a 
confuso de idias pode levar uma pessoa a fazer. Como  que se deixara chegar quele 
ponto? 

-Paz! - acabou por dizer. 
-Com uma condio. 
-Qual ? 
-O transporte  por sua conta. No trouxe o carro. 
Jeremy pareceu aliviado. 
-Deixe-me s procurar as chaves. 
Como nenhum estava particularmente esfomeado, Lexie encaminhou Jeremy para um 
minimercado, de onde saram minutos depois com uma caixa de bolachas, fruta fresca, 
vrias espcies de queijo e duas garrafas de Snapple. 

Chegados ao carro, Lexie colocou tudo junto aos ps. 

-H algum lugar que deseje ver especialmente? - perguntou. 
-Riker's Hill. H alguma estrada at ao cimo? 
Ela acenou que sim. 

-No  bem uma estrada.  um caminho construdo pelos madeireiros, mas agora  usado 
principalmente pelos caadores. Olhe que  mau... No sei se querer levar o carro at l 
acima. 

-No interessa.  alugado. Alm disso, comeo a estar habituado s ms estradas da regio. 
#
-Muito bem, depois no diga que no foi avisado. Praticamente no falaram enquanto se 
encaminhavam para a sada da vila; passaram ao lado do cemitrio de Cedar Creek e 
atravessaram uma pequena ponte. No tardou que a estrada fosse delimitada de ambos os 
lados por rvores de folha persistente. O cu azul dera lugar a grandes manchas cinzentas, 
que recordaram a Jeremy as tardes de Inverno l mais para norte. Ocasionalmente, bandos 
de estorninhos levantavam vo  passagem do carro, voando em formao, como se 
estivessem presos por fios. 

Lexie no se sentia bem com o silncio, pelo que comeou a descrever os projetos de 
urbanizao que nunca passaram da imaginao, os nomes das rvores, Cedar Creek, 
sempre que a vila podia ver-se por entre o arvoredo. O morro de Riker's Hill aparecia do lado 
esquerdo, de aspecto triste e pouco hospitaleiro, naquela tarde melanclica. 

Da primeira vez, Jeremy tinha feito este caminho depois de deixar o cemitrio e tinha feito a 
inverso de marcha mais ou menos por ali. Tinha-o feito um ou dois minutos adiantado, 
como veio a saber, porque Lexie lhe disse para virar no cruzamento seguinte, que parecia 
seguir em curva para o outro lado de Riker's Hill. Inclinada para o pra-brisas, ela no tirava 
os olhos da estrada. 

-A curva  j a seguir - anunciou. 
-ser melhor abrandar. 
Jeremy fez o que lhe foi pedido mas, como ela se mantivesse atenta ao caminho, olhou-a de 
lado e notou-lhe o ligeiro sulco de concentrao na linha divisria entre as sobrancelhas. 

-Muito bem...  ali - apontou Lexie. 
E tivera razo: aquilo no era bem uma estrada. Pedras e sulcos, uma espcie de entrada do 
Greenleaf, mas pior. Ao sair da estrada principal o carro iniciou uma marcha de saltos e 
solavancos, obrigando Jeremy a abrandar ainda mais. 

-Riker's Hill pertence ao domnio pblico? 
Ela assentiu. 

-O estado comprou as terras a uma das grandes companhias madeireiras, Weyerhaeuser, 
Georgia-Pacific ou outra do gnero, quando eu ainda era pequena. Faz parte da histria 
local. Mas no  um parque ou coisa que o valha. Julgo que houve diversos planos para 
instalar l um parque de campismo, mas o estado nunca se envolveu. 

Os pinheiros pareciam querer juntar-se e tornavam a estrada mais estreita, mas a picada 
parecia melhorar  medida que subiam, seguindo praticamente em ziguezague a caminho do 
cume. De vez em quando aparecia um trilho, que ele sups ser usado pelos caadores. 

A partir de certa altura, as rvores comearam a rarear e o cu tornou-se mais visvel; com a 
aproximao do cimo do monte, a vegetao pareceu mais castigada pelo mau tempo e, 
depois, quase devastada. Dezenas de rvores tinham sido abertas ao meio; as que ainda se 
mantinham de p seriam menos de um tero. O declive tornou-se menos acentuado, para 
dar lugar ao terreno plano do alto do morro. Jeremy encostou a um dos lados. Lexie apontou 
para a chave, para que ele desligasse o motor, e ambos saram do carro. 

Lexie cruzou os braos enquanto caminhavam. O ar parecia mais frio l em cima, a brisa era 
mais invernal e parecia picar a pele. O cu tambm parecia mais prximo: as nuvens haviam 
deixado de ser massas informes, torciam-se e enrolavam-se em formas distintas. Podiam ver 
a vila, l em baixo, os telhados encostados uns aos outros e alinhados ao longo das ruas 
direitas, uma das quais levava ao cemitrio de Cedar Creek. Logo a seguir  vila, o velho rio 
de guas salobras parecia uma tira de ao. Jeremy conseguiu distinguir a ponte atravessada 
pela estrada e um pitoresco viaduto de caminho-de-ferro que ficava um pouco mais longe; 
por cima deles, voando em crculos, um falco de cauda vermelha. Olhando com mais 
ateno, Jeremy conseguiu distinguir o pequeno edifcio da biblioteca e at o local onde 
ficava o Greenleaf, embora as vivendas no fossem visveis por causa das rvores. 

#
-Acho a vista espantosa - acabou por confessar. 
Lexie apontou para os limites da vila e indicou-lhe para onde queria que ele olhasse. 

-Est vendo aquela casa pequenina l em baixo? Quase isolada, perto da lagoa?  onde 
estou a morar agora. E, mais adiante,  a casa da Doris. Foi ali que cresci. Em pequena, por 
vezes, olhava para o monte e imaginava que me via l em cima a olhar para a plancie. 

Ele sorriu. A brisa remexia-lhe o cabelo e ela continuou. 

-Quando ramos adolescentes, eu e os meus amigos costumvamos vir at c acima e 
passvamos horas aqui. Durante o Vero, o calor faz tremeluzir as luzes das casas, como se 
fossem estrelas. E os pirilampos... bom, em Junho h tantos que quase parece haver uma 
outra cidade no cu. Embora toda a gente saiba da existncia deste lugar, no vinham c 
muitas pessoas. Para mim e os meus amigos foi sempre considerado um local secreto, de 
que s ns podamos usufruir. 

Fez uma pausa, apercebendo-se de estar a sentir um nervosismo estranho. No fazia idia 
das razes que poderiam provocar tal nervosismo. 

-Recordo-me de um dia em que se esperava uma grande tempestade. Os meus amigos e eu 
conseguimos que um dos rapazes nos trouxesse c acima no seu camio. Sabe, um daqueles 
monstros com grandes pneus que, se necessrio, poderiam descer ao fundo do Grand 
Canyon. Portanto, viemos todos c para cima para observarmos os relmpagos,  espera de 
os vermos a rasgar o cu. No nos detivemos pensando em que iramos colocar-nos no 
ponto mais alto da regio, qualquer que fosse a direo da trovoada. A princpio, quando os 
relmpagos comearam, foi belo. O cu iluminava-se, por vezes com um risco em 
ziguezague, outras vezes mais parecia uma lmpada estroboscpica e ns contvamos em 
voz alta at ouvirmos o estouro do trovo. Queramos saber a que distncia estava a 
trovoada, percebe? No entanto, quase sem darmos por isso, tnhamos a tormenta por cima 
das cabeas. O vento soprava to forte que fazia oscilar o camio e a chuva no permitia ver 
o que quer que fosse. Foi ento que os raios comearam a atingir as rvores  nossa volta. 
Descargas gigantescas desciam do cu, to perto que faziam tremer o cho e foi ento que 
vimos as copas dos pinheiros a explodirem. 
Jeremy observava-a enquanto ela falava. Era o mximo que dizia sobre de si prpria desde 
que se tinham conhecido e ele tentava imaginar como seria a vida dela naquele tempo. 
Quem era ela na escola secundria? Uma das lderes mais populares da claque? Uma das 
moas estudiosas, que passavam a hora de almoo na biblioteca? Passado, histria antiga, 
quem  que se preocupava com a escola secundria? Porm, mesmo agora, quando se 
deixava embalar pelas memrias, Jeremy no conseguia perceber como  que ela tinha sido. 

-Julgo que estava aterrorizada -insinuou. -Os raios conseguem atingir cinqenta mil graus, 
como sabe -acrescentou, a olhar de relance para ela. -Dez vezes mais quente do que a 
superfcie do Sol. 

Lexie sorriu, bem-disposta. 

-No sabia disso. Mas tem razo, no penso que alguma vez tivesse sentido tanto medo. 
-O que  que aconteceu? 
-A tempestade passou, como sempre acontece. Voltamos para casa, logo que conseguimos 
recompor-nos. Mas recordo-me de a Rachel me apertar a mo com tanta fora que fiquei 
com as unhas dela marcadas na pele. 

-Rachl? Ser a mesma que  empregada de mesa no Herbs? 
-Sim, essa mesma -esclareceu, a observ-lo, de braos cruzados. -Porqu? Atirou-se a si 
durante o caf da manh desta manh? 
Ele mudou o peso do corpo de um p para o outro. 


-Bom, no diria isso. Pareceu- me apenas um pouco... atiradia. 
#
Lexie riu. 

-No me surpreende. Ela... bom,  a Rachel. Ela e eu fomos as melhores amigas enquanto 
crescemos e ainda a considero uma espcie de irm. Penso que ser sempre assim. 
Contudo, depois que fui para a universidade e para Nova Iorque... bem, depois de eu 
regressar nunca mais foi como dantes. A situao mudou, na falta de uma palavra melhor. 
No me compreenda mal...  uma excelente moa, muito engraada para fazer companhia a 
qualquer pessoa, sem uma ponta de malcia naquele corpo, mas... 

Calou-se. Jeremy observou-a mais de perto. 

-Voc agora v o mundo com olhos diferentes - insinuou. 
Lexie suspirou. 
-Sim, acho que  isso. 
-Julgo que acontece a toda a gente quando cresce -respondeu Jeremy. -Ficamos a saber o 
que somos e o que queremos, altura em que descobrimos que as pessoas que conhecemos 
desde sempre vem as coisas de maneira diferente. Por isso, conservamos as memrias 
maravilhosas, mas damos conosco a andar para diante.  perfeitamente normal. 

-Eu sei. Porm, numa vila desta dimenso,  um pouco difcil de aceitar. H por aqui um 
nmero limitado de trintonas, as solteiras so ainda menos. Isto por aqui  um pequeno 
mundo. 

Jeremy acenou com a cabea e sorriu: 

-Trintonas? 
De sbito, ela lembrou-se de que na vspera ele tentara adivinhar- lhe a idade. 
-Exato - confessou com um encolher de ombros. - Acho que estou a ficar velha. 
-Ou a permanecer jovem -contraps Jeremy. -A propsito,  assim que eu penso em mim 
prprio. Sempre que penso em envelhecimento comeo a usar as calas mais descidas, 
mostro o elstico das boxer. ponho o bon de basebol com a pala para trs e vou passear 
para o centro da vila, para ouvir o rap. 

Lexie no pde deixar de sorrir ante a imagem. A despeito do ar frio, sentia-se confortvel 
com o pensamento inesperado, e no entanto estranhamente inevitvel, de estar a apreciar a 
companhia dele. Ainda no tinha a certeza de gostar dele; de fato, tinha quase a certeza de 
que no gostava e, por momentos, lutou para conciliar os dois sentimentos. O que 
significava, era evidente, que seria melhor evitar qualquer referncia ao assunto. Levou um 
dedo ao queixo, a dizer-lhe: 

-Pois, estou vendo. Voc parece mesmo considerar que o estilo pessoal  importante. 
-sem dvida. O que  certo  que, ontem, as pessoas ficaram especialmente impressionadas 
com a minha indumentria, incluindo voc. 

Ela riu e ficou a observ-lo, ambos a apreciarem o silncio momentneo. Lexie foi a primeira 
a quebr-lo, a perguntar: 

-Aposto que a sua profisso o obriga a viajar muito, no ? 
-Umas quatro ou cinco viagens por ano, cada uma a durar um par de semanas. 
-J tinha estado numa vila como esta? 
-No, realmente no. Cada lugar onde vou tem o seu prprio encanto, mas posso dizer com 
toda a franqueza que nunca estive num lugar como este. E voc? Para alm de Nova Iorque, 
 claro. 

-Freqentei a Universidade de Carolina do Norte, em Chapel Hill e passei muito tempo em 
Raleigh. Tambm fui a Charlotte, quando andava no curso secundrio. A nossa equipa de 
futebol disputou o campeonato estadual no meu ltimo ano, pelo que a vila despovoou-se 

#
praticamente para assistir ao jogo. Na estrada, formamos um comboio de automveis com 
seis quilmetros de extenso. Tambm fizemos uma viagem a Washington, quando era 
pequena. Mas nunca fui ao estrangeiro, nada de grandes viagens. 

Enquanto falava, apercebia-se de quanto a sua vida pareceria mesquinha aos olhos de 
Jeremy. Este, como se estivesse a ler- lhe o pensamento, deixou escapar um ligeiro sorriso. 

-Havia de gostar da Europa. As catedrais, a beleza dos campos, as tasquinhas e as praas 
das cidades. O estilo de vida mais descontrado... devia adaptar-se bem. 

Lexie baixou os olhos. Bonitas idias, mas... 

Ali  que estava o buslis. No mas. A vida mostrava uma desagradvel tendncia para tornar 
raras as oportunidades exticas e para as afastar muito no tempo. Muitas pessoas no 
podiam ir alm da imaginao. Como ela. A questo no era acreditar na Doris ou roubar 
algum tempo ao trabalho da biblioteca. E por que diabo estaria ele falando -lhe de tudo 
aquilo? Para lhe demonstrar que era mais cosmopolita do que ela? Bom, detestava confessar 
uma coisa daquelas, mas j sabia isso antes de ele ter aparecido. 

No entanto, mesmo enquanto ruminava estes pensamentos, notou que outra voz interior 
tentava imiscuir-se, dizer-lhe que ele estava a tentar lisonje-la. Parecia estar a dizer-lhe que 
a considerava diferente, mais cosmopolita do que se poderia esperar. Que ela no destoaria 
em qualquer lugar. 

-sempre desejei viajar -admitiu, como que a tentar dominar o conflito de vozes que lhe ia 
na cabea. 

-Deve ser agradvel, para quem puder. 
-, por vezes. Contudo, acredite ou no, o que me d mais prazer  conhecer outras 
pessoas. Quando olho para trs e recordo lugares onde estive, vejo mais rostos do que 
coisas. 

-Ora bem, est falando como um romntico -insinuou Lexie. Oh, era difcil resistir-lhe, 
quele Mr. Jeremy Marsh. Primeiro o mulherengo, agora o grande altrusta; bastante viajado 
mas com os ps assentes na terra; mundano mas sem perder a conscincia das coisas que 
mais contam. Fosse ele onde fosse, conhecesse quem conhecesse, ela no tinha dvidas de 
que ele possua uma capacidade inata de levar as outras pessoas, em especial as mulheres, 
a pensarem que estava em sintonia com elas. O que, sem dvida, a conduzia diretamente  
primeira impresso que ele lhe provocara. 

-Talvez seja um romntico - admitiu Jeremy, a olh-la de lado. 
-Sabe o que me agradou mais em Nova Iorque? -perguntou Lexie, a mudar de assunto. 
Jeremy ficou a olh-la, na expectativa. -Gostei do fato de estar sempre a acontecer 
qualquer coisa. Havia sempre pessoas a percorrer apressadamente os passeios e txis a 
apitar, a qualquer hora. Estava sempre a passar-se qualquer coisa, havia sempre algo para 
ver, um novo restaurante para experimentar. Muito excitante, em especial para algum ido 
de uma terra como esta. Foi quase como ir para Marte. 

-Por que  que no ficou? 
-Suponho que poderia ter ficado. Mas no era o lugar para mim. Julgo que poder pensar-
se que as razes que me levaram at l se modificaram. Fui com uma pessoa. 

-Ah! - exclamou Jeremy. - Foi para o seguir. 
Ela assentiu. 

-Conhecemo-nos na faculdade. Parecia to... como dizer... perfeito, acho eu. Tinha sido 
criado em Greensboro, era de boas famlias, inteligente. Tambm verdadeiramente bonito. 
Suficientemente belo para levar uma mulher a no dar ouvidos  sua intuio. Olhou para 
mim e, logo de seguida, dei comigo a acompanh-lo at  metrpole. No consegui resistir-
lhe. 

#
Jeremy mostrou-se admirado. 

-De verdade? 
Lexie sorriu para dentro. Os homens nunca gostam de ouvir falar de outros homens bonitos, 
especialmente quando se tratou de uma relao sria. 

-Tudo foi fantstico durante um ano ou dois. Estvamos muito apaixonados -confessou, 
parecendo perder-se em pensamentos, at respirar fundo. -Fiz um internato na Biblioteca 
da Universidade de Nova Iorque, o Avery foi trabalhar para a Wall Street, at que um dia o 
encontrei na cama com uma colega. O que ajudou a fazer-me compreender que ele no era 

o homem que eu queria; por isso, fiz a mala e regressei. Nunca mais o vi. 
O vento estava a aumentar, quase assobiava ao subir pelas ladeiras, a transportar um suave 
cheiro a terra. 

-Tem fome? -perguntou Lexie, a querer mudar novamente de assunto. - muito bonito 
estarmos conversando aqui no campo, mas se no engolir algum alimento tenho propenso 
a ficar irritada. 

-Estou esfomeado. 
Regressaram ao carro e dividiram o almoo. Jeremy abriu a caixa de bolachas no banco da 
frente. Ao notar que a vista no era a melhor, ps o motor a funcionar, manobrou  volta do 
cume e colocou o carro no ngulo certo para poder olhar de novo a vila. 

-Ento, voltou para aqui e comeou a trabalhar na biblioteca e... 
-E mais nada - respondeu ela. 
- o que estou a fazer h sete anos. 
Ele fez contas de cabea, concluindo que ela teria cerca de 31 anos. 

-Outros namorados durante todo este tempo? -indagou. Com o copo de sumo seguro nas 
pernas, Lexie partiu um bocado de queijo e colocou-o em cima de uma bolacha. Ficou 
pensando em se deveria ou no responder, mas decidiu-se; que diabo, de qualquer das 
maneiras, ele ia-se embora. 

-Claro. Houve alguns, a espaos. 
Falou-lhe do advogado, do mdico e, mais recentemente, de Rodney Hopper. No 
mencionou Mr. Renaissance. 

-Bom... no est mal. Parece que  feliz - Refletiu Jeremy. 
-Pois sou - anuiu ela com presteza. - E voc, no ? 
-Na maior parte do tempo. Uma vez por outra, perco as estribeiras, mas acho que isso  
normal. 

- nessas alturas que comea a usar as calas descadas? 
-Exatamente -respondeu, a sorrir. Pegou numa mo-cheia de bolachas, equilibrou umas 
quantas em cima de uma perna e comeou a cobri-las de queijo. Levantou os olhos, com ar 
grave. -No se importaria se lhe fizesse uma pergunta de carter pessoal?  claro que no 
tem de me responder. No a interpretarei mal, acredite. Trata-se apenas de curiosidade. 

-O qu, mais pessoal do que falar-lhe dos meus namorados anteriores? 
Ele encolheu os ombros com uma expresso de timidez, mostrando a Lexie uma viso de 
como ele teria sido em menino: rosto estreito e liso, cabelo curto, camisa e calas sujas por 
causa da brincadeira no exterior. 

-Avance. Pergunte o que quiser. 
Ele concentrou-se na tampa do copo de sumo ao falar, mostrando uma relutncia sbita em 
encar-la de frente. 

#
-Quando aqui chegamos, apontou a casa da sua av. E disse que era l que tinha crescido. 
Lexie assentiu, sem perceber o que poderia ele perguntar sobre daquilo. 
-Porqu? 
Ficou a olhar atravs da janela; o hbito f-la procurar a estrada que levava  sada da vila. 
Depois, falou lentamente. 

-Os meus pais regressavam de Buxton, que fica mais junto  costa. Fora l que se tinham 
casado e era onde tinham uma pequena casa de praia.  algo difcil chegar l a partir daqui, 
mas a mam dizia que aquele era o lugar mais belo do mundo; por isso, o meu pai comprou 
um pequeno barco, para no estarem dependentes do barco de carreira. Era a sua 
escapadela, uma fuga a dois daqui para Fora, percebe? Existe l um belo farol que se avista 
do alpendre e, de vez em quando tambm vou at l como eles costumavam fazer s para 
me afastar disto tudo. 

Os lbios arrepanharam-se-lhe no mais ligeiro dos sorrisos, antes de prosseguir. 

-Mas, continuando, no regresso os meus pais vinham cansados. Mesmo sem utilizar o barco 
de carreira, so precisas umas duas horas para l chegar; tudo leva a crer que na volta o 
meu pai adormeceu ao volante e o carro caiu da ponte. Quando, na manh seguinte, a 
Polcia encontrou o carro e o tirou da gua, estavam os dois mortos. 

Jeremy ficou calado por muito tempo. 

-Terrvel - acabou por dizer. - Que idade  que tinha? 
-Dois anos. Nessa noite fiquei com a minha av e no dia seguinte ela foi ao hospital com o 
meu av. Quando regressaram disseram-me que a partir daquele dia eu passava vivendo 
com eles. E assim foi. Contudo, acontece uma coisa estranha; sei o que aconteceu e, 
contudo, o fato nunca me pareceu muito real. Enquanto cresci no tive a sensao de que 
me faltava fosse o que fosse. Para mim, os meus avs pareciam-se com os pais de todas as 
outras pessoas, com a excepo de eu os tratar pelos nomes de batismo - recordou, a sorrir. 

-A propsito, a idia foi deles. Julgo que no desejavam que, por estarem a criar-me, eu os 
visse como avs, mas tambm no eram os meus pais. 

Quando acabou, voltou a olhar para ele, a reparar na forma como os ombros lhe enchiam a 
camisola e a notar outra vez a covinha. 

-Agora  a minha vez de fazer perguntas. J falei demasiado e sei que a minha vida, 
quando comparada com a sua, deve parecer montona. No tanto por causa dos meus pais, 
quero dizer, mas por viver aqui. 

-No, no tem nada de montona.  interessante.  como... ler um livro e, ao folhear as 
pginas comear a experimentar algo de inesperado. 

-Bonita metfora. 
-Pensei que devia agradar-lhe. 
-Ento, e sobre si? O que  que o fez querer ser jornalista? 
Durante os minutos seguintes ele falou dos anos passados na faculdade, dos planos para vir 
a ser professor e das voltas da vida que o tinham conduzido  situao presente. 

-Disse-me que tinha cinco irmos? 
Ele assentiu. 
-Cinco irmos mais velhos, sou o beb da famlia. 
-Por qualquer razo, no consigo imagin-lo com irmos. 
-Porqu? 
-Parece-me mais um tpico filho nico. 
#
Ele abanou a cabea. 

- uma pena que no tenha herdado os dons psquicos do resto da sua famlia. 
Lexie sorriu e desviou o olhar. L longe, os falces de cauda vermelha voavam em crculos 
por cima da vila. Colocou a mo na janela para sentir a frescura do vidro contra a pele. 

-Duzentas e quarenta e sete - anunciou. 
Jeremy olhou de novo para ela: 
-Perdo? 
- o nmero de mulheres que visitaram a Doris para saberem o sexo dos seus bebs. 
Recordo-me de, quando estava a crescer, as ver sentadas na cozinha conversando com a 
minha av. Engraado, ainda me recordo de pensar que todas elas tinham a mesma 
expresso: os olhos cintilantes, a frescura brilhante da pele e a excitao genuna. H 
verdade na afirmao das velhas comadres quando dizem que as mulheres grvidas brilham; 
recordo-me de pensar que, quando crescesse, queria ser exatamente como elas. Doris falava 
com as mulheres durante algum tempo, queria ter a certeza de que elas desejavam mesmo 
saber; depois pegava-lhes na mo e, de sbito, caa sobre a cozinha um silncio absoluto. 
Na sua maioria, mal mostravam sinais de gravidez e, passados uns segundos, ela dava a sua 
opinio. Acertava sempre. Duzentas e quarenta e sete mulheres fizeram a pergunta, acertou 
duzentas e quarenta e sete vezes. Doris registou tudo num livro, incluindo os nomes e as 
datas das visitas. Pode verificar, se quiser. O livro continua guardado na cozinha. 

Jeremy limitou-se a olhar para ela. Impossvel, pensou, simples acaso estatstico. Um 
bambrrio que roava os limites da credibilidade, mas no deixava de ser um acaso. E no 
tinha dvidas de que o livro registasse apenas os palpites que se tinham revelado acertados. 

Lexie interrompeu-lhe o raciocnio: 

-sei o que est a pensar, mas pode tambm consultar os registos do hospital. Ou falar com 
as mulheres. Interrogar quem lhe apetecer, verificar se ela alguma vez se enganou. Nunca 
se enganou. At os mdicos de toda a vila lhe diro que ela possui um dom. 

-Nunca pensou que ela pudesse conhecer a pessoa que fazia os ultra-sons? 
-No era nada disso - insistiu Lexie. 
-Como  que pode ter a certeza? 
-Porque foi nessa altura que ela parou. Quando essa tecnologia chegou finalmente a esta 
vila. Deixou de haver razes para as pessoas a visitarem, uma vez que podiam ver por si 
prprias a imagem do beb. O nmero de mulheres comeou a diminuir, at quase 
desaparecer. Agora, haver uma ou duas pessoas por ano, quase sempre gente do campo 
que no dispe de seguros mdicos. Pode dizer-se que as aptides dela no so muito 
procuradas por estes dias. 

-E a adivinhao? 
- o mesmo. Por estas bandas, no existe uma grande procura para algum com as 
capacidades dela. Toda a regio leste deste estado est em cima de um aqufero. Pode furar 
um poo em qualquer local, encontra-se gua por toda a parte. Contudo, quando ela era 
criana em Cobb County, na Georgia, os fazendeiros vinham bater-lhe  porta a pedir ajuda, 
especialmente nas pocas de seca. E, mesmo no tendo mais do que oito ou nove anos, 
descobria sempre gua. 

-Interessante - comentou Jeremy. 
-Deduzo que continua a no acreditar. 
Ele mudou de posio. 
-Ter de existir uma explicao. H sempre. 
#
-No acredita em qualquer espcie de magia? 
-No. 
- pena - comentou ela. 
-Porque por vezes ela  real. 
Jeremy sorriu. 
-Bom, enquanto estou aqui talvez suceda qualquer coisa que me faa mudar de opinio. 
Ela tambm sorriu. 
-J aconteceu. S que  demasiado teimoso para o admitir. 
Terminado o almoo improvisado, Jeremy ps o carro em movimento e comearam a descer 
Riker's Hill aos solavancos, com as rodas da frente a sarem de um sulco para mergulharem 
no seguinte. Os amortecedores rangiam e gemiam; quando atingiram o sop do morro, 
Jeremy tinha os ns dos dedos brancos, dada a fora que fazia no volante. 

Regressaram pelo mesmo caminho; ao passar pelo cemitrio de Cedar Creek, Jeremy notou 
que o olhar se lhe dirigia para o cume de Riker's Hill; apesar da distncia, conseguiu 
discernir o lugar onde tinham estado parados. 

-Temos tempo para vermos mais alguns locais? Gostava de dar uma vista de olhos  
marina,  fbrica de papel e talvez ao viaduto de caminho-de-ferro. 

-Temos tempo - respondeu Lexie. 
-Desde que no demoremos demasiado em cada um dos locais, que ficam todos 
praticamente na mesma zona. 

Dez minutos mais tarde, seguindo as indicaes dela, voltou a parar. Estavam nos limites do 
centro da vila, a alguns quarteires de distncia do Herbs, perto do passeio de madeira que 
seguia ao longo da margem do cais. O rio Pamlico tinha ali mais de mil e quinhentos metros 
de largura e as guas corriam agitadas, com a corrente a formar ondas com cristas de 
espuma que se apressavam a correr para a foz. Mais afastada, perto do viaduto ferrovirio, 
ficava a fbrica de papel, a cuspir fumo pelas duas chamins. Jeremy esticou-se ao sair do 
carro e Lexie cruzou os braos. Tinha as faces a ficar vermelhas devido ao frio. 

-Est mais frio, ou  apenas imaginao minha? - perguntou. 
-Est bastante frio - concordou ele. 
-Parece mais frio do que l em cima, mas talvez seja por nos termos acomodado ao calor do 
carro. 
Jeremy esforou-se por acompanh-la quando ela comeou a andar para o caminho de 
madeira. Lexie abrandou finalmente o passo, depois parou e encostou-se aos vares de 
proteo, enquanto Jeremy observava o viaduto do caminho-de-ferro. Lanado sobre o rio a 
altura suficiente para deixar passar barcos grandes, fora construdo com vigas cruzadas e 
lembrava uma ponte suspensa. 

-No sabia at que ponto estava interessado em aproximar-se -esclareceu Lexie. -se 
tivssemos mais tempo, o teria levado at  outra margem do rio, mas  provvel que daqui 
desfrute de uma vista melhor -prosseguiu. Apontou para o outro lado da vila. -A marina  
acol, perto da estrada. Est vendo os mastros dos barcos atracados? 

Jeremy acenou que sim. Por qualquer razo, esperava algo mais imponente. 

-Conseguem receber barcos grandes? 
-Julgo que sim. Por vezes, alguns grandes iates de New Bern ficam aqui durante uns dias. 
-E quanto a barcaas? 
-Acho que podem. O rio  dragado para permitir a entrada das barcaas dos madeireiros, 
#
mas habitualmente atracam na outra margem. Acol -informou, a apontar o que parecia 
uma pequena enseada. - De momento, esto l duas, ambas carregadas. 

Seguiu-lhe o olhar e em seguida voltou-se, para coordenar as localizaes. Com Riker's Hill 
vendo-se ao longe, o viaduto e a fbrica de papel pareciam perfeitamente alinhados. 
Coincidncia? Ou pormenor sem qualquer importncia. Olhou na direo da fbrica de papel, 
a tentar descobrir se as pontas das chamins seriam iluminadas de noite. Teria de verificar 
isso. 

-A madeira  toda expedida em barcaas, ou usam tambm o transporte ferrovirio? 
-Para lhe ser franca, nunca reparei. Mas tenho a certeza de que isso ser fcil de confirmar. 
-Sabe quantos comboios passam pelo viaduto? 
-Tambm no fao idia. Por vezes, de noite, ouo-os apitar e mais de uma vez tive de 
parar na passagem de nvel para deixar passar o comboio, mas no disponho de nmeros. 
Sei que fazem muitos transportes a partir da fbrica.  l que a linha acaba. 
De olhos pregados no viaduto, Jeremy acenou que estava a perceber. 
Lexie sorriu e prosseguiu: 
-sei o que est a pensar. Est a admitir a possibilidade de as luzes dos comboios que passam 


atravs das traves do viaduto provocarem as luzes do cemitrio, no est? 

-Pus essa hiptese. 
-No se trata disso - afirmou Lexie, a abanar a cabea. 
-Tem a certeza? 
- noite, os comboios ficam no cais da fbrica para poderem ser carregados na manh 
seguinte. Assim, o farol da locomotiva brilha na direo contrria, para o outro lado de 
Riker's Hill. 

A Refletir sobre o que acabava de ouvir, Jeremy juntou-se a ela, junto do gradeamento de 
proteo. O vento levantava-lhe o cabelo, fazendo-o parecer bravio. Ela protegeu as mos 
nas algibeiras do casaco. 

-Estou a perceber por que gostou de crescer nesta terra - comentou ele. 
Lexie voltou-se, de forma a ficar encostada ao gradeamento, e dirigiu o olhar para o centro 
da vila, para as pequenas lojas engalanadas com bandeiras americanas, um reclame de 
barbearia, um pequeno jardim, situado no final do passeio de madeira. Carregadas de sacos, 
as pessoas andavam pelos passeios, entravam e saam das lojas. Apesar do frio, ningum 
parecia ter pressa. 

-Bom,  bastante parecido com Nova Iorque, tenho de admitir. 
Ele riu. 

-No era isso que pretendia dizer. Queria dizer que os meus pais teriam gostado de criar os 
filhos numa terra como esta. Com grandes relvados verdes e bosques para eles brincarem. 
At um rio, onde eles poderiam nadar no tempo quente. Deve ter sido um lugar... idlico. 

-Ainda .  assim que as pessoas justificam o fato de viverem aqui. 
-Parece que vicejou com estes ares. 
Por instantes, ela pareceu quase triste: 

-Pois, mas freqentei a universidade. Muitas das pessoas daqui nunca o conseguem.  um 
distrito pobre e a vila tem passado por dificuldades desde que a fbrica de txteis e a mina 
de fsforo fecharam; muitos pais no investem o suficiente numa boa educao dos filhos. 
Essa  por vezes a grande dificuldade: convencer alguns midos de que a vida tem mais 
para nos oferecer do que trabalhar na fbrica de papel, do outro lado do rio. Vivo aqui 

#
porque quero. Fiz a minha escolha. No entanto, muitas das pessoas continuam por c por 
no terem possibilidades de se irem embora. 

-Isso acontece por toda a parte. Nenhum dos meus irmos freqentou a universidade, por 
isso eu sou uma espcie de estranho, pois a educao foi-me facilitada. Os meus pais fazem 
parte da classe trabalhadora e viveram toda a sua vida em Queens. O meu pai conduzia 
autocarros na cidade. Passou quarenta anos de vida sentado atrs do volante, at se 
reformar. 

Ela parecia divertida. 

-Tem graa. Ontem pareceu-me um janota de Upper East Side. Est vendo, com o porteiro 
a cumpriment-lo pelo nome, jantares de cinco pratos, um mordomo para anunciar os 
convidados. 

Jeremy encolheu-se, a fingir horror. 

-Primeiro e nico filho; e agora isto? Estou a comear pensando em que me julga um 
indivduo estragado com mimos. 

-No, estragado no... apenas... 
-No diga -pediu ele, erguendo a mo. -Prefiro no saber. Em especial por no ser 
verdade. 

-Como  que soube o que eu ia dizer? 
-Porque est obcecada por duas idias, nenhuma delas particularmente lisonjeira. 
Lexie ergueu ligeiramente os cantos dos lbios. 
-Desculpe. No fiz por mal. 
-Fez, sim senhora -repreendeu, sem deixar de sorrir. Voltou-se, de forma a ficar tambm 
encostado ao gradeamento, de cara exposta ao vento. -Mas no se preocupe, no tomei 
isso como uma ofensa pessoal. Isto, por no ser um menino rico, estragado com mimos. 

-No .  um jornalista objetivo. 
-Exatamente. 
-Mesmo quando recusa mostrar-se compreensivo em relao a tudo o que considere 
misterioso. 

-Exatamente. 
Lexie riu. 
-Que me diz sobre do suposto carter misterioso das mulheres? Tambm no acredita 
nisso? 
-Oh, sei que  verdadeiro -replicou Jeremy, pensando em nela, em especial. -Contudo,  
diferente de acreditar na possibilidade da fuso a frio. 


-Porqu? 
-Porque as mulheres constituem um mistrio subjetivo, no um mistrio objetivo. Nada 
sobre delas pode ser avaliado cientificamente, embora existam, com certeza, diferenas 
genticas entre os dois sexos. As mulheres s so consideradas misteriosas pelos homens 
porque estes no se apercebem de que homens e mulheres vem o mundo de formas 
diferentes. 

-Ah vem? 
-Claro.  preciso percebermos a evoluo e os melhores mtodos de preservao da 
espcie. 

-Tambm  especialista nesse domnio? 
#
-Sim, tenho alguns conhecimentos sobre a questo. 
-E, portanto, considera-se tambm um especialista em mulheres,  isso? 
-No, nada disso. Sou tmido, recorda-se? 
-Pois recordo. O problema  que no acredito. 
Ele cruzou os braos. 
-Deixe-me adivinhar... voc pensa que o meu problema  a averso a compromissos. 
Lexie olhou-o demoradamente: 
-Acho que fez um bom resumo da questo. 
Jeremy riu. 
-Que posso eu dizer? O mundo do jornalismo de investigao  sedutor, h legies de 
mulheres desejosas de ter um lugar nele. 
Ela rolou os olhos. 


-Por favor. Voc no  uma estrela de cinema nem canta numa banda de rock. Escreve para 
a Scientific American. 
-E? 
-Bom, posso ser do Sul mas, mesmo assim, no imagino o seu magazine a ser assaltado 
pelas fs. 
Ele olhou-a com um ar triunfante. 


-Julgo que acaba de se contradizer a si prpria. 
Lexie ergueu uma sobrancelha. 
-Mr. Marsh, o senhor julga-se muito inteligente, no julga? 
-Ah, ento voltamos ao Mr. Marsh? 
- provvel. Ainda no decidi - respondeu, a ajeitar uma mecha de cabelo atrs da orelha. 
-Mas esqueceu-se de um pormenor: no necessita das fs...  sua volta. S precisa de ir 
aos lugares certos e derramar por l o encanto. 


-E considera-me encantador? 
-Diria que algumas mulheres podero consider-lo encantador. 
-Mas voc no. 
-No estamos falando de mim. Estamos falando de si e neste preciso momento est a fazer 
o que pode para mudar de assunto. O que, provavelmente, significa que tenho razo e voc 
no quer admiti-lo. 
Jeremy encarou-a com ar apreciativo. 


- muito inteligente, Miss Darnel. 
Ela assentiu. 
-J ouvi isso. 
-E encantadora - acrescentou, a pression-la. 
Lexie sorriu-lhe e afastou o olhar para longe. Olhou para o passeio de madeira, para o outro 
lado da rua, para o cu, e suspirou. Decidiu que no estava disposta a responder  lisonja. 
No entanto, no conseguiu deixar de corar. 

Como se estivesse a ler-lhe o pensamento, Jeremy mudou de assunto. 

-Ento, o que  que vai acontecer no prximo fim-de-semana? 
#
-Ainda c estar? - perguntou Lexie. 
- provvel. Em parte, pelo menos. Mas tenho curiosidade de saber o que pensa sobre isso. 
-Para alm de pensar que pe as pessoas malucas durante uns dias? Nesta altura do ano 
... uma necessidade. O dia de Ao de Graas e o Natal so um desassossego, mas depois, 
at  Primavera no h mais nada. E, entretanto, o tempo  frio, cinzento e chuvoso. Por 
isso, h uns anos, o Conselho Municipal decidiu realizar o Circuito das Manses Histricas. 
Depois, em cada ano que passa so acrescentadas novas festividades, sempre na esperana 
de tornar o fim-de-semana muito especial. Este ano  o cemitrio, no ano passado foi a 
parada, h dois anos acrescentaram o baile na noite de sexta-feira. Comea a fazer parte da 
tradio da vila, de modo que muitos dos habitantes andam ansiosos pelo incio da festa esclareceu. 


Quando acabou olhou para ele: - Por mais piroso que parea, acaba por ter a sua graa. 

A observ-la, Jeremy ergueu uma sobrancelha, a recordar-se da dana no celeiro de que 
falava o folheto. 

-H baile? - indagou, a fingir ignorncia. 
Ela acenou que sim. 
-Na noite de sexta-feira. No celeiro de tabaco do Myers.  um baile e tanto, com msica ao 
vivo e tudo.  a nica noite do ano em que a Lookilu Tavern fica quase deserta. 
-Ora bem, se eu l for, talvez queira danar comigo. Lexie sorriu-lhe, antes de finalmente 
lhe lanar um olhar quase sedutor. 


-Vou dizer- lhe como vai ser. Se j tiver resolvido o mistrio, danarei consigo. 
-Promete? 
-Prometo. Mas, para que isso acontea, fica acordado entre ns que tem de resolver 
primeiro o mistrio. 


- justo - anuiu Jeremy. 
-Estou ansioso.  que quando se trata do Lindy ou do fox-trot... -abanou a cabea e 
respirou fundo. - Bom, s desejo que voc consiga agentar a pedalada. 
Ela riu. 


-Farei o meu melhor. 
De braos cruzados, Lexie ficou observando o sol a tentar, e falhar, a penetrao atravs da 
nuvens escuras. 


-Esta noite - informou. 
Jeremy franziu a testa. 
-Esta noite? 
-se for ao cemitrio, esta noite poder avistar as luzes. 
-Como  que sabe? 
-Vem a o nevoeiro. 
Jeremy seguiu-lhe o olhar. 
-Como  que pode garantir isso? No estou vendo qualquer modificao do tempo. 
-Olhe para trs de mim, para o outro lado do rio -pediu ela. -As pontas das chamins da 
fbrica de papel j esto escondidas pelas nuvens. 


-Sim, claro... - concordou ele, sem mais nada para dizer. 
-Volte-se e observe. Vai ver. 
#
Ele olhou por cima do ombro e desviou os olhos, depois olhou uma vez mais, observando os 
contornos da fbrica de papel. 

-Tem razo - concluiu. 
-Pois claro que tenho. 
-Aposto que deu uma vista de olhos quando eu no estava a reparar, no foi? 
-No. Mas sei, to simples quanto isso. 
-Ah! Temos, ento, mais um desses enfadonhos mistrios? 
Lexie afastou-se do gradeamento. 

-se  isso que prefere chamar-lhe - zombou. - Mas temos de ir. Est fazendo-setarde e tenho 
de regressar  biblioteca. Dentro de quinze minutos tenho de comear a leitura para as 
crianas. 

Enquanto caminhavam para o carro, Jeremy reparou que o cume de Riker's Hill tambm 
estava encoberto. Sorriu, pensando em que tinha descoberto como  que ela poderia ter 
visto aquilo. Olhou l para cima e concluiu que devia estar a acontecer o mesmo na outra 
margem do rio. Belo truque. 

-Agora, diga-me -comeou Jeremy, a tentar esconder o sorriso de troa -, como parece 
possuir talentos escondidos, como  que pode ter a certeza de que as luzes podero ser 
avistadas logo  noite? 

A resposta demorou algum tempo. 

-sei,  tudo - confirmou Lexie. 

-Muito bem, parece que est decidido. Acha que devo l ir, no acha? 
Porm, mal tinha proferido aquelas palavras, lembrou-se do jantar para que tinha sido 
convidado e, de repente, Lexie notou-lhe um ar preocupado, cujo motivo no entendeu. 

-O que foi? 
-Oh, o presidente da Cmara oferece um jantar com algumas pessoas que pensa que eu 
devo conhecer - esclareceu. - Uma pequena reunio, algo do gnero. 

-Para si? 
Ele sorriu. 
-O qu? Est admirada? 
-No, apenas surpreendida. 
-Porqu? 
-Porque no ouvi falar disso. 
-Tambm s soube esta manh. 
-Mesmo assim,  surpreendente. Mas eu no me preocuparia por poder no avistar as luzes 
por causa do jantar do presidente da Cmara, pois, de qualquer das formas, as luzes s 
aparecem tarde. Tem tempo mais que suficiente. 

-Tem a certeza? 
-Falo por experincia prpria. Avistei- as um pouco antes da meia-noite. 
Jeremy parou. 

-Espere l... tambm viu as luzes? No me tinha falado disso. 
Ela sorriu. 
#
-Voc no perguntou. 
-Est sempre a dar-me essa resposta. 
-Bem, senhor jornalista, s acontece porque o senhor est sempre a esquecer-se de 
perguntar. 

#
OITO 

Do outro lado da vila, no Herbs, o ajudante Rodney Hopper estava a ruminar sobre a sua 
caneca de caf; como gostaria de saber onde  que a Lexie tinha ido com aquele... menino 
da cidade. 

Tinha pretendido fazer uma surpresa  Lexie, ir  biblioteca convid-la para almoar, para 
que o menino da cidade soubesse exatamente em que p estavam as coisas. Era at 
possvel que ela o deixasse acompanh-la ao carro, deixando o menino da cidade a roer-se 
de inveja. 

Oh, ele sabia exatamente o que o menino da cidade via na Lexie. E tinha de estar vigilante. 
Com mil diabos, pensava Rodney, era impossvel no reparar. Era a mulher mais bonita da 
regio, provavelmente de todo o estado. Ou at, por que no, de todo o mundo. 

Normalmente, no se teria preocupado por saber que um homem estava a fazer pesquisas 
na biblioteca, nem ficou preocupado quando ouviu falar naquele pela primeira vez. No 
entanto, quando comeou a ouvir toda a gente a murmurar sobre do novo estranho que 
estava na vila, quiser observando por si mesmo. E as pessoas tinham razo: bastava um 
olhar para perceber o motivo que levava toda a gente da vila falando do menino da cidade. 
As pessoas que faziam pesquisas na biblioteca tendiam a ser mais velhas e a mostrarem a 
expresso ausente dos eruditos, a que se juntavam os culos de leitura, o ar desmazelado e 

o hlito a caf. Mas este tipo no era assim; no, este tipo parecia acabado de sair do salo 
de beleza da Della. Mas nem isso o teria preocupado tanto, se no se desse o fato de, 
naquele momento, eles andarem sozinhos a divertir-se pela vila. 
Rodney franziu a testa. Mas onde andariam eles? 

No estavam no Herbs. Nem no restaurante do Pike. No, andara a esquadrinhar os parques 
de estacionamento e no vira qualquer dos carros. Poderia ter entrado para perguntar por 
eles, mas como talvez j fosse conhecido o fato de eles andarem juntos, achou que poderia 
no ser uma boa idia. Todos os amigos zombavam dele por causa da Lexie, especialmente 
quando ele anunciava que ia outra vez sair com ela. Dir-lhe-iam que lhe saltasse para cima, 
que ela andava com ele s para lhe ser simptica, mas ele sabia o que estava a fazer. Ela 
aceitava sempre que lhe sugeria que sassem, no era verdade? Pensou melhor. Bom, pelo 
menos na maioria das vezes. Ela nunca o beijava no final, mas isso era o que menos 
interessava. Era paciente, a sua altura haveria de chegar. De cada vez que saam, davam 
mais um passo a caminho de um relacionamento mais profundo. Ele sabia que sim. Sentia 
que sim. Sabia perfeitamente que os amigos falavam por inveja. 

Esperou que a Doris soubesse alguma coisa, mas aconteceu que tambm ela no estava. 
Informaram-no de que tinha ido falar com os contabilistas e que no deveria demorar-se. O 
que, como  bvio, no o ajudou nada, pois a hora do almoo estava a esgotar-se e no 
podia continuar ali  espera dela. Alm disso, o mais provvel era que negasse saber alguma 
coisa sobre o paradeiro da Lexie. Segundo ouvira dizer, a Doris gostava do menino da 
cidade, o que poderia concorrer para alterar toda a situao. 

Rachel interpelou-o: 

-Desculpa, meu querido. Ests a sentir-te bem? 
Rodney levantou os olhos e viu-a ao lado da mesa, com o bule do caf na mo. 
-No  nada, Rachel. Acontece que estou em dia no. 
-Os maus andam a causar-te problemas? 
Rodney fez um aceno de cabea. 
-Bem podes diz-lo. 
Rachel sorriu, estava bonita, embora Rodney no parecesse reparar. Desde h muito que a 
#
considerava quase uma irm. 
Ela encorajou-o: 

-Bom, tudo se resolver. 
- provvel que tenhas razo -concordou o ajudante. Rachel cerrou os lbios. Por vezes 
preocupava-se com o Rodney. 

-Tens a certeza de que no queres nada para comer? Sei que ests com pressa e posso 
dizer-lhes que sejam rpidas. 

-No, no sinto muita fome. E tenho no carro protenas em p, que poderei tomar mais 
tarde. Ficarei timo - sossegou-a, ao estender a caneca. - Mas bebo mais uma caneca. 

- para j - anuiu Rachel, j a despejar o caf. 
-Olha l, por acaso viste se a Lexie passou por aqui? Talvez a comprar comida para fora? 
Rachel negou com a cabea. 
-No a vi em todo o dia. J foste  biblioteca? Se for importante posso ligar para l. 
-No, no  assim to importante. 
Ela inclinou-se sobre a mesa, como se procurasse o que havia de dizer a seguir. 
-Esta manh, vi que estavas conversando com o Jeremy Marsh. 
-Quem? - perguntou Rodney, a fingir-se inocente. 
-O jornalista de Nova Iorque. No te recordas? 
-Ah, pois. Pensei que devia dar-me a conhecer. 
-Um homem bonito, no ? 
-Nunca reparo se os outros homens so bonitos - resmungou ele. 
-Pois bem, este . No me importava de ficar todo o dia a olhar para ele. Aquele cabelo! 
Provoca-me desejos de o pentear com os dedos. Toda a gente fala dele. 

-timo - resmungou Rodney, a sentir-se cada vez pior. 
-Convidou-me a ir a Nova Iorque - gabou-se Rachel. Ao ouvir aquilo, Rodney empertigou-se. 
-Convidou-te? 
-Bom, pareceu-me que sim. Disse que devia fazer uma visita  cidade, e embora no o 
tivesse dito com as palavras todas, fiquei com a sensao de que desejava que fosse visitlo. 


-De verdade? - indagou Rodney. 
-Mas, Rachel, isso  timo. 
-O que  que pensaste dele? 
Rodney agitou-se na cadeira. 
-No falamos o suficiente. 
-Devias ter falado.  realmente interessante e muito inteligente. E aquele cabelo! J te falei 
no cabelo dele? 

-J -respondeu o ajudante, a beber um gole de caf, a tentar ganhar tempo para avaliar 
melhor a situao. Teria ele convidado a Rachel para ir a Nova Iorque? Ter-se-ia a Rachel 
convidado a si prpria? Como  que ele poderia saber? Percebia que o menino da cidade a 
achasse atraente, mas... mas... a Rachel tinha propenso para exagerar, alm de que a 
Lexie e o menino da cidade andavam no se sabia por onde. Parecia-lhe haver ali algo que 
no se encaixava muito bem. 

#
Comeou a preparar-se para sair. 

-Bom, ouve, se vires a Lexie diz- lhe que passei por c,  procura dela, est bem? 
-Vai descansado. Queres que te encha um copo de plstico com caf? 
-No, obrigado. J no estou a sentir-me bem do estmago. 
-Oh, coitado! Acho que na cozinha h umas pastilhas para isso. Queres que as v buscar? 
Rodney encheu o peito de ar e tentou readquirir o ar oficial. 
-Olha, Rachel, para te ser franco, acho que no ia adiantar nada. 
Noutro ponto da vila, perto do escritrio do contabilista, o presidente Gherkin chamou pela 
Doris. 

-Aqui est a mulher que eu queria encontrar -bradou. Doris voltou-se e viu o presidente 
aproximar-se; vendo-o metido num casaco vermelho e numas calas de xadrez, no 
conseguiu deixar de pensar se o presidente seria daltnico. Na maioria das ocasies, o 
homem parecia ridculo. 

-O que  que queres de mim, Tom? 
-Bem, no sei se j ouviste dizer que estamos a preparar um jantar especial para o nosso 
convidado, Jeremy Marsh -comeou o presidente. -Est a escrever uma grande histria, 
como sabes, e... 

Doris concluiu a frase mentalmente, para depois dizer as palavras juntamente com ele: 

-percebes a importncia que isso pode vir a ter para a vila. 
-J ouvi dizer. Sei que tem um interesse especial para o teu negcio. 
-Neste caso, estou pensando em nos interesses de toda a comunidade -esclareceu o 
presidente, ignorando o comentrio dela. 

-Passei a manh toda a preparar as coisas, de modo a que tudo corra bem. Mas queria 
saber se nos poderias ajudar com algo que se coma. 

-Queres que seja eu a fornecer o jantar? 
-Repara que no se trata de uma questo de caridade. A vila no deixar de te compensar 
pelas tuas despesas. Estamos pensando em fazer a reunio na plantao Lawson, logo  
sada da vila. J falei com os tipos de l e eles disseram que nos cederiam de bom grado as 
instalaes. Acho que podamos fazer uma pequena reunio, que talvez sirva de ponto de 
partida para o Circuito das Manses Histricas. J falei para o jornal, passar por l um 
reprter... 

-E quando  que ests pensando em fazer a tua pequena reunio? -perguntou Doris, 
interrompendo-o. 

Por momentos, pareceu confundido com a interrupo. 

-Bem, esta noite,  claro... mas, como ia a dizer... 
-Esta noite? - indagou a Doris, a interromp-lo pela segunda vez. 
-Pretendes que eu prepare uma das tuas pequenas reunies para esta noite? 
-Doris,  por uma boa causa. Sei que  uma falta de considerao comprometer-te assim de 
chofre, mas podero estar a preparar-se acontecimentos importantes e temos de tirar 
partido deles. Tanto eu como tu sabemos que s a nica pessoa capaz de resolver esta 
situao. Nada de complicado, certamente. Estive pensando em que poderias apresentar a 
tua galinha com pesto, mas sem as sanduches... 
-O Jeremy Marsh tem conhecimento disto? 
- claro que tem. At falei com ele esta manh, pareceu verdadeiramente entusiasmado 
#
com a idia. 

-De verdade? - indagou Doris, a inclinar a cabea para trs, a duvidar. 
-E estava a contar que a Lexie tambm assistisse. Sabes como ela  importante para as 
pessoas desta vila. 

-Duvido que ela possa. Detesta esse tipo de eventos, s vai quando  absolutamente 
necessrio. 

-Talvez tenhas razo. Mas, de qualquer forma, como eu ia dizendo, gostava de aproveitar a 
ocasio para promover o fim-de-semana. 

-No estars a esquecer-te de que eu sou contra a utilizao do cemitrio como atrao 
turstica? 

-De maneira nenhuma - atalhou o presidente. 
-Lembro-me exatamente do que me disseste. Contudo, pretendes que a tua voz seja 
ouvida, no ? Se no compareceres no haver ningum que defenda os teus pontos de 
vista. 

Doris ficou a olhar para o presidente Gherkin durante um bom bocado. No havia dvida de 
que o homem sabia os botes que devia premir. E tinha razo, num aspecto. Se ela no 
fosse, se s l estivessem o presidente e os conselheiros municipais, imagine-se o que 
Jeremy iria escrever sobre a vila. Tom tinha razo: ela era a nica pessoa que podia 
organizar uma reunio daquelas em to curto espao de tempo. Ambos sabiam que ela 
estava a preparar-se para as festas do fim-de-semana, que tinha a cozinha fornecida de 
comida suficiente. 

Capitulou: 

-Est bem. Eu tomo conta disso. Mas no penses, nem um segundo, que vou servir essa 
gente toda. Organizarei um bufete e vou sentar-me  mesa como os restantes convidados. 

O presidente Gherkin sorriu. 

-Doris, nem eu permitiria que no fosse assim. 
O ajudante Rodney Hopper estava sentado no carro estacionado em frente da biblioteca, a 
tentar decidir se deveria ou no entrar para falar com a Lexie. Viu que o carro do menino da 
cidade estava no parque de estacionamento, o que significava que tinham regressado do 
passeio, fosse l aonde fosse. Alm disso, via a luz a brilhar nas janelas do gabinete de 
Lexie. 

Imaginava-a  secretria, a ler, com as pernas dobradas sob o corpo, a ajeitar as madeixas 
de cabelo por trs da orelha enquanto ia folheando as pginas de um livro. Queria falar com 
ela, mas havia um problema: sabia que no dispunha de um motivo aceitvel. Nunca 
passava pela biblioteca para conversar porque, honestamente, no tinha a certeza de que 
Lexie pretendesse que ele l fosse. Nunca tinha sugerido que ele passasse por l para vendo 
e, sempre que ele pretendia conduzir a conversa nessa direo, ela mudava de assunto. 
Fazia sentido, at certo ponto, pois ela devia estar a trabalhar, mas, ao mesmo tempo, sabia 
que um pequeno encorajamento da parte de Lexie para que ele a visitasse seria mais um 
pequeno progresso nas relaes deles. 

Tal exigiria,  claro, que a relao deles existisse e, de momento, Rodney no estava 
totalmente convencido de que isso fosse verdade. No dia anterior sentira-se satisfeito com o 
estado da relao. Bom, no se poderia dizer que Ficara totalmente satisfeito. Gostaria que 
as coisas andassem um pouco mais depressa, mas isso no era o mais importante. 
Importante era que, na vspera, tinha a certeza de que no havia concorrentes, mas hoje, 
os dois estavam sentados l em cima, provavelmente a rirem-se e a dizerem piadas um ao 
outro, a divertirem-se  grande. E ele estava para ali, sentado num automvel parado, a 
olh-los do exterior. 

#
Contudo, tambm era possvel que a Lexie e o menino da cidade no estivessem juntos na 
mesma sala. Talvez a Lexie estivesse... bom, a fazer o seu trabalho de bibliotecria, 
enquanto o menino da cidade estaria encolhido a um canto, a ler qualquer livro bafiento. 
Talvez a Lexie estivesse apenas a mostrar-se hospitaleira, pois o tipo estava de visita  vila. 
Pensou maduramente, at decidir que fazia sentido. Com mil diabos, no andava toda a 
gente meio parva para que o tipo se sentisse bem-vindo? E o presidente estava  frente do 
comit. Naquela manh, quando ele tinha o menino da cidade onde o queria, no preciso 
momento em que ia estabelecer-lhe os limites, o presidente (que presidente! ) ajudara o tipo 
a safar-se. E pumba! O menino da cidade e a Lexie foram apanhar flores e observar o arco-
ris. 

Porm, uma vez mais, poderia no ter sido assim. Odiava no saber o que estava a 
acontecer e, quando estava quase decidido a entrar na biblioteca, os seus pensamentos 
foram interrompidos por um toque na janela. Passou um segundo at conseguir ver quem 
era. 

O presidente. O senhor Empata, que aparece nos piores momentos. " J era a segunda vez. 

Rodney baixou o vidro e deu entrada a uma lufada de ar frio. O presidente Gherkin inclinou-
se, apoiando as mos no carro. 

-s mesmo o homem de quem eu andava  procura. Ia a passar e, quando te vi, lembrei-
me de que esta noite iremos precisar de um representante das foras de segurana. 

-Para qu? 
-Para a nossa pequena reunio,  claro. Em honra de Jeremy Marsh, o nosso distinto 
convidado. Logo  noite, na plantao Lawson. 
Rodney pestanejou. 


-Est a brincar, no est? 
-No, de forma alguma. De fato, encarreguei agora mesmo o Gary de fazer uma chave da 
vila para lhe entregar. 

-Uma chave da vila - repetiu Rodney. 
-Com certeza, mas no digas a ningum. Pretendo fazer uma surpresa. Contudo, como a 
reunio est a tomar um carter mais oficial, no deixarei de agradecer a tua presena. Dar 
ao sero um ar um pouco mais. cerimonioso. Gostaria que estivesses ao meu lado no 
momento de lhe oferecer a chave. 

Lisonjeado, o ajudante do xerife encheu um pouco mais o peito. Mesmo assim, no havia 
qualquer hiptese de lhe ser atribuda uma misso daquelas. 

-senhor presidente, no lhe parece que essa  uma misso mais apropriada para o meu 
chefe? 

-Bom, certamente. Mas tanto tu como eu sabemos que, neste momento, ele anda pelas 
montanhas,  caa. E como s tu o responsvel quando ele se ausenta,  uma daquelas 
misses que te cai no regao. 

-No sei, Tom. Teria de arranjar quem me substitusse.  uma pena, mas penso que no 
vou conseguir. 

- uma pena. Mas compreendo. O dever  sagrado. 
Rodney respirou de alvio. 
-Obrigado. 
-Embora tenha a certeza de que a Lexie gostaria de te ver l. 
-A Lexie? 
-Bom, tem de ser. Ela dirige a biblioteca, o que a torna uma das personalidades que tm de 
#
estar presentes. Ia agora mesmo convid-la. Mas no tenho dvidas de que ela gostar de 
conversar com o nosso convidado, mesmo sem a tua presena - insinuou, ao endireitar-se. 

-Tudo bem. Como te disse, compreendo. 
-Espere! -exclamou Rodney, pensando em rapidamente, a tentar a recuperao. -Disse 
que era esta noite, no foi? 
O presidente acenou que sim. 
-Nem sei o que estava a pensar, mas penso que o Bruce j est escalado, que poderei 


compor as coisas. 
O presidente sorriu. 
-Ainda bem. Agora deixa que v at l dentro para falar com Miss Darnell. No estavas 


pensando em em ir falar com ela, pois no? No me importo de esperar. 

-No - asseverou Rodney. - Diga-lhe apenas que nos veremos mais tarde. 
-Fica descansado, ajudante. 
Depois de conseguir mais algumas informaes para Jeremy e de passar rapidamente pelo 
gabinete, Lexie viu-se rodeada por vinte crianas, algumas aconchegadas ao colo das mes. 
A bibliotecria sentou-se no cho, a ler o terceiro livro. A sala estava barulhenta, como 
acontecia sempre. De um dos lados, fora colocada uma mesa baixa com bolos e sumos; num 
canto, algumas crianas menos interessadas brincavam com os muitos brinquedos que 
estavam arrumados nas estantes. Outras pintavam com os dedos, em cima de uma mesa 
torta que a prpria Lexie concebera. A sala estava pintada com cores alegres, as estantes 
eram em tons pastel, sem nexo aparente a no ser o aspecto alegre. Apesar dos protestos 
de empregados e voluntrios mais velhos, que pretendiam que as crianas estivessem 
sentadas e quietas durante a leitura, como sempre acontecera, Lexie queria que as crianas 
se divertissem na biblioteca. Queria que elas se excitassem por estarem ali, mesmo que tal 
exigisse a existncia de brinquedos e de uma sala que no poderia considerar-se calma. Com 

o passar do tempo, recordava-se de numerosas crianas que iam l, durante um ano mais, 
antes de descobrirem o prazer da leitura, mas isso no a perturbava. Desde que 
continuassem a comparecer. 
Hoje, porm, sentia a mente ocupada com os pormenores do almoo que partilhara com 
Jeremy. Embora no pudesse ser descrito como um namoro, quase tivera essa sensao, o 
que tornava a situao um pouco desconcertante. Ao pensar agora no caso, apercebia-se de 
que tinha revelado mais de si prpria do que gostaria de ter feito e tentava recordar-se do 
que a levara a proceder assim. No se tratara de qualquer pedido dele. Tinha acontecido, 
pura e simplesmente. Mas por que diabo continuava a lutar com aquilo? 

No gostava de se considerar neurtica, mas aquela anlise infindvel no era normal. E, 
alm disso, dizia a si mesma, fora mais uma visita guiada do que um namoro. Porm, por 
mais que desejasse parar de pensar nele, o rosto de Jeremy no deixava de lhe aparecer: o 
sorriso ligeiramente zombeteiro, a expresso de divertimento com que a ouvia. No 
conseguia deixar de Refletir sobre a idia que ele faria da vida naquela terra, para no falar 
da idia que faria dela mesma. At corara quando ele a achara sedutora. O que quereria ele 
dizer? Talvez, pensava, fosse uma conseqncia de ela ter despejado o saco sobre o seu 
passado, o que a deixara vulnervel. 

Mentalmente, tomou uma nota para no voltar a proceder assim. E, no entanto. 

No fora mau de todo, tinha de admitir. Uma conversa com um novo conhecido, com algum 
que ainda no conhecia toda a gente e tudo o que sucedia na vila, tinha sido bem agradvel. 
Quase se esquecera de que poderia tornar-se algo especial. E ele tinha-a surpreendido. Doris 
tinha razo, pelo menos em parte. O homem era mais inteligente do que ela julgara a 
princpio e, mesmo que se recusasse a encarar a hiptese de existncia de mistrios, 
compensava essa teimosia com a forma bem-humorada com que aceitava as diferenas de 
crenas e maneiras de viver que havia entre eles. At conseguia rir-se de si prprio, mais 

#
uma caraterstica que o tornava atraente. 

Enquanto continuava a ler para as crianas -no era um livro difcil, graas a Deus -a 
cabea recusava-se a descansar. 

Pois bem, gostava dele. Estava disposta a admiti-lo. Contudo, nem essa certeza fazia calar a 
vozinha interior que a avisava para no se deixar magoar. Tinha de agir com cautela, pois, 
por mais que parecessem dar-se bem, Jeremy Marsh podia mago-la, desde que ela 
permitisse que tal acontecesse. 

Jeremy estava debruado sobre uma srie de mapas das ruas de Boone Creek, cartas 
antigas, datadas de meados do sculo XIX. Quanto mais antigas, mais pormenores pareciam 
conter; ao ver como a vila tinha mudado, dcada aps dcada, ia acrescentando novas 
notas. A partir de uma pequena aldeia encolhida numa dezena de ruas, a vila expandira-se 
em todas as direes. 

O cemitrio, como ele j sabia, ficava situado entre o rio e Riker's Hill; mais importante: 
apercebeu-se de que uma linha traada entre Riker's Hill e a fbrica de papel passaria 
diretamente por cima do cemitrio. A distncia entre os dois pontos no chegava a cinco 
quilmetros e ele sabia que era possvel, mesmo em noites de nevoeiro, que a refrao da 
luz viajasse entre os dois pontos. Gostaria de saber se a fbrica trabalhava com um terceiro 
turno, o que obrigaria a manter o lugar profusamente iluminado, mesmo durante a noite. 
Com a espessura certa de nevoeiro e a luz suficiente, tudo seria explicado de uma vez para 
sempre. 

Depois de Refletir, apercebeu-se de que deveria ter notado a relao estreita entre Riker's 
Hill e a fbrica de papel quando tinha subido ao monte. Em vez disso, estivera a apreciar a 
paisagem, a olhar a vila l de cima e a passar tempo com a Lexie. 

Ainda estava a procurar compreender a sbita mudana de comportamento dela. Ontem no 
quisera ter nada vendo com ele, e hoje... bom, hoje foi um dia diferente, no foi? E ficava 
danado por no conseguir deixar de pensar nela, no da forma habitual, em que havia 
sempre roupas amontoadas aos ps da cama. J nem se recordava de quando lhe tinha 
acontecido algo semelhante. Provavelmente com a Maria, mas isso fora h muito tempo. 
Numa outra vida, quando era uma pessoa muito diferente. Contudo, hoje a conversa tinha 
sido to natural, to agradvel que, apesar da necessidade de terminar o estudo dos mapas, 
tudo o que desejava verdadeiramente era conhec-la ainda melhor. 

Por estranho que lhe parecesse, antes de compreender o que estava a acontecer, levantou-
se da secretria e comeou a dirigir-se para a escada. Sabia que ela estava a ler para as 
crianas, no tinha inteno de a perturbar, mas, de sbito, sentira a necessidade de vendo. 
Desceu a escada, virou a esquina e caminhou para junto de uma das paredes de vidro. No 
tardou a avistar Lexie sentada no cho, rodeada por crianas. 

Lia de forma viva, fazendo-o sorrir com as expresses que adotava: olhos esbugalhados, o 
O" que fazia com os lbios, a maneira como se inclinava para diante para dar nfase a 
qualquer pormenor da histria. As mes estavam sentadas, a sorrir. Dois dos midos no 
mexiam um dedo; os outros pareciam ter um motor interno. 

-Ela  extraordinria, no acha? 
Surpreendido, Jeremy virou a cabea. 
-Presidente Gherkin, o que faz o senhor por aqui? 
-Venho v-lo,  claro. E tambm a Miss Lexie. Sobre do jantar desta noite. Praticamente, 
temos tudo preparado. Julgo que ficar impressionado. 

-Ficarei, certamente. 
-Mas, como no me canso de dizer, ela  impressionante, no acha? 
Jeremy no respondeu e o presidente franziu a testa, antes de prosseguir. 
#
-Notei a forma como estava a olhar para ela. Um 
homem  trado pela maneira de olhar. Os olhos nunca mentem. 
-Isso quer dizer o qu? 
O presidente sorriu. 
-Bom, eu c no sei. Porque  que no me esclarece? 
-No h nada a esclarecer. 
-Certamente que no - respondeu Gherkin. 
Jeremy abanou a cabea. 
-Por favor, senhor presidente... Tom... 
-Oh, no ligue. Estava apenas a provoc-lo. Deixe que lhe fale um pouco da nossa pequena 
reunio desta noite. 

O presidente Gherkin informou Jeremy da localizao e deu-lhe uma srie de informaes 
que, sem grande surpresa, se referiam a vrios pontos de referncia locais. Jeremy no ficou 
com dvidas de que Tully tinha ensinado ao presidente tudo o que este sabia. 

-Acha que ser capaz de l chegar? - perguntou Gherkin para terminar. 
-Tenho um mapa - informou Jeremy. 
-Poder ser uma ajuda, mas no se esquea de que aquelas estradas secundrias podem 
tornar-se um tanto difceis.  fcil perder-se, se no tiver cuidado. Pode considerar a 
hiptese de ir com algum que conhea o caminho. 

Quando Jeremy se voltou para o olhar com curiosidade, Gherkin apontou para a parede de 
vidro. 

-Pensa que devo pedir  Lexie? - inquiriu Jeremy. Os olhos do presidente cintilaram. 
-Isso  consigo. Se acha que ela concorda. Muitos homens consideram-na a jia da regio. 
-Ela dir que sim - afianou Jeremy, sentindo-se mais esperanado do que convencido. 
O presidente pareceu duvidar. 

-Julgo que poder estar a sobrestimar as suas prprias qualidades. Contudo, se est to 
confiante, parece que conclu a misso que me trouxe aqui. Vim c para a convidar 
pessoalmente, mas como voc decidiu encarregar-se disso, limito-me a despedir-me. At 
logo. 

Gherkin voltou-se para sair e, uns minutos depois, Jeremy viu que Lexie tinha terminado a 
leitura. Viu-a fechar o livro e as mes das crianas a prepararem-se para sair, o que lhe fez 
sentir um aumento da adrenalina no sangue. A sensao surpreendeu-o. Quando  que a 
tinha sentido pela ltima vez? 

Algumas mes chamaram os filhos que no tinham ouvido a leitura e momentos depois Lexie 
acompanhou o grupo at  sada da sala de leitura das crianas. Ao ver Jeremy, caminhou 
para ele. 

-Presumo que est pronto para comear com os dirios - conjeturou. 
-se tiver tempo para nos trazer - respondeu Jeremy. 
-Ainda preciso de dar mais uma vista de olhos pelos mapas. H, contudo uma outra 
questo. 
Ela inclinou ligeiramente a cabea para o lado. 


-Qual ? 
Ao responder-lhe, Jeremy pareceu sentir borboletas no estmago. Esquisito. 
#
-O presidente passou por c para me falar do jantar desta noite, na plantao Lawson, mas 
no tem a certeza de eu conseguir chegar l sozinho; por isso, sugeriu que eu levasse 
comigo algum que conhea o caminho. E, bom, como a Lexie  praticamente a nica 
pessoa que eu conheo na vila, estava pensando em se no se importaria de me 
acompanhar. 

Durante uns momentos no obteve resposta. 

-Tretas! - foi o nico comentrio de Lexie. 
A resposta apanhou Jeremy desprevenido. 
-Perdo? 
-Oh, no tem nada vendo consigo.  o presidente e a sua maneira de compor as coisas. Ele 
sabe que, sempre que posso, evito esse gnero de eventos no diretamente relacionados 
com a biblioteca. Presumiu que eu recusaria se fosse ele a convidar-me; por isso, engendrou 
uma maneira de ser voc a pedir- me. Deixou a questo para ser resolvida entre ns. 

Jeremy ficou a pensar, tentando recordar a troca de palavras com o presidente, mas s se 
lembrou de palavras soltas. Quem tinha sugerido a idia de levar a Lexie? Ele ou o 
presidente? 

-Por que razo me vejo, subitamente, no meio de uma telenovela? 
-Porque  verdade. Chama-se viver numa pequena vila do Sul. Ele fez uma pausa, sem 
saber como agir. 

-Pensa realmente que o presidente planeou isto tudo? 
- claro que planeou. Pode parecer to inteligente como um molho de feno, mas tem a 
estranha habilidade de levar as pessoas a fazerem exatamente o que ele quer, ficando, 
ainda por cima, com a sensao de que a idia foi delas desde o incio. Por que diabo pensa 
que ainda est vivendo no Greenlea? 

Jeremy enfiou as mos nos bolsos, a Refletir sobre o que acabava de ouvir. 

-Bom, como sabe, no tem obrigao de ir. Tenho a certeza de que acabarei por encontrar 
a plantao. 

Lexie ps as mos nas ancas e olhou-o de frente. 

-Agora est a tentar pr-me de lado? 
Ele ficou imvel, sem saber que resposta havia de dar. 
-Bom, limitei-me pensando em que como o presidente. 
-Quer que eu v consigo ou no quer? 
-Quero, mas se no... 
-Ento, pea-me novamente. 
-Perdo? 
-Pea-me para o acompanhar esta noite. Desta vez como sendo um pedido seu, sem usar a 
desculpa de que precisa que lhe indiquem o caminho. Diga algo assim: Gostaria muito de a 
levar hoje a jantar. A que horas poderei ir busc-la? ". 

Jeremy olhou para Lexie, a tentar decidir se ela estaria falando a srio. 

-Quer que eu diga essas palavras? 
-se no as disser, continuar a ser uma idia do presidente da Cmara e no irei. Contudo, 
se me pedir, tem de o fazer como deve ser, falar com o tom devido. 
Jeremy agitou-se, mais parecendo um menino de escola nervoso. 


-Gostaria muito de a levar hoje a jantar. A que horas poderei ir busc-la? 
#
Ela sorriu e ps-lhe a mo num brao. 

-Como queira, Mr. Marsh - chilreou. - Terei muito prazer. 
Minutos mais tarde, ainda com a cabea a andar  roda, Jeremy estava vendo a Lexie retirar 
os dirios de uma caixa fechada, que se encontrava na sala dos livros raros. Uma mulher de 
Nova Iorque nunca usaria com ele o tom que Lexie tinha usado. No conseguia decidir se ela 
tinha sido razovel, irracional ou algo a meio caminho. Pea-me outra vez e use o tom 
devido. " Que espcie de mulher faria aquilo? E por que diabo  que ele achara a situao 
to... constrangedora? 

No tinha certezas e, de repente, o artigo e as oportunidades de entrada na televiso 
tornaram-se meros pormenores secundrios. Em vez disso, ao observar a Lexie, s pensava 
no calor que sentiu quando ela lhe ps uma mo gentil no brao. 

#
NOVE 

 noite, com o nevoeiro a tornar-se to espesso como pur, Rodney Hopper deu consigo 
pensando em que parecia ir realizar-se um concerto de Harry Manilow na plantao Lawson. 

Passara os ltimos vinte minutos a dirigir o trfego no parque de estacionamento e a assistir, 
incrdulo,  procisso de gente excitada que se dirigia para a porta. At agora, j tinha visto 
chegar dois mdicos, o Dr. Benson e o Dr. Tricket, o dentista, Dr. Albert, todos os oito 
membros do Conselho Municipal, incluindo o Tully e o Jed, o presidente da Cmara, o 
pessoal da Cmara de Comrcio, todo o conselho escolar, os nove comissrios distritais, os 
voluntrios da Sociedade Histrica, trs contabilistas, toda a equipa do Herbs, o barman do 
Lookilu, o barbeiro e at o Toby, que ganhava a vida a esvaziar fossas spticas mas que, 
apesar disso, se apresentara todo elegante. A plantao Lawson estava ainda mais cheia do 
que na quadra do Natal, quando o lugar era decorado e aberto ao pblico, na primeira 
sexta-feira de Dezembro. 

Esta noite no era a mesma coisa. No se tratava de uma celebrao em que amigos e 
conhecidos se juntavam para desfrutar da companhia uns dos outros, antes de iniciada a 
poca das festas. Esta era uma festa em honra de algum que no tinha qualquer ligao  
vila, que no se preocupava minimamente com aquela terra. Pior ainda, mesmo estando ali 
em misso oficial, subitamente foi assaltado por uma dvida: no sabia se valera a pena ter-
se dado ao trabalho de passar as calas a ferro, pois era provvel que a Lexie nem reparasse 
nesse pormenor. 

Sabia tudo o que estava a passar-se. Depois de a Doris ter regressado ao Herbs para 
preparar o jantar, o presidente da Cmara tinha passado por l e dera a desgraada notcia 
sobre de Jeremy e Lexie, mas Rachel telefonara-lhe logo de seguida. Pensou que a Rachel 
era uma querida, sempre o fora. Sabia o que ele sentia pela Lexie, mas no zombava dele, 
como as outras pessoas faziam. De qualquer das formas, ficou com a impresso de que a 
Rachel tambm no estava muito entusiasmada com a idia de ver a Lexie e o Jeremy 
juntos. Mas era melhor do que ele a esconder o que sentia; de momento, Rodney preferiria 
estar em qualquer outro local. Naquela noite tudo concorria para o pr maldisposto. 

Especialmente a forma como a vila estava a reagir. Tanto quanto se recordava, as gentes da 
terra no andavam to excitadas sobre do Futuro da vila desde a altura em que o Raleigh 
News Observer mandou um reprter escrever um artigo sobre Jumpy Walton, quando este 
estava a tentar construir uma rplica do avio dos irmos Wright, com que planeava voar 
para comemorao do centsimo aniversrio do incio da aviao, em Kitty Hawk. Jumpy, 
que sempre tivera uns quantos parafusos mal apertados, h muito clamava ter a rplica 
quase pronta; porm, quando abrira a porta do celeiro para mostrar com orgulho o que j 
havia conseguido, o reprter apercebeu-se de que Jumpy no fazia a mnima idia do que 
estava a fazer. No celeiro, a rplica parecia uma verso agigantada e tortuosa de uma 
galinha feita de contraplacado e arame. 

Agora, a vila apostava a sua prosperidade na existncia de fantasmas no cemitrio, 
acreditava que o menino da cidade traria o mundo at ali por causa deles. Rodney tinha 
fortes dvidas. Alm disso, para ser honesto, no se importava se o mundo viria ou no, 
desde que a Lexie continuasse a fazer parte do mundo dele. 

Na vila, e mais ou menos  mesma hora, Lexie passou para o alpendre no momento em que 
Jeremy comeou a percorrer o caminho de acesso  casa, trazendo na mo um pequeno 
ramo de flores silvestres. Considerou o gesto bonito e desejou que ele no notasse quanto 
se sentira esfrangalhada at h poucos minutos. 

Por vezes, era difcil ser mulher e esta noite estava a ser das mais difceis. Em primeiro 
lugar, havia que considerar a questo de ter recebido, ou no ter recebido, um convite para 
sair. O pedido fora certamente mais parecido com um convite para sair do que tinha sido o 
do almoo, mas no se tratava bem de um jantar romntico, a dois, e continuava com 

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dvidas quanto a ter aceitado colaborar numa reunio como aquela. Alm disso, havia toda 
a questo da maneira como gostaria de ser apreciada, no s por Jeremy mas tambm por 
toda a gente que iria v-los juntos. A tudo isto havia que acrescentar o pormenor de ela se 
sentir mais confortvel com calas de ganga e de no querer usar roupa decotada, uma 
confuso que acabou por lev-la a desistir. No final, decidiu-se pela aparncia profissional: 
fato castanho de casaco e calas, com uma blusa cor de marfim. 

E agora ele estava ali, com o seu ar de Johnny Cash, como se no estivesse a ligar qualquer 
importncia quele sero. 

-Conseguiu encontrar a casa - observou Lexie. 
-No foi muito difcil. Mostrou-me onde morava quando estivemos no Riker's Hill, recorda-
se? - esclareceu, ao dar-lhe o ramo de flores. - Por favor. So para si. 
Lexie recebeu as flores com um sorriso, mostrou-se encantadora. 
E desejvel, tambm. Mas encantadora, parecia mais apropriado. 


-Obrigada. Como  que correu a investigao dos dirios. 
-Bem - respondeu ele. - Nada de muito especial naqueles 
que j analisei. 
-Espere um pouco - aconselhou Lexie, a sorrir. - Quem sabe 
O que poder encontrar? -acrescentou, a levar o ramo de flores ao nariz. -A propsito, as 
flores so lindas. D-me s um minuto para ir p-las numa jarra e pegar no casaco 
comprido; a seguir, estaremos prontos para partir. 

Ele mostrou as palmas das mos. 

-Fico  espera. 
Minutos depois, estavam a atravessar a vila na direo oposta ao 

cemitrio. Como o nevoeiro continuava a aumentar, Lexie dirigiu Jeremy atravs das 
estradas secundrias at chegarem a uma alameda sinuosa, delimitada de ambos os lados 
por carvalhos que parecia terem sido plantados h cem anos. Embora no conseguisse ver a 
casa, ele abrandou ao aproximar-se de uma sebe altssima que presumiu limitar um espao 
circular. Inclinou-se sobre o volante, sem saber para que lado virar. 

-ser melhor arrumar aqui -sugeriu Lexie. -Duvido que arranjemos um lugar mais perto da 
casa e, alm disso, ser-lhe- mais fcil sair, logo que tiver necessidade disso. 

-Tem a certeza? Ainda nem se v a casa. 
-Confie em mim. Por que  que pensa que eu trouxe o casaco comprido? 
Ele decidiu-se, depois de uma ligeira hesitao. Por que no? 
E assim, instantes volvidos, seguiam pelo caminho de acesso, com 
Lexie a fazer o possvel por manter o casaco fechado. Seguiram a curva 
do caminho, perto da sebe, e no tardaram a encontrar-se em frente da velha manso 
georgiana, profusamente iluminada. 
Contudo, no foi a casa a primeira coisa em que Jeremy reparou. O que viu primeiro foram 
os automveis. Montes de carros, arrumados ao acaso, com as frentes apontadas em todas 
as direes, como se cada condutor tivesse preparado uma fuga apressada. Muitos outros 

continuavam a circular por entre o caos, a fazer brilhar os faris ou com os condutores a 
tentarem met-los em espaos incrivelmente estreitos. 
Jeremy parou, observando a cena. 


-Pensei que seria uma pequena reunio com alguns amigos. 
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Lexie acenou com a cabea. 

-Esta  verso do presidente da Cmara, o que ele considera uma pequena reunio. Tem de 
lembrar-se de que ele conhece toda a gente do distrito. 
-E voc sabia o que estava para acontecer? 
- claro. 
-Por que no me avisou de que isto ia ser assim? 
-Como no me canso de lhe dizer, voc continua a esquecer-se de perguntar. Alm disso, 
pensei que soubesse. 

-Como  que poderia adivinhar que ele estava a programar uma festa assim? 
Lexie sorriu, a olhar para a manso. 
- impressionante, no acha? No que eu pense que voc a merea. 
Ele limitou-se a resmungar um comentrio zombeteiro: 
-Como sabe, s estou aqui para apreciar o seu encanto sulista. 
-Obrigada. E no se preocupe com o sero. No vai ser to cansativo como est a imaginar. 
Toda a gente se mostra amigvel e, quando em dvida, recorde-se apenas de que  o 
convidado de honra. 

Doris tinha de ser a mais eficiente fornecedora de refeies de todo o mundo, pensava 
Rachel, pois tudo fora feito sem uma falha e ainda lhes sobrara tempo. Em vez de ter de 
servir pratos de comida durante todo o sero, Rachel andava por entre a multido a passear 
a sua melhor imitao de vestido de noite de Chanel, quando avistou Rodney a subir para a 
varanda. 

Metido no seu uniforme impecavelmente engomado, pareceu-lhe bastante oficial, como um 
Marine num daqueles cartazes da Segunda Guerra Mundial, exibidos no edifcio da VFW, em 
Main Street. Na sua maioria, os outros ajudantes transportavam demasiadas asas de frango 
e cervejas na parte mdia do corpo, mas as horas vagas de Rodney eram passadas no 
ginsio que tinha montado na garagem. Mantinha a porta da garagem aberta e muitas 
vezes, depois de acabar o trabalho e quando ia de regresso a casa, Rachel parava para 
conversarem um pouco, como velhos amigos que eram. Em midos tinham sido vizinhos e a 
me dela guardava fotografias dos dois a tomarem banho na mesma banheira. Nem todos 
os velhos amigos podiam gabar-se disso. 

Rachel tirou o batom da mala e passou-o pelos lbios, consciente do fraquinho que nutria 
pelo rapaz. Na realidade, as suas vidas tinham divergido durante algum tempo, mas no 
ltimo par de anos a situao tinha vindo a melhorar. Dois veres antes, tinham-se 
encontrado lado a lado no Lookilu e ela vira a expresso com que Rodney assistia ao 
noticirio, onde estavam a descrever um trgico incndio em Raleigh, que custara a vida a 
um jovem. Observar os olhos dele ao ser anunciada a morte de um estranho constitura para 
ela uma revelao, algo de que no estava  espera. Voltara a reparar na mesma expresso 
durante a ltima Pscoa, quando as autoridades policiais patrocinaram a caa aos ovos em 
Masonic Lodge; tinha-a chamado  parte para lhe contar os lugares menos provveis em que 
ele tinha escondido os prmios. Parecera mais excitado do que as prprias crianas, com 
uma expresso que contrastava com os seus enormes bceps e Rachel lembrava-se de ter 
pensado que ele seria o pai de que qualquer mulher se orgulharia. 

Olhando para trs, achava que fora aquele o momento em que se apercebera de que os 
seus sentimentos em relao a ele tinham mudado. No que se tivesse apaixonado por ele 
de um momento para o outro, mas fora o momento em que deixara de pensar que as suas 
hipteses eram nulas. No que as probabilidades fossem muitas. Rodney era louco pela 
Lexie. Sempre tinha sido assim, nunca deixaria de ser e Rachel estava desde h muito 
convencida de que os sentimentos do Rodney para com ela nunca iriam mudar. Houve 
alturas em que no fora fcil e outras em que no se preocupara minimamente com a 

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situao, mas, ultimamente, chegara  concluso de que as alturas em que no se 
preocupava eram cada vez menos espaadas no tempo. 

A acotovelar a multido, ia pensando em que teria sido melhor no lhe ter falado de Jeremy 
Marsh durante a hora do almoo. Deveria ter procurado saber aquilo que preocupava o 
Rodney. Agora, porm, parecia que toda a vila falava de Lexie e Jeremy; o falatrio comeou 
no lojista que lhes vendeu o almoo, at se espalhar como fogo logo que o presidente da 
Cmara anunciou o jantar. Continuava a sonhar com a ida a Nova Iorque, mas ao repetir 
mentalmente a conversa com o jornalista, comeara a chegar  concluso de que ele estava 
apenas a manter uma conversa e no a fazer-lhe um convite. Por vezes, exagerava na 
avaliao de situaes daquele gnero. Contudo, o Jeremy Marsh era to... perfeito. Culto, 
inteligente, sedutor, famoso e, acima de tudo, no era da terra. Rodney no tinha a mnima 
possibilidade de concorrer com ele e, no fundo, Rachel suspeitava que o rapaz tambm 
estava convencido disso. Mas, por outro lado, Rodney estava ali e no tinha planos para 
partir, o que era uma vantagem de outro gnero, para quem a quisesse considerar assim. E 
Rachel tinha de admitir que o rapaz era responsvel e tambm,  sua maneira, bem-
parecido. 

-Boa noite, Rodney - saudou, a sorrir. 
Rodney olhou por cima do ombro. 
-Oh, viva, Rach. Como ests? 
-Bem, obrigada. Que festa, heim? 
-Fantstica - respondeu o ajudante, sem esconder o sarcasmo. 
-Como  que esto as coisas l por dentro? 
-Bastante bem. Acabam de desfraldar a bandeira. 
-Bandeira? 
-Sim. Aquela tira de pano a dar-lhe as boas-vindas  vila. Com o nome dele em grandes 
letras azuis e tudo. 
Rodney expirou, fazendo o peito abaixar-se ligeiramente. 


-Fantstico! - comentou de novo. 
-Devias ter visto tudo o que o presidente tinha para lhe oferecer. 
No s a bandeira e a comida, pois mandou tambm fazer uma chave da vila. 
-Ouvi dizer - replicou Rodney. 
-E os Mahi-Mahis tambm c esto -prosseguiu Rachel, referindo-se ao quarteto da 
barbearia. Cidados locais, cantavam juntos h quarenta e trs anos, e embora dois dos 
msicos tivessem de usar bengalas, alm de outro ter um tique nervoso que o obrigava a 
cantar de olhos fechados, eram, sem sombra de dvida, os mais famosos artistas num raio 
de 160 quilmetros. 


-Impressionante! - comentou Rodney. 
O tom de voz dele obrigou Rachel a fazer a primeira pausa. 
-Estou vendo que no ests interessado em ouvir nada disto, pois no? 
-No, realmente no estou. 
-Nesse caso, por que  que vieste? 
-Foi o Tom quem me meteu nisto. Um dia, pensarei para onde  que devo mand-lo, ainda 
antes de ele abrir a boca. 

-No ser assim to mau -contraps Rachel. -Bem vs como as pessoas esto esta noite. 
Toda a gente quer falar com Jeremy. 

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No haver maneira de ele e a Lexie arranjarem um cantinho para conversar. Aposto, dez 
contra um, que durante toda a noite no podero trocar mais de uma dezena de palavras 
entre si. E, s para que saibas, reservei um prato de comida para ti, para o caso de no 
teres conseguido arranjar alguma coisa para comer. 

Depois de uma ligeira hesitao, Rodney sorriu. A Rachel preocupava-se sempre com ele. 

-Obrigado, Rach. 
Apercebeu-se, pela primeira vez, do que a moa trazia vestido, nos olhos ardentes e nas 
pequenas argolas de ouro que usava nas orelhas. Acrescentou: 

-Esta noite ests bonita. 
-Obrigada. 
-Queres fazer-me companhia durante algum tempo? 
Ela sorriu. 
-Adorava. 
Jeremy e Lexie procuraram o caminho por entre a massa de carros parados, com a 
respirao a provocar pequenas nuvens de vapor quando estavam a aproximar-se da 
manso. No cimo da escada, l mais adiante, Jeremy viu casais a entrar uns atrs dos outros 
e no levou muito tempo a reconhecer Rodney Hopper, que estava de p, junto da porta. 
Rodney viu-o ao mesmo tempo e o seu sorriso transformou-se de imediato numa carranca. 
Mesmo de longe, o homem parecia grande, ciumento e, ainda mais importante, estava 
armado, o que no concorria para que Jeremy se sentisse muito  vontade. 

Lexie seguiu-lhe o olhar. 

-Oh, no se preocupe com o Rodney - aconselhou. - Est comigo. 
- isso que me preocupa -replicou ele. -Tenho a impresso de que ele no se sente 
particularmente feliz por nos ver juntos. 

Ela sabia que Jeremy tinha razo, embora se sentisse agradecida por ver a Rachel ao lado 
do ajudante. Rachel arranjava sempre maneira de manter o Rodney calmo e Lexie, desde h 
muito, pensava que ela era a mulher ideal para o Rodney. No conseguira, porm, diz-lo de 
maneira a no ferir os sentimentos do amigo. No era o gnero de conversa aceitvel para 
quando danavam no Shriners' Benefit Hall, pois no? 

-se isso o faz sentir-se melhor, deixe a conversa por minha conta -aconselhou Lexie. Estava 
a contar com isso. 

Rachel mostrou-se radiante ao v-los a subir a escada. 

-Eh, vivam os dois! -exclamou. Quando se aproximaram estendeu a mo para apalpar o 
casaco da Lexie. - Lex, adoro esse teu casaco! 

-Obrigada, Rachel. Tambm ests com o aspecto de uma moa de um milho de dlares. 
Jeremy manteve-se calado, a fingir examinar as unhas e a evitar o olhar rancoroso que 
Rodney lanava na sua direo. No silncio momentneo, Rachel e Lexie trocaram olhares. 
Percebendo o que Lexie pretendia, Rachel avanou. 

-Ora vejam, o Mr. Famoso Jornalista - chilreou. 
-Vejam s, basta olharem para si uma vez e os coraes das mulheres ficaro a palpitar 
durante toda a noite - prosseguiu, a exibir um sorriso rasgado. 

-Quase me odeio por perguntar, Lexie, mas no ficarias aborrecida se eu o acompanhasse 
at ao salo? Sei que o presidente da Cmara est  espera dele. 

-Ests  vontade -concordou Lexie, a saber que precisava de um momento a ss com 
Rodney. Fez um sinal a Jeremy: - V indo. apanho-o dentro de um minuto. 

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Rachel agarrou o brao de Jeremy que, antes de poder aperceber-se do que estava a 
acontecer, j estava a ser levado dali para fora. 

-Ora diga-me, alguma vez esteve numa plantao sulista to bonita como esta? -indagou 
Raquel. 

-No posso responder que sim -respondeu Jeremy, pensando em se no estaria a ser 
lanado s feras. Quando eles passaram, Lexie arrepanhou os lbios num agradecimento 
silencioso  amiga e Rachel piscou-lhe um olho. 

Lexie virou-se para Rodney. 

-No  aquilo que pensas -comeou e Rodney ergueu as duas mos a tentar que ela no 
continuasse e a dizer: 

-Escuta, no me deves explicaes. J vi esse filme, recordas-te? 
Ela sabia que ele estava referindo-se a Mr. Renaissance e o seu primeiro impulso foi dizer 
que ele estava enganado. Pretendia dizer-lhe que, desta vez, no ia deixar-se levar pelos 
sentimentos, mas tambm sabia que j fizera aquela mesma promessa anteriormente. 
Afinal, fora essa a promessa que fizera a Rodney, quando ele tentou delicadamente avis-la 
de que Mr. Renaissance no fazia teno de ficar na vila. 

-Gostaria de saber o que vou dizer - acrescentou Lexie, a odiar o tom de remorso na voz. 
-No tens de dizer nada. 
Ela sabia que no tinha obrigao. No formavam um casal, nunca tinham sido um casal, 
mas Lexie sentia a estranha sensao de estar a confrontar um ex-marido depois de um 
divrcio recente, quando as feridas ainda sangram. Uma vez mais, desejava apenas 
ultrapassar a questo, mas uma vozinha interior recordava-lhe que ela tivera o seu papel na 
manuteno da chama acesa nos dois ltimos anos, mesmo que tal tivesse mais vendo com 
questes de segurana e conforto do que com anseios romnticos. 

-Bom, como sabes, estou apenas a tentar que as coisas, aqui na nossa terra, regressem  
normalidade - explicou. 

-Tambm eu. 
Por instantes, ficaram ambos calados. No silncio, Lexie olhou-o de soslaio, a desejar que 
Rodney conseguisse expressar o que sentia com um pouco mais de subtileza. 

-A Rachel est muito bonita, no est? -perguntou ela. Rodney deixou cair o queixo para o 
peito, antes de olhar de novo para Lexie. Pela primeira vez, mostrou um ligeiro sorriso. 

-Pois est. 
-Ainda anda com o Jim? - indagou Lexie, referindo-se ao homem da Terminix. Tinha-os visto 
juntos no camio verde com um escaravelho gigante pintado, a caminho de Greenville para 
jantarem, durante as frias. 
-No, isso j acabou -respondeu Rodney. -S saram uma vez. Rachel contou que o carro 
dele cheirava a desinfetante, o que a fez passar o sero todo a espirrar. 

Apesar da tenso, Lexie soltou uma gargalhada. 

-Parece uma daquelas coisas que s podem acontecer  Rachel. 
-J ultrapassou isso. O episdio no a tornou amarga, nada disso. Ela volta sempre a subir 
para cima do cavalo, como sabes. 

-Por vezes, penso que precisa de escolher melhores cavalos. Ou, pelo menos, os que no 
tenham escaravelhos gigantes pintados no carro. 

Ele sorriu, como quem estava pensando em o mesmo. Os olhos de ambos encontraram-se 
por um instante e Lexie virou a cabea, ao mesmo tempo que ajeitava o cabelo por cima da 
orelha. 

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-Bom, parece que tenho de entrar - decidiu. 
-Eu sei. 
-No vens? 
-Ainda no sei. No contava ficar muito tempo. E, alm disso, ainda estou de servio.  uma 
rea bastante grande para uma pessoa s e o Bruce  neste momento o nico homem no 
terreno. 
Ela assentiu. 

-Bom, se no voltar vendo- te esta noite, tem cuidado, est bem? 
-Vou ter. At logo. 
Lexie comeou a caminhar em direo  porta. 
-Eh, Lexie? 
Ela voltou-se. 
-O que ? 
Rodney engoliu em seco. 
-A propsito, tu tambm ests bonita. 
A tristeza com que ele disse aquilo, quase lhe partiu o corao e Lexie baixou os olhos por 
instantes, antes de agradecer. 

-Obrigada. 
Rachel e Jeremy procuraram no atrair as atenes, movendo-se  volta da multido, com 
ela a mostrar-lhe os retratos a leo de diversos membros da famlia Lawson, que revelavam 
uma extraordinria parecena entre as geraes, mas, o que era mais estranho, a parecena 
estendia-se aos dois sexos. Os homens mostravam alguns traos efeminados, enquanto as 
mulheres tendiam a parecer masculinas, como que sugerindo a idia de que todos os 
pintores tinham utilizado um mesmo modelo andrgino. 

Contudo, Jeremy apreciou o fato de a companheira o manter ocupado e afastado dos outros, 
mesmo que ela se recusasse a soltar-lhe o brao. Ouvia as pessoas falando em dele mas 
ainda no estava totalmente preparado para se misturar com elas, mesmo que todo aquele 
aparato o deixasse algo envaidecido. Quando aparecera na televiso, o Nate no conseguira 
juntar um dcimo do nmero de pessoas ali presentes e as que pde juntar foram atradas 
pela oferta de bebidas grtis. 

Nada disso, aqui. No na Amrica rural, onde as pessoas jogam bingo, vo ao bowling e 
entretm-se com reposies da srie Matloc na televiso local. J no via tantos cabelos 
louros, nem tanto polister, desde... bom, desde sempre, mas, enquanto se perdia em 
reflexes sobre toda aquela situao, a Rachel deu-lhe um aperto no brao, a cham-lo  
realidade. 

-Prepare-se, meu querido. O espetculo vai comear. 
-Perdo? 
Ela olhou por cima dos ombros dele, para o movimento que estava a gerar-se mais atrs. 

-Viva, presidente Tom, como est? -cumprimentou Rachel, a fazer brilhar de novo aquele 
sorriso de Hollywood. 

Entre todos os presentes, o presidente Gherkin parecia ser a nica pessoa que transpirava. A 
cabea calva brilhava e, se pareceu surpreendido por ver Jeremy acompanhado da Rachel, 
no o demonstrou. 

-Rachel! Ests encantadora, como sempre, e vejo que tens estado a partilhar o passado 
desta bela manso com o nosso convidado. 

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-Fao o que posso - respondeu ela. 
-Bom, bom, folgo saber isso. 
Embrenharam-se numa conversa de circunstncia, antes de Gherkin resolver passar ao que 
interessava. 

-Detesto ter de te pedir isto, depois de teres sido to amvel a mostrar-lhe esta esplndida 
manso e falando -lhe do seu passado, mas, se no te importas? -indagou, a olhar na 
direo de Jeremy. - As pessoas esto excitadas com o incio deste fantstico evento. 

-De forma alguma - respondeu ela e, passado um instante, a mo de Rachel que segurava o 
brao de Jeremy foi substituda pela do presidente, que comeou a conduzi-lo por entre a 
multido. 
Quando eles se aproximavam as pessoas calavam-se e abriam alas, como se a multido 
fosse o Mar Vermelho a abrir-se para dar passagem a Moiss. Outros ficavam observando de 
olhos bem abertos, quando no esticavam o pescoo para verem um pouco melhor. As 
pessoas soltavam exclamaes de admirao, sussurrando que devia ser ele. 

-No tenho palavras para lhe demonstrar o meu contentamento por ter acabado por 
conseguir c chegar -afirmou o presidente Gherkin, falando pelo canto da boca para no 
deixar de sorrir para a multido. - Cheguei a estar preocupado. 

-Talvez devssemos esperar por Lexie -respondeu Jeremy, a tentar que as faces no se 
fizessem vermelhas. Tudo aquilo, especialmente o ser escoltado pelo presidente da Cmara 
como se fosse uma estrela, era um pouco provinciano, para no dizer que era algo esquisito. 

-J falei com ela, vai l ter conosco. 
-E aonde  isso? 
-Onde vai conhecer os restantes membros do Conselho Municipal,  claro. J conhece o Jed 
e o Tully, mais os companheiros que lhe apresentei hoje de manh, mas h mais alguns. E 
os presidentes das Juntas. Tal como eu, esto altamente impressionados com a sua 
presena entre ns. No se preocupe, todos eles tm as suas histrias de fantasmas na 
ponta da lngua. Trouxe o gravador? 

-Tenho-o na algibeira. 
-timo, timo. Ainda bem. E... - Desviou pela primeira vez o olhar da multido para encarar 
Jeremy. - Presumo que vai esta noite ao cemitrio... 
-Estou pensando em nisso, e, por falar do cemitrio, quero deixar claro. 
O presidente no se deteve, agiu como se no tivesse ouvido, e continuou a acenar aos 
presentes. 

-Ora bem, como presidente da Cmara sinto-me na obrigao de lhe dizer para no se 
preocupar com o encontro com esses fantasmas. So dignos de se ver, sem dvida. Capazes 
de fazer desmaiar um elefante. Contudo, at hoje, nunca ningum se magoou, com 
excepo do Bobby Lee Howard; e no sabemos se o fato de mais tarde se estampar contra 

o sinal de trnsito no teria mais vendo com as doze cervejas Pabst que bebeu antes de 
pegar no volante. 
-Ah! -exclamou Jeremy, que comeara a imitar o presidente e a acenar com a cabea e 
com as mos. 

-Vou tentar recordar-me desse pormenor. 
Lexie estava  espera dele quando chegou a altura de ser apresentado aos conselheiros 
municipais; Jeremy suspirou de alvio quando a viu ao seu lado para as apresentaes  elite 
da vila. Na sua maioria, deram provas de serem hospitaleiros, embora Jed se tivesse 
mantido de m catadura e de braos cruzados, mas Jeremy no conseguiu resistir  tentao 
de observar Lexie pelo canto do olho. Pareceu-lhe ausente e ele imaginou que aquele ar 

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tivesse algo vendo com a conversa entre ela e Rodney. 

Jeremy no teve oportunidade de saber, ou at de se descontrair, durante as trs horas 
seguintes, pois o resto do sero pareceu-se com uma conveno poltica  moda antiga. 
Depois de ter sido apresentado a todos os conselheiros municipais, Jed excludo, pareceu 
animar-se com a afirmao do presidente que prometia que aquela seria a maior histria de 
todos os tempos" e foi-lhe recordado que o turismo  importante para a vila", foi levado para 

o palco, que tinha sido decorado com um cartaz que proclamava: BEM-VINDO JEREMY 
MARSH! 
No se tratava, em termos tcnicos, de um palco; era uma comprida mesa de madeira, com 
uma cobertura de tecido brilhante, cor de prpura. Jeremy teve de se servir de um banco 
para subir  mesa, no que foi imitado por Gherkin, para depois Ficar de frente para um mar 
de rostos desconhecidos, todos de olhos fixos nele. Uma vez acalmada a assistncia, o 
presidente fez um discurso de longo flego, em que louvou Jeremy pelo seu profissionalismo 
e honestidade, como se o conhecesse havia muitos anos. Alm disso, Gherkin no s 
mencionou a apario dele no programa Primetime, o que provocou os j familiares sorrisos, 
bem como mais umas quantas exclamaes de assombro, mas tambm se referiu a diversos 
artigos bem aceites, incluindo uma prosa sobre das investigaes sobre armas biolgicas em 
Fort Detrick, que escrevera para a revista Atlantic Montly. Embora, por vezes, desse a 
impresso de ser um idiota, o homem estava bem documentado e era, sem dvida, um 
mestre na lisonja. No final do discurso, Jeremy foi presenteado com a chave da vila, dando-
se incio  atuao dos Mahi-Mahis, que estavam em cima de outra mesa arrumada junto de 
uma parede adjacente; os msicos interpretaram trs canes: Carolina on Mind, New York, 
New York e, talvez a mais apropriada de todas, o tema do filme Os Caa-Fantasmas. 

Para sua surpresa, os Mahi-Mahis no eram maus de todo, embora no fizesse idia de 
como tinham conseguido subir para cima da mesa. 

Aquela assistncia adorava-os e, por instantes, Jeremy deu consigo a sorrir, 
verdadeiramente satisfeito. Enquanto ainda estava no palco, Lexie piscou-lhe um olho, o que 
tornou a cena ainda mais surrealista. 

Dali, o presidente levou-o at um canto, onde se sentou num confortvel cadeiro antigo, 
colocado em frente de uma mesa no menos antiga. Com o gravador ligado, Jeremy passou 

o resto do sero a ouvir, uma a seguir a outra, narrativas de encontros com os fantasmas. O 
presidente ps as pessoas em fila e elas conversavam com animao,  espera de chegar a 
sua vez de falarem com Jeremy, como se ele estivesse a dar autgrafos. 
Infelizmente, na sua maioria, as histrias comearam a repetir-se. 

Todos afirmavam ter avistado as luzes, mas cada um fazia uma descrio diferente. Uns 
juravam que pareciam pessoas, outros comparavam-nos a luzes estroboscpicas. Um 
homem afirmou que se pareciam exatamente com um traje de bruxa, nem lhe faltava o 
lenol. O mais original foi um tipo chamado Joe, que afirmou ter avistado as luzes mais de 
uma dzia de vezes, e falou com autoridade quando disse que " eram exatamente como o 
cartaz luminoso da Piggly ldJiggly, colocado na estrada 54, perto de Vanceboro. 

Enquanto ele ouvia as narrativas, Lexie mantinha-se por ali, sempre falando com algum, 
mas uma vez por outra os olhos de ambos encontravam-se, mesmo que estivessem 
conversando com outras pessoas. Como se partilhassem uma piada s deles, ela sorria-lhe, 
de sobrancelhas erguidas, com o ar de quem perguntava: Est vendo o sarilho em que se 
meteu? ". 

Lexie, Refletia Jeremy, no se parecia com nenhuma das mulheres que namorara nos 
tempos mais recentes. No guardava o que pensava, no tentava impression-lo, nem se 
deixava influenciar pelo que ele conseguira no passado. Pelo contrrio, parecia avali-lo pelo 
que era atualmente, sem brandir o passado ou o futuro contra ele. 

Aquela fora, percebia agora, uma das razes que o levaram a casar com a Maria. No foi 
apenas a catadupa de emoes que sentiu quando foram para a cama pela primeira vez que 

#
o convenceu; foram, isso sim, as coisas simples que demonstraram que ela era a mulher 
ideal. A sua falta de afetao perante os outros, a forma dura como o confrontava quando 
ele fazia alguma asneira, a pacincia com que o ouvia quando ele andava s voltas, em luta 
com um problema que o atormentava. E embora ele e Lexie no tivessem ainda enfrentado 
nenhum dos problemas quotidianos da vida, Jeremy no descartava a idia de ela ser capaz 
de lidar com eles, se assim o desejasse. 
Jeremy apercebeu-se de que ela nutria uma genuna afeio pelas gentes da vila, que 
parecia verdadeiramente interessada em tudo o que as pessoas lhe diziam. A sua maneira de 
estar sugeria que no tinha pressa, que no iria abreviar a conversa com quem quer que 
fosse, que no se sentia inibida e era capaz de soltar uma gargalhada se alguma coisa a 
divertisse. Distribua constantes abraos e depois recuava um pouco, pegava nas mos das 
pessoas e dizia algo como: Gosto tanto de vendo". O fato de ela no se sentir diferente, ou 
de no notar que outras pessoas a consideravam diferente, fazia Jeremy recordar-se de uma 
tia que era sempre a pessoa mais popular nos jantares de dias festivos, porque concentrava 
toda a sua ateno nos outros. 

A certa altura, quando se levantou da cadeira para desentorpecer as pernas, Jeremy viu 
Lexie a caminhar na direo dele, movendo-se com ar sedutor e um ligeiro movimento de 
ancas. E, ao v-la, houve um instante, um breve instante, em que lhe pareceu que a cena 
no estava a desenrolar-se naquele preciso momento, que estava a acontecer no futuro, 
noutra pequena reunio, numa longa seqncia de reunies, realizadas numa minscula vila 
do Sul, situada no meio de nada. 

#
DEZ 

Quando o sero estava prestes a terminar, Jeremy encontrava-se na varanda, na companhia 
do presidente Gherkin, enquanto Doris e Lexie conversavam, ligeiramente afastadas deles. 

-Sinceramente, espero que o sero lhe tenha agradado -dizia o presidente -, e que tenha 
podido avaliar por si mesmo a oportunidade magnfica proporcionada por esta histria. 

-Apreciei devidamente. Mas eu no merecia toda a sua canseira - protestou Jeremy. 
-Disparate - replicou Gherkin. 
- o mnimo que podemos fazer. Alm disso, quis que visse aquilo de que o povo desta vila 
 capaz quando fixa um objetivo. Pode imaginar o que ns faramos com essa gente da 
televiso.  certo que ainda tem o fim-de-semana para desfrutar o ambiente da vila. A 
atmosfera de aldeia, a sensao de regresso ao passado nas visitas s manses. Nunca 
poderia ter imaginado nada de semelhante. 

-No tenho dvidas sobre isso - admitiu Jeremy. 
Gherkin sorriu. 
-Bom, escute, ainda tenho umas coisas a tratar l dentro. Os deveres de um presidente 
nunca esto terminados. 


-Compreendo. E, a propsito, obrigado por isto - disse Jeremy, a mostrar a chave da vila. 
-Oh, o senhor  sempre bem-vindo. Mereceu-a - respondeu ao estender a mo a Jeremy. 
-Mas no alimente idias esquisitas. Essa chave no serve para abrir a caixa-forte do banco, 
ou coisa do gnero. Foi apenas um gesto simblico. 

Jeremy sorriu enquanto Gherkin lhe apertava efusivamente a mo. Depois de o presidente 
entrar na manso, Doris e Lexie aproximaram-se de Jeremy, ambas sorridentes. Apesar 
disso, ele no deixou de notar que Doris parecia exausta. 


-Bolas! - exclamou Doris. 
-O qu? - indagou Jeremy. 
-Voc mais os seus engenhosos mtodos de citadino. 
-Desculpe, no estou a perceber. 
-Devia ter ouvido o que algumas daquelas pessoas diziam de si -zombou Doris. -No 
consegui deixar de considerar-me feliz por t-lo conhecido antes. 
Jeremy sorriu, parecendo embaraado. 


-Foi um sero algo maluco, no foi? 
-No me fale nisso -concordou Doris. -O meu grupo de estudo da Bblia passou a noite 
falando de si, a dizer que  bonito. Um par delas gostaria de o levar para casa, mas, 
felizmente, consegui dissuadi-las. Alm disso, no penso que os maridos delas se sentissem 
muito entusiasmados com a idia. 


-Fico-lhe agradecido. 
-Comeu o suficiente? Se tem fome, acho que ainda posso arranjar-lhe qualquer coisa. 
-No, estou timo. Obrigado. 
-Tem a certeza? A sua noite ainda mal comeou, no  verdade? 
-Ficarei bem - assegurou-lhe. 
No silncio que se seguiu, olhou  volta e notou que o nevoeiro se tornara ainda mais 
espesso. 


#
-Dito isto, julgo que chegou a altura de me pr a caminho. Detestaria perder a minha 
oportunidade de sentir o sopro do sobrenatural. 

-No se preocupe. No vai perder as luzes -asseverou Doris. -S aparecem mais tarde, 
ainda dispe de umas duas horas. 

Para surpresa de Jeremy, Doris inclinou-se e apertou-o num abrao cansado. 

-S queria agradecer-lhe por ter perdido o seu tempo a aturar toda a gente. No  fcil 
encontrar estranhos que sejam assim to bons ouvintes. 

-No h problema. Apreciei a experincia. 
Depois de Doris os ter deixado, Jeremy voltou a ateno para Lexie, pensando em que ser 
criada por uma av como aquela deveria ter sido o mesmo que ter crescido junto da me. 

-Est disposta a acompanhar-me? 
Lexie acenou que sim, mas no disse palavra. Em vez disso, beijou Doris na face, despediu-
se da av e passados momentos acompanhou Jeremy at ao carro, qualquer deles a 
esmagar a gravilha debaixo dos ps. Ela parecia ausente, a olhar para longe mas sem ver 
nada. Depois de alguns passos em silncio, Jeremy deu-lhe um toque de ombro com ombro. 

-sente-se bem? Acho-a muito calada. 

Ela abanou a cabea, voltando a dar-lhe ateno. 

-Estou pensando em na Doris. Este sero deixou-a exausta e, provavelmente sem motivo, 
estou preocupada com ela. 

-Pareceu-me tima. 
-Pois, assume aquele ar resoluto. Mas tem de aprender a trabalhar menos. Sofreu um 
ataque cardaco h uns dois anos, mas gosta de fingir que a doena nunca aconteceu. E, 
depois disto, ainda tem pela frente um longo Fim-de-semana. 

Jeremy no sabia bem o que havia de dizer; nunca lhe tinha passado pela cabea que a 
Doris no fosse uma pessoa saudvel. 

Lexie reparou no desconforto dele e sorriu. 

-No entanto, ela divertiu-se, disso tenho a certeza. Ambas tivemos a oportunidade de falar 
com muitas pessoas que no vamos h algum tempo. 

-Pensei que todos os presentes se vissem constantemente. 
-Pois vemos. Mas as pessoas tm as suas vidas, o normal  dispormos apenas de uns 
minutos entre um afazer e outro. Mas gostei desta noite -confessou, ao olhar para ele. -E 
Doris teve razo. Toda a gente o adorou. 
Parecia quase chocada por ter de admiti-lo. 
De mos nos bolsos, Jeremy respondeu: 


-Bem, no devia ter ficado surpreendida. Sou uma pessoa adorvel, como sabe. 
Ela rolou os olhos, parecendo mais divertida do que zangada. A manso desapareceu l 
atrs, logo que rodearam a sebe. 
-Escute, sei que no so contas do meu rosrio, mas como  que correram as coisas com o 

Rodney? 
Ela hesitou e finalmente deu de ombros. 


-Tem razo. No so contas do seu rosrio. 
Jeremy procurou um sorriso, mas no o viu. 
-Bom, a nica razo da pergunta era eu saber se tenho de me esgueirar da vila a coberto 
da escurido, para no lhe dar a oportunidade de me esmagar a cabea com aquelas mos 


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nuas. 

Agora teve direito a um sorriso. 

-Estar em segurana. Alm do mais, se resolvesse ir-se embora, destroaria o corao do 
presidente da Cmara. Nem todos os visitantes tm direito a uma festa assim ou  chave da 
vila. 

- a primeira que recebo. Habitualmente, s recebo correio a insultar-me. 
Lexie riu, um som bonito. Ao luar, as feies no revelavam nada dela; Jeremy recordou a 
animao que ela mostrara por estar entre as pessoas da cidade. 

Quando chegaram junto do carro, Jeremy abriu-lhe a porta. Ao entrar, ela roou 
ligeiramente o ombro dele, deixando-o a matutar se fizera aquilo como resposta  maneira 
como ele a tinha tocado, ombro com ombro; talvez nem tivesse reparado. Deu a volta ao 
carro e sentou-se ao volante, mas hesitou antes de ligar o motor. 

-O que ? - indagou Lexie. 
-Estava a pensar... -respondeu ele, sem explicar o qu. As palavras pareceram ficar a 
pairar dentro do carro e ela fez um aceno de cabea. 

-Pareceu-me ouvir qualquer coisa. 
-Engraado. Eu estava a tentar dizer que sei que  tarde, mas quer vir comigo ao cemitrio? 
-Para que voc no tenha medo? 
-Mais ou menos. 
Ela consultou o relgio. Era tarde... 

No devia ir. Na verdade, no devia. J abrira uma excepo ao acompanh-lo esta noite, 
mas passar as prximas horas junto dele seria escancarar ainda mais a porta. Sabia que 
nada de bom poderia resultar dali e no encontrou uma nica razo para dizer que sim. 
Porm, antes que desse por isso, as palavras saram. 

-Tenho de passar por casa para vestir uma roupa mais confortvel. 
-Excelente. Sou todo a favor da idia de voc vestir uma roupa mais confortvel. 
-Aposto que sim - concordou Lexie, com ar de quem sabe. 
-Ora bem, no comece com idias esquisitas - protestou Jeremy, a fingir-se ofendido. 
-Julgo que ainda no nos conhecemos o suficiente para isso. 
-Essa tem direitos de autor. 
-sei que j ouvi isto em qualquer lado. 
-Ora bem, da prxima vez use frases suas. E, s para que conste, no quero que se lhe 
metam idias engraadas na cabea sobre desta noite. 

-Nunca tenho idias engraadas. Sou completamente destitudo de sentido de humor. 
-Sabe o que quero dizer. 
-No - confessou, a fazer de inocente. 
-O que  que quis dizer? 
-Limite-se a conduzir o carro, est bem? Antes que eu mude de idias. 
-Pronto, pronto -acudiu Jeremy, a rodar a chave de ignio. -Meu Deus, por vezes 
consegue ser agressiva. 

-Obrigada. J me disseram que essa era uma das minhas melhores qualidades. 
-Quem  que disse? 
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-Gostava de saber, no gostava? 
O Tauros rolou pelas ruas cobertas de nevoeiro, com as luzes amarelas da iluminao 
pblica a fazerem a noite parecer ainda mais lgubre. 
Lexie abriu a porta mal entraram no caminho de acesso  casa dela. 


-Espere aqui - ordenou, arrumando uma mecha de cabelo atrs da orelha. - Demoro-me uns 
minutos. Ele sorriu, a apreciar o fato de ela se mostrar nervosa. 
-Precisa da minha chave da vila para abrir a porta? Empresto-a de boa vontade. 
-Escute, Mr. Marsh, no comece pensando em que  um ser especial. A minha me tambm 
recebeu uma chave da vila. 
-Voltamos ao Mr. Marsh? Agora que eu comeava pensando em que estvamos a dar-nos 
lindamente. 

-E eu comeo pensando em que o sero lhe deu volta  cabea. 
Saltou do carro e atirou com a porta, numa tentativa de ser dela a ltima palavra. Jeremy 
riu, pensando em como ambos eram parecidos. 

Incapaz de resistir, baixou o vidro da janela do lado do passageiro e inclinou-se por cima do 
banco. 

-Escute, Lexie? 
Ela voltou-se. 
-O que ? 
-Como a noite deve estar fria, se lhe apetecer traga uma garrafa de vinho. 
Lexie ps as mos nas ancas. 
-Porqu? Para ver se consegue conquistar-me com a ajuda do lcool? 
Ele riu. 
-S se estiver de acordo. 
Os olhos dela estreitaram-se mas, como anteriormente, parecia mais divertida do que 
zangada. 

-Para que saiba, no costumo ter vinho em casa, Mr. Marsh, mas diria no, mesmo que 
tivesse. 

-Mas bebe? 
-No muito. Portanto, espere aqui - avisou, a apontar para o caminho de acesso. 
-Vou enfiar umas calas de ganga. 
-Prometo no tentar espreitar pela janela. 
-Boa idia. Se lhe passasse uma coisa to estpida pela cabea, teria certamente de 
informar o Rodney. 

-No me parece muito boa idia. 
-Acredite-me -respondeu Lexie, a tentar afivelar uma mscara severa -, no seria nada 
boa. 

Jeremy ficou a v-la caminhar para casa, convencido de que nunca conhecera ningum 
como ela. 

Quinze minutos depois, pararam em frente do cemitrio de Cedar Creek. Ele arrumou o carro 
de forma a que os faris iluminassem o cemitrio; o seu primeiro pensamento foi de que 
naquele lugar at o nevoeiro parecia diferente. Era denso e impenetrvel em uns pontos, 
mas noutros locais parecia pouco espesso e a ligeira brisa vergava e torcia as gavinhas finas, 

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fazendo-as parecer quase vivas. Os longos ramos da magnlia eram apenas manchas 
escuras, os jazigos a desmoronarem-se concorriam para a atmosfera irreal. A escurido era 
tal que Jeremy no conseguia vislumbrar o mais pequeno raio de luar. 

Deixando o motor a trabalhar em ponto morto, abriu a bagageira. Ao olhar l para dentro 
Lexie arregalou os olhos. 

-Parece que traz a tudo o que  preciso para montar uma bomba. 
-No.  apenas um conjunto de coisas teis. Como sabe, os homens adoram brinquedos. 
-Pensei que trouxesse apenas uma cmara de vdeo ou algo parecido. 
- verdade. Trago quatro. 
-Para que necessita de quatro? 
-Para filmar os ngulos todos. Por exemplo, o que fazer se os fantasmas aparecerem de 
uma direo inesperada? Poderia no lhes ver os rostos. 
Lexie ignorou o comentrio. 


-E esta coisa? - indagou, a apontar para uma caixa eletrnica. 
-Um detetor de radiaes de alta freqncia. E este -informou ao apontar outro 
instrumento -  uma espcie de complemento daquele. Detecta a atividade eletromagntica. 


-Est brincando. 
-No. Est tudo no guia oficial de caa aos fantasmas.  normal encontrar um aumento de 
atividade espiritual em lugares onde haja grandes concentraes de energia; este 
instrumento ajuda a detectar qualquer campo de energia anormal. 


-Alguma vez registou um campo de energia anormal? 
-Por acaso, j me aconteceu. Numa casa tida como assombrada, nem mais nem menos. 
Infelizmente no tinha nada vendo com fantasmas. O microondas do dono da casa no 
estava funcionando bem. 


-Ah! - comentou Lexie. 
Jeremy olhou para ela. 
-Agora  voc que usa as minhas frases. 
-Foi tudo o que consegui dizer. Desculpe. 
-No faz mal. Podemos partilh-las. 
-Por que  que possui todo este material? 
-Porque para negar a possibilidade de existncia de fantasmas, tenho de me valer de tudo 
aquilo que os investigadores dos fenmenos paranormais utilizam. No quero ser acusado de 
ignorar seja o que for, essa gente tem as suas regras. Alm disso, ao saberem que usei um 
detetor eletromagntico, os leitores ficaro muito mais impressionados. Pensaro que eu sei 


o que estou a fazer. 
-E sabe? 
- claro. J lhe disse, sigo o guia oficial. 
Lexie riu. 
-Nesse caso, como  que posso ajud-lo? Precisa da minha ajuda para transportar esta 
tralha? 

-Vamos utilizar tudo. Porm, se considera isto um trabalho de homem, estou certo de que 
poderei fazer tudo sozinho, enquanto voc arranja as unhas, ou algo assim. 
Ela agarrou numa das cmaras de filmar, p-la a tiracolo e pegou noutra. 


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-Muito bem, Sr. Macho, para onde vamos? 
-Depende. Onde  que pensa que deveramos ficar? Uma vez que j avistou as luzes, talvez 
tenha algumas idias. 

Lexie apontou na direo da magnlia, a direo que seguia quando ele a vira pela primeira 
vez no cemitrio. 

-Acol - apontou. -  de onde se avistam as luzes. 
Era o ponto situado exatamente em frente de Riker's Hill, embora o monte estivesse 
escondido pelo nevoeiro. 

-Aparecem sempre no mesmo local? 
-No fao idia. Era onde estavam quando eu as avistei. 
Durante a hora seguinte, enquanto Lexie filmava com uma das mquinas, Jeremy preparou 
o resto do equipamento. Colocou as outras trs cmaras a formar um grande tringulo, 
montou-as nos trips, aplicou filtros especiais nas lentes de duas delas e ajustou os ngulos 
de focagem para cobrir toda a zona. Pendurou quatro microfones em rvores prximas, 
enquanto um quinto foi colocado no centro, no local onde instalou o detetor de radiaes de 
alta freqncia e o detetor eletromagntico, bem como o gravador central de som. 
Imerso na tarefa de verificar se tudo estava em condies, ouviu Lexie a cham-lo. 

Voltou-se e viu-a com os culos de viso noturna, parecendo um escaravelho. 

-Muito atraente. Julgo que acabou de descobrir o seu estilo. 
-Estas coisas so timas. Consigo ver tudo. 
-V algo com que deva preocupar-me? 
-Para alm de um par de pumas e ursos famintos, parece estar s. 
-Bom, isto est quase pronto. S falta espalhar um pouco de farinha e desenrolar o fio. 
-Farinha? Est falando de farinha para fazer po? 
- para ter a certeza de que ningum mexe no equipamento. Com a farinha poderei 
verificar a existncia de marcas de passadas, enquanto o fio me permite detectar a 
aproximao de quaisquer pessoas. 

-Muito inteligente. No entanto, sabe que estamos aqui sozinhos, no sabe? 
-Nunca se pode ter a certeza - replicou Jeremy. 
-Oh, eu tenho a certeza. Mas faa l os seus preparativos que eu encarrego-me de apontar 
a mquina de filmar na direo certa. A propsito, est saindo-se muito bem. 

Ele ria enquanto abria o saco da farinha e comeava espalh-la, rodeando as mquinas de 
filmar com uma camada de p branco. Fez o mesmo com os microfones e com o restante 
equipamento; depois atou a ponta do Fio a um ramo e fez uma grande cerca, a englobar 
toda a zona, como se estivesse a vedar a cena de um crime. Colocou um outro fio uns 
sessenta centmetros abaixo do primeiro e pendurou-lhe uns pequenos guizos a todo o 
comprimento. Quando acabou, voltou para junto de Lexie. 

-No sabia que houvesse tanto a fazer -comentou ela. -Acho que est a desenvolver um 
nvel totalmente novo de respeito por mim, no  verdade? 

-No me parece. Estava apenas a tentar arranjar assunto de conversa. 
Jeremy sorriu e fez um aceno de cabea na direo do carro. 
-Vou desligar as luzes do carro. Esperemos que tudo isto no tenha sido em vo. 
Logo que desligou o motor, o cemitrio mergulhou na escurido e ele teve de habituar os 
olhos. Tentou, mas no conseguiu ver nada, o cemitrio provou ser mais escuro do que uma 

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caverna. Depois de se arrastar at ao porto como um espelelogo no escuro, tropeou 
numa raiz exposta do lado de dentro do cemitrio e quase caiu. 

-Pode trazer-me os culos de viso noturna? - bradou. 
-No -foi a resposta. -Como disse, estas coisas so giras. Alm disso, voc est saindo-se 
muito bem. 

-Mas no vejo nada. 
-Pode dar mais alguns passos. Caminhe a direita. 
Ele avanou com cautela, de braos estendidos, at que parou. 
-E agora? 
-Est uma cripta  sua frente, por isso mova-se para a esquerda -mandou Lexie. Parecia 
divertir-se com a situao, pensou Jeremy. 

-Esqueceu-se de dizer como mandam as regras". 
-Quer que o ajude, ou no? 
-O que quero so os meus culos - respondeu ele, quase a implorar. 
-Pois, ter de vir busc-los. 
-Bem podia chegar at aqui e conduzir-me pela mo. 
-Podia, mas no vou.  muito mais divertido v-lo vaguear por a como uma alma penada. 
Agora ande para a esquerda. Eu digo-lhe quando deve parar. 

O jogo prosseguiu daquele jeito at que, finalmente, Jeremy conseguiu chegar ao p dela. 
Sentou-se e Lexie, sempre a rir-se, tirou os culos. 

-A tem os seus culos. 
-Obrigadinho. 
-No tem de qu. Estou contente por ter ajudado! 
Durante mais ou menos meia hora, Lexie e Jeremy entretiveram-se a recordar episdios da 
festa. Estava demasiado escuro para poder ver a cara de Lexie, mas, mesmo assim, Jeremy 
apreciava a proximidade dela, no meio da escurido que os envolvia. 

A mudar o tema da conversa, ele pediu: 

-Fale-me da altura em que avistou as luzes. Esta noite toda a gente resolveu contar-me 
uma histria sobre disso. 

Embora as feies dela fossem meras sombras, Jeremy teve a impresso de v-la recuar no 
tempo, para uma altura em que havia algo que no tinha a certeza de querer recordar. 

-Tinha oito anos -comeou, falando com voz suave. -Por qualquer razo, comecei a ter 
pesadelos em que entravam os meus pais. Doris mantinha as fotografias deles penduradas 
na parede e era como eu os via sempre nos meus sonhos: a mam vestida de noiva e o 
pap de smoking. S que houve uma vez em que eles estavam presos dentro do carro, 
depois de terem cado no rio. Era como se estivesse a v-los atravs das janelas do carro, 
podia ver o medo e o pnico nas caras deles e a gua a encher lentamente o automvel. A 
minha me com uma expresso de verdadeira tristeza, como se soubesse que era o fim e, 
de sbito, o carro comeava a afundar-se mais depressa e eu ficava a assistir a tudo de um 
plano superior. 

Suspirou, depois de ter narrado o sonho com uma voz estranhamente isenta de emoo. 

-Acordava aos gritos. No sei quantas vezes aconteceu, agora tudo se me confunde um 
pouco na memria, mas deve ter durado o suficiente para convencer a Doris de que no se 
tratava de uma fase passageira. Suponho que outros pais me teriam levado a um psiquiatra, 
mas Doris... bem, uma vez, ia a noite adiantada, acordou-me e mandou-me vestir roupa 

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quente; do que me recordo a seguir  de estarmos neste lugar. Disse que ia mostrar-me 
uma coisa maravilhosa. 

Lembro-me de que era uma noite como esta; por isso, para evitar que eu casse, Doris no 
me largou a mo. Caminhamos por entre as pedras tumulares, antes de nos sentarmos 
durante algum tempo, at  chegada das luzes. Pareciam quase vivas, tudo se iluminou 
verdadeiramente... at que foram desaparecendo. E a seguir fomos para casa. 

Quase a ouviu encolher os ombros. 

-Embora de tenra idade, soube o que tinha acontecido; e quando cheguei a casa no 
consegui adormecer, porque tinha acabado de ver os fantasmas dos meus pais. Era como se 
eles tivessem vindo visitar-me. Depois dessa noite, deixei de ter pesadelos. Jeremy 
manteve-se silencioso. 

Ela acercou-se um pouco mais. 

-Acredita em mim? 
-Acredito; na verdade, acredito. A sua histria seria a que eu reteria de entre as que ouvi 
esta noite, mesmo que no conhecesse a narradora. 

-Bom, s para que conste, preferia que a minha histria no fosse material para o seu 
artigo. 

-Tem a certeza? Poderia ser famosa. 
-No estou interessada. Estou observando diretamente a forma como a fama pode estragar 
uma pessoa. 

Ele riu. 

-Nesse caso, como esta conversa no  para divulgar, posso perguntar-lhe: essa recordao 
foi uma das razes de querer vir aqui esta noite? Ou foi por desejar desfrutar da minha 
refulgente companhia? 

-Ora bem, tenho a certeza de que a segunda razo no teve nada vendo com a minha vinda 
-esclareceu, embora ao diz-lo soubesse que tinha. Tambm se convenceu que ele pensava 
o mesmo, mas, na breve pausa que se seguiu  sua resposta, sentiu que o tinha magoado. Desculpe. 
-No tem importncia - asseverou Jeremy. 
-Lembre-se, tenho cinco irmos mais velhos. Os insultos eram uma constante numa famlia 
como a nossa, por isso estou habituado. 
Lexie recomps-se. 
-Bem, para responder  sua pergunta...  provvel que deseje voltar vendo as luzes. Para 


mim, nunca mais deixaram de ser uma fonte de conforto. 
Jeremy arrancou um tufo de ervas e atirou-o para longe. 

-A sua av foi uma senhora inteligente. Quero dizer, ao fazer o que fez. 
-Ela  uma senhora inteligente. 
-Obrigado pela correo -desculpou-se Jeremy; mas reparou que, a seu lado, Lexie se 
inteiriou, como se estivesse a esforar-se para ver ao longe. 

-Penso que chegou a altura de ligar o seu equipamento - informou. 
-Porqu? 
-Porque esto a aproximar-se. No sente? 
Estava prestes a soltar uma piada, de dizer que era  prova de fantasmas, quando reparou 
que agora conseguia ver a companheira e at o equipamento instalado mais longe. E, 
verificou, tambm conseguia ver o caminho at ao carro. No havia dvidas de que aquele 

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lugar estava a ficar iluminado. 
Lexie incitou-o: 

-Eh, est a desperdiar a sua oportunidade. 
Semicerrou os olhos, a tentar assegurar-se de que no estava a ser vtima de qualquer 
iluso de tica, e usou o controlo remoto para ligar todas as mquinas de filmar. Ao longe, 
viu os sinais vermelhos acenderem-se, as mquinas tinham comeado a funcionar. Mesmo 
assim, no havia mais nada a fazer para tentar perceber o que estava a passar-se. Olhou  
sua volta,  procura de carros de passagem ou de casas iluminadas e, ao olhar de novo para 
as mquinas de filmar, decidiu que no estava a ter alucinaes. No s via as mquinas, 
como tambm o detetor eletromagntico colocado no centro do tringulo. Pegou nos culos 
de viso noturna. 

-No vai precisar disso - avisou Lexie. 
Mas ele p-los e passou vendo a paisagem com um brilho esverdeado fosforescente.  
medida que a luz aumentou de intensidade, o nevoeiro comeou a encurvar-se e a rodopiar, 
a assumir formas diversas. Consultou o relgio: eram 2.44. Tomou um apontamento. 
Refletia se o luar no teria aparecido de repente; tinha dvidas, que esclareceria quando 
voltasse ao seu quarto no Greenleaf. 

Mas aqueles eram pensamentos secundrios, O nevoeiro, como Lexie havia previsto, 
continuava a clarear e ele baixou os culos por momentos, para verificar a diferena das 
imagens. A luz continuava a aumentar, mas a mudana parecia mais significativa sem os 
culos. Estava ansioso por poder comparar as imagens captadas pelas cmaras de vdeo. 
Porm, de momento, limitava-se a olhar em frente, agora sem os culos. 

Sustendo a respirao, reparou que o nevoeiro  sua frente ia ficando mais prateado, para 
depois mudar para um amarelo plido, a seguir para branco opaco, at finalmente adquirir 
um brilho que quase cegava. Por um instante, mas apenas durante um instante, todo o 
cemitrio se tornou visvel, como se fosse um campo de futebol iluminado para o comeo de 
um jogo, e pedaos do nevoeiro iluminado comearam a rodar em pequenos crculos, at se 
separarem do ncleo central, como uma estrela a explodir. Por um instante, Jeremy 
imaginou ver formas de pessoas ou coisas, mas a luz comeou a recuar, como se fosse 
puxada por um fio, de regresso ao centro e, antes de ele se aperceber bem do que estava a 
acontecer, as luzes desapareceram e o cemitrio voltou a mergulhar na escurido. 

Pestanejou, como para se convencer do que realmente acontecera, e voltou a consultar o 
relgio. Desde que comeara at acabar, o episdio tinha demorado apenas vinte e dois 
segundos. Mesmo sabendo que tinha de verificar o equipamento, houve um breve instante 
em que conseguiu apenas ficar a olhar para o local onde os fantasmas de Cedar Creek 
tinham feito a sua apario. 

Fraude, erros inocentes e coincidncia eram as explicaes comuns para eventos 
considerados sobrenaturais e, at quela data, todas as investigaes de Jeremy de 
fenmenos daquele gnero tinham podido ser enquadrados numa das trs categorias. A 
primeira tendia a ser a explicao prevalecente em situaes em que algum podia sair 
beneficiado. William Newell, por exemplo, que, em 1869, proclamava ter achado os restos 
petrificados de um gigante nas terras da sua quinta de Nova Iorque, uma esttua que ficou 
conhecida por Gigante de Cardiff, inclua-se nessa categoria. Timothy Clausen, o guia de 
espritos, era outro exemplo. 

A fraude, porm, tambm englobava aqueles que desejavam simplesmente ver quantas 
pessoas conseguiam enganar, no por dinheiro, mas apenas para verem at onde podiam ir. 
Doug Bower e Dave C, os agricultores ingleses que criaram o fenmeno conhecido por 
crculo da seara, foram outro exemplo; o cirurgio que fotografou o Monstro de Loch Ness, 
em 1933, foi outro. Em ambos os casos, a patranha foi concebida como uma piada, mas o 
interesse do pblico aumentou to rapidamente que tornou difcil a confisso do embuste. 

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Os erros inocentes, por outro lado, no passam disso mesmo. Um balo meteorolgico que 
se toma por um disco voador, um urso que  considerado o Bigfoot, um achado arqueolgico 
que depois se descobre ter sido trazido para o local onde foi encontrado centenas ou 
milhares de anos depois de ter sido enterrado pela primeira vez. Nos casos deste tipo, as 
testemunhas viram qualquer coisa, mas as suas mentes transformaram o que foi visto numa 
coisa totalmente distinta. 

A coincidncia  responsvel por quase tudo que no possa ser enquadrado nas outras duas 
categorias;  funo de uma simples probabilidade matemtica. Por mais improvvel que um 
evento possa parecer, enquanto for teoricamente possvel, mais certo  vir a acontecer em 
qualquer altura, em qualquer lugar e a qualquer pessoa. Pensemos, por exemplo, no 
romance Futility, de Robert Morgan, publicado em 1898, catorze anos antes de o Titanic ser 
lanado  gua; o romance narra a histria do maior e mais imponente navio de passageiros 
de todo o mundo, que larga do porto de Southampton para a sua primeira viagem, para se 
afundar depois de chocar com um icebergue, e dos passageiros, gente rica e famosa, que 
morreram nas guas geladas do Atlntico Norte porque o navio no tinha salva-vidas em 
nmero suficiente. Ironicamente, o nome do navio de fico era Titan. 

Porm, o que tinha acontecido ali no se englobava em nenhuma daquelas categorias. Para 
Jeremy, as luzes no pareceram produto de fraude ou coincidncia, nem sequer um erro 
inocente. Haveria uma explicao lgica algures mas, sentado naquele cemitrio, ainda 
abalado pelo acontecimento, no fazia idia de qual pudesse ser. 

Durante todo o tempo, Lexie havia permanecido sentada, em absoluto silncio. 

-Ento? - indagou finalmente. - O que  que acha? 
-Ainda no sei - confessou Jeremy. - Vi qualquer coisa, disso tenho a certeza. 
-E alguma vez tinha visto algo semelhante? 
-No. Na verdade, foi a primeira vez que vi qualquer coisa que me parecesse remotamente 
misteriosa. 

- espantoso, no ? -indagou Lexie, falando com suavidade. -Quase me tinha esquecido 
de quanto pode ser belo. J ouvi falar de auroras boreais e por vezes pensei se teriam 
alguma semelhana com isto. 

Jeremy no lhe deu resposta. Estava a recriar as luzes mentalmente, pensando em que a 
forma como tinham aumentado de intensidade fazia lembrar as luzes de automveis a 
aproximarem-se depois de sarem de uma curva. Pensou que teriam de ser provocadas por 
um qualquer tipo de veculo em deslocamento. Olhou para a estrada,  espera da passagem 
dos carros, embora a ausncia deles no o surpreendesse por completo. 

Lexie deixou-o em silncio durante um minuto, quase a conseguir ouvir os pneus a rodarem-
lhe na cabea. Finalmente, inclinou-se e tocou-lhe no brao com um dedo, para o fazer 
descer  terra. 

-Ento? - indagou. - O que  que vamos fazer? 
Jeremy sacudiu a cabea, voltando a dar-lhe ateno. 
-H alguma estrada aqui  volta? Qualquer outra estrada importante? 
-S aquela por onde viemos e que atravessa a vila. 
-Hum! - murmurou Jeremy, de cenho franzido. 
-O qu? O ah! no funcionou desta vez? 
-Ainda no. Mas ando l perto - insinuou. Apesar da escurido total, pensou v-la sorrir. 
-Por que ser que tenho a impresso de que voc j sabe como  que as luzes so 
provocadas? 

-Eu no sei nada - defendeu-se Lexie, olhando-o com timidez fingida. 
#
-Como  que chegou a essa concluso? 
- apenas uma impresso que eu tenho. Sou bom a conhecer as pessoas. Um tipo chamado 
Clausen revelou-me os seus segredos. 
Ela riu. 


-Bom, ento j sabe o que eu penso. 
Deu-lhe um momento para pensar, antes de se inclinar para ele. Na escurido, aqueles olhos 
eram sedutores e, embora em esprito estivesse longe dali, Jeremy reviu mentalmente a 
imagem dela na festa, recordou-se de quanto ela lhe parecera bela. 

-No se recorda da minha histria? - sussurrou. 
-Foram os meus pais.  provvel que quisessem conhec-lo. 
Talvez fosse a expresso de orfandade com que disse aquilo, uma expresso 
simultaneamente triste e resoluta, mas ele sentiu um pequeno n na garganta; foi tudo o 
que conseguiu fazer para no a tomar nos braos ali, naquele preciso momento, na 
esperana de a abraar para sempre. 

Hora e meia mais tarde, depois de recolhido todo o equipamento, estavam de volta  porta 
da casa dela. 

Nenhum falou muito durante o caminho de regresso e, quando pararam  porta, Jeremy 
verificou que tinha passado muito mais tempo pensando em em Lexie do que a Refletir 
sobre as luzes. No queria que a noite acabasse, ainda no. 

A hesitar em frente da porta, Lexie levou a mo  boca, para esconder um bocejo, e depois 
soltou uma gargalhada, fruto do embarao. 

-Desculpe. No estou habituada a estar a p at to tarde. 
-No tem importncia - respondeu Jeremy, olhando-a nos olhos. 
-Passei um sero fantstico. 
-Tambm eu -respondeu Lexie, muito convicta. Jeremy avanou um pequeno passo e ela, 
quando se apercebeu de que ele estava pensando em em beij-la, fingiu procurar algo nos 
bolsos do casaco. 

-Nesse caso, suponho que devo dar o sero por terminado -acrescentou, na esperana de 
que ele percebesse a insinuao. 

-Tem a certeza? Se quisesse, podamos ver as gravaes em sua casa. Talvez pudesse 
ajudar-me a descobrir vendodadeira origem das luzes. 

Lexie olhou para longe, com expresso de tristeza. 

-Por favor, no me estrague o que consegui, est bem? sussurrou. 
-Estragar o qu? 
-Isto... tudo - acrescentou, de olhos fechados, a tentar ordenar as idias. 
-Ambos sabemos por que quer entrar, mas, mesmo que eu o desejasse, no o deixaria 
passar aquela porta. Por favor, no faa mais perguntas. 

-Cometi algum erro? 
-No. No cometeu qualquer erro. Passei um dia fantstico, um dia maravilhoso. Na 
realidade, o meu melhor dia desde h muito tempo. 

-Ento, o que ? 
-Nunca deixou de me fazer a corte desde que aqui chegou, por isso sabemos o que vai 
acontecer se eu o deixar entrar aquela porta. Mas voc vai-se embora. E quando j no 
estiver c, quem vai sofrer sou eu. Ento, porqu comear algo que no tem inteno de 

#
acabar? 

Com outra pessoa, com qualquer outra pessoa, ele teria dito uma frivolidade qualquer, ou 
mudado de assunto enquanto concebia um outro plano de entrada. No entanto, ali no 
alpendre, a olhar para ela, no conseguiu encontrar as palavras adequadas. E o mais 
estranho  que no desejou encontr-las. 

-Tem razo -admitiu. Forou um sorriso. -Vamos considerar que o sero acabou. De 
qualquer das formas, talvez seja melhor ir tentar descobrir de onde vm aquelas luzes. 

Por instantes, ela no teve a certeza de ter ouvido bem mas, quando ele deu um pequeno 
passo para trs, olhou-o nos olhos e limitou-se a dizer: 

-Obrigada. 
-Boa noite, Lexie. 
Ela retribuiu com um aceno de cabea e, aps uma pausa embaraosa, virou-se para a 
porta. Jeremy entendeu o gesto como sinal para se ir embora e saiu do alpendre logo que 
Lexie tirou as chaves da algibeira do casaco. Estava a enfiar a chave na fechadura, quando 
ouviu a voz dele, vinda de trs. 

-Eh, Lexie? 
No nevoeiro, ele era apenas uma sombra. 
-O que ? 
-Talvez no acredite, mas a ltima coisa que desejaria fazer seria mago-la, ou agir de 
forma que a levasse a arrepender-se de nos termos conhecido. 

Embora o comentrio lhe merecesse um sorriso breve, Lexie voltou-se sem uma palavra. A 
ausncia de resposta dizia muito. Pela primeira vez na vida, Jeremy ficou no s 
desapontado consigo mesmo, como tambm desejou ser algum totalmente diferente. 

#
ONZE 

Os pssaros chilreavam, o nevoeiro tinha comeado a dissipar-se e um guaxinim atravessou 

o alpendre quando celular de Jeremy tocou. A luz cinzenta e crua da madrugada passava 
pelas cortinas pudas, atingindo-o num olho como o soco de um pugilista profissional. 
Um olhar rpido para o relgio mostrou-lhe que eram oito horas, demasiado cedo para falar 
com algum, especialmente depois de passar a noite em claro. Estava a ficar velho para 
noitadas daquele gnero e franziu a testa antes de estender a mo para o celular. 

- melhor que seja um assunto importante - resmungou. 
-Jeremy? s tu? Onde  que te meteste? Por que no me telefonaste? Tenho estado a 
tentar encontrar-te! 

Nate, pensou Jeremy, a fechar de novo os olhos. Santo Deus, o Nate. Entretanto, o amigo 
continuava falando . Jeremy pensou que ele deveria ser um primo h muito esquecido do 
presidente da Cmara. Deviam p-los aos dois numa sala e lig-los a um gerador; poderiam 
gerar eletricidade para iluminar Brooklyn durante um ms. 

-Disseste que manterias o contato! 
Com dores por todo o corpo, Jeremy tentou sentar-se na beira da cama. 
-Nate, desculpa. No tenho tido tempo e a recepo aqui em baixo no  l muito boa. 
-Devias manter-me informado! Ontem, passei o dia a tentar ligar para ti, mas fui sempre 
direito ao voice-mail. Nem calculas o que est a acontecer. Os produtores no me largam, 
sempre a aparecerem com idias sobre aquilo que poders querer discutir. Isto est mesmo 
animado. Um deles sugeriu que escrevesses um artigo sobre dietas de alto valor protico. 
Ests vendo, aquelas em que se diz que podemos comer bacon e bifes  vontade, sem por 
isso deixarmos de perder peso. 

Jeremy sacudiu a cabea, a tentar manter-se acordado. 

-Espera! Ests falando de qu? Quem  que pretende que eu fale de uma dieta? 
-O Good Morning Amrica. De quem  que pensavas que eu estava falando ? Como eu 
disse, teremos de voltar conversando com eles mas penso que estars  vontade no 
assunto. 

Jeremy massajou a testa; por vezes, aquele homem provocava-lhe dores de cabea. 

-Nate, no estou interessado em escrever sobre uma nova dieta. Sou um jornalista 
especializado em cincias, no sou a Oprah. 

-Portanto, podes dar o teu melhor neste tema.  o que vais fazer, certo? E as dietas tm 
algo vendo com a qumica e com a cincia. Estou certo ou estou errado? Com mil diabos, 
sabes que tenho razo, e conheces-me: quando tenho razo, tenho mesmo razo. Alm 
disso, estou apenas a lanar umas novas idias... 

-Vi as luzes! - interrompeu Jeremy. 
-Quero dizer, se tens qualquer coisa melhor, podemos falar. Mas, neste caso, estou a 
avanar s cegas e esta dieta pode muito bem ser a maneira de trabalhares com... 

-Vi as luzes! - exclamou de novo Jeremy, elevando a voz. Desta vez foi ouvido. 
-Ests falando das luzes do cemitrio? - indagou. 
Jeremy continuava a massajar as tmporas. 
-Pois, essas luzes. 
-Quando? Por que  que no me ligaste? Isso j me fornece algo para comear. Oh, por 
favor, diz-me que filmaste tudo? 

#
-Pois filmei, mas ainda no vi os filmes, no sei como  que ficaram. 
-Ento, as luzes existem? 
-Sim. Mas julgo que tambm descobri a sua origem. 
-Nesse caso no so verdadeiras... 
-Escuta, Nate, estou cansado, por isso ouve-me durante um minuto, est bem? Na noite 
passada fui ao cemitrio e vi as luzes. E para ser honesto, pela forma como aparecem, tenho 
de dizer que percebo as razes que levam as pessoas a considerar que se trata de 
fantasmas. Esto ligadas a uma lenda bastante interessante e a vila tem um circuito 
planeado para o fim-de-semana, para a aproveitar. Porm, depois de sair do cemitrio fui  
procura da origem e estou praticamente convencido de que a encontrei. Tudo o que tenho a 
fazer  descobrir como e porqu as luzes aparecem em determinadas alturas, mas tambm 
j tenho algumas idias sobre isso; espero ter tudo definido no final do dia. 

Por momentos, Nate no encontrou resposta, o que era raro. Contudo, sendo um 
profissional calejado, recuperou rapidamente. 

-Muito bem, muito bem, d-me um segundo para pensar qual a melhor maneira de 
utilizarmos isso. Estou pensando em naqueles tipos da televiso. 

Em quem  que ele havia de estar a pensar? Refletiu Jeremy. 

-Muito bem, o que  que pensas desta idia? - prosseguiu Nate. 
-Abrimos com a prpria lenda, como quem prepara o ambiente. Cemitrio no meio do 
nevoeiro, grandes planos de algumas sepulturas, talvez umas imagens rpidas de um corvo 
negro, sinal de mau agoiro, a ouvir a tua voz... 

O homem era um mestre em clichs de Hollywood; Jeremy olhou de novo para o relgio, 
pensando em que era demasiado cedo para estar com aquelas conversas. 

-Nate, estou cansado. V se concordas com isto? Vais Refletir sobre o assunto e depois 
telefonas-me, est bem? 

-Pois, pois. Pode ser assim.  para isso que c estou, no  verdade? Para te facilitar a vida. 
Olha, achas que devo ligar ao Alvin? 
-Ainda no tenho a certeza. Deixa-me ver primeiro os filmes; depois falarei com o Alvin, 
para ouvir a opinio dele. 

Nate ardia de entusiasmo. 

-Certo. Bom plano, excelente idia! Que grandes notcias! Uma verdadeira histria de 
fantasmas! Os tipos vo adorar! J te disse que eles ficaram entusiasmados com a idia, no 
disse? Acredita em mim, disse-lhes que estavas a preparar esta histria e no estarias 
interessado em discutir a ltima coqueluche das dietas. No entanto, agora que temos um 
ponto a nosso favor, vo ficar malucos. Estou ansioso por lhes contar e, escuta, ligo-te 
dentro de umas horas; por isso mantm o telefone sempre ligado. Isto est a andar 
depressa... 

-At logo, Nate. Falarei contigo mais tarde. 
Jeremy deixou-se rolar para a cama e cobriu a cabea com uma almofada; contudo, ao 
verificar que no conseguia adormecer, levantou-se a gemer e encaminhou-se para a casa 
de banho, a esforar-se por ignorar as criaturas empalhadas que pareciam espiar-lhe todos 
os movimentos. No entanto, estava a habituar-se de tal maneira  presena delas que, ao 
despir-se, resolveu tirar partido da pose do animal e pendurou a toalha nas suas patas 
estendidas. 

Saltando para debaixo do chuveiro, abriu a gua na temperatura mxima que agentou e 
deixou-se ficar ali durante vinte minutos, at ter a pele vermelha como uma ameixa. S 
ento comeou a sentir-se voltar  vida. Qualquer pessoa sentiria o mesmo com menos de 

#
duas horas de sono. 

Depois de vestir as calas de ganga, pegou nas cassetes e foi para o carro. O nevoeiro 
pairava sobre a estrada, como se fosse gelo seco a evaporar-se de um fosso de orquestra, o 
cu apresentava-se com cores to feias quanto as da vspera, levando-o a suspeitar de que 
as luzes voltariam a aparecer naquela noite, o que no s constitua um bom augrio para o 
turismo do fim-de-semana, como tambm significava que talvez estivesse na altura de 
chamar o Alvin. Mesmo que os filmes estivessem bons, Alvin era um mgico com a mquina 
de filmar, poderia captar imagens que provocariam o inchao do dedo do Nate, tantas as 
chamadas telefnicas que ele faria. 

Contudo, o prximo passo era verificar o que tinha conseguido filmar, mesmo que fosse 
apenas para confirmar se tinha captado alguma coisa. O Greenleaf no possua gravador de 
vdeo, o que no era de surpreender, mas ele tinha visto um aparelho na sala de livros raros; 
enquanto rolava pela estrada sossegada que conduzia  vila, ps-se a imaginar como  que 
a Lexie iria comportar-se quando ele entrasse na biblioteca. Voltaria a mostrar-se distante e 
profissional? Teriam permanecido os bons sentimentos gerados pelo dia que passaram 
juntos? Ou recordaria apenas os ltimos momentos passados no alpendre, quando ele a 
tinha pressionado em demasia? No fazia idia do que iria acontecer, mesmo depois de ter 
dedicado uma boa parte da noite a tentar imagin-lo. 

A situao era clara, tinha identificado a fonte de luz. Como a maioria dos mistrios, tambm 
este no era muito difcil de solucionar por quem soubesse o que deveria procurar; a 
consulta rpida a um portal da Internet patrocinado pela NASA eliminara uma segunda 
possibilidade. Descobriu que a Lua no poderia ser responsvel pelas luzes. Estava-se, de 
fato, na lua nova, numa altura em que o satlite estava encoberto pela sombra da Terra, o 
que o levou a suspeitar que o fenmeno s acontecia naquela fase. Tinha lgica: sem luar, 
qualquer raio de luz, por mais tnue que fosse, tornaria-se muito mais visvel, especialmente 
quando Refletido pelas gotculas de gua do nevoeiro. 

Todavia, ao estar ali de p, ao frio, com a resposta ao alcance da mo, s conseguia pensar 
em Lexie. Parecia-lhe impossvel que a tivesse conhecido apenas dois dias antes. No fazia 
sentido.  certo que Einstein tinha postulado que o tempo  relativo, uma concluso que 
poderia explicar tudo. Como  que era a velha mxima sobre da relatividade? Um minuto 
com uma mulher bela passa num instante, mas um minuto com a mo encostada a um bico 
de gs aceso pareceria uma eternidade. Sim, era isso. Ou perto disso, pelo menos. 

Uma vez mais, lamentou o seu comportamento no alpendre, a desejar pela centsima vez 
no a ter levado a acreditar que pretendia beij-la. Lexie tornara os seus sentimentos 
bvios, mas ele tinha-os ignorado. O Jeremy normal j teria esquecido o caso, encolhendo 
os ombros por no lhe atribuir significado. Por qualquer razo, desta vez no estava a ser 
to fcil. 

Desde que a Maria partira, embora tivesse namorado bastante e no se portasse exatamente 
como um eremita, mal se recordava de ter passado um dia inteiro com algum. O normal 
era apenas o jantar, umas bebidas e conversa suficiente, at se perderem as inibies e 
poder chegar-se  parte que mais interessava. De certo modo sabia que, quanto a namorar, 
era chegado o tempo de crescer, talvez at de tentar assentar e adotar o estilo de vida dos 
irmos. Os irmos incitavam-no  claro, mas as mulheres deles no lhes ficavam atrs. 
Existia a opinio generalizada de que ele devia conhecer as mulheres antes de tentar levlas 
para a cama, e uma das cunhadas chegara ao ponto de lhe preparar um namoro com 
uma vizinha divorciada, que pensava o mesmo. Como  bvio, a mulher recusara um 
segundo convite para sair, em grande parte devido aos avanos que ele lhe fizera na 
primeira vez. Nos anos mais recentes, parecera-lhe mais fcil no conhecer muito bem as 
mulheres, consider-las como eternas estranhas, mesmo as que demonstrassem representar 
uma esperana e um futuro para ele. 

Esse era o problema. No havia esperana nem futuro. Pelo menos para o gnero de vida 
em que os irmos e as cunhadas acreditavam, ou at para a vida que, segundo ele pensava, 

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a Lexie desejava. O divrcio da Maria era a melhor prova. Lexie era a moa tpica de uma 
pequena comunidade, com sonhos prprios de quem vive numa pequena cidade, para ela 
no seria suficiente que ele fosse fiel e responsvel, que tivessem muito em comum. As 
mulheres, ou a maioria delas, queriam algo diferente, uma maneira de viver que ele no 
podia proporcionar-lhes. No por ele no a desejar, no que estivesse enamorado da sua 
vida de solteiro, mas porque tal vida lhe era impossvel. A cincia podia responder a muitas 
questes, resolver uma grande diversidade de problemas, mas no conseguia resolver o seu 
problema pessoal. E o problema era que a Maria o tinha deixado por ele no ser, nem nunca 
poder vir a ser, o gnero de marido que ela pretendia. 

Como era bvio, aquela era uma verdade que no confessava a ningum. Nem aos irmos, 
nem aos pais, nem  Lexie. E, nos momentos de maior descontrao, nem a confessava a si 
mesmo. 

Embora a biblioteca estivesse aberta quando ele l chegou, Lexie ainda no tinha chegado, o 
que o fez sentir o enorme desapontamento de abrir a porta do gabinete dela para deparar 
com uma diviso vazia. No entanto, ela j tinha passado por l: a porta da sala dos livros 
raros encontrava-se aberta e, ao acender a luz, viu um bilhete em cima da secretria, em 
cima dos mapas topogrficos de que ela falara. Uma nota que se lia depressa: 

Tenho uns assuntos pessoais a resolver. O gravador de vdeo est  sua disposio. 

Lexie. 

Nenhuma meno da noite anterior, nenhuma meno de perspectivas de voltar a v-lo. 
Nem mesmo um cumprimento antes da assinatura. No era o mais frio dos bilhetes que 
algum podia deixar, mas tambm no revelava o mnimo calor humano. 

Contudo, era provvel que, uma vez mais, estivesse a ler o que l no estava. Podia ter que 
fazer naquela manh, ou talvez o bilhete fosse curto por ela ter intenes de voltar 
depressa. Referia a um assunto pessoal, o que, com mulheres, podia significar uma consulta 
mdica ou a necessidade de comprar uma prenda de anos para uma amiga. No havia 
maneira de saber. 

Alm disso, disse para si mesmo, tinha que fazer. O Nate estava  espera e a sua carreira 
dependia daquele trabalho. Jeremy forou-se a procurar uma forma de concluir a histria. 

Os gravadores de som no tinham detectado quaisquer sons estranhos, os detetores de alta 
freqncia e eletromagnticos no registaram a mnima variao dos nveis de energia. No 
entanto, as cassetes de vdeo tinham registado tudo o que ele vira durante a noite anterior; 
viu as imagens mais de meia dzia de vezes de cada ngulo possvel. As cmaras equipadas 
com filtros de luz de grande capacidade mostravam de forma bem ntida o brilho do 
nevoeiro. Embora pudesse extrair daqueles filmes uma boa imagem para acompanhar um 
artigo, estavam longe da qualidade que se exige em televiso. Quando vistas em velocidade 
normal, partilhavam da qualidade dos vdeos de produo caseira, uma qualidade que lhe 
recordava vdeos que j lhe haviam sido oferecidos como prova de outros fenmenos 
sobrenaturais. Anotou a necessidade de comprar uma mquina de filmar a srio, por muito 
que o editor tivesse de espernear para assinar a nota de despesa. 

Contudo, mesmo que as imagens no tivessem a qualidade que ele esperava, a observao 
da maneira como as luzes foram mudando, ao longo dos vinte e dois segundos em que se 
mantiveram visveis, deu-lhe mais uma vez a certeza de que tinha realmente encontrado a 
resposta. Guardou as cassetes, observou os mapas e calculou a distncia entre Riker's Hill e 

o rio. Comparou as primeiras fotografias que fez do cemitrio com outras que encontrou em 
livros que narravam a histria da vila, chegando  que lhe pareceu uma estimativa correta  
quanto  velocidade a que o cemitrio estava a afundar-se. Apesar de no ter encontrado 
novas informaes sobre a lenda de Hettie Doubilet, os relatos da poca no faziam 
referncia ao assunto, fez uma chamada para o departamento de gesto dos aqferos desta 
parte do estado, mais um telefonema para o departamento de minas, onde obteve 
#
informaes sobre as pedreiras que ali tinham sido escavadas no princpio do sculo XX. 
Depois disso, escreveu algumas palavras num motor de busca da Internet,  procura de 
tabelas de que precisava; finalmente, depois de ter Ficado  espera durante dez minutos, 
falou com um tal Mr. Larsen, da fbrica de papel, que se disps a ajud-lo em tudo o que 
pudesse. 

E com isso, com todas as provas a encaixarem-se na perfeio, dispunha da prova absoluta. 

A verdade estivera sempre diante dos olhos de toda a gente. Como acontece com muitos 
mistrios, a soluo tinha sido fcil, difcil era acreditar que ningum tivesse pensado nela. 
Ou talvez algum tivesse encontrado a soluo, o que abria novas perspectivas de anlise da 
histria. 

No havia dvidas de que o Nate ficaria entusiasmado mas, apesar dos xitos da manh, 
Jeremy sentia pouca vontade de cantar vitria. Em vez disso, s pensava no fato de a Lexie 
no estar por ali, para o felicitar ou para zombar dele. Francamente, no o preocupava a 
forma como ela reagiria se ali estivesse, o que o afligia era ela no estar ali para reagir. 
Levantou-se e foi observar uma vez mais o gabinete dela. No essencial, no notou diferenas 
em relao ao dia anterior. As pilhas de documentos continuavam em cima da secretria, 
havia livros espalhados ao acaso e o protetor do monitor do computador estava a apresentar 
desenhos coloridos em movimento. As luzes do aparelho de registo de chamadas, colocado 
ao lado de uma pequena planta envasada, piscavam a indicar que havia chamadas novas. 

Mesmo assim, no conseguia afastar a sensao de que, sem a Lexie, a sala pareceria 
sempre totalmente vazia. 

#
DOZE 

-O meu homem mais importante! -gritou Alvin para o microfone. -A vida corre-te bem, a 
pelo Sul? 

A despeito do rudo de esttica no celular de Jeremy, a voz de Alvin ouvia-se com nitidez. 

-Estou timo. Estou a telefonar para saber se ainda queres vir at c para me dares uma 
ajuda. 

-J estou a reunir o equipamento - respondeu, parecendo ofegante. 
-O Nate ligou-me h uma hora e ps-me ao corrente. Encontro-me contigo no Greenleaf l 
para o fim do sero; o Nate fez a reserva. Mas, de qualquer forma, o meu vo parte dentro 
de duas horas. E podes crer que estou ansioso por partir. Mais uns dias como os ltimos e 
ficaria maluco. 

-Ests falando de qu? 
-No tens lido jornais nem visto os noticirios? 
- claro que tenho lido jornais. Ainda no perdi um nmero do Boone Creek Weekly. 
-Do qu? 
-No ligues - aconselhou Jeremy. - Nada de importante. 
-Bom, como queiras; desde que partiste, nunca mais deixou de nevar -informou Alvin. Neve 
da boa, material do Plo Norte, em que at as renas do Pai Natal so inteis. 
Manhattan est praticamente soterrada. Saste daqui mesmo a tempo. Desde que partiste, 
este  o primeiro dia em que as companhias de aviao quase conseguem cumprir os 
horrios. Para conquistar lugar num vo tive de meter cunhas. Como  que podes no saber 
disto? 

Como o Alvin sugeriu, Jeremy ligou-se  Internet e procurou o canal de meteorologia. No 
mapa dos Estados Unidos, o Nordeste era todo ele um manto branco. 

Quem  que ia adivinhar? " pensou. 

Desculpou-se: 

-Tenho andado muito ocupado. 
-No te preocupes a passar-me a perna. Somos amigos, recordas-te? O Nate tem andado 
em pnico por no conseguir entrar em contato contigo, no ls jornais, no vs noticirios. 
Ambos sabemos o que isso significa. Ficas sempre assim quando arranjas uma nova 
conquista. 

-Escuta, Alvin... 
- bonita? Aposto que  uma beleza, acertei? Consegues sempre encontrar o filo de ouro. 
Deixas-me doente. 

Jeremy hesitou antes de responder, mas acabou por ceder. Se Alvin fosse ter com ele, no 
tardaria a saber, fosse como fosse. 

-Sim,  bonita. Mas no  o que ests a pensar. Somos apenas amigos. 
-Pois, claro -anuiu, soltando uma gargalhada. -Contudo, entre as nossas concepes de 
amigas existe uma certa diferena. 

-Desta vez, no - asseverou Jeremy. 
-Ela no tem uma irm? - indagou Alvin, a ignorar o comentrio. 
-No. 
-Mas tem amigas, ou no? E lembra-te de que no estou interessado na feia. 
#
Jeremy sentiu que a dor de cabea estava a regressar e o tom com que Alvin falava f-lo 
atingir o limite. 

-No estou com disposio para isto, est bem? 
Alvin fez uma pausa. 
-Eh, o que  que se passa? - perguntou. 
-Estou apenas a dizer umas piadas. 
-Algumas das tuas piadas no tm graa. 
-Gostas dela, no ? Quer dizer que gostas muito dela. 
-J te disse que somos apenas amigos. 
-No acredito. Ests a ficar apaixonado. 
-No. 
-Escuta, companheiro, eu conheo-te; por isso, no vale a pena negares. E acho que  
fantstico. Mas, infelizmente, se no quero perder o vo, tenho de desligar. O trnsito est 
miservel, como  provvel que imagines. No entanto, estou ansioso por conhecer a mulher 
que conseguiu domesticar-te. 

-No fui domesticado - protestou Jeremy. 
-Por que  que no ouves o que eu digo? 
-Estou a ouvir. At estou a ouvir coisas que no ests a dizer. 
-Sim, est bem. Quando  que chegas? 
-Julgo estar a por volta das 19 horas. Ento Falaremos. E, a propsito, cumprimenta-a em 
meu nome, est bem? Diz-lhe que estou morto por conhec-la, a ela e  amiga... 

Jeremy desligou a chamada antes que Alvin conseguisse acabar de Falar e, como a dar 
nfase  deciso, voltou a enfiar o celular no bolso. 

No admirava que o tivesse mantido desligado. Devia ter sido uma deciso subconsciente, 
baseada no fato de que, por vezes, ambos os seus amigos mostravam tendncia para o 
irritar. Primeiro o Nate, que parecia ter metido pilhas novas, na sua infindvel busca da 
fama. E agora este. 

Alvin no fazia a mnima idia daquilo que ele estava a querer dizer-lhe. Podiam ser amigos, 
terem passado muitas sextas-feiras juntos, a espreitarem mulheres por cima das canecas de 
cerveja, podiam ter falado da vida durante horas e, bem l no fundo, o Alvin pensaria 
honestamente que tinha razo. Mas, no tinha, no podia ter. 

Afinal, os fatos falavam por si mesmos. Em primeiro lugar, embora tivessem passado muitos 
anos depois da ltima vez que Jeremy estivera apaixonado, ainda se recordava do que havia 
sentido das outras vezes. Teria, com certeza, reconhecido de novo o sentimento e, 
francamente, no sentia. E partindo do princpio de que mal acabara de conhecer a mulher, 
a idia parecia completamente disparatada. Nem a sua me, uma italiana que se 
emocionava com facilidade, acreditava que o verdadeiro amor pudesse florescer de um dia 
para o outro. Tal como acontecia com os irmos e as cunhadas, a me desejava 
ardentemente que ele se casasse e tivesse uma famlia; porm, se lhe aparecesse  porta, a 
dizer que tinha conhecido uma pessoa dois dias antes e sabia que era a mulher que lhe 
convinha, a me era capaz de lhe bater com a vassoura, praguejar em italiano e arrast-lo 
para a igreja, convencida de que o filho cometera graves pecados e precisava de se 
confessar. 

A me dele conhecia os homens. Casou com um, criou seis rapazes e tinha a certeza de ter 
aprendido tudo o que havia a aprender. Conhecia exatamente a maneira como os homens 
tendem pensando em quando se trata de mulheres, e embora se apoiasse no bom senso e 

#
no na cincia, tinha a certeza absoluta de que o amor no pode acontecer em apenas dois 
dias. O amor poderia despertar num perodo curto, mas o verdadeiro amor precisava de 
tempo bastante para se transformar num sentimento forte e duradouro. O amor era, acima 
de tudo, entrega, dedicao e a certeza de que passar anos em companhia de uma certa 
pessoa daria origem a algo de superior ao que ambos poderiam conseguir se continuassem 
separados. Contudo, s o tempo poderia mostrar se a escolha tinha sido a mais ajustada. 

Por outro lado, a luxria podia manifestar-se quase de imediato, razo que levaria a sua me 
a bater-lhe com a vassoura. Para ela, a luxria era fcil de descrever: duas pessoas 
descobrem que so compatveis, a atrao mtua aumenta e o primitivo instinto de 
preservao da espcie faz a sua apario. Tudo resumido, embora a luxria fosse uma 
possibilidade a ter em conta, no era possvel que amasse a Lexie. 

Assim mesmo. Caso encerrado. Alvin estava enganado, Jeremy tinha razo e, uma vez mais, 
vendodade tinha-o libertado. Sorriu, satisfeito, durante alguns instantes, antes de a testa 
comear a enrugar-se. 

E, no entanto... 

Bem, havia um problema: tambm no sentia o ataque da luxria. Naquela manh, pelo 
menos. Pois, ainda mais do que abra-la e beij-la, desejava simplesmente voltar a v-la. 
Estar junto dela. Queria v-la a rolar os olhos quando o ouvia dizer coisas ridculas, queria 
sentir a mo dela a pousar-lhe no brao, como acontecera no dia anterior. Queria v-la a 
arrumar madeixas de cabelo atrs da orelha, um tique nervoso, e ouvi-la contar peripcias 
da infncia. Queria interrog-la sobre dos sonhos e esperanas que alimentava quanto ao 
futuro, conhecer os seus segredos. 

Essa no era, porm, a parte mais estranha. O mais estranho era no conseguir descortinar 
um motivo para os seus impulsos. Como era bvio, no recusaria se ela desejasse dormir 
com ele, mas, mesmo que Lexie no desejasse tal coisa, o estar junto dela seria suficiente, 
por agora. 

No fundo, no encontrava um motivo, agora que as coisas tinham acontecido. J tinha 
tomado a deciso de no voltar a colocar a Lexie na posio para onde a empurrara na noite 
anterior. Fora necessria muita coragem para ela dizer o que disse. Afinal, nos dois dias que 
tinham passado juntos, ainda nem sequer conseguira dizer-lhe que j tinha sido casado. 

Contudo, se no podia estar apaixonado e no sentia desejo dela, o que  que sentia? 
Gostava dela? Claro que gostava, mas a palavra tambm no era suficiente para definir o 
que sentia. Era demasiado... vaga, de contornos pouco definidos. As pessoas gostam de 
gelados. Gostam de ver televiso. No quer dizer nada e, nem de perto, servia para explicar 
por qu, em primeiro lugar, sentia a necessidade de contar a algum vendodade sobre dos 
motivos do seu divrcio. Os irmos no sabiam vendodade. No entanto, qualquer que fosse 
a razo, no conseguia afastar a idia de que desejava contar tudo  Lexie; e agora no 
sabia onde havia de a procurar. 

Dois minutos depois, o celular tocou e ele reconheceu o nmero mostrado no monitor. 
Embora sem disposio, sabia que tinha de atender; se no, o homem podia sofrer o 
rebentamento de uma artria. 

-Estou. O que  que se passa? 
-Jeremy! - gritou Nate. Por causa da esttica, Jeremy mal conseguia ouvi-lo. 
-Grandes novidades! Nem te passa pela cabea o que tenho andado a fazer. Isto est uma 
casa de doidos! Temos uma conferncia por telefone com a ABC, s 14 horas. 

-Fantstico - foi o nico comentrio de Jeremy. 
-Espera. No consigo ouvir-te. A chamada est horrvel. 
-Desculpa. 
-Jeremy! Ests a ouvir-me? No desligues! 
#
-Sim, Nate, estou a ouvir... 
-Jeremy! - gritou Nate, ignorando a resposta. 
-Escuta, se ests a ouvir-me, vai a um telefone pblico e liga para mim. Carrega numa tecla 
se ouviste o que eu disse. 

Jeremy premiu o 6. 

-Excelente! Fantstico! Catorze horas! S igual a ti prprio! Isto , pe de lado o sarcasmo. 
Esta gente parece bastante formal... 

Jeremy desligou, a imaginar quanto tempo  que o Nate levaria a descobrir que estava 
falando sozinho. 

Jeremy esperou. Depois, esperou um pouco mais. 

Andou pela biblioteca, passou pelo gabinete da Lexie, espreitou pela janela  procura de 
sinais do carro dela, a sentir um crescente desconforto  medida que os minutos passavam. 
Tinha apenas um pressentimento, pois a ausncia dela era totalmente inexplicvel. Mesmo 
assim, fez o que pde para se convencer do contrrio. Disse para si mesmo que ela acabaria 
por aparecer, que provavelmente iria rir-se daqueles pressentimentos ridculos. Contudo, 
agora que dera a investigao por concluda, para alm de poder ainda encontrar alguns 
relatos pertinentes, cuja leitura ainda no terminara, no sabia muito bem o que fazer a 
seguir. 

O Greenleaf estava fora de questo, no queria passar l mais tempo do que o estritamente 
necessrio, embora comeasse a gostar dos toalheiros feitos com animais empalhados. O 
Alvin no chegaria antes da noite e a ltima coisa que desejava fazer era andar s voltas 
pela vila, onde poderia ser caado pelo presidente Gherkin. Tambm no queria passar o dia 
todo na biblioteca. 

Na realidade, gostaria que a Lexie tivesse sido um pouco mais especfica no bilhete que 
deixou, que tivesse dado uma idia de quando contava regressar. Poderia at ter dito aonde 
ia. Mesmo depois de o ter lido trs vezes, o bilhete continuava a no fazer sentido. Teria a 
falta de pormenores sido inadvertida ou propositada? Tinha de sair dali; era-lhe difcil no 
pensar o pior. 

Depois de reunir as suas coisas, desceu a escada e parou junto ao balco de atendimento de 
leitores. A idosa voluntria estava mergulhada na leitura. Em frente dela, Jeremy pigarreou. 
Quando a senhora levantou os olhos ficou radiante. 

-Como est, Mr. Marsh? Vi-o chegar, ainda cedo, mas pareceu-me preocupado; por isso 
nem lhe falei. Deseja alguma coisa? 

Jeremy ajeitou as folhas dos apontamentos debaixo do brao, a parecer o mais desprendido 
possvel. 

-Sabe onde posso encontrar Miss Darnell? Deixou-me um bilhete a dizer que tivera de sair, 
mas no fao idia de quando ela regressa. 

-Interessante -comentou a voluntria -, ela j c estava quando entrei -acrescentou, a 
consultar o calendrio que tinha em cima da secretria. -No tem qualquer reunio 
marcada, nem vejo qualquer outro compromisso. J foi ao gabinete dela? Talvez esteja 
fechada por dentro.  freqente faz-lo sempre que o trabalho comea a acumular-se. 

-J l fui. Sabe se ela tem um celular para eu poder contat-la? 
-No tem, tenho a certeza disso. Disse-me que quando anda por fora no gosta de ser 
incomodada. 

-Bom... obrigado por tudo. 
-H mais alguma coisa em que eu possa ajudar? 
-No. Preciso da ajuda dela para o meu artigo. 
#
-Lamento no poder ajud-lo mais. 
-Tudo bem. 
-J pensou procur-la no Herbs? Pode l estar para ajudar a 
Doris nos preparativos para o fim-de-semana. Ou talvez tenha ido a casa. O problema com a 
Lexie  nunca se poder prever seja o que for sobre dela. 

-De qualquer das formas, obrigado. Se voltar, agradeo que a informe de que andei  
procura dela. 

A sentir-se cada vez mais agitado, Jeremy abandonou a biblioteca. 

Antes de se dirigir para o Herbs resolveu passar por casa da Lexie, onde reparou que as 
cortinas estavam corridas. no havia sinais do carro. Mesmo que o cenrio no apresentasse 
nada de novo, voltou a sentir que algures havia algo de errado; a sensao de 
intranqilidade continuou a aumentar enquanto percorria o caminho de regresso  vila. 

A azfama matinal no Herbs tinha desaparecido; o restaurante estava naquele perodo 
indefinido entre o caf da manh e o almoo, quando o pessoal procedia  limpeza do que 
Ficara da ltima enchente e preparava tudo para a prxima. De momento, havia mais 
empregados do que clientes, eram quatro para um, pelo que no foi difcil descobrir que a 
Lexie tambm no estava ali. Rachel estava a limpar uma mesa e, logo que o viu, acenou-
lhe com o pano. 

-Bom dia, meu querido -cumprimentou ao aproximar-se. - um pouco tarde, mas, se est 
com fome, tenho a certeza de que posso arranjar-lhe um caf da manh. 

-No, obrigado -agradeceu, enquanto metia as chaves no bolso. -No tenho muita fome. 
Mas  capaz de dizer-me se a Doris est por c? Se ela puder dispor de um minuto gostaria 
de lhe falar. 

-Regressou ao princpio, no ? -comentou, a sorrir e a fazer um sinal na direo da 
cozinha. -Est l atrs. Vou dizer-lhe que est aqui. E, a propsito, ontem  noite foi uma 
festa de arromba. As pessoas falaram de si durante toda a manh, at o presidente passou 
por c, a perguntar se tinha recuperado. Julgo que ficou desapontado por no o encontrar 
aqui. 

-Eu gostei. 
-Deseja caf ou ch, enquanto espera? 
-No, obrigado. 
A Rachel desapareceu pela porta dos fundos, para, instantes depois, aparecer a Doris, a 
enxugar as mos ao avental. Tinha as faces enfarinhadas mas, mesmo de longe, Jeremy 
notou-lhe os papos por baixo dos olhos e reparou que parecia mover-se mais devagar do 
que era habitual. 

-Desculpe por lhe aparecer assim -disse, a apontar para si prpria. -Apanhou-me com a 
mo na massa. A noite passada obrigou-me a atrasar um pouco os preparativos para o fim-
de-semana, vai ser-me um bocado difcil recuperar antes da chegada das multides de 
amanh. 

A recordar-se do que a Lexie lhe tinha dito, Jeremy perguntou. 

-Quantas pessoas  que espera para o Fim-de-semana? 
-Quem sabe? O circuito costuma atrair umas duas centenas de pessoas, por vezes um 
pouco mais. O presidente alimenta a esperana de atrair um milhar  festa deste ano, mas  
muito difcil calcular quantos podero vir tomar o caf da manh ou almoar. 

-se o presidente estiver dentro da razo, trata-se de um enorme salto em relao ao ano 
passado. 

#
-Bom, as estimativas dele valem o que valem. O Tom tem propenso para o otimismo 
excessivo, mas conseguiu criar um ambiente de insistncia para que tudo esteja pronto a 
tempo. Alm disso, mesmo que no faam o circuito, as pessoas gostam de vir assistir  
parada de sbado. Os Shriners no deixaro de andar por a nos seus carros, como sabe, e 
as crianas adoram-nos. Tambm haver uma exposio de animais, uma novidade deste 
ano. 

-Parece fantstico. 
-seria melhor se no se realizasse a meio do Inverno. O Festival de Pamlico atrai sempre as 
maiores multides, mas realiza-se em Junho e quase sempre temos um desses circos 
itinerantes durante o fim-de-semana. So festivais capazes de lanar ou afundar um 
negcio.  uma canseira. Dez vezes superior  que vou sentir agora. 

Ele sorriu. 

-A vida nunca deixa de me espantar. 
-Tem de tentar at encontrar. Tenho a estranha sensao de que gostaria de viver aqui. 
Parecia que Doris estava a test-lo e Jeremy no sabia muito bem como havia de responder-
lhe. Por trs deles, a Rachel estava a limpar uma mesa e a tagarelar com o cozinheiro 
instalado na outra ponta da sala. Ambos se riam com qualquer coisa que um deles tinha 
dito. 

-Mas, de qualquer das formas -prosseguiu Doris, a libert-lo do aperto -, estou satisfeita 
por ter vindo. A Lexie disse-me que lhe tinha mencionado o meu livro. Avisou-me de que o 
mais provvel era o senhor no acreditar em nada do que l est, mas, se quiser, pode 
consult-lo. Tenho-o no escritrio, nas traseiras. 

-Gostaria de o ver. Ela disse que  um registo impressionante. 
-Fiz o melhor que pude. Talvez no esteja  altura dos seus padres, mais elevados, mas 
nunca me passou pela cabea que acabasse por ser lido por outra pessoa. 
-Tenho a certeza de que ficarei entusiasmado. Mas, por falar da Lexie, tambm foi por 

causa dela que aqui vim. No a viu? Hoje no foi  biblioteca. 
Doris acenou que sabia. 

-Foi a minha casa esta manh. Foi por isso que me lembrei de trazer o livro. Contou-me que 
o senhor viu as luzes na noite passada. 
-Ambos as vimos. 
-E ento? 
-Foram um espanto, mas, como disse, no se trata de fantasmas. 
Olhou para ele, satisfeita. 
-E parto do princpio de que j descobriu tudo; de contrrio, no estaria aqui. 
-Julgo que sim. 
-Bom para si -comentou. Olhou por cima do ombro. -Desculpe ter de interromper a 
conversa, mas estou bastante ocupada; vou buscar o meu livro de apontamentos. Quem 
sabe? Talvez ainda lhe apetea escrever um artigo sobre dos meus espantosos poderes. 

-Nunca se sabe.  provvel. 
Ao v-la desaparecer no interior da cozinha, ficou pensando em na conversa. Tinha sido 
bastante agradvel, mas curiosamente impessoal. E reparou no fato de Doris o ter deixado 
sem resposta quanto ao lugar onde a Lexie estaria. Nem sequer esboara uma suposio, o 
que parecia sugerir que, por qualquer razo, a Lexie comeara subitamente a no ser objeto 
de conversa. No lhe soava bem. Viu-a aproximar-se de novo. Mostrava o mesmo sorriso 
agradvel de sempre, mas desta vez, o sorriso de Doris pareceu provocar-lhe um n no 

#
estmago. 

-Ora bem, se tiver perguntas sobre disto -comeou, ao entregar-lhe o livro de notas -, no 
hesite em telefonar. E est autorizado a fazer cpias, desde que o devolva antes de ir-se 
embora. Tem um valor muito especial para mim. 

-Vou fazer como me disse - prometeu Jeremy. 
Doris ficou em frente dele, em silncio, e Jeremy teve a impresso de que aquela era a 
maneira de ela lhe fazer sentir que a conversa tinha chegado ao Fim. Mas, ele, pelo 
contrrio, no estava disposto a desistir com tanta facilidade. 

-Oh, s mais uma coisa. 
-O que ? 
-No se importa que eu devolva o livro  Lexie? Se a vir ainda hoje? 
-ser timo - anuiu Doris. - Mas, em qualquer caso, eu estarei aqui. 
Ao perceber o sentido evidente da resposta, o n do estmago de Jeremy apertou-se um 
pouco mais. 


-Ela contou-lhe alguma coisa a meu respeito? Quando a viu esta manh? 
-No disse muito. No entanto disse que era provvel que o senhor aparecesse por aqui. 
-Pareceu-lhe que ela estava bem? 
Doris respondeu lentamente, como se procurasse escolher as palavras com todo o cuidado: 

-Por vezes, a Lexie no  fcil de compreender. Portanto, no tenho a certeza de poder 
responder  sua pergunta. Mas tenho a certeza de que ficar bem, se  isso que pretende 
saber. 

-Estava zangada comigo? 
-No, posso garantir que no. No estava nada zangada. 
Jeremy no replicou, ficou  espera de mais. No silncio que se seguiu, ouviu a Doris 
respirar fundo. Pela primeira vez desde que se tinham conhecido, notou-lhe a idade nas 
rugas  volta dos olhos. 

-Jeremy, eu gosto de si, como sabe -confessou Doris, com voz suave. -Mas est a colocar-
me numa posio difcil. O que tem de compreender  que tenho de manter certas 
lealdades, uma delas com a Lexie. 

-Isso significa o qu? - perguntou ele, a sentir a garganta seca. 
-Significa que sei o que quer e o que est a perguntar-me, mas no posso responder-lhe. 
De uma coisa pode ter a certeza: se a Lexie quisesse que o Jeremy soubesse onde ela 
estava, ter-lhe-ia dito para onde ia. 

-Ainda voltarei a v-la? Antes de partir? 
-No sei. Acho que ser ela a ter de tomar a deciso. 
Ouvido aquele comentrio, na cabea de Jeremy comeou a instalar-se a idia de que a 
tinha perdido para sempre. 

-No percebo o motivo que a levou a fazer uma coisa destas - Refletiu. 
Doris respondeu-lhe com um sorriso triste: 
-Sabe, sim. Julgo que sabe. 
Perdera-a. 
Como se fossem um eco, as palavras continuavam a martelar-lhe a cabea. Enquanto 
conduzia o carro de regresso ao Greenleaf, tentava analisar friamente os fatos. No entrou 


#
em pnico. Nunca entrava em pnico. Por mais furioso que se sentisse, por mais que lhe 
apetecesse pressionar a Doris para obter informaes sobre o paradeiro da Lexie, limitara-se 
a agradecer-lhe a ajuda e encaminhara-se para o carro, como se no esperasse nada de 
diferente. 

Alm disso, conforme recordou a si mesmo, no havia motivos de pnico. No acontecera 
nada de terrvel  Lexie. Tudo se limitava ao fato de ela no querer voltar a v-lo. Talvez 
devesse ter previsto aquela deciso. Tinha esperado demasiado dela, mesmo que ela 
tivesse, desde o incio, tornado perfeitamente claro que no estava interessada. 

Abanou a cabea, pensando em que no devia admirar-se por ela ter desaparecido. Por 
muito moderna que fosse em certos aspectos, era conservadora noutros e, provavelmente, 
cansara-se dos avanos demasiado evidentes de que estava a ser alvo. Talvez lhe fosse mais 
fcil deixar a vila do que ter de explicar o seu raciocnio a algum como ele. 

Ento, como  que a situao poderia evoluir? Ela regressaria, ou no. Se voltasse, no 
havia problema. Porm, se no regressasse... bem, era aqui que tudo comearia a ficar mais 
complicado. Poderia no fazer nada e aceitar a deciso dela, ou poderia tentar encontr-la. E 
Jeremy achava que tinha um jeito especial para encontrar pessoas. Utilizando registos 
pblicos, simples conversas e os locais adequados da Web, aprendera a seguir a mais tnue 
das pistas diretamente at  porta de quem procurasse. Duvidava, contudo, que algum 
daqueles meios viesse a ser necessrio. Afinal, fora ela mesma a fornecer-lhe a resposta de 
que carecia, estava convencido de que sabia exatamente para onde ela fora. O que 
significava que podia resolver a situao como lhe apetecesse. 

Chegado a este ponto, teve de parar de novo. 

Saber o que deveria fazer no lhe resolvia o problema. Recordou-se de que tinha uma 
conferncia por telefone dentro de horas, um passo importante para a definio da sua 
carreira e, se fosse agora  procura da Lexie, duvidava que conseguisse encontrar um 
telefone pblico quando chegasse a altura de precisar dele. O Alvin chegaria ao fim do dia talvez 
a prxima noite fosse a ltima com nevoeiro -e embora o Alvin pudesse encarregar-
se sozinho das filmagens, no dia seguinte teriam de trabalhar juntos. E no devia esquecer-
se de que precisava de dormir um pouco; tinha pela frente outra longa noite e sentia-se 
cansado at aos ossos. 

Por outro lado, no desejava que tudo terminasse assim. Queria ver a Lexie, tinha de vendo. 
Uma voz interior aconselhava-o a no se deixar dominar pelas emoes e, em termos 
racionais, no via que ir  procura da Lexie pudesse trazer-lhe qualquer benefcio. Mesmo 
que conseguisse encontr-la, era provvel que ela o ignorasse ou, pior ainda, o achasse um 
maador. Entretanto, era provvel que o Nate tivesse um enfarte, Alvin ficaria encalhado e 
furioso, e ele Ficaria sem a histria e com o futuro comprometido. 

Portanto, a deciso era simples. Ao arrumar o carro em frente do seu quarto do Greenleaf, 
apontou-a a si mesmo. Analisados todos os dados da situao, a escolha era evidente. 
Afinal, no andara durante os ltimos quinze anos a utilizar a lgica e a cincia sem 
aprender qualquer coisa. 

Naquele momento, disse para si prprio, s lhe restava fazer as malas. 

#
TREZE 

Pois bem, admitia, era cobarde. 

No lhe era fcil de aceitar a idia de que tinha fugido, mas no queria esquecer o fato de 
nos ltimos dias no ter andado pensando em com a clareza devida, alm de no se sentir 
obrigada a ser perfeita. A situao era fcil de imaginar: se tivesse continuado em casa, as 
coisas tenderiam a complicar-se ainda mais. No interessava que gostasse dele e que 
Jeremy gostasse dela; de manh, acordara com a certeza de que tinha de pr termo  
situao antes que fosse demasiado tarde, pelo que, quando parou o carro no caminho 
arenoso em frente da casa da praia, soube que ter vindo para ali tinha sido a deciso mais 
acertada. 

A propriedade no tinha grande aspecto. A velha casa mostrava os estragos do tempo e 
perdia-se entre as ervas que a rodeavam. As pequenas janelas retangulares com cortinas 
brancas estavam cobertas de uma pelcula mida e salgada, as paredes mostravam manchas 
acinzentadas, vestgios da fria de uma dzia de tufes. De certa forma, sempre havia 
considerado a casa da praia uma espcie de cpsula do tempo; a moblia tinha mais de vinte 
anos, os canos protestavam quando abria a torneira do chuveiro e tinha de usar fsforos 
para acender os bicos do fogo. Contudo, as recordaes de parte da infncia passada ali 
nunca deixavam de a acalmar; depois de arrumar os sacos de artigos de mercearia que 
comprara para o fim-de-semana, foi abrir as janelas para arejar a casa. Feito isso, agarrou 
numa manta e instalou-se na cadeira de baloio colocada no alpendre traseiro, sem desejar 
mais nada do que olhar o oceano. O marulhar constante das ondas era calmante, parecia 
hipntico, e quase teve de suster a respirao ao ver os raios de sol romperem por entre as 
nuvens e estenderem-se por sobre a gua, como dedos apontados l de cima. 

Fazia o mesmo sempre que vinha ali. A primeira vez que viu os raios de luz romperem assim 
por entre as nuvens foi pouco depois de visitar o cemitrio na companhia da Doris, era ainda 
uma menina, e pensara que os pais haviam encontrado uma outra forma de marcarem 
presena na vida dela. Como anjos enviados do cu, acreditava, para a protegerem, sempre 
presentes mas sem intervirem, como se estivessem cientes de que a filha tomaria sempre as 
decises mais acertadas. 

Tivera necessidade de acreditar naquelas coisas durante muito tempo, simplesmente por 
serem freqentes as ocasies em que a solido lhe pesava. Os avs foram sempre amveis e 
maravilhosos mas, por muito que os amasse pelos seus cuidados e sacrifcios, nunca 
conseguira afastar totalmente a idia de ser diferente das outras crianas. Os pais das 
amigas jogavam  bola com os filhos durante os fins-de-semana e pareciam jovens mesmo  
luz difusa do interior da igreja pela manh; ao observ-los, ficava pensando em se no lhe 
faltaria qualquer coisa. 

No eram pormenores que pudesse discutir com a Doris. Nem podia comunicar-lhe a 
sensao de culpa que deles resultava. Quaisquer que fossem as palavras que utilizasse, 
nunca deixaria de ferir os sentimentos da av; tinha conscincia disso desde tenra idade. 

O sentimento de ser diferente deixara a sua marca. No s nela mas tambm em Doris e 
comeou a manifestar-se durante a adolescncia. Se Lexie forava os limites, era freqente 
que a av fizesse vista grossa para evitar uma discusso, deixando que a neta acreditasse 
que podia ser ela a definir as suas prprias normas. Fora um pouco bravia quando era nova, 
fez asneiras e lamentava muitas delas, mas, por qualquer razo, modificara-se durante os 
anos passados na universidade. Na sua nova fase de vida, mais madura, adotara a idia de 
que a maturidade implicava calcular os riscos muito antes de ponderar a recompensa, que o 
sucesso e a felicidade tinham tanto vendo com a necessidade de evitar os erros como com a 
certeza de deixar uma marca na vida. 

Sabia que na noite anterior estivera prestes a cometer um erro. Suspeitara que ele tentaria 
beij-la e sentia-se satisfeita por ter sido to resoluta quando Jeremy pretendeu entrar em 

#
sua casa. 

Sabia que tinha ferido os sentimentos dele e lamentava que tivesse de ser assim. Porm,  
provvel que Jeremy no se tivesse apercebido de que o corao dela s acalmara depois de 
ele ter posto o carro em andamento, pois, em parte, ela desejava que ele entrasse, 
quaisquer que fossem as conseqncias. Sabia que era mau, mas no conseguiria evit-lo. 
Pior ainda, enquanto andava s voltas na cama durante a noite anterior, apercebeu-se de 
que poderia no ter foras para voltar a tomar a deciso acertada. 

Agora que podia Refletir honestamente, achava que deveria ter previsto a situao. Com o 
evoluir da noite, dera consigo a compar-lo com o Avery e com Mr. Renaissance e, para 
grande surpresa sua, Jeremy agentou bem as confrontaes. Tinha a capacidade mental e 

o sentido de humor do Avery, e a inteligncia e o charme de Mr. Renaissance, mas exibia 
nveis de autoconfiana superiores aos de qualquer deles. Talvez devesse registar o dia 
maravilhoso que passara, um dia como j no acontecia h muito tempo. Qual tinha sido o 
seu ltimo almoo improvisado no campo? Quando  que se tinha sentado em Riker's Hill 
pela ltima vez? Ou visitado o cemitrio depois de sair de uma festa, quando, em condies 
normais, teria ido diretamente para a cama? Sem dvida que a excitao e a sensao de 
inesperado lhe tinham recordado os dias felizes em que acreditara que o Avery e Mr. 
Renaissance eram os homens dos seus sonhos. 
Porm, enganara-se com qualquer deles, tal como estava a enganar-se agora. Sabia que 
Jeremy ia resolver o mistrio naquele prprio dia -bem, talvez fosse apenas uma sensao, 
que ela tomava como uma certeza, pois a resposta encontrava-se num dos dirios e tudo o 
que ele tinha a fazer era descobri-la -e no tinha dvidas de que Jeremy lhe pediria que 
comemorasse com ele a soluo do mistrio. Se tivesse Ficado na vila teriam passado juntos 
a maior parte do dia; e ela no queria que tal acontecesse. Uma vez mais, l bem no fundo, 
porque desejava isso mesmo, sentia-se mais baralhada do que em qualquer outra altura, 
desde h muitos anos. 

Quando Lexie a foi ver logo pela manh, Doris apercebeu-se de tudo, mas no ficou 
surpreendida. Lexie sentia a exausto  volta dos olhos e sabia que devia parecer uma runa 
ao aparecer assim de repente. Depois de meter roupa para uns dias numa mala, tinha sado 
de casa sem sequer tomar duche; nem tentou explicar o que sentia. Mesmo assim, a av 
limitou-se a acenar que compreendia quando Lexie a informou do que ia fazer. Cansada 
como se sentia, Doris pareceu compreender que, embora fosse responsvel pelo incio dos 
acontecimentos, no tinha previsto qual poderia ser o resultado Final. Era o problema das 
premonies; poderiam ser exatas no imediato, mas para alm disso mostravam-se 
imprevisveis. 

A vinda de Lexie para a casa da praia era inevitvel, para lhe preservar a sanidade mental, 
na falta de outros motivos; voltaria a Boone Creek logo que a vida regressasse  
normalidade. No tardaria muito. Dentro de poucos dias as pessoas deixariam de falar dos 
fantasmas, das manses histricas e do forasteiro; e dos turistas de visita  vila Ficaria 
apenas a memria. O presidente da Cmara estaria de regresso ao campo de golfe, Rachel 
arranjaria namorados que lhe no convinham e Rodney talvez encontrasse uma maneira de, 
por acaso, encontrar a Lexie nas imediaes da biblioteca, e suspiraria de alvio ao verificar 
que a relao deles poderia voltar ao que fora. 

Talvez no fosse uma vida excitante, mas era a sua vida; no estava disposta a deixar que 
algum, ou alguma coisa, viesse alterar o equilbrio. Noutro lugar e noutra altura  provvel 
que sentisse de maneira diferente, mas agora no fazia sentido seguir outra linha de 
pensamento: Sem deixar de observar o movimento da gua, forou-se a no imaginar o que 
poderia ter acontecido. 

Sem sair do alpendre, aconchegou-se na manta. Era uma moa crescida e havia de 
ultrapassar aquela situao, tal como tinha ultrapassado as antecedentes. Disso tinha a 
certeza. Porm, mesmo a sentir-se confortada com aquela certeza, o rolar das ondas voltou 
a trazer  superfcie os seus sentimentos em relao a Jeremy; precisou de toda a sua fora 

#
de nimo para conseguir reter as lgrimas. 

De incio tudo pareceu relativamente simples; correu ao quarto do Greenleaf enquanto ia 
elaborando o plano. Pegar no mapa e na carteira, para o que desse e viesse. Deixar o 
computador por no ir precisar dele. Tal como os apontamentos. Meter o livro da Doris na 
mala a tiracolo e lev-la consigo. Deixar um bilhete para o Alvin na recepo, mesmo que 
isso no agradasse ao Jed. Assegurar-se de que levava o carregador do celular. E partir. 

No chegou a precisar de dez minutos para entrar, voltar a sair e pr-se a caminho de Swan 
Quarter, de onde o barco de carreira o levaria a Ocracoke, uma aldeia nos Outer Banks. Da, 
dirigia-se para norte, pela Estrada 12, at Buxton. Calculava que tivesse sido aquele o 
caminho utilizado por ela e tudo o que teria de fazer era seguir-lhe as pegadas; chegaria 
junto dela em cerca de duas horas. 

Mas embora a viagem para Swan Quarter estivesse a ser fcil, pois rolava por uma estrada 
sem curvas e vazia, deu consigo pensando em em Lexie e carregou no acelerador a fundo, 
para tentar esquecer o nervosismo. O nervosismo era apenas outra palavra para designar a 
sensao de pnico, mas ele no estava em pnico. Tinha orgulho nisso. No entanto, sempre 
que teve de diminuir o andamento, em lugares como Belhaven e Leechville, deu consigo a 
matraquear o volante com os dedos e a resmungar sozinho. 

Para ele, era uma sensao nova e esquisita, que se tornava mais forte  medida que se 
aproximava do destino. No saberia explicar porqu, mas tambm no estava disposto a 
analisar a conjuntura. Encontrava-se numa das poucas situaes em que ia a voar com 
piloto automtico, a fazer exatamente o contrrio daquilo que a lgica aconselhava, 
pensando em apenas na reao dela quando o visse. 

Precisamente quando comeava a encontrar explicaes para a irracionalidade do seu 
comportamento, Jeremy encontrou-se na estao martima, a olhar para um magricelas 
fardado, que mal levantou os olhos da revista que estava a ler. E ali soube que os barcos de 
carreira para Ocracoke no tinham um horrio semelhante aos que fazem a ligao entre 
Staten Island e Manhattan, que perdera a ltima viagem daquele dia, o que significava voltar 
no dia seguinte ou cancelar por completo o plano, duas opes que no estava disposto a 
ter em conta. 

-Tem a certeza de que no existe outra maneira de eu conseguir chegar ao farol do cabo 
Hatteras? - indagou, com o corao a aumentar de ritmo. -  importante para mim. 

-Pode ir de carro, suponho. 
-Quanto tempo  que levo? 
-Depende da velocidade com que conduzir. 
Obviamente, pensou Jeremy. 
-Digamos que sou um condutor rpido. 
O homem encolheu os ombros, como se aquela conversa estivesse a aborrec-lo. 
-Talvez umas cinco ou seis horas. Tem de seguir para norte at Plymouth, depois tomar a 
64 para Roanoke Island, at Whalebone. Da segue para sul, at Buxton.  onde fica o farol. 
Jeremy consultou o relgio; eram quase 13 horas; estaria l  hora a que o Alvin devia 
chegar a Boone Creek. No servia. 


-H mais algum lugar onde possa apanhar um barco de carreira? 
-H um que parte de Cedar Island. 
-Excelente! Onde  que fica? 
-A umas trs horas de distncia, na direo contrria. Mas tambm ter de esperar at 
amanh. 
Por cima do ombro do homem, viu um cartaz de publicidade dos vrios faris da Carolina do 


#
Norte. Hatteras, o maior de todos, encontrava-se no centro. 

-E se lhe dissesse que se trata de uma emergncia? - inquiriu. 
O homem levantou os olhos, pela primeira vez. 
- uma emergncia? 
-Digamos que sim. 
-Nesse caso, eu poderia chamar a Guarda Costeira. Ou talvez o xerife. 
-Ah! -comentou Jeremy, a tentar manter-se calmo. -Ento o que est a querer dizer-me  
que neste momento no h qualquer meio de sair? Daqui, quero eu dizer. 
O homem levou um dedo ao queixo. 


-Suponho que poderia alugar um barco, se estivesse assim com tanta pressa. 
Agora estavam a chegar algures, pensou Jeremy. 
-E como  que consigo arranjar um barco? 
-No sei. Nunca me fizeram essa pergunta. 
Voltou para o carro, finalmente a admitir que estava prestes a entrar em pnico. 

Era provvel que fosse por ter chegado to longe, ou porque as ltimas palavras que dissera 
a Lexie na noite anterior assinalavam uma verdade mais profunda, pois era certo que se 
passava qualquer coisa com ele, que no iria desistir. Depois de ter chegado to perto, 
recusava-se a voltar para trs. 

Nate estaria  espera da chamada mas, de repente, o pormenor pareceu-lhe menos 
importante do que antes. O mesmo acontecia com a chegada iminente de Alvin; se tudo 
corresse bem, poderiam filmar naquela noite e na seguinte. Faltavam dez horas para o 
aparecimento das luzes; num barco rpido, calculou que precisaria de duas para chegar a 
Hatteras. Teria tempo suficiente para chegar l, falar com a Lexie e voltar, partindo do 
princpio de que conseguia encontrar quem o levasse l. 

Tudo poderia certamente dar para o torto. Poderia no conseguir alugar o barco, mas, se tal 
acontecesse e se tornasse necessrio, iria de carro at Buxton. E continuava a no ter a 
certeza de que iria encontr-la l. 

Naquele cenrio nada fazia sentido. Mas, quem se importava? Qualquer pessoa tinha o 
direito de, uma vez por outra, fazer uma asneira; e agora chegara a vez dele. Tinha dinheiro 
na carteira e encontraria uma maneira de l chegar. Aceitaria o risco e logo veria como 
corriam as coisas com ela, mesmo que servisse apenas para provar a si prprio que podia 
deix-la e no voltar pensando em na mulher. 

Sabia que era aquele o cerne da questo. Quando a Doris lhe dera a entender que talvez ele 
no voltasse vendo a Lexie, as suas idias sobre dela tinham entrado em ebulio. Ia partir 
dentro de dias, certamente, mas tal no implicava que o caso estivesse encerrado. Ainda 
no, pelo menos. Podia vir visit-la, ela podia ir at Nova Iorque, se tivesse de ser assim 
arranjariam maneira de manter a ligao. Quantas pessoas tm de viver assim! Contudo, 
mesmo que tal no fosse possvel, mesmo que ela estivesse decidida a terminar tudo, queria 
ouvir a deciso da boca dela. S ento regressaria a Nova Iorque com a convico de que 
no dispunha de outra opo. 

Contudo, ao parar subitamente na primeira marina que encontrou, apercebeu-se de que no 
queria ouvi-la proferir aquelas palavras. No ia a Buxton para lhe dizer adeus ou para a ouvir 
dizer que nunca mais queria v-lo. Na verdade, espantou-se ao pensar que sabia ir a Buxton 
para descobrir se o Alvin afinal tivera razo. 

O final da tarde era a altura do dia preferida por Lexie. A luz suave do sol de Inverno, 
combinada com a beleza austera da paisagem, concorria para fazer o mundo parecer um 
lugar de sonho. 

#
Visto dali, at o farol, com as suas cores branco e preto de tablete de chocolate, parecia 
uma miragem, Refletia, ao caminhar ao longo da praia e a tentar imaginar como, antes de o 
farol ter sido construdo, seria difcil aos marinheiros e pescadores a navegao naquelas 
paragens. As guas ao longo da costa, pouco profundas e com baixios instveis, eram 
chamadas o Cemitrio do Atlntico", com um milhar de destroos a pontilhar o leito do 
oceano. O Monitor, que tomou parte na primeira batalha naval entre couraados durante a 
Guerra Civil, foi perdido ali. Como aconteceu com o Central Amrica, carregado de ouro da 
Califrnia, cujo afundamento ajudou a provocar o pnico bolsista de 1857. Supe-se que os 
restos de um barco encontrados em Beaufort pertencem ao navio do Barba Negra, o Queen 
Anne's Revenge, enquanto cerca de meia dzia de submarinos alemes afundados durante a 
Segunda Guerra Mundial so agora visitados quase todos os dias por mergulhadores. 

O av da Lexie adorava Histria e sempre que andavam pela praia de mos dadas, contava-
lhe peripcias sobre os navios ali perdidos ao longo dos sculos. Lexie ficou a conhecer os 
danos causados por tufes, correntes perigosas e erros de navegao que faziam encalhar 
os navios at serem destrudos pelo mar bravio. Embora no dedicasse especial interesse 
aos pormenores, chegando a assustar-se com as imagens que fazia deles, a voz lenta e o 
sotaque meldico eram estranhamente calmantes, pelo que nunca lhe sugerira que mudasse 
de assunto. Mesmo sendo muito pequena naquele tempo, sentia que falar daquelas coisas 
era muito importante para ele. Uns anos depois, veio a saber que o barco do av tinha sido 
torpedeado durante a Primeira Guerra Mundial e que ele sobrevivera com dificuldade. 

Recordar aqueles passeios f-la sentir uma repentina e intensa saudade do av. Os passeios 
tinham feito parte da sua rotina diria, algo que s interessava aos dois, pelo que os faziam 
quase sempre na hora que antecedia o jantar, quando Doris estava a cozinhar. Na maioria 
dos casos, o av estava na cadeira de balouo, a ler, com os culos empinados no nariz; 
fechava o livro, respirava fundo e punha o livro de lado. Levantava-se da cadeira e 
perguntava-lhe se queria ir dar um passeio para ver os cavalos selvagens. 

A idia de avistar os cavalos excitava-a sempre. No sabia muito bem por qu; nunca 
montara um cavalo, nem era coisa que desejasse muito, mas recordava-se de saltar e correr 
para a porta logo que o av os mencionava. Habitualmente os cavalos mantinham-se 
afastados das pessoas e corriam a grande velocidade se algum tentasse aproximar-se 
deles, mas, ao escurecer, gostavam de pastar, numa atitude menos defensiva, mesmo que 
fosse apenas por escassos minutos. Por vezes conseguiam aproximar-se o suficiente para 
notar as caratersticas que os distinguiam e, com um bocado de sorte, conseguiam ouvi-los 
resfolegar e relinchar, um aviso para que no se aproximassem mais. 

Os cavalos eram descendentes de potros espanhis e a sua presena nos Outer Banks 
datava de 1523. Depois tinha sido criado um conjunto de normas oficiais para Lhes 
assegurar a sobrevivncia; faziam parte da paisagem local, como os veados da Pensilvnia, 
com o nico problema a ser um ocasional excesso de populao. Os habitantes da regio 
ignoravam-nos quase por completo, a menos que se tornassem incmodos, mas para muitos 
dos turistas v-los era um dos pontos altos das suas frias. Lexie considerava-se quase uma 
pessoa da terra, mas ver os cavalos fazia-a sentir-se novamente jovem, quando ainda tinha 
diante de si todos os prazeres e expectativas da vida. 

De momento, procurava sentir-se assim, quando mais no fosse para escapar s presses da 
vida adulta. Doris tinha ligado a informar que o Jeremy passara pelo restaurante,  procura 
dela. No ficara surpreendida. Embora partisse do princpio de que ele procuraria saber qual 
tinha sido o erro que tinha cometido, ou a razo por que ela tinha fugido, sabia tambm que 
ele no tardaria a ultrapassar a situao. Jeremy era uma dessas pessoas abenoadas, 
confiantes em tudo o que fazem, que avanam sempre a direito, sem remorsos nem olhares 
para a retaguarda. 

Avery tambm mostrara ser assim; ainda recordava como se sentira ofendida pelo seu 
sentido de propriedade, pela indiferena com que encarou a dor dela. Olhando para trs, 
sabia que deveria ter tentado compreender as falhas de carter do rapaz, mas, na altura, 
no reparou nos sinais de aviso: o olhar apenas ligeiramente mais demorado quando 

#
observava uma mulher, ou a forma um pouco excessiva como abraava outras mulheres, 
que dizia serem apenas suas amigas. A princpio, quando ele jurou que lhe fora infiel apenas 
uma vez, desejou acreditar, embora depois comeassem a aparecer vestgios de conversas e 
situaes: uma amiga da universidade que ouvira rumores de que ele tinha uma ligao 
especial com uma colega; uma colega da empresa que mencionou demasiadas faltas dele ao 
trabalho. Odiava considerar-se ingnua, mas fora isso mesmo e, mais ainda do que sentir-se 
desapontada com ele, h muito que se apercebera de que se sentira desapontada consigo 
mesma. Convencera-se de que ultrapassaria a situao, que acabaria por encontrar um 
homem melhor... algum como Mr. Renaissance, o que provou em termos definitivos que 
no era boa a avaliar homens. Alm disso, no parecia ser melhor a conserv-los. 

No era fcil admitir aquele gnero de coisas, havia momentos em que se punha pensando 
em se teria feito algo capaz de afastar os dois homens. Bem, talvez fosse de excluir Mr. 
Renaissance, pois o caso poderia ser visto como uma pndega, mais do que como uma 
relao. Mas, e o Avery? Amara-o e pensara que ele a amava. Era certamente fcil afirmar 
que o Avery era um grosseiro e que a culpa do fim da relao fora inteiramente dele, mas, 
ao mesmo tempo, ele devia ter sentido que faltava um qualquer ingrediente quela relao. 
Que ela no correspondia totalmente. Mas, em que sentido? Teria sido demasiado opressiva? 
Seria maadora? Ter-se-ia o Avery sentido insatisfeito na cama? Por que no tinha vindo 
atrs dela, a pedir perdo? Eram estas as perguntas para que nunca tinha encontrado 
resposta. As amigas, como era de esperar, haviam-lhe assegurado que ela no fazia idia 
daquilo que estava a dizer; e a av fora da mesma opinio. No entanto, a seus olhos, o que 
aconteceu ainda no estava totalmente esclarecido. Afinal, em todas as histrias havia 
sempre duas partes; e ainda agora se punha muitas vezes a fantasiar que ia telefonar-lhe, a 
perguntar se houvera alguma situao em que ela devesse ter agido de maneira diferente. 

Como um dos seus amigos apontara, preocupar-se com aquele gnero de coisas era tpico 
das mulheres. Os homens pareciam imunes a incertezas como aquelas. Mesmo que no o 
fossem, tinham aprendido a esconder os sentimentos, ou a enterr-los bem fundo, de modo 
a no se sentirem embaraados por eles. Habitualmente, Lexie tentava fazer o mesmo e, 
regra geral, com bons resultados. Regra geral. 

L longe, com o sol a mergulhar nas guas de Pamlico Sound, com as suas casas brancas de 
madeira, a vila de Buxton parecia um postal. Estava a olhar na direo do farol, e tal como 
esperava, avistou uma pequena manada de cavalos a pastar nas ervas das dunas. Seriam 
uns doze, no total -na sua maioria cor de cobre e castanhos -de crinas espessas e 
desalinhadas, com o crescimento prprio do Inverno. No centro havia dois poldros, juntos, 
de caudas a abanar em simultneo. 

Lexie parou a observ-los, de mos enfiadas nos bolsos do casaco. Agora que estava prestes 
a anoitecer, o ar tinha arrefecido, sentia-o a picar nas faces e no nariz. Um ar estimulante e, 
embora gostasse de ficar um pouco mais, sentia-se cansada. O dia fora longo e ela achara-o 
ainda mais longo. 

Apesar de tudo, tentou imaginar o que Jeremy estaria a fazer. A preparar-se para filmar 
outra vez? Ou a decidir onde haveria de jantar? Estaria a fazer as malas? E por que razo os 
seus pensamentos se voltavam constantemente para ele? 

Suspirou, j sabia a resposta. Por muito que gostasse de ver os cavalos, a viso no lhe 
sugerira um novo comeo, recordara-lhe, isso sim; que estava s. Por mais que se julgasse 
independente, por mais que tentasse no ligar aos constantes reparos da Doris, no 
conseguia deixar de sentir a falta de uma companhia, de intimidade. Nem tinha de ser um 
casamento; por vezes, no aspirava a mais de uma noite de sexta-feira ou sbado. Sonhava 
com uma manh a preguiar na cama, junto de algum de quem gostasse e, por mais 
impossvel que a idia lhe parecesse, era Jeremy quem continuava a imaginar deitado a seu 
lado. 

Abanou a cabea, a tentar afastar aqueles pensamentos. Ao refugiar-se na casa da praia, 
alimentara a esperana de encontrar alvio; no entanto, ali, perto do farol, vendo os cavalos 

#
a pastar, sentiu todo o peso do mundo sobre si. Tinha 31 anos, estava s, vivendo numa 
terra sem perspectivas. O av e os pais no passavam de memrias, o estado de sade da 
Doris era uma preocupao constante, o nico homem que julgara remotamente 
interessante, entre os que conhecera nos anos recentes, talvez j no estivesse na vila 
quando ela regressasse a casa. 

Foi ento que comeou a chorar e, durante muito tempo, no conseguiu controlar o choro. 
Porm, quando finalmente parecia recuperar o autodomnio, viu algum a aproximar-se; e 
quando percebeu quem era, no fez mais do que continuar a olhar em frente. 

#
CATORZE 

Lexie pestanejou, a tentar certificar-se de que o que estava vendo era real. No podia ser 
ele, porque ele no poderia estar ali. Toda a idia era to estranha, to inesperada, que teve 
a impresso de estar vendo a cena atravs dos olhos de qualquer outra pessoa. 

Jeremy sorriu ao pousar o saco de viagem. 

-Sabe, na realidade no devia olhar-me assim -afirmou. -Os homens gostam de mulheres 
que consigam ser mais subtis. 

Lexie continuou a olhar para ele. 

-Voc - foi a nica resposta. 
-Eu - concordou Jeremy com um aceno. 
-Est. aqui. 
-Pois, estou aqui - voltou a concordar. 
Na luz agora a desaparecer, Lexie semicerrou os olhos, enquanto Jeremy a considerava 
ainda mais bonita do que a mulher de que se recordava. 
Ela hesitou, tentando encontrar um motivo para a presena dele ali. 


-O que  que... Quero dizer, como  que... 
- uma histria algo comprida -admitiu ele. Como ela no fizesse qualquer movimento para 
se aproximar, Jeremy fez um aceno na direo do farol. 


- este o farol onde os seus pais se casaram? 
-Recorda-se disso? 
-Recordo-me de tudo - gabou-se, a martelar as tmporas com os dedos. 
-Onde  que se casaram, exatamente? 
Falava com um certo -vontade, como que embrenhado na mais normal das conversas, o 
que concorria para tornar tudo ainda mais irreal aos olhos dela. 


-Acol - esclareceu, a apontar. - Do lado do oceano, perto da linha da mar. 
-Deve ter sido bonito -reconheceu Jeremy, a olhar naquela direo. -Todo este lugar  
bonito. Percebo a razo que a leva a adorar este local. 

Em vez de responder, Lexie respirou fundo, a tentar acalmar a turbulncia das suas 
emoes. 

-Jeremy, o que  que veio aqui fazer? 
Houve um ligeiro silncio, antes de ele responder. 
-No tinha a certeza de que fosse regressar. E apercebi-me de que, se desejava v-la, o 
melhor que tinha a fazer era vir ter consigo. 


-Mas, porqu? 
Jeremy continuou a olhar para o farol. 
-Presumi que no tinha outra opo. 
-No sei se percebo o que est a querer dizer-me. 
Jeremy observou os ps, depois ergueu os olhos e sorriu, como quem pede desculpa. 
-Para lhe ser franco, tambm passei a maior parte do dia a tentar perceber o mesmo. 
Enquanto se mantiveram por perto do farol, o Sol foi descendo no horizonte, at que o cu 
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tomou uma pouco convidativa cor acinzentada. A brisa, mida e fria, agitava a superfcie da 
areia e levantava a espuma  borda de gua. 

L longe, uma figura com um casaco pesado estava a alimentar as gaivotas, atirando ao ar 
pedaos de po. Observando o homem, Lexie sentia que o choque provocado pela apario 
de Jeremy comeava a desvanecer-se. Em parte, queria estar zangada por ele ter ignorado o 
seu desejo de estar s; por outro lado, o que era mais importante, sentia-se lisonjeada por 
ele ter vindo procur-la. Avery nunca se preocuparia em vir atrs dela, nem tampouco Mr. 
Renaissance. O prprio Rodney nunca pensaria ir at ali e, at h poucos minutos, se 
algum sugerisse que Jeremy faria tal coisa, s por si a idia seria suficiente para fazer Lexie 
soltar uma gargalhada. Portanto, na cabea de Lexie comeava a assentar a noo de que 
Jeremy era diferente de todas as pessoas que conhecera at ento, pelo que no deveria 
surpreender-se, fosse o que fosse que ele fizesse. 

L mais adiante, os cavalos tinham comeado a vaguear, arrancando uma folha aqui e outra 
mais adiante enquanto trotavam pela duna. A neblina costeira estava a avanar, a unir o 
mar e o cu. As andorinhas-do-mar bamboleavam-se perto da linha de gua, a moverem as 
longas pernas semelhantes a caules, em busca de pequenos crustceos. 

No silncio, Jeremy ps as mos em concha e soprou-lhes, a tentar aquec-las para no lhe 
doerem. 

-Est zangada por eu ter vindo? - acabou por perguntar. 
-No - admitiu Lexie. - Surpreendida, mas no zangada. 
Com isto, trocaram um ligeiro sorriso. 
-Como  que conseguiu c chegar? - perguntou Lexie. 
Fez um sinal por cima do ombro, na direo de Buxton. 
-Apanhei uma boleia de uns pescadores que vinham nesta direo -esclareceu ele. Deixaram-
me na marina. 


-Deram-lhe uma boleia, assim, sem mais nem menos. 
-Exato. 
-Teve sorte. Na sua maioria, os pescadores so uns tipos muito rudes. 
-Pode ser verdade, mas pessoas so pessoas -comentou Jeremy. -Embora no seja perito 
em psicologia, sou de opinio que qualquer pessoa, mesmo um estranho, consegue perceber 
quando um pedido  urgente; na maioria dos casos, as pessoas tomam a deciso correta acrescentou. 
Ficou muito direito, a clarear a voz. -Porm, se isso no funcionar, ofereolhes 
um pagamento. 

A confisso f-la sorrir. 

-Deixe-me adivinhar. Deixaram-no liso, no foi? 
Respondeu-lhe com um sorriso tmido. 
-Julgo que isso depende da perspectiva. De fato, pareceu-me muito dinheiro para uma 
viagem de barco. 
-Naturalmente.  uma grande viagem. S a gasolina custa um dinheiro. E depois temos o 
uso e o desgaste do barco... 


-Falaram nisso. 
-sem esquecer,  claro, o tempo perdido e o fato de amanh terem de comear a trabalhar 
ainda de madrugada. 

-Tambm falaram nisso. 
O ltimo dos cavalos, l longe, desapareceu por trs da duna. 
#
-Contudo, de qualquer das formas, chegou c. 
Ele acenou que sim, to espantado quanto ela. 
-No entanto, quiseram esclarecer-me de que se tratava de uma viagem s num sentido. 
No mostraram qualquer inteno de esperar por mim; por isso, julgo que estou prisioneiro 
deste lugar. 
Lexie ergueu uma sobrancelha. 


-Ah, sim? Que medidas  que tomou para assegurar o regresso? 
Jeremy presenteou-a com um sorriso travesso. 

-Bem, acontece que conheo uma pessoa que est c, pelo que estava pensando em na 
utilizao do meu estonteante charme para a convencer a dar-me uma boleia para o 
regresso. 

-E se eu tiver decidido ficar aqui durante algum tempo? Ou se lhe disser simplesmente que 
est por sua conta? 

-Ainda no tinha chegado a essa parte do plano. 
-E aonde  que tenciona ficar enquanto estiver fora da vila? 
-Tambm ainda no tinha pensado nessa parte. 
-Pelo menos,  honesto - admitiu Lexie, a sorrir. 
-Mas, diga-me, o que  que faria se eu no estivesse aqui? 
-Para onde  que poderia ter ido? 
Ela desviou os olhos, a apreciar o fato de ele se recordar daquele pormenor. L longe, viu as 
luzes de uma traineira de apanha de camaro, a navegar a to baixa velocidade que mais 
parecia parada. 

-Tem fome? - perguntou. 
-Estou esfomeado. No comi durante todo o dia. 
-Gostaria de jantar? 
-Conhece algum lugar interessante? 
-Estou pensando em num lugar bastante bom. 
-Aceitam cartes de crdito? -indagou Jeremy. -Gastei todo o dinheiro para conseguir 
chegar aqui. 

-Tenho a certeza de que conseguirei arranjar uma soluo. 
Voltando as costas ao farol, iniciaram o regresso pela praia, a caminhar pela areia dura junto 
 gua. Existia entre eles um espao que nenhum parecia disposto a cruzar. Em vez disso, 
de narizes vermelhos devido ao frio, caminhavam a olhar sempre em frente, como que 
impelidos para o lugar a que pertenciam. 

Em silncio, Jeremy recordou mentalmente a jornada que o levara at ali, a sentir uma 
sbita angstia ao pensar em Nate e em Alvin. Perdera a conferncia por telefone, pois 
durante a travessia de Pamlico o celular no teve rede, e pensava que devia ligar de um 
telefone fixo, logo que possvel mas sem se sentir ansioso quanto a isso. Presumia que o 
Nate estivesse havia vrias horas a trabalhar sob presso  espera do seu telefonema, para, 
finalmente, entrar em rbita, mas Jeremy pensava sugerir-lhe a marcao da reunio com os 
produtores durante a semana seguinte, quando a histria j estivesse delineada e apoiada 
em documentao visual, idia que, suspeitava, constitua vendodadeira razo de ser da 
conferncia telefnica. Se isso no se revelasse suficiente para lhes aplacar a ira, se a falta 
de uma simples chamada podia pr termo  sua carreira ainda antes de ela ter comeado, 
ento, no tinha a certeza de estar interessado em trabalhar para a televiso. 

#
E Alvin... Bem, esse era um caso um pouco mais simples. No existia qualquer meio de 
Jeremy regressar a Boone Creek para se encontrar com ele naquela noite; chegara a essa 
concluso na altura em que o barco o largou, mas Alvin tinha celular, podia explicar-lhe o 
que estava a acontecer. O amigo no ficaria muito satisfeito por ter de trabalhar sozinho 
naquela noite, mas no dia seguinte acertariam tudo. Alvin era das raras pessoas que no 
deixava que alguma coisa o apoquentasse durante mais de um dia. 

Porm, a ser honesto consigo prprio, admitiu que, de momento, no estava 
verdadeiramente interessado em qualquer daqueles problemas. Pelo contrrio, tudo o que 
parecia interessar-lhe era estar ao lado de Lexie, numa praia calma situada no meio de nada, 
e que enquanto caminhavam batidos pela brisa salgada, ela decidiu, calmamente, dar-lhe o 
brao. 

Lexie seguiu  frente e subiu os degraus gastos da velha casa, entrou e pendurou o casaco 
no bengaleiro existente ao lado da porta. Jeremy fez o mesmo com o seu e juntou-lhe a 
bolsa de cabedal. Ao v-la caminhar  sua frente pela sala, Jeremy voltou pensando em 
como era bela. 

-Gosta de massa? - perguntou Lexie, a interromper-lhe os pensamentos. 
-Est a brincar? Fui criado a comer massa. Acontece que a minha me  italiana. 
-timo. Por que  o que tenciono fazer. 
-Vamos comer aqui? 
-Julgo que no h outra soluo - respondeu ela, falando por cima do ombro. 
-Est sem dinheiro, recorda-se? 
A cozinha era pequena, pintada de amarelo a ficar desmaiado, com papel de parede florido, 
a comear a descolar-se nas pontas, armrios robustos e uma pequena mesa pintada, 
colocada junto da janela. Nas bancadas estavam os gneros de mercearia que Lexie tinha 
comprado no caminho. Do primeiro saco tirou uma caixa de Cleerios e um po. Do seu lugar 
ao p do lava-louas, Jeremy viu-lhe um pedao de pele quando ela se ps em bicos de ps 
para arrumar as coisas no armrio. 

-Precisa de ajuda? - indagou. 
-No, j est tudo, obrigada -agradeceu ao voltar-se. Depois de ajeitar a blusa, foi at 
junto do segundo saco e tirou de l duas cebolas, juntamente com duas grandes latas de 
tomate San Marzano. -Mas no quer uma bebida, enquanto preparo isto? Se estiver 
interessado, tenho uma embalagem de seis cervejas no frigorfico. 

Jeremy esbugalhou os olhos, a fingir-se chocado. 

-Tem cerveja? Pensava que no bebia. 
- verdade. 
-Para algum que no bebe, uma embalagem de seis latas pode provocar grandes estragos 
-opinou, a abanar a cabea, antes de prosseguir. -se no a conhecesse, pensaria que tinha 
decidido fazer uma farra durante o fim-de-semana. 
Lexie fulminou-o com o olhar; porm, como no dia anterior, havia nele algo de divertido. 
- mais do que suficiente para me agentar durante um ms, se quer saber. Agora decida: 


quer ou no uma cerveja? 
Ele sorriu, aliviado por aquele gnero de conversa j conhecido. 


-Adorava, obrigado. 
-Importa-se de ir busc-la? Estou a fazer o molho. 
Jeremy dirigiu-se ao frigorfico e tirou duas latas de Coors Ligt de uma embalagem de seis. 
Abriu uma lata, depois a outra e colocou uma  frente dela. Quando Lexie olhou para a 

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cerveja, ele encolheu os ombros, para dizer: 

-Detesto beber sozinho. 
Ergueu a cerveja numa saudao e ela imitou-o. Tocaram as latas, sem uma palavra. 
Encostado  bancada, ao lado dela, Jeremy cruzou uma perna sobre a outra. 

-S para que saiba, se precisar de ajuda, sou muito bom a rachar lenha. 
-No me esqueo - garantiu ela. 
A sorrir, Jeremy perguntou: 
-H quanto tempo  que esta casa  da famlia? 
-Os meus avs compraram-na logo que acabou a Segunda Guerra Mundial. Na altura a ilha 
no dispunha de uma nica estrada. Tinha de se trazer o carro por cima da areia. H 
algumas fotografias na sala que mostram como isto era. 

-Importa-se que d uma vista de olhos? 
-Esteja  vontade. O jantar ainda no est pronto. Se quiser lavar-se antes de comer, tem 
uma casa de banho ao fundo do corredor. No quarto de hspedes,  direita. 

A andar  volta da sala, Jeremy foi analisando as imagens da vida rstica na zona costeira e 
reparou na mala de viagem de Lexie, deixada ao lado do sof. Depois de hesitar por 
instantes, pegou na mala e seguiu pelo corredor.  esquerda, viu um quarto arejado, com 
uma grande cama em cima de um pedestal e coberta por uma colcha com motivos 
marinhos. As paredes estavam decoradas com mais fotografias dos Outer Banks. Partindo do 
princpio de que este era o quarto da Lexie, deixou a mala do lado de dentro, logo junto  
porta. Atravessou o corredor e entrou no outro quarto. Decorado com temas nuticos, as 
cortinas de azul-escuro a proporcionarem um bonito contraste com as mesas-de-cabeceira e 
a cmoda de madeira. Ao colocar os sapatos e as pegas aos ps da cama, tentou imaginar 
como seria dormir ali, a saber que a Lexie estava do outro lado do corredor. 

Em frente do lavatrio, viu-se no espelho e tentou, com as mos, restituir uma aparncia 
decente ao cabelo. Tinha a pele coberta de uma fina camada de sal e, depois de lavar as 
mos, passou tambm gua pela cara. A sentir-se um pouco melhor, regressou  cozinha e 
ouviu a letra melanclica dos Beatles na cano Yesterday, que provinha de um pequeno 
aparelho de rdio pousado no peitoril da janela. 

-J precisa de alguma ajuda? - inquiriu. Ao lado dela, viu uma travessa de tamanho razovel 
com salada; distinguiu pequenos pedaos de tomate e azeitonas. 
Enquanto lavava a alface, Lexie apontou com a cabea para as cebolas. 

-A salada est quase pronta, mas quer fazer o favor de descascar aquelas cebolas? 
- para j. Tambm quer que as corte em cubos? 
-No, no  preciso.  s descasc-las. A faca est naquela 
gaveta. 

Jeremy tirou uma faca de carne e pegou nas cebolas que estavam em cima da bancada. Por 
momentos, trabalharam em silncio, a ouvirem a msica. Enquanto acabava de lavar a 
alface e punha as folhas de lado, Lexie tentou ignorar que se encontravam muito prximos. 
Contudo, no conseguiu resistir  tentao de espreitar pelo canto do olho, de admirar o 
encanto natural de Jeremy, mais o plano constitudo pelas coxas e pernas dele, os largos 
ombros, as mas do rosto elevadas. 

Jeremy entregou-lhe uma cebola j sem pele, abstrado dos pensamentos dela. 

-Est bem assim? 
-Est muito bem. 
#
-Tem a certeza de que no quer que a corte em cubos? 
-No. Se o fizesse estragaria o molho e eu nunca lhe perdoaria. 
-Toda a gente corta as cebolas em cubos. At a minha me italiana o faz. 
-Mas eu no. 
-Nesse caso, vai pr estas grandes cebolas redondas no molho? 
-No, primeiro corto-as ao meio. 
-Posso pelo menos fazer isso? 
-No, obrigada. No me agradaria p-lo daqui para fora -respondeu, a sorrir. -E, alm 
disso, a cozinheira sou eu, recorda-se? Voc limita-se a olhar e a aprender. Por agora, penso 
em si apenas como. aprendiz. 

Jeremy olhou-a de soslaio. Desde que tinham sado do frio, o rosado das mas do rosto 
tinha desaparecido, deixando-lhe a pele fresca e com o seu brilho natural. 

-Aprendiz? 
Lexie encolheu os ombros. 
-Que mais pode ser? Pode ter uma me italiana, mas eu fui criada por uma av que 
experimentava toda e qualquer receita que lhe aparecesse. 


-O que fez de si uma especialista? 
-No, mas fez a Doris e, durante muito tempo, fui aprendiza. Aprendi por osmose e agora  
a sua vez. 
Jeremy pegou na segunda cebola. 
-Diga-me, o que  que a sua receita tem de to especial? Para alm de incluir cebolas do 


tamanho de bolas de basquetebol, quero eu dizer? 
Ela pegou na cebola descascada e cortou-a ao meio. 

-Ora bem, como a sua me  italiana, j deve ter ouvido falar em tomate de San Marzano. 
- claro que sim.  uma qualidade de tomate originria de San Marzano. 
-Pois, pois. Na realidade  o tomate mais doce e mais saboroso, especialmente para 
molhos. Agora, observe e aprenda. 

Tirou um tacho do armrio que havia por baixo do fogo e pousou-o a seu lado, depois 
rodou o boto do gs e acendeu o bico respectivo. A chama azulada despertou e ela ps o 
tacho vazio em cima dela. 

-Estou impressionado, at agora -comentou Jeremy, ao acabar de descascar a segunda 
cebola. Pegou na cerveja e voltou a encostar-se  bancada. -Devia ter um programa de 
culinria. 

Ignorando-o, despejou as duas latas de tomate no tacho e juntou-lhes um pacote de 
manteiga. Jeremy espreitou por cima do ombro dela e ficou vendo a manteiga a derreter-se. 

-Parece saudvel - observou. 
-O meu mdico sempre me disse que preciso de mais colesterol na minha dieta. 
-Sabe que tem propenso a ser sarcstico? 
-J ouvi dizer -admitiu, a erguer a cerveja numa saudao. -Mas agradeo-lhe que tenha 
reparado. 

-Ainda no preparou a outra cebola? 
-Sou o aprendiz, ou no sou? 
#
Cortou-a tambm ao meio e acrescentou as quatro metades ao molho. Com uma grande 
colher de pau, ficou a mexer o molho durante algum tempo; quando a mistura comeou a 
Ferver, baixou a altura da chama. 

-Muito bem! - exclamou, com ar satisfeito, ao voltar para junto do lava-loua. 
-Por agora estamos despachados. Ficar pronto dentro de hora e meia. 
Enquanto ela lavava as mos, Jeremy foi espreitar o tacho e franziu a testa. 
- tudo? Sem alho? Sem sal e pimenta? Sem chourio? Sem pedaos de carne? 
Lexie abanou a cabea. 
-Apenas trs ingredientes.  claro que depois pomos o molho por cima do espaguete e, por 
fim, espalhamos queijo parmeso acabado de ralar. 


-Isto no  l muito italiano. 
-Na verdade, .  assim que se faz em San Marzano, h centenas de anos. A propsito, San 
Marzano fica na Itlia -respondeu, ao fechar a torneira e a sacudir as mos por cima do 
lava-loua, para acabar de as secar num pano da loua. -Mas, como dispomos de algum 
tempo, vou-me arranjar antes de jantarmos. Isso significa que vai ficar sozinho durante um 
bocado. 


-No se preocupe comigo. Entretenho-me com qualquer coisa. 
-se quiser, pode tomar um duche. Vou arranjar-lhe toalhas. 
Ainda a sentir o sal no pescoo e nos braos, no perdeu tempo a decidir-se. 
-Obrigado. Excelente idia. 
-D-me apenas um minuto para lhe preparar tudo, est bem? 
Sorriu e agarrou a cerveja ao encolher-se para passar, a sentir os olhos dele fixados nas 
suas ancas. Tentou imaginar se ele estaria a sentir-se to constrangido quanto ela. 

Abriu a porta do armrio que havia no final do corredor, agarrou num molho de toalhas e 
colocou-as em cima da cama do quarto de hspedes. Por baixo do lavatrio havia diversos 
shampoos e um sabonete inteiro. Colocou-os  vista. Ao faz-lo, viu-se no espelho e 
subitamente pareceu-lhe ver tambm a imagem de Jeremy, sado do duche, com a toalha 
enrolada  volta do corpo. A imagem f-la sentir o corao acelerar. Respirou fundo, a 
sentir-se novamente adolescente. 

Ouviu-o a cham-la. 

-Eh, onde  que se meteu? 
-Estou na casa de banho -respondeu, espantada por conseguir falar com uma voz to 
calma. 

-Estou a preparar tudo aquilo de que vai precisar. 
Ele apareceu atrs dela. 
-Por acaso, no haver por essas gavetas uma mquina de barbear descartvel? 
-No, lamento. Vou procurar tambm na minha casa de banho, mas... 
-No  nada do outro mundo -replicou, a passar a mo pelo queixo. -Passarei a noite com 
este aspecto desmazelado. 
Mesmo desmazelado serviria perfeitamente, pensou Lexie, a sentir-se corar. Rodando para 

ele no reparar, apontou os shampoos. 

-Use aquele que lhe agradar. E no se esquea que a gua quente leva algum tempo a 
aparecer, ter de ser paciente. 
-serei paciente. Mas queria pedir-lhe para usar o seu telefone. Preciso de fazer umas 

#
chamadas. 
Lexie acenou que sim. 

-O telefone est na cozinha. 
Ao passar por ele, sentiu-lhe de novo o olhar, embora no se virasse para confirmar. Em vez 
disso, foi para o seu quarto, fechou a porta e quedou-se do lado de dentro, embaraada 
pelos sentimentos loucos que a assaltavam. No tinha acontecido nada, nada iria acontecer, 
disse para si mesma. Fechou a porta  chave, como se esperasse fechar tambm os 
pensamentos. E resultou, pelo menos durante algum tempo, at notar que Jeremy lhe 
trouxera a mala para o quarto. 

Saber que ele tinha estado ali momentos antes criou nela uma tal sensao de expectativa 
interdita que, mesmo sem pensar, teve de admitir que tinha andado a mentir a si prpria 
durante o tempo todo. 

Depois do chuveiro, quando regressou  cozinha notou o odor do molho que fervia em cima 
do fogo. Acabou a cerveja, encontrou o balde do lixo por baixo do lava-loua e atirou para 
l a lata vazia, para, logo de seguida, ir ao frigorfico buscar outra. Na prateleira inferior viu 
um pedao de queijo parmeso, de corte recente, e um frasco j aberto de azeitonas de 
conserva; ponderou a hiptese de roubar uma, mas decidiu no o fazer. 

Encontrado o telefone, ligou para o escritrio do Nate e foi atendido de imediato. Durante os 
primeiros vinte segundos manteve o auscultador afastado da orelha, dando tempo para o 
Nate desabafar e procurar acalmar-se; reagiu positivamente  proposta de Jeremy sobre a 
reunio da semana seguinte. Jeremy acabou a chamada com a promessa de voltar a ligar-
lhe logo pela manh. 

Em contrapartida, foi impossvel localizar o Alvin. Depois de marcar o nmero dele e ter ido 
parar ao voice-mail, esperou um minuto e tentou de novo, com o mesmo resultado. O 
relgio da cozinha indicava que eram quase 18 horas, pelo que presumiu que o Alvin 
estivesse algures, na estrada. Era provvel que ainda houvesse hiptese de conversarem 
antes de ele sair naquela noite. 

Sem mais nada para fazer e a Lexie perdida algures, saiu pela porta das traseiras e deixou-
se ficar de p no alpendre. O frio aumentara. O vento de intensidade crescente era frio e 
parecia picar, e embora no conseguisse ver o oceano, ouvia as ondas a rolar 
continuamente, com um som ritmado, fazendo-o entrar numa espcie de transe. 

Passado algum tempo, voltou a entrar na sala s escuras. Espreitando para o corredor, viu 
um fio de luz por baixo da porta fechada do quarto de Lexie. Sem saber o que fazer, 
acendeu um pequeno candeeiro de leitura colocado perto da lareira. Com aquela luz que 
fazia as sombras projetarem-se pela sala, deu uma vista de olhos pelos livros arrumados na 
cornija da lareira, antes de se lembrar do que tinha na bolsa. Na pressa de chegar ali, ainda 
no passara os olhos pelo livro de apontamentos da Doris; depois de o retirar da bolsa, 
levou-o consigo para a cadeira de repouso. Ao sentar-se, pela primeira vez passadas muitas 
horas, sentiu a presso sobre os ombros a atenuar-se um pouco. 

O lugar, reconheceu, era agradvel. No, era mais do que isso. Fazia-o desejar que a vida 
fosse sempre assim. 

Antes, quando ouviu Jeremy passar junto do quarto, Lexie deixou-se Ficar junto da janela e 
bebeu um gole de cerveja, contente por ter  mo qualquer coisa para lhe acalmar os 
nervos. 

Ambos tinham mantido a conversa na cozinha em tom superficial, a conservarem as 
distncias at a situao se esclarecer. Lexie sabia que tinha de ser ela a estabelecer a linha 
de rumo quando regressasse  cozinha mas, ao pousar a lata de cerveja, apercebeu-se de 
que no pretendia manter as distncias. Agora, j no. 

Apesar de ciente dos riscos, tudo nele a fazia desejar a aproximao: a surpresa de o ver na 
praia a caminhar para ela, o seu sorriso fcil e o cabelo emaranhado, o olhar nervoso e 

#
infantil, naquele instante fora simultaneamente o homem que ela conhecia e aquele que 
desconhecia. Apesar de no querer admiti-lo, apercebeu-se de que desejava conhecer a 
parte dele que se mantivera afastada dos seus olhos, fosse o que fosse, levasse aonde 
levasse. 

Dois dias antes, no imaginaria que aquela situao pudesse acontecer, em especial com um 
homem que mal conhecia. J antes fora magoada e, agora, compreendia que tinha reagido  
mgoa ao refugiar-se na segurana proporcionada pela solido. No entanto, uma vida isenta 
de riscos tambm no era uma verdadeira vida, e, se pretendia introduzir-lhe alteraes, 
aquela altura era to boa como qualquer outra. Depois do chuveiro, sentou-se na borda da 
cama e abriu o fecho da mala para pegar num frasco de loo. Aplicou alguma nas pernas e 
nos braos, afagou a mo mida pela parte superior do peito e pela barriga, a gozar o prazer 
que sentia na pele. 

No trouxera nada de elegante para vestir; logo pela manh, na pressa de partir, apanhou 
as primeiras peas que encontrou; agora teve de remexer a mala at encontrar o seu par 
preferido de calas de ganga. J muito desbotadas, rasgadas nos joelhos e com franjas nas 
bainhas. Mas as lavagens sucessivas tinham amaciado e tornado mais Fino o tecido, para 
alm de ter conscincia de que aquelas calas lhe realavam a figura. Sentiu um calafrio 
interior ao presumir que Jeremy no deixaria de reparar. 

Vestiu uma blusa branca de mangas compridas, cuja fralda no se deu ao trabalho de meter 
nas calas, e arregaou as mangas at aos cotovelos. Colocando-se  frente do espelho, 
abotoou a frente, deixando uma casa vazia para alm do que era habitual, a revelar um 
pouco do espao entre os seios. 

Secou o cabelo com o secador eltrico e alisou-o com uma escova. Quanto a maquilagem, 
fez o melhor que pde com os meios de que dispunha: aplicou um pouco de cor nas faces, 
lpis nas plpebras e batom. Gostaria de ter perfume, mas sobre isso no havia nada a 
fazer. 

Quando se sentiu pronta, enfiou a blusa no cs das calas, at lhe parecer bem, agradada 
do que estava vendo. A sorrir, tentou recordar-se da ltima vez em que achara que o bom 
aspecto era importante. Jeremy estava sentado na cadeira, com os ps levantados, quando 
ela saiu da casa de banho. Olhou-a e, por momentos, pareceu querer dizer qualquer coisa, 
mas no proferiu palavra, ficou-se pelo olhar. 

Incapaz de deixar de a seguir com os olhos, de repente, percebeu por que fora to 
importante voltar a encontr-la. No havia escolha, pois compreendeu que estava 
apaixonado por ela. 

-Est com um aspecto... incrvel - acabou por conseguir murmurar. 
-Obrigada -respondeu, a notar a profunda emoo das palavras dele, a regalar-se com o 
efeito que tais palavras lhe provocavam. Os olhos de ambos encontraram-se e nenhum os 
desviou e, naquele preciso momento, Lexie percebeu que a mensagem que lia nos olhos 
dele era o reflexo da que os seus prprios olhos estavam a enviar. 

#
QUINZE 

Por momentos, nenhum deles pareceu capaz de reagir, at que Lexie respirou fundo e 
desviou o olhar. Ainda abalada, ergueu ligeiramente a lata de cerveja. 

-Acho que estou a precisar de outra -admitiu, com um sorriso tmido. -No quer mais 
uma? 

Jeremy aclarou a voz. 

-J tenho uma. Obrigado. 
De pernas a tremer, Lexie dirigiu-se para a cozinha e parou junto do fogo. Quando lhe 
pegou para mexer o cozinhado, a colher de pau deixou uma mancha de tomate na bancada; 
depois de acabar, colocou a colher no mesmo local. Depois, abriu o frigorfico e tirou outra 
lata de cerveja, que colocou em cima da bancada, ao lado do frasco de azeitonas. Tentou 
abrir o frasco mas, devido  tremura das mos, no conseguia reunir a fora necessria para 
rodar a tampa. 

-Precisa de ajuda? - indagou Jeremy. 
Surpreendida, Lexie levantou os olhos. No o ouvira chegar e duvidava de que no estivesse 
a mostrar na cara tudo aquilo que sentia. 

-se no se importa. 

Jeremy tirou-lhe o frasco das mos e ela ficou a observar-lhe os tendes fortes dos 
antebraos quando ele rodou a tampa do frasco. A seguir, ao reparar na lata de cerveja, 
abriu-a tambm e passou-lha para a mo. 

No a olhou nos olhos, nem pareceu querer dizer-lhe nada. Na quietude da cozinha, Lexie 
ficou a v-lo encostar-se  bancada. A luz do teto estava acesa mas, sem a concorrncia da 
luz do final da tarde que se escoava pela janela, parecia mais suave do que quando ela tinha 
iniciado o cozinhado. 

Lexie encheu a boca de cerveja e ficou a sabore-la, a saborear tudo o que estava a 
acontecer naquele incio de noite: o seu aspecto e a maneira como se sentia, a maneira 
como ele a olhara. Estava suficientemente perto para estender a mo e tocar-lhe, e por um 
fugidio momento quase o fez, mas, em vez disso, voltou-se e foi abrir o armrio. 

Tirou de l azeite e vinagre balsmico e ps pequenas quantidades de cada numa pequena 
tigela, juntando-lhe sal e pimenta. 

-O cheiro  delicioso - comentou Jeremy. 
Acabada de mexer a mistura, pegou no frasco das azeitonas e ps algumas noutra tigela. 

-Ainda temos uma hora antes de jantar -informou Lexie. Falar parecia-lhe contribuir para 
manter o equilbrio. 

-Como no contava ter companhia, as azeitonas tm de fazer o papel de acepipes. Se fosse 
Vero, proporia que comssemos l fora, no alpendre, mas j tentei em outras alturas do 
ano e faz muito frio. E devo avis-lo de que as cadeiras da cozinha no so muito 
confortveis. 

-O que significa? 
-Gostaria de se sentar na sala? 
Ele foi  frente, parou junto da cadeira de repouso, pegou no livro de apontamentos da Doris 
e ficou vendo Lexie instalar-se no sof. Colocou a tigela das azeitonas na mesa do caf, 
depois mexeu-se um pouco at sentir-se confortvel. Ao sentar-se a seu lado, Jeremy sentiu 
o odor do shampoo floral que ela tinha usado. Da cozinha, chegavam alguns sons fracos do 
rdio. 

#
-Vejo que trouxe o livro da Doris - observou Lexie. 
Ele assentiu. 
-Doris emprestou-mo. 
-O que  que acha? 
-Ainda no consegui passar das primeiras pginas. Mas regista muito mais pormenores do 
que seria de esperar. 

-Agora j acredita que ela tenha adivinhado o sexo de todos aqueles bebs? 
-No. Como j disse, ela poderia ter registado apenas aqueles casos em que acertou. 
Lexie sorriu. 

-E quanto ao aspecto das notas? Umas vezes a tinta, outras a lpis, dando por vezes a idia 
de que eram tomadas  pressa e que noutras ocasies dispunha de tempo de sobra. 

-No estou a dizer que o livro no parea convincente -contraps Jeremy. -Quero apenas 
dizer que no acredito que ela pudesse prever o sexo dos bebs s por segurar as mos das 
mes. 

-Porque voc o diz? 
-No. Porque  impossvel. 
-No querer antes dizer que  estatisticamente improvvel? 
-No - teimou -,  impossvel. 
-Muito bem, Senhor Cptico. E quanto  sua histria? 
Jeremy comeou a arranhar a lata de cerveja com o polegar. 

-Vai bem. Porm, se pudesse, gostava ainda de dar mais uma vista de olhos a alguns dos 
dirios arquivados na biblioteca. Talvez encontrasse qualquer pormenor para apimentar a 
histria. 

-J descobriu o que ? 
-Sim. S falta reunir as provas. Espero que o tempo continue a cooperar. 
-Vai cooperar - esclareceu Lexie. 
-Espera-se que haja nevoeiro durante todo o fim-de-semana. Ouvi a previso na rdio. 
-timo. No entanto, a parte desagradvel  que a soluo  muito menos interessante do 
que a da lenda. 

-Nesse caso, valeu a pena vir at c? 
Ele acenou que sim e respondeu com toda a calma: 
-sem dvida. No perderia esta viagem por nada deste mundo. 
Ao ouvi-lo falar naquele tom, Lexie percebeu exatamente aonde ele queria chegar. A apoiar 
o queixo na mo, ps uma perna em cima do sof, a apreciar aquela atmosfera de 
intimidade, o quanto ele a fazia sentir desejvel. 
-Ento, o que ? - perguntou ao inclinar-se ligeiramente para diante. 
-Pode dizer-me qual  a soluo? 
O candeeiro colocado por trs dela provocava um dbil halo  volta da cabea dela, os olhos 
violeta brilhavam-lhe por baixo das pestanas escuras. 

-Preferia mostrar-lhe. 
Lexie sorriu. 
#
-Como, de qualquer maneira, terei de o levar de regresso, certo? 
-Certo. 
-E pretende regressar. 
-Amanh, se puder ser -acrescentou Jeremy, a tentar controlar o que sentia, a no desejar 
destruir aquela harmonia, a no querer exercer demasiada presso, mas desejando apenas 
tom-la nos braos. -Tenho de me encontrar com o Alvin.  um fotgrafo de Nova Iorque, 
meu amigo. Vem c para dispormos de imagens feitas por um profissional. 

-Vem a Boone Creek? 
-Na verdade, dever estar a chegar por esta altura. 
-Agora mesmo. No deveria estar l? 
- provvel - admitiu Jeremy. 
Ela ficou pensando em no que ouvira, emocionada pelo esforo que ele fizera para vir at ali 
num dia daqueles. 

-Muito bem - disse,  laia de concluso. 
-Poderemos apanhar o barco de carreira que sai muito cedo.  possvel estarmos l por 
volta das dez horas. 

-Obrigado. 
-E contam filmar amanh  noite? 
Ele acenou que sim. 

-Deixei um bilhete a pedir ao Alvin que fosse ao cemitrio ainda esta noite, mas h outro 
local onde temos de filmar. De todas as formas, amanh vai ser um dia muito trabalhoso. H 
ainda uns pormenores por acertar. 


-E quanto  dana no celeiro? Penso que tnhamos um acordo, que eu danaria consigo se o 
mistrio estivesse solucionado. 
Jeremy baixou a cabea. 
-se puder, no deixarei de ir. Pode acreditar. No h nada que eu deseje mais. 
O silncio desceu sobre a sala. 
Passado algum tempo, Lexie perguntou: 


-Quando  que regressa a Nova Iorque? 
-No sbado. Na prxima semana tenho de assistir a uma reunio, em Nova Iorque. 
Ao ouvir aquelas palavras, ela sentiu um baque no corao. Embora soubesse que tinha de 
ser, sentiu-se magoada por ouvi-lo dizer aquilo. 


-De regresso  vida excitante, no ? 
Ele abanou a cabea. 
-A minha vida em Nova Iorque no  assim to atrativa. Passo a maior parte do tempo a 
trabalhar, quer em investigaes, quer a escrever, tudo tarefas solitrias. Na realidade, 
sinto-me s com muita freqncia. 
Lexie ergueu uma sobrancelha. 


-No tente que eu tenha pena de si, porque no estou disposta a acreditar nisso. 
Jeremy olhou para ela. 
-E se eu mencionasse os desgraados dos meus vizinhos, sentiria pena? 
-No. 
#
Ele riu. 

-Pense como quiser, mas no vivo em Nova Iorque por causa da excitao. Vivo l por ser 
onde est a minha famlia, por me sentir l bem. Porque  o meu lar. Tal como Boone Creek 
 o seu lar. 

-Percebo que faz parte de uma famlia unida. 
- verdade, somos muito unidos. Juntamo-nos quase todos os fins-de-semana, em casa dos 
meus pais, em Queens, para grandes jantaradas. H uns anos, o meu pai sofreu um ataque 
cardaco e foi-lhe difcil recuperar, mas adora esses fins-de-semana.  sempre uma 
barafunda: com os midos a correr, a mam entretida a cozinhar, os meus irmos e as 
mulheres reunidos no quintal das traseiras.  verdade que vivem todos por perto, por isso 
vo l mais vezes do que eu. 

Lexie bebeu outro gole, a tentar imaginar a cena. 

-Parece agradvel. 
-E . No entanto, por vezes  duro. 
Ela olhou-o. 
-No compreendo. 
Jeremy estava calmo, a rolar a lata entre os dedos. 
-Por vezes, nem eu percebo. 
Talvez fosse pelo tom em que disse aquilo, mas ela no conseguiu encontrar qualquer 
resposta; no silncio, ficou a observ-lo intensamente,  espera que prosseguisse. 

-Alguma vez teve um sonho? -perguntou Jeremy. -Em que desejasse ardentemente 
qualquer coisa e, quando a tinha mesmo ao alcance da mo, ela desapareceu? 

-Toda a gente tem sonhos que no se concretizam - respondeu Lexie cautelosamente. 
Os ombros dele dobraram-se um pouco para dentro. 
-Pois, julgo que tem razo. 
-Ainda no percebi bem o que est a tentar dizer-me - acrescentou ela. 
-H um pormenor sobre mim que desconhece -comeou Jeremy, voltando-se para ela. -Na 
verdade, nunca o revelei a quem quer que fosse. 

Perante aquelas palavras, ela sentiu os ombros rgidos e perguntou, ao mesmo tempo que 
se afastava ligeiramente: 

- casado? 
Ele abanou a cabea. 
-No. 
-Ento, anda com algum em Nova Iorque. Assunto srio. 
-No, tambm no se trata disso. 
Calou-se, mas ela teve a impresso de ver um ar de dvida perpassar- lhe pelo rosto. 
-Deixe l - sugeriu. - De qualquer das formas, no  assunto que me diga respeito. 
Jeremy acenou com a cabea e forou-se a sorrir. 
-Na primeira tentativa esteve quase a acertar. Fui casado. E sou divorciado. 
 espera de muito pior, ela quase soltou uma gargalhada de alvio, mas reprimiu-se ao 
reparar na expresso sombria dele. 
-Chamava-se Maria. De incio, fomos como o fogo e o gelo, ningum conseguia perceber o 


#
que ns vamos um no outro. Porm, indo um pouco mais fundo, partilhvamos os mesmos 
valores e crenas sobre de todas as coisas da vida. Incluindo o desejo de termos filhos. Ela 
desejava quatro, eu queria cinco - explicou. Hesitou ao ver a expresso dela. 

-sei que, nos dias que correm, so muitos filhos, mas era uma situao a que estvamos 
habituados. Tal como eu, ela fazia parte de uma famlia numerosa -acrescentou. Nova 
pausa. -No sabamos da existncia de um problema, mas, passados seis meses, Maria 
ainda no estava grvida; fomos fazer exames de rotina. Verificou-se que ela estava bem 
mas, por qualquer razo, eu no estava. Motivos no explicados, sem resposta possvel. 
Apenas um daqueles percalos que por vezes acontecem. Quando ela descobriu, decidiu que 
no queria prosseguir com o casamento. E agora... quero dizer, adoro a minha famlia, adoro 
estar junto deles; contudo, quando l vou, estou sempre a ser recordado de que no poderei 
ter uma famlia s minha. Penso que pode parecer esquisito, mas acho que teria de se meter 
na minha pele para conseguir saber o quanto eu desejava ser pai. 

Quando ele concluiu, Lexie limitou-se a olhar, a tentar perceber o que acabava de ouvir. 

-A sua mulher deixou-o por descobrir que voc no poderia ter filhos? - indagou. 
-No de imediato. Mas, no fim, o motivo foi esse. 
-E no h nada que os mdicos possam fazer? 
Ele pareceu embaraado. 

-No. Isto , no afirmaram que me era absolutamente impossvel ser pai, mas no 
deixaram de acentuar que era provvel que tal nunca viesse a acontecer. Para ela, foi o 
suficiente. 

-E quanto  adoo? Ou a procurar um dador? Ou... 
Jeremy abanou a cabea. 

-sei que  fcil pensar-se que ela era uma mulher sem corao, mas isso no  verdade esclareceu. 
-Para compreender tudo era preciso que a conhecesse. Cresceu com a idia de 
ser me. E todas as irms estavam a conseguir ser mes e, se no fosse por minha causa, 
tambm ela teria conseguido ser me -acrescentou, a olhar para o teto. -Durante muito 
tempo, no quis acreditar. No queria crer que tivesse uma deficincia, mas tinha. E sei que 
isto parece ridculo, senti-me menos homem. Como se no tivesse qualquer valor para quem 
quer que fosse. 

Encolheu os ombros e prosseguiu, falando agora com maior descontrao: 

-Pois, podamos ter recorrido  adoo;  claro que podamos ter procurado um dador. 
Sugeri tudo isso. Mas ela nunca aceitou tais idias. Queria engravidar, queria experimentar a 
sensao de dar  luz e no lhe passava pela cabea que o marido no fizesse parte do 
processo. Depois disso tudo comeou a ser diferente. Mas a culpa no Foi toda dela. Eu 
tambm mudei. Tinha acessos de mau humor... passei a viajar ainda mais por motivos 
profissionais... No sei... se calhar fui eu que a afastei. 

Lexie Ficou a observ-lo durante longos momentos. 

-Qual a razo de me contar tudo isso? 
Ele bebeu mais um gole e voltou a arranhar o rtulo da lata de cerveja. 
-Talvez para que saiba o que a espera ao relacionar-se com um homem como eu. 
Ao ouvir aquilo, Lexie sentiu o sangue a colorir-lhe as faces. Abanou a cabea e olhou para o 
lado. 

-No diga coisas que no sente. 
-O que  que a faz pensar que no as sinto? 
L fora, o vento estava a aumentar de intensidade, Lexie conseguia ouvir o som fraco da 
#
campainha colocada atrs da porta. 

-Porque  verdade. Porque no pode senti-las. Porque no tm vendo com a pessoa que 
voc , nada tm vendo com o que acaba de dizer-me. Acontece apenas que somos 
diferentes... voc e eu no somos iguais, por mais voltas que d  questo. Voc est l em 
cima, eu c em baixo. Tem uma grande famlia que v com freqncia, eu tenho apenas a 
Doris, que precisa de mim aqui, especialmente agora devido ao seu estado de sade. Gosta 
de grandes cidades, eu prefiro as vilas pequenas. Tem uma profisso que adora e eu... bem, 
tenho a biblioteca e tambm a adoro. Se um de ns for forado a substituir o que temos, 
aquilo que decidimos fazer das nossas vidas... -Fechou os olhos por momentos, e 
continuou: -sei que  possvel que algumas pessoas o faam, mas  uma tarefa difcil 
quando se trata de estabelecer uma relao. Foi voc prprio quem disse que se apaixonou 
pela Maria por ambos partilharem os mesmos valores. Contudo, no nosso caso, um teria de 
se sacrificar. E, se no quero ser eu a sacrificada, no  justo que deseje que se sacrifique 
por mim. 

Baixou os olhos e na quietude que se seguiu at podia ouvir-se o tique-taque do relgio 
colocado por cima da lareira. O seu rosto adorvel ensombrou-se de tristeza, enquanto ele 
se viu subitamente assustado ante a hiptese de a perder. Estendendo o brao, usou um 
dedo para voltar o queixo dela na sua direo. 

-E se eu afirmar que no se trata de um sacrifcio? -indagou Jeremy. -E se eu disser que 
prefiro ficar consigo, em vez de voltar  minha antiga maneira de viver? 

O dedo dele parecia carregado de eletricidade. A tentar ignorar a sensao, tentou manter a 
voz firme. 

-Ento, eu diria que tambm passei dois dias maravilhosos. Que conhec-lo foi... bom, 
espantoso. E que tambm eu gostaria de pensar que existe uma maneira de fazer que esta 
relao resulte. E que me sinto lisonjeada. 

-No entanto, no est disposta a fazer nada para que resulte. 
Lexie abanou a cabea. 
-Jeremy... eu... 
-Tudo bem, eu compreendo. 
-No -replicou Lexie -, no compreende. Porque ouviu o que eu disse mas no ligou. 
Certamente que gostava que a relao entre ns funcionasse.  inteligente, amvel e 
encantador... - interrompeu-se, hesitou. - Pois bem, por vezes  um bocado atiradio... 

Apesar da tenso, ele no conseguiu evitar uma gargalhada. Ela prosseguiu, a escolher as 
palavras com cuidado. 

-O motivo que me leva a contar isto  o fato de os dois ltimos dias terem sido incrveis, 
mas no meu passado tambm houve episdios que deixaram mgoas -confessou. Em 
poucas palavras e calmamente, falou-lhe de Mr. Renaissance. Quando acabou mostrava uma 
expresso quase pecaminosa. -Talvez seja esse o motivo que me leva a encarar tudo isto 
com um ar to prtico. No estou a dizer que vai desaparecer como ele, mas poder dizer-
me, honestamente, que continuaremos a sentir o mesmo um pelo outro se tivermos de fazer 
grandes viagens para estarmos juntos? 

-Sim - respondeu Jeremy com voz firme. - Posso. 
A resposta provocou-lhe uma certa tristeza. 
-Agora  fcil de dizer, e amanh? E de aqui a um ms? 
L fora, o vento assobiou ao rodopiar  volta da casa. Areia foi atirada contra as vidraas das 
janelas, as cortinas foram agitadas pelo ar que forou a entrada pelos caixilhos gastos. 
Jeremy encarou-a de frente, apercebendo-se uma vez mais de que a amava. 

#
-Lexie - comeou, a sentir a garganta seca -, eu... 
Sabendo o que ele estava prestes a dizer, levantou as mos para que parasse. 
-Por favor, ainda no estou preparada para isso, est bem? Para j, limitemo-nos a apreciar 
o jantar. Pode ser? - pediu. Hesitou, antes de pousar suavemente a lata de cerveja na mesa. 
-ser melhor ir verificar como est o molho e acrescentar o espaguete. 
Foi com uma certa sensao de amargura que Jeremy a viu levantar-se do sof. Parando  
porta da cozinha, Lexie voltou-se para o olhar de frente. 

-E, s para que saiba, julgo que a sua ex-mulher agiu de uma forma horrvel e que no , 
nem de perto nem de longe, to fantstica como a descreveu. No se deixa o marido por um 
motivo desses; e o fato de ainda poder continuar a referir-se-lhe de uma maneira simptica 
demonstra que o erro foi dela. Acredite-me, eu sei o que significa ser um bom pai ou uma 
boa me. Ter filhos  cuidar deles, cri-los, am-los e apoi-los; nada disso tem vendo com 

o que se passou na cama durante uma certa noite, nem com a experincia da gravidez. 
Rodou na direo da cozinha e desapareceu. Quanto a ele, ficou a ouvir Billie Holiday a 
cantar na rdio a cano I'll Be Seeing You. A sentir um aperto na garganta, levantou-se 
para a seguir, a saber que se no aproveitasse aquele momento, talvez ele no voltasse a 
acontecer. De sbito, compreendeu que Lexie era a razo da sua vinda a Boone Creek, a 
resposta que sempre procurara. 

Encostou-se  porta da cozinha e ficou a v-la pr mais uma panela ao lume. 

-Obrigado por me ter dito o que disse - agradeceu. 
-No tem de qu -respondeu Lexie, a recusar-se a olh-lo de frente. Ele sabia que ela 
estava a tentar ser forte perante a mesma emoo que ele prprio sentia e admirou-a, tanto 
pela paixo como pela discrio. No entanto, resolveu dar um passo na direo dela, a saber 
que tinha de agarrar aquela oportunidade. 

- capaz de me fazer um favor? -pediu. -Como talvez no consiga chegar a tempo 
amanh, importa-se de danar comigo? 

Espantada, Lexie levantou os olhos para o teto, a sentir o corao a acelerar. 

-Aqui? Agora? 
Sem mais uma palavra, Jeremy aproximou-se mais e pegou-lhe na mo. Sorriu ao levar a 
mo dela aos lbios; beijou-lhe os dedos e s depois lhe soltou a mo. A seguir, de olhos 
fixos nos dela, ps-lhe a mo nas costas e puxou-a suavemente para si. Quando o polegar 
dele lhe comeou a roar pela mo e o ouviu sussurrar o seu nome, Lexie sentiu que se 
deixava levar. 

A melodia ecoava suavemente quando comearam a danar, a desenhar crculos lentos, e 
embora se sentisse embaraada de incio, acabou por se encostar a ele, a descansar no calor 
do corpo dele. A respirao de Jeremy aquecia-lhe o pescoo e sentia-lhe a mo a empurrar-
lhe as costas com suavidade; fechou os olhos e encostou-se mais, repousou a cabea no 
ombro dele e sentiu desvanecer o que restava das suas reservas. Aquilo, compreendeu, era 

o que sempre procurara, e, na cozinha acanhada, iam-se movendo ao som da msica suave, 
cada um perdido no outro. 
Para l das janelas, as ondas continuavam a rolar, a espraiarem-se em direo s dunas. O 
vento frio assobiava  volta da casa, que desaparecia no negrume cada vez maior da noite. 
O jantar fervia lentamente no fogo. 

Quando, por fim, ergueu os olhos para ele, Jeremy abraou-a. Roou-lhe os lbios uma vez, 
e outra, antes de os esmagar com fora. Depois de se afastar um pouco para ver se ela 
estava bem, voltou a beij-la e ela retribuiu o beijo, a apreciar a fora dos braos dele. 

Sentiu a lngua dele roar-lhe pela pele, com a sua umidade embriagante, e levou-lhe a mo 
 cara, acariciando-lhe a barba dura das faces. Ele reagiu ao toque, beijando-a no rosto e no 

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pescoo, a roar-lhe a pele com a lngua quente. 

Beijaram-se na cozinha durante muito tempo, cada um a saborear o outro sem pressas nem 
premncias, at que Lexie se afastou. Voltou-se para apagar o fogo e, agarrando-o pela 
mo, conduziu-o para o quarto. 

Amaram-se lentamente. Ao mover-se para cima dela, Jeremy sussurrou-lhe que a amava e 
disse-lhe o nome como se fosse uma prece. As suas mos no tiveram descanso, como se 
quisesse provar a si mesmo que ela era de carne e osso. Ficaram na cama durante horas, a 
fazer amor e a rirem-se calmamente, a comprazerem-se com os toques mtuos. 

Horas mais tarde, Lexie levantou-se e enfiou um roupo. Jeremy enfiou as calas de ganga e 
juntou-se-lhe na cozinha, para finalmente acabarem de cozinhar o jantar. Depois de Lexie 
ter acendido uma vela, ele ficou a olh-la atravs da chama, maravilhado com o ligeiro rubor 
das suas faces, a devorar o jantar mais delicioso que alguma vez provara. Por qualquer 
razo, o ato de comerem juntos na cozinha, ele de tronco nu e ela nua por baixo do fino 
roupo, parecia ainda mais ntimo do que qualquer outra coisa que j acontecera naquela 
noite. 

Mais tarde, voltaram para a cama e Jeremy puxou-a para si, satisfeito s por poder abrala. 
Quando Lexie acabou por adormecer nos seus braos, Ficou a v-la dormir. De vez em 
quando afastava-lhe os cabelos dos olhos, a reviver o sero, convicto de ter encontrado a 
mulher com quem desejava passar o resto da vida. 

Pouco antes de amanhecer, Jeremy acordou e notou a falta de Lexie. Sentou-se na cama, 
bateu nos cobertores como para ter a certeza, saltou para o cho e enfiou as calas. As 
roupas dela continuavam no cho, mas faltava o roupo usado durante o jantar. Fechando 
as calas, tremeu ligeiramente com o frio e cruzou os braos ao percorrer o corredor. 

Encontrou-a na cadeira de repouso, perto da lareira, com um copo de leite pousado na 
mesinha colocada a seu lado. Tinha o livro de apontamentos da Doris no regao, aberto 
quase nas primeiras pginas, mas no estava a ler. Em vez disso, olhava na direo da 
janela escurecida, para coisa nenhuma. 

Deu mais um passo na direo dela, fazendo ranger as tbuas do soalho, rudo que a fez 
despertar. 

-Ol - cumprimentou. 
Na semi-obscuridade, Jeremy sentiu que algo no estava bem. Sentou-se ao lado dela, num 
dos braos da cadeira, e rodeou-lhe a cintura com um brao. 


-Ests bem? 
-Sim. Estou bem. 
-O que  que ests aqui a fazer? Estamos a meio da noite. 
-No conseguia dormir -respondeu. E, alm do mais, temos de nos levantar cedo para 
apanhar o barco de carreira. 
Embora no inteiramente satisfeito com a resposta, Jeremy fez um aceno de concordncia. 


-Ests zangada comigo? 
-No. 
-Lamentas o que aconteceu? 
-No, tambm no  isso -respondeu, mas sem acrescentar pormenores; Jeremy chegou-a 
mais para si, a tentar acreditar. 
-Um livro interessante -comentou, a evitar pression-la. -Espero ter tempo suficiente para 


o poder ler. 
Lexie sorriu. 
#
-H muito que no o folheava. V-lo aqui trouxe-me de volta algumas memrias. 
-Como assim? 
Ela hesitou, mas depois apontou a pgina que estivera a ler. 
-Quando leste o livro, chegaste a esta nota? 
-No. 
-L. 
Jeremy leu a nota rapidamente; em vrios aspectos, pareceu-lhe idntica a outras. Os 
nomes dos pais, a idade de ambos e o tempo de gravidez da mulher. E a previso de que a 
mulher ia ter uma menina. Quando acabou, ficou a olhar para ela. 

-Significa alguma coisa para ti? - perguntou Lexie. 
-No percebo a razo da pergunta - confessou ele. 
-Os nomes Jim e Claire dizem-te alguma coisa? 
Ele perscrutou-lhe o rosto. 
-No. Deviam dizer? 
Lexie baixou os olhos. 
-Eram os meus pais -esclareceu, numa voz muito calma. -Esta  a entrada em que foi 
previsto que eu seria uma moa. 
Jeremy ergueu as sobrancelhas com ar inquisidor. 
-Era nisto que eu estava a pensar. Julgamos que nos conhecemos, mas nem sequer sabes 


os nomes dos meus pais. E eu no sei os nomes dos teus. 
Ele sentiu um n comear a formar-se no estmago. 

-E isso preocupa-te? Pensares que no nos conhecemos suficientemente bem? 
-No - admitiu Lexie. 
-O que me preocupa  no ter a certeza de que alguma vez os venha a saber. 
Ento, com uma ternura que fez doer o corao, Lexie abraou-se a ele. Durante muito 
tempo ficaram sentados na cadeira, abraados um ao outro, ambos a desejarem ficar assim 
para sempre. 

#
DEZASSEIS 

-Credo,  este o teu amigo? - perguntou Lexie. 
Fez um gesto discreto na direo da cela. Embora tivesse passado praticamente toda a sua 
vida em Boone Creek, nunca tivera o privilgio de visitar a cadeia do distrito. At hoje. 
Jeremy assentiu. 

-Normalmente no  assim - sussurrou. 
De manh cedo, tinham emalado as suas coisas e fechado a casa da praia, que ambos 
deixaram com relutncia. Quando saram do barco de carreira, em Swan Quarter, o celular 
de Jeremy passou a dispor de rede para permitir a leitura das mensagens. Nate tinha 
deixado quatro, todas sobre da reunio projetada; Alvin, por sua vez, deixara um alerta 
angustiado, a dizer que tinha sido preso. 

Lexie levou Jeremy at ao carro dele e ele seguiu-a no regresso a Boone Creek, 
desassossegado sobre do Alvin, mas preocupado tambm com a Lexie. O humor 
desconcertante dela, que tinha comeado antes do nascer do dia, continuara durante as 
horas seguintes. Embora no o tivesse repelido no barco, quando lhe pusera o brao  volta 
dos ombros, tinha-se mantido silenciosa, a olhar as guas de Pamlico Sound. Apenas 
esboou um breve sorriso e no correspondeu quando ele lhe acariciou a mo. Nem lhe 
voltara falando no assunto anterior; e, ainda mais estranho, passou falando dos diversos 
naufrgios registados ao longo da costa e, sempre que ele tentava uma conversa mais sria, 
mudava de assunto ou nem chegava a responder-lhe. 

Entretanto, Alvin definhava na priso da comarca, parecendo, pelo menos na opinio de 
Lexie, pertencer ao meio. Vestido com uma T-shirt preta dos Metlica, calas e bluso de 
cabedal, mais uma pulseira com tachas, Alvin encarou-os com um olhar desvairado e de 
faces vermelhas. 

-Que raio de anedota de terra  esta? Ser que acontece aqui alguma coisa que possa 
considerar-se normal? -resmungava, sem descanso, desde o momento em que Lexie e 
Jeremy chegaram. Tinha os ns dos dedos brancos devido  fora com que agarrava as 
grades de ferro. 

-Olha l, podes fazer o favor de me tirares daqui? 
Rodney estava atrs deles, carrancudo, de braos cruzados, a ignorar Alvin, como tinha feito 
durante as ltimas oito horas. O tipo lamuriava-se muito e, alm disso, o ajudante estava 
muito mais interessado em Jeremy e Lexie. Segundo o Jed, Jeremy no usara o quarto 
naquela noite e Lexie tambm no ficara em casa. Poderia tratar-se de uma coincidncia, do 
que tinha srias dvidas, pensando, isso sim, que tinham passado a noite juntos. O que no 
era nada bom. 

-Havemos de encontrar uma soluo -garantiu Jeremy, sem querer irritar Rodney ainda 
mais. Mostrara-se furioso quando Jeremy e Lexie apareceram. 

-Conta-me o que aconteceu. 
-O que aconteceu? - respondeu Alvin, a levantar a voz, com os olhos a mostrarem um brilho 
de louco. -Queres saber o que aconteceu? J te conto o que  que aconteceu! Aconteceu 
que todo este lugar  uma porcaria! Primeiro, perdi-me ao tentar encontrar esta vila 
estpida. Quero dizer, vinha a conduzir pela estrada, passei por um par de bombas de 
gasolina e continuei, est certo? Mas a seguir, aquilo parece alguma vila? Depois, andei 
horas perdido no meio de um pntano. Quando consegui descobrir a vila eram quase nove 
horas da noite. Seria de esperar que encontrasse algum que me pudesse ensinar o caminho 
para o Greenleaf, no ? Qual seria a dificuldade? Vila pequena, o nico lugar para ficar? 
Pois bem, perdi-me outra vez! E depois de um tipo da bomba de gasolina ter estado meia 
hora a metralhar-me os ouvidos... 
#
-O Tully - explicou Jeremy, com um aceno de quem sabe. 
-O qu? 
-O tipo que falou contigo. 
-Pois, no liguei... e depois de conseguir chegar ao Greenleaf, O gigante peludo que l est, 
e no tem um ar muito amigvel, parece lanar-me um mau olhado, entrega-me o teu 
bilhete e enfia-me naquele quarto cheio de animais mortos... 
-Todos os quartos so assim. 
-Que se lixe! - resmungou Alvin. 
-E, para alm de tudo, nem te pus a vista em cima. 
-Desculpa por no estar c. 
-Deixas-me acabar? -gritou Alvin. -Portanto, tudo bem, recebi o teu bilhete e segui as tuas 
instrues para chegar ao cemitrio, certo? E cheguei l mesmo a tempo de ver as luzes e 
foi fantstico, como sabes. Pela primeira vez, em muitas horas, no me senti chateado, 
certo? Portanto, fui at quele lugar chamado Lookilu para beber um copo, parece que  o 
nico estabelecimento aberto quela hora. H apenas um par de pessoas em toda a sala e 
meto conversa com esta moa chamada Rachel. Tudo a ser fantstico. Estvamos a 
entender-nos mesmo bem quando este tipo entra, a parecer que tinha acabado de engolir 
um pau... -berrou, a apontar Rodney, que sorriu sem mostrar os dentes. -Portanto, de 
qualquer das formas, um pouco mais tarde, fui para o meu carro e logo a seguir aparece 
este tipo a bater-me na janela com a lanterna e a mandar-me sair do carro. Perguntei-lhe 
qual o motivo e ele mandou-me outra vez sair. E comea a perguntar-me o que  que eu 
tinha bebido e dizer que no devia estar em condies de conduzir. Foi ento que lhe disse 
que estava bem e que trabalhava contigo e a prxima coisa de que me lembro  de estar 
metido atrs das grades para passar a noite! Ora bem, tira-me daqui! 

Lexie olhou por cima do ombro: 

-Rodney, foi assim que aconteceu? 
O ajudante pigarreou. 

-At certo ponto. Mas ele est a esquecer-se da parte em que disse que eu era um chui 
grande e estpido, que me havia de processar por abuso de autoridade se no o deixasse ir 
em paz. Pareceu-me to irracional que pus a hiptese de estar drogado ou de poder tornar-
se violento; trouxe-o para aqui para sua prpria segurana. 

-Estava a abusar! Eu no tinha feito mal nenhum! 
-Tinha bebido e estava a preparar-se para conduzir. 
-Duas cervejas! Bebi duas cervejas! -bradou Alvin, a dar novas indicaes de desequilbrio 
nervoso. - Pergunte ao dono do bar! Ele diz-lhe! 

-J o fiz - contraps Rodney -, e ele disse-me que lhe serviu sete bebidas. 
-O tipo est a mentir! -berrou Alvin, a esbugalhar os olhos na direo de Jeremy. Olhava 
por entre as grades, em pnico, com o rosto entre as mos. -Duas bebidas! Juro, Jeremy! 
Nunca conduziria se tivesse bebido demasiado. Juro pela sade da minha me! 

Jeremy e Lexie olharam ambos para Rodney. Este encolheu os ombros. 

-Apenas cumpri o meu dever. 
Alvin berrou de novo: 

-O seu dever! O seu dever! Prender pessoas inocentes! Estamos na Amrica e aqui no se 
pode fazer isso! Mas o caso no vai terminar assim! Quando eu lhe fizer a cama, nem 
conseguir um lugar de vigilante de supermercado! Est a ouvir! Chui! Nem no 
supermercado! 

#
Era bvio que ambos teriam passado a maior parte da noite naquele jogo. 
Finalmente, Lexie sussurrou: 

-Deixa-me falar com o Rodney. 
Logo que ela saiu na companhia do ajudante, Alvin quedou-se em silncio. 
-Vamos tirar-te daqui - prometeu Jeremy. 
-Em primeiro lugar, nunca deveria ter c entrado! 
-Eu sei. Mas tambm no ests a ajudar-te a ti mesmo. 
-Ele anda a perseguir-me! 
-Pois anda. Deixa a Lexie tratar do caso. Ela resolve tudo. 
No corredor, Lexie interpelou Rodney: 
-O que  que est realmente a acontecer? - perguntou. 
Rodney no conseguiu olh-la de frente; em vez disso, continuou a olhar na direo da cela. 
-Onde  que estiveste na noite passada? 
Lexie cruzou os braos. 
-Estive na casa da praia. 
-Com ele? 
Ela hesitou,  procura de uma forma de lhe responder. 
-No fui com ele, se  isso que queres saber. 
Rodney assentiu, vendo que no obtivera uma resposta completa, mas, subitamente, a 
aperceber-se de que tambm no queria saber mais. 

-Por que motivo  que o prendeste? S franco. 
-No pensava faz-lo. Foi ele que provocou a situao. 
-Rodney. 
Voltou-se para a amiga: 

-Ele estava a meter-se com a Rachel e sabes como ela fica quando bebe: s pensa em 
namorar, sem qualquer vestgio de bom senso. Quero dizer, no tenho nada vendo com isso, 
mas algum tem de tomar conta dela -explicou. Depois de uma pausa, prosseguiu: -Fosse 
como fosse, quando ele se preparava para ir-se embora, fui falar com o tipo, queria saber se 
ele estava pensando em em seguir para casa dela, perceber que espcie de homem ele era, 
mas comecei por ser insultado. E eu tambm no estava nada bem disposto. 

Lexie conhecia o motivo e no disse nada quando Rodney deixou a frase em meio. Passados 
instantes, Rodney abanou a cabea, como se ainda procurasse justificar-se perante si 
prprio. 

-No entanto, h que ter em conta que ele tinha bebido e estava a preparar-se para 
conduzir. O que  ilegal. 

-A percentagem de lcool estava alm do limite? 
-No sei. Nunca me dispus vendoificar isso. 
-Rodney! - repreendeu Lexie. 
-Lexie, ele fez-me zangar.  grosseiro e tem mau aspecto, meteu-se com a Rachel e 
chamou-me nomes, depois disse que trabalhava com aquele tipo... 

-confessou, a indicar Jeremy com um movimento de cabea. 
#
Lexie colocou-lhe a mo no ombro. 

-Ouve, Rodney, est bem? Sabes que vais meter-te em trabalhos se o mantiveres aqui sem 
motivo. Especialmente com o presidente da Cmara. Se, depois de todo o trabalho que teve 
para se assegurar de que o artigo seja favorvel, ele descobre o que fizeste ao fotgrafo, 
arranja-te um sarilho. -Parou uns momentos, para que o ajudante pudesse Refletir. -Alm 
disso, sabes que quanto mais depressa o soltares, mais depressa eles os dois podero ir 
embora. 

-De verdade, pensas que ele est preparado para partir? 
Lexie olhou Rodney nos olhos. 
-Tm viagens marcadas para amanh. 
Pela primeira vez, o ajudante no desviou o olhar. 
-Vais com ele? 
Foi preciso algum tempo para ela encontrar a resposta que tinha procurado durante toda a 
manh. 

-No - sussurrou -, Boone Creek  a minha terra.  aqui que vou permanecer. 
Dez minutos depois, flanqueado por Jeremy e Lexie, Alvin estava livre e seguia em direo 
ao parque de estacionamento. Rodney Ficara  porta da cadeia comarc, a v-los ir. 

-No digas seja o que for -voltou a aconselhar Jeremy, a agarrar Alvin por um brao. Limita-
te a caminhar. 

-No passa de um rstico com uma arma e um crach! 
-No, nada disso -repreendeu Lexie com voz firme. - um bom homem, seja o que for que 
voc pense. 

-Prendeu-me sem motivo! 
-E tambm zela pela segurana de quem vive aqui. 
Chegaram junto do carro e Jeremy indicou a Alvin o banco traseiro. 
-Isto no Fica assim -resmungou Alvin, a repisar no mesmo. Vou queixar-me ao 
procurador. Este gajo tem de ser despedido. 
-O melhor que tem a fazer  esquecer o episdio -aconselhou Lexie, a olh-lo pela porta 
aberta do carro. 


-Esquecer? Est maluca? Sabe perfeitamente que ele fez asneira! 
-Pois fez. Mas como no houve acusao formal, vai esquecer-se, quer queira quer no. 
-Quem  voc para me dizer o que devo fazer? 
-Sou a Lexie Darnell -respondeu, a acentuar o sotaque. -E no sou apenas amiga do 
Jeremy, pois tambm tenho de viver aqui com o Rodney e no minto quando afirmo que me 
sinto bastante mais segura por t-lo por c. E todos os habitantes da vila sentem o mesmo. 
Quanto a si, vai-se embora amanh e o ajudante no vai voltar a incomod-lo -acrescentou, 
a sorrir. 

-Alm de que,  justo que o admita, quando regressar a Nova Iorque vai ter uma histria 
das Arbias para contar. 

Alvin ficou a olhar para ela, sem querer acreditar no que ouvia; acabou por se voltar para 
Jeremy, a indagar: -  esta? 

Jeremy acenou que sim. 

- bonita - comentou. 
-Talvez um bocadinho mandona, mas bonita. 
#
-Melhor ainda, cozinha como uma italiana. 
-To bem como a tua me? 
-Talvez melhor. 
Alvin fez um aceno e calou-se por momentos. 
-Acho que lhe ds razo quando me aconselha a no falar mais do caso. 
-Pois acho. Ela compreende esta terra melhor do que eu e do que tu; alm de que ainda 
no me deixou ficar mal. 

- inteligente, ento? 
-Muito - concordou Jeremy. 
Alvin fez um sorriso maldoso. 
-Acho que vocs passaram a noite juntos. 
O amigo no respondeu. 
-Tem de ser extraordinria... 
-Bem, no se esqueam que ainda aqui estou! -interrompeu Lexie. -Ainda no perceberam 
que tenho de ouvir toda a vossa conversa? 

-Desculpa - pediu Jeremy. - Sabes, so os velhos hbitos. 
-Podemos seguir? - inquiriu Lexie. 
Jeremy olhou para Alvin, que parecia estar pensando em o que deveria fazer. 
- claro que sim -respondeu, com um encolher de ombros. -E mais, vou esquecer-me de 
tudo o que aconteceu. Com uma condio. 

-Qual ? - indagou Jeremy. 
-Toda esta conversa sobre comida italiana fez-me fome e desde ontem que no como. 
Paguem-me o almoo e esqueo-me de tudo, alm de lhes contar como decorreram as 
filmagens de ontem  noite. 

Mesmo cansado por no ter dormido, antes de voltar para dentro, Rodney Ficou a v-los 
afastarem-se. Sabia que no devia ter prendido o homem, mas, mesmo assim, no se sentia 
muito mal por isso. Tudo o que pretendera fora exercer um pouco de presso, mas o tipo 
comeara a dizer asneiras e a mostrar-se arrogante... 

Coou o alto da cabea, no querendo pensar mais no assunto. Caso arrumado. S no 
podia garantir se a Lexie e Jeremy tinham passado a noite juntos. Suspeitar era uma coisa, 
ter provas era outra, e notou a maneira como tinham agido momentos antes. Diferente da 
forma como se tinham comportado na festa da outra noite, um indicador de que algo se 
tinha alterado entre os dois. No entanto, no tivera a certeza antes de ouvir a maneira 
ardilosa como ela tentara responder-lhe sem dar resposta. No fui com ele, se  isso que 
queres saber. 

No, desejara dizer-lhe, no lhe tinha perguntado aquilo. Tinha perguntado se, na noite 
anterior, ela tinha estado na praia com o Jeremy. Contudo, a resposta vaga fora suficiente; 
no era preciso ser um gnio para perceber o que tinha acontecido. 

A certeza f-lo sentir-se mal; pensou, uma vez mais, que gostaria de a compreender melhor. 
No passado, tinham vivido situaes em que se sentira prestes a descobrir a forma de lidar 
com ela, mas este novo caso... bem, vinha provar o contrrio, no vinha? Como  que ela 
deixou que voltasse a acontecer? Como  que podia ter-se esquecido do primeiro forasteiro 
que passara pela cidade? J no se recordaria da depresso em que caiu? No saberia que 
iria ficar novamente magoada? 

Lexie tinha forosamente de saber aquelas coisas, pensou, mas deveria ter decidido, pelo 

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menos durante uma noite, que no ligava s conseqncias. No fazia qualquer sentido mas 
ele, Rodney, comeava a estar cansado de se preocupar com o assunto. Estava cansado de 
ser magoado por ela. Continuava,  claro, a am-la, mas j lhe dera tempo mais do que 
suficiente para que percebesse o que sentia por ele. Chegara a altura, Refletiu, de Lexie 
tomar uma deciso. 

Com a fria a desvanecer-se, Alvin parou  entrada do Herbs quando viu o Jed sentado a 
uma das mesas. Jed enrugou a testa e cruzou os braos quando viu o Jeremy, a Lexie e o 
Alvin tomarem lugar numa mesa perto da janela da frente. 

-O nosso amigo recepcionista no parece muito contente por nos ver -sussurrou Alvin, 
inclinado sobre a mesa. 

Jeremy olhou-o de relance. Os olhos do Jed eram duas fendas estreitas. 

-Meu Deus, que estranho. Um homem que sempre se mostrou to simptico. Deves ter feito 
alguma coisa que o desgostou. 
-No fiz coisa alguma. Limitei-me a preencher a ficha. 
-Talvez no goste do teu aspecto. 
-O que  que o meu aspecto tem de estranho? 
Lexie ergueu uma sobrancelha, como quem pergunta: No estars a brincar? 
Jeremy pareceu pensar em voz alta: 
-No sei. Talvez no goste dos Metlica. 
Alvin deu uma olhadela  T-sirt, para dizer: 
-Que se lixe! 
Jeremy piscou um olho a Lexie; embora lhe respondesse com um sorriso, mostrava uma 
expresso ausente, como se tivesse a cabea bem longe dali. 

-A filmagem de ontem correu optimamente -informou Alvin, ao estender a mo para a 
ementa. -Apanhei tudo de dois ngulos diferentes e revi o filme ontem  noite. Material 
espantoso. As cadeias de televiso vo ador-lo. O que me faz recordar que tenho de 
telefonar ao Nate. Como no conseguiu contatar-te, passou toda a tarde a ligar para mim. 
No percebo como  que consegues aturar aquele tipo. 

Vendo o olhar perplexo de Lexie, Jeremy inclinou-se para ela, a esclarecer: 

-Est falando do meu agente. 
-Esse tambm vem c? 
-No. Est demasiado ocupado com a minha futura carreira. E, alm disso, fora da cidade 
no saberia o que fazer.  o gnero de pessoa que acha que o Central Park devia ser loteado 
para construo de apartamentos e centros comerciais. 

Lexie respondeu com um sorriso fugidio. 

-Ento, quanto a vs? - indagou o Alvin. - Como  que se conheceram? 
Como Lexie no mostrasse vontade de lhe responder, Jeremy agitou-se na cadeira. 
-Lexie  bibliotecria e tem-me ajudado na investigao -esclareceu, o mais vagamente 
possvel. 


-E tm passado algum tempo juntos,  isso? 
Pelo canto do olho, Jeremy viu Lexie olhar para o outro lado. 
-Fiz uma investigao exaustiva. 
Alvin olhou para o amigo, a sentir que havia ali qualquer pormenor que lhe escapava. 
Parecia que houvera uma zanga de namorados, que estava ultrapassada, mas que ambos 

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estavam ainda a tentar sarar as feridas. O que era demasiado para ter acontecido numa 
nica manh. 

-Bem... timo -concluiu, decidido a deixar o assunto morrer, para j. Em vez de prosseguir 
com a conversa, ficou a olhar para a lista, enquanto Rachel se saracoteava a caminho da 
mesa deles. 

-Ol, Lex, ol, Jeremy - foi saudando ao aproximar-se. 
-Ol, Alvin. 
Alvin levantou os olhos, surpreendido: 
-Rachel! 
-Julgo ter percebido que vinhas c tomar o caf da manh - admoestou. 
-Estava quase a desistir de te ver. 
Ele olhou para Jeremy e Lexie. 
-Desculpa. Acho que adormeci. 
Metendo a mo no bolso do avental, Rachel empunhou o caderninho das encomendas, para 
de seguida recuperar o lpis que prendera na orelha. Molhou a ponta do lpis com a lngua. 

-Ora bem, o que vos vou trazer? 
Jeremy pediu uma sanduche; Alvin pediu caldo de marisco e tambm uma sanduche. Lexie 
abanou a cabea. 

-No tenho fome. A Doris est por a? 
-No, hoje no veio. Sentia-se cansada e resolveu tirar uma folga. Ontem trabalhou at 
tarde, a preparar as coisas para o fim-de-semana. 
Lexie tentou perceber mais atravs da expresso dela. 
- verdade, Lex -acrescentou Rachel, com voz grave. -No h motivo para te preocupares. 


Ao telefone, pareceu-me estar bem. 

-De qualquer maneira, ser melhor eu ir verificar - decidiu. 
Antes de se levantar, olhou  volta da mesa, como quem espera aprovao. Rachel desviou-
se para a deixar passar. 

-Queres que v contigo? - perguntou Jeremy. 
-No, no  necessrio. Tens o trabalho  tua espera e eu tambm tenho umas coisas a 
fazer. Queres ir  biblioteca, mais tarde? 
Pretendes acabar de ler os dirios, no ? 
-Acho que sim -respondeu Jeremy, estupefato com o desprendimento que notava na voz 


dela. Preferia passar o resto do dia com ela. 


-E se nos reunssemos l por volta das quatro horas? - sugeriu Lexie. 
-Acho timo. Mas informa-me do que se passa, est bem? 
-Como a Rachel disse, julgo que vou encontr-la bem. Mas, se no te importas, vou buscar 
o livro de apontamentos dela ao banco traseiro do carro. 
-Sim, claro. 
Olhou para Alvin: 
-Alvin, foi um prazer conhec-lo. 
-O prazer foi meu. 
Momentos depois, Lexie saiu e Rachel foi para a cozinha. Logo que ambas estavam fora da 
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vista, Alvin inclinou-se sobre a mesa. 

-Muito bem, amigo, deita tudo c para fora. 
-Do que  que ests falando ? 
-Sabes exatamente aquilo que estou a perguntar-te. Primeiro, ficas pelo beicinho. Depois 
passam a noite juntos. No entanto, quando chegaram  cadeia, ambos agiram como se mal 
se conhecessem. E agora, ela aproveita a primeira desculpa para se pr a mexer. 

-Doris  a sua av -explicou Jeremy -, e Lexie est preocupada com ela. No anda bem de 
sade. 

Alvin continuou cptico. 

-Pois. Quanto a mim, tens estado a olh-la como se fosses um cachorrinho abandonado, 
enquanto ela tem feito o possvel para fingir que no v. Tiveram alguma briga, ou coisa do 
gnero? 

-No -admitiu. Fez uma pausa para observar o restaurante. Na mesa do canto viu trs 
membros do Conselho Municipal e o voluntrio idoso da biblioteca. Todos o cumprimentaram 
com acenos. -Na verdade, no fao idia do que aconteceu. Num momento era tudo 
fantstico, mas no seguinte... 

Como ele no continuasse, Alvin recostou-se na cadeira. 

-Bem, deixa, de qualquer das maneiras no podia continuar. 
-Talvez continuasse - insinuou Jeremy. 
-Ah, sim? Como? Tens planos para desceres at c, para vires viver neste Fim do mundo? 
Ou ser que ela vai para Nova Iorque? 
Jeremy no respondeu, no desejava ser recordado do que era bvio, e manteve-se 


entretido a dobrar e a desdobrar o guardanapo. 
No silncio que se seguiu, Alvin ergueu o sobrolho, para dizer: 
-Est assente que tenho de passar mais tempo a estudar esta senhora. Depois da Maria, 


nenhuma mulher te afetou desta maneira. 
No obteve resposta, pois Jeremy no encontrava palavras e sabia que o amigo tinha razo. 
Doris estava sentada na cama, de culos de leitura encavalitados no nariz, quando Lexie 


espreitou da porta do quarto. 


-Doris? - chamou Lexie. 
-Lexie! - gritou a av -, o que  que ests aqui a fazer? Entra, entra. 
Ps o livro de lado. Ainda estava de pijama e, embora bastante plida, parecia estar bem. 
Lexie acercou-se da cama. 
-A Rachel disse-me que tinhas ficado em casa e quis verificar o que se passava contigo. 
-Oh, estou tima. Hoje sinto-me um pouco em baixo, mais nada. Mas pensei que deverias 
estar na praia. 

-Estive - respondeu a neta ao sentar-se na borda da cama. Mas tive de regressar. 
-Porqu? 
-O Jeremy apareceu l. 
Doris ergueu as mos como quem se rende. 
-No me atribuas a culpa. No lhe disse onde estavas. Nem lhe sugeri que fosse  tua 
procura. 


-Eu sei - asseverou Lexie, a fazer-lhe uma festa no brao. 
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-Ento, como  que ele descobriu onde estavas? 
Lexie olhou para as mos juntas no regao. 
-Tinha-lhe falado da casa da praia e ele estabeleceu a relao. Nem calculas a minha 
surpresa quando o vi a caminhar pela praia. 
Antes de se levantar um pouco mais, Doris observou cuidadosamente a neta. 


-Portanto, na noite passada ficaram os dois na casa da praia? 
Lexie acenou que sim. 
-E? 
A neta no respondeu de imediato, mas, passados uns momentos, esboou um ligeiro 
sorriso. 


-Preparei-lhe o teu famoso molho de tomate. 
-E ento? 
-Ficou impressionado -informou Lexie, enquanto passava a mo pelo cabelo. -A propsito, 
trouxe o teu livro de apontamentos. Est na sala. 
Doris tirou os culos de leitura e comeou a limpar-lhes as lentes com um canto do lenol. 


-No entanto, nada disso explica o teu regresso. 
-Jeremy precisou de boleia. Um amigo de Nova Iorque, um fotgrafo, veio at c para 
filmar as luzes. Esta noite vo filmar novamente. 


-Como  que  o amigo? 
Lexie hesitou, a pensar. 
-Parece uma mistura de cantor de rock e membro de um bando de motoqueiros, mas, 
tirando isso... no est mal. 
Depois que ela se calou, Doris estendeu o brao para lhe pegar na mo. Apertou-a com 
carinho, a analisar a neta. 


-Desejas falar sobre o verdadeiro motivo de estares aqui? 
-No -respondeu Lexie, a seguir as costuras da colcha da cama com um dedo. -Na 
verdade, no quero. Trata-se de uma questo que tenho de solucionar sozinha. 

Doris assentiu. Lexie mostrava-se sempre corajosa. Por vezes, a av sabia que o melhor era 
no lhe dizer nada. 

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DEZASSETE 

De p, no alpendre do Herbs, a aguardar que Alvin acabasse a conversa com a Rachel, 
Jeremy consultou o relgio. Alvin estava a dar o seu melhor e a Rachel no parecia desejosa 
de lhe dizer adeus, o que em condies normais era um bom prenncio. No entanto, aos 
olhos de Jeremy, a Rachel, mais do que verdadeiramente interessada em Alvin, estava a 
mostrar-se bem-educada, embora o seu amigo no estivesse a perceb-la. O Alvin estava, 
uma vez mais, a revelar a sua dificuldade em entender as pessoas. 

Quando finalmente se despediram, Alvin juntou-se a Jeremy; ostentava um largo sorriso, 
como se j tivesse esquecido os acontecimentos da noite anterior. O que era provvel. 

-Reparaste? - sussurrou quando estava suficientemente perto. 
-Acho que ela gosta de mim. 
-Por que no havia de gostar? 
- esse o meu trunfo - concordou. 
-Eh p, que mida! Adoro a sua maneira de falar.  to... sexualmente excitante. 
-Para ti, tudo  sexualmente excitante - observou Jeremy. 
O amigo protestou: 
-Isso no  verdade. S a maioria das coisas. 
Jeremy sorriu. 
-Bom, talvez a encontremos no baile desta noite.  provvel que consigamos passar por l, 
antes de voltarmos a filmar. 

-Esta noite h baile? 
-No velho armazm de tabaco. Ouvi dizer que vai l estar a cidade em peso. Tenho a 
certeza de que ela tambm vai. 

-timo! -exclamou Alvin ao descer do alpendre. Contudo, logo de seguida, acrescentou: S 
estranho que ela no me tenha falado nisso. 

Rachel ficou vendoificar as notas de pedidos com ar ausente, ao mesmo tempo que via Alvin 
deixar o restaurante, acompanhado de Jeremy. 

Mostrara-se algo reservada quando ele se sentou perto dela no Lookilu, mas, depois de ele 
ter revelado o que estava a fazer na vila e que conhecia Jeremy, iniciaram uma conversa, 
que permitiu a Alvin passar a hora seguinte falando de Nova Iorque. Fez a cidade parecer o 
prprio Paraso e, quando ela se referiu ao desejo de um dia a visitar, ele anotara o seu 
nmero de telefone na agenda dela e pedira-lhe que lhe telefonasse. At prometera arranjar 
bilhetes, para o caso de ela querer assistir ao espetculo Regis and Kelly. 

Por mais lisonjeiro que considerasse o gesto dele, sabia que nunca lhe telefonaria. Nunca 
fora grande apreciadora de tatuagens e, mesmo que no tivesse tido muita sorte com os 
rapazes que conhecera ao longo dos anos, desde h muito tomara a deciso de no namorar 
com um homem que tivesse mais brincos do que ela. Contudo, tinha de admitir que aquela 
no era a nica razo para a sua falta de interesse; Rodney tambm tinha algo vendo com 
isso. 

As visitas do ajudante ao bar eram freqentes; Rodney queria ter a certeza de que ningum 
tentava conduzir embriagado, pelo que todos os freqentadores da casa sabiam que o 
ajudante poderia aparecer por l a qualquer hora da noite. Passeava por entre as mesas, 
cumprimentava diversos conhecidos, para, se sentisse que algum estava a passar das 
marcas, lhe dar a entender que no o perderia de vista quando se metesse no carro. Embora 
a sugesto parecesse destinada a intimidar as pessoas, e quem estivesse a beber demasiado 

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devia t-la em conta, Rodney tambm acrescentava que estava pronto a levar a pessoa a 
casa. Era a sua maneira de manter os bbados fora da estrada, o que lhe permitira no 
precisar de prender ningum durante os ltimos quatro anos. At o dono do Lookilu deixara 
de se incomodar com a presena de Rodney; a princpio, no deixara de resmungar contra a 
presena de um ajudante do xerife a patrulhar-lhe a casa; no entanto, como os clientes no 
pareciam importar-se, fora aceitando gradualmente a idia, at comear ele prprio a pedir 
a comparncia da autoridade quando pensava que algum dos presentes no bar precisava de 
ser levado a casa. 

Na noite anterior, quando Rodney entrou, como fazia sempre, no precisou de muito tempo 
para ver a Rachel sentada no bar. Noutras alturas, costumava sorrir e aproximava-se para 
conversar um pouco; porm, desta vez, reparou que ela estava conversando com Alvin e por 
instantes pareceu quase magoado. Uma reao inesperada, que desapareceu com a mesma 
velocidade com que tinha aparecido, para dar lugar a uma raiva repentina. De certa forma, 
pareceu uma reao provocada pelo cime e Rachel pensou ter sido esse o motivo que a 
levou a deixar o bar logo que ele saiu. Durante o trajeto para casa no se cansou de rever a 
cena, a tentar descobrir se vira realmente o que julgara ter visto, ou se estava apenas a 
imaginar coisas. Mais tarde, j deitada, acabara por concluir que no devia sentir-se 
preocupada por Rodney se mostrar ciumento. 

Julgou que talvez ainda houvesse uma esperana para ela. 

Depois de terem ido buscar o carro de Alvin, que ficara estacionado numa rua prxima do 
Lookilu, ele e Jeremy dirigiram-se para o Greenleaf. Alvin tomou um duche rpido, Jeremy 
mudou de roupa, e ambos passaram umas duas horas a rever o que Jeremy conseguira 
descobrir. Para Jeremy era uma maneira de aliviar a presso que sentia; concentrar-se no 
trabalho era a nica maneira de no pensar na Lexie. 

Tal como ele prometera, os filmes feitos pelo Alvin eram extraordinrios, em especial quando 
comparados com os que Jeremy conseguira. A claridade e definio, combinadas com a 
passagem em movimento lento, tornavam fcil a deteco de pormenores que Jeremy tinha 
descurado. Melhor ainda: havia umas quantas seqncias que Jeremy podia escolher e 
transformar em imagens fixas, para melhor explicar aos telespectadores o que Lhes estava a 
ser mostrado. 

A partir dos filmes, Jeremy fez Alvin recuar no tempo histrico, usando as referncias que 
conseguira coligir para interpretar o que estavam vendo. Todavia, como Jeremy continuasse 
a demonstrar cada pormenor -as trs verses da lenda, os mapas, as notas sobre as 
pedreiras, os diversos projetos de construo, os detalhes sobre vrios aspectos da luz 
refratada -Alvin comeou a bocejar. Nunca se interessara muito pelas minudncias do 
trabalho de Jeremy, a quem acabou por convencer a lev-lo ao outro lado da ponte, at  
fbrica de papel, para ver o local com os prprios olhos. Gastaram uns minutos observando 
as instalaes, vendoem a madeira a ser carregada em transportadores e, no caminho de 
regresso, Jeremy apontou o local onde, mais tarde, iriam filmar. Dali seguiram para o 
cemitrio, para que Alvin pudesse fazer algumas fotografias  luz do dia. 

Alvin colocou a mquina em vrias posies, deixando Jeremy a deambular sozinho, com a 
quietude do cemitrio a for-lo pensando em na Lexie e nas suas preocupaes sobre dela. 
Recordou a noite que passaram juntos e tentou, uma vez mais, perceber o que a obrigara a 
sair da cama a meio da noite. Apesar dos desmentidos, sabia que ela estava a sentir-se 
arrependida, talvez at tivesse remorso do que tinha acontecido; contudo, mesmo assim, 
continuava a no perceber. 

Sim, ele estava de partida, mas no se cansara de lhe repetir que haviam de encontrar uma 
maneira de fazer funcionar a relao. E tambm era verdade que no se conheciam muito 
bem, mas, mesmo considerando o pouco tempo que tinham passado juntos, descobrira o 
suficiente para poder afirmar que poderia am-la sempre. Do que ambos precisavam era de 
uma oportunidade. 

Mas o Alvin, pensou, tivera razo. Por muito preocupada que estivesse com a Doris, o 

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comportamento da Lexie naquela manh sugeria que ela apenas procurara uma desculpa 
para se afastar dele. S lhe restava uma dvida: no sabia se ela agia assim por o amar e 
achar que era mais fcil afastar-se dele agora, ou se o fazia por no o amar e, em 
conseqncia, no estar interessada em perder mais tempo junto dele. 

Na noite passada tivera a certeza de que ambos sentiam o mesmo. Contudo, agora. 

Gostaria de poder passar a tarde com ela. Desejava saber o que a afligia e poder aliviar-lhe 
as preocupaes; desejava abra-la, beij-la, convenc-la de que arranjaria uma maneira 
de fazer a relao funcionar, por mais difcil que fosse. Desejava que Lexie o ouvisse dizer 
que no podia imaginar uma vida sem ela, que os sentimentos que mostrava eram 
verdadeiros. Mas, acima de tudo, queria ter a certeza de que ela sentia o mesmo em relao 
a ele. 

L mais adiante, viu que o Alvin, embrenhado no seu prprio mundo e esquecido das 
preocupaes do amigo, estava a mudar a mquina e o trip para outro local. Jeremy 
suspirou ao verificar que ele estava a desviar-se para a parte do cemitrio para onde Lexie 
seguira quando a perdeu de vista, na primeira vez que a encontrou ali. 

Hesitou por instantes, enquanto um palpite lhe tomava forma na mente, e comeou  
procura, dando alguns passos de cada vez. Precisou apenas de uns minutos para perceber o 
que era bvio. Ultrapassado um montculo, parou junto de uma azalea a precisar de poda. 
Encontrava-se rodeada de galhos e ramos, mas o espao em frente tinha sido arranjado. 
Ps-se de ccoras, viu as flores que ela deveria ter trazido na mala a tiracolo e, de sbito, 
percebeu a razo que levava a Doris e a Lexie a no quererem as pessoas a devassar o 
cemitrio. 

 luz fraca do entardecer, deu com as sepulturas de Claire e James Darnell e ficou pensando 
em por que levara tanto tempo a compreender. 

No regresso do cemitrio, Jeremy deixou o Alvin no hotel para o amigo poder dormir um 
pouco, e voltou  biblioteca, a ensaiar o que pretendia dizer  Lexie. 

Verificou que a biblioteca tinha mais gente do que era habitual, pelo menos c fora. As 
pessoas juntavam-se no passeio em grupos de duas ou trs, a apontarem para cima e a 
apreciarem a arquitetura, como numa anteviso do Circuito das Manses Histricas. Muitas 
pessoas pareciam trazer a mesma brochura que a Doris lhe tinha enviado e liam em voz alta 
os trechos que realavam as caratersticas nicas do edifcio. 

L dentro, o pessoal parecia tambm entregue aos preparativos. Alguns voluntrios varriam 
e limpavam o p; dois outros estavam a instalar novos pontos de luz indireta; Jeremy sups 
que, enquanto durasse a visita oficial, os candeeiros do teto seriam em parte desligados, 
para dar  biblioteca uma atmosfera mais antiquada. 

Passou pela sala de leitura das crianas, que lhe pareceu menos apinhada do que na 
primeira vez que a viu e continuou, escada acima. A porta do gabinete da Lexie estava 
aberta e ele parou por instantes, a recompor-se antes de entrar. Como toda a gente fazia na 
biblioteca, estava a fazer o possvel para pr ordem na casa e escondia pilhas de livros por 
baixo do tampo da secretria. 

-Boa tarde - cumprimentou. 
Lexie ergueu os olhos. 
-Ol -respondeu ao pr-se de p, a ajeitar a blusa. -Parece que me apanhaste na tentativa 
de tornar isto apresentvel. 

-Tens pela frente um longo fim-de-semana. 
-Suponho que devia ter feito as arrumaes mais cedo -admitiu, a apontar para o gabinete 
-, mas parece-me que fui vtima de um processo maligno de adiamento. 
Sorriu, bonita, mesmo que relativamente mal arranjada. 


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-Acontece aos melhores - afirmou Jeremy. 
-Pois, mas no  habitual em mim. 
Em vez de se aproximar dele, pegou noutra pilha de livros e voltou a meter a cabea por 
debaixo do tampo da secretria. 

-Como  que est a Doris? - perguntou ele. 
-Est tima -respondeu Lexie, falando de debaixo da secretria. -Como a Rachel disse, 
est apenas um bocado em baixo, mas amanh j estar operacional -acrescentou, ao 
reaparecer para pegar em nova pilha de papis. -se tiveres uma oportunidade, talvez fosse 
bom ires v-la antes de partires. Tenho a certeza de que te ficaria agradecida. 

Por momentos limitou-se a observ-la, mas quando percebeu o significado daquilo que 
estava a ouvir, deu um passo na direo dela. Contudo, Lexie deu uns passos  volta da 
secretria, a fingir que no tinha percebido a inteno dele, para ter a certeza de que a 
secretria continuava a interpor-se entre ambos. 

-O que  que se passa? - perguntou Jeremy. 
Lexie arrumou mais algumas coisas na secretria, antes de responder: 
-Estou apenas ocupada. 
-Perguntei o que se passa conosco. 
-Nada - respondeu ela, numa voz neutra, como se estivesse falando do tempo. 
-Nem sequer olhaste para mim. 
S ento olhou para cima, devolvendo-lhe o olhar pela primeira vez. Ele sentiu-lhe a 
hostilidade latente, embora no pudesse saber se estava furiosa com ele ou consigo mesma. 

-No fao idia do que pretendes que eu diga. J expliquei que estou muito ocupada. 
Acredites ou no, h aqui muito que fazer. 

Jeremy ficou a olhar mas no se mexeu; de sbito, apercebeu-se de que ela procurava um 
pretexto para iniciar uma discusso. 

-Posso ajudar nalguma coisa? - indagou. 
-No, obrigada. A obrigao  minha -explicou, ao encaixar outra pilha por baixo do tampo 
da secretria. 

-Como  que est o Alvin? - inquiriu, em voz mais alta. 
Jeremy coou a parte posterior da cabea. 
-J no est zangado, se  isso que pretendes saber. 
-timo. J terminaram o vosso trabalho? 
-A maior parte. 
Lexie levantou de novo a cabea, a mostrar-se muito atarefada. Voltei a tirar os dirios do 
arquivo. Esto em cima da mesa da sala de livros raros. 

Jeremy esboou um breve sorriso de agradecimento. 

-E se precisares de mais qualquer coisa antes de partires -acrescentou Lexie -, ainda fico 
aqui durante pelo menos uma hora. No entanto, como o circuito comea s sete horas, 
deves fazer planos para sares o mais tardar s 18h30, pois  a essa hora que vamos 
desligar os candeeiros do teto. 

-Pensei que a sala de livros raros fechava s cinco da tarde. 
-Como partes amanh, achei que, por esta vez, podia flexibilizar as normas. 
-E tambm por sermos amigos, no ? 
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-Claro - anuiu, mostrando um sorriso automtico. 
-Porque somos amigos. 
Jeremy deixou o gabinete e encaminhou-se para a sala de livros raros, a recordar a conversa 
e a tentar dar-lhe sentido. O encontro no se desenrolara como estava previsto. Apesar da 
impertinncia do comentrio final, alimentara a esperana de que ela o seguisse, mas, de 
certa forma, sempre soubera que tal no ia acontecer. A tarde que passaram separados 
tambm no ajudara a remediar as coisas entre eles; se alguma modificao houvera, foi 
para pior. Se, antes, Lexie parecia querer manter as distncias, agora olhava-o como se ele 
fosse radioativo. 

Por muito que o comportamento dela o perturbasse, at certo ponto sabia que ele fazia 
sentido. Talvez no devesse mostrar-se to... fria, mas tudo derivava do fato de ele morar 
em Nova Iorque e ela viver em Boone Creek. No dia anterior, na praia, tinha-lhe sido fcil 
convencer-se de que tudo se iria compor, como por magia, entre ele e a Lexie. Acreditara 
nisso. O problema era esse. Quando uma pessoa se preocupa com outra, arranja sempre 
maneira de compor as coisas. 

Apercebia-se de que estava a adiantar-se em relao a si prprio, mas era o que fazia 
sempre que se via confrontado com um problema. Procurava solues, elaborava 
suposies, tentava analisar cenrios a longo prazo, sempre a procurar avaliar com cuidado 
todos os finais possveis. E, supunha, era o que esperava que ela fizesse tambm. 

O que nunca esperara era ser tratado como um pria. Ou que ela agisse como se nunca 
tivesse acontecido o que quer que fosse entre eles. Ou como se estivesse convencida de que 
a noite anterior tinha sido um erro. 

Ao sentar-se deu uma vista de olhos pelos dirios empilhados em cima da mesa. Comeou a 
separar aqueles que j lera, escolhendo quatro que tinha de ler. At ento, nenhum dos 
outros sete se revelara particularmente til -dois mencionavam funerais de famlia 
realizados em Cedar Creek -e por isso abriu um que ainda no tinha examinado. Em vez de 
ler desde o princpio, recostou-se na cadeira e foi escolhendo passagens ao acaso, a tentar 
descobrir se a diarista escrevia mais sobre si prpria ou sobre a cidade em que vivia. 
Abrangia os anos de 1912 a 1915, fora escrito por uma adolescente chamada Anne Dempsey 
e, na sua maior parte, era um relato pessoal dos eventos quotidianos da sua vida durante 
aquele perodo. De quem gostava, o que comia, o que pensava dos pais e dos amigos e o 
fato de pensar que ningum parecia compreend-la. Concluso mais importante que se 
podia tirar da leitura do dirio de Anne: as suas angstias e preocupaes eram iguais s 
que afligem os jovens de hoje. Mesmo considerando-o interessante, p-lo de lado, junto dos 
outros j rejeitados. 

Os dois dirios seguintes que consultou -ambos escritos na dcada de 1920 -eram tambm 
registos bastante pessoais. Um pescador escrevia sobre mars e capturas com pormenores 
minuciosos; o segundo, da autoria de uma professora primria chamada Glenara, descrevia 
os progressos da sua relao com um jovem mdico forasteiro, durante um perodo de oito 
meses, bem como as opinies da professora sobre os alunos e os habitantes da vila. Para 
alm disso, havia duas entradas respeitantes a eventos de carter social, que no essencial 
pareciam resumir-se a assistir a regatas no rio Pamlico, a idas  igreja, a jogos de brdege e 
a passeios pela Main Street nas tardes de sbado. No encontrou qualquer meno a Cedar 
Creek. 

Esperava que o ltimo dirio viesse a revelar-se mais uma perda de tempo, mas no o 
folhear significaria sair de imediato, o que ele no se imaginava a fazer antes de voltar 
falando com Lexie, quanto mais no fosse para manter abertas as linhas de comunicao. 
No dia anterior podia entrar pelo gabinete e dizer a primeira coisa que lhe viesse  cabea, 
mas os ziguezagues recentes da sua relao, a que tinha de acrescentar-se um ntido estado 
de agitao de Lexie, tornavam-lhe impossvel saber exatamente o que dizer e prever a 
reao dela. 

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Mostrar-se-ia distante? Deveria tentar meter conversa, mesmo a saber que ela ardia em 
desejos de armar zaragata? Ou deveria fingir que nem havia reparado na atitude dela e 
insinuar que continuava a querer perceber qual era vendodadeira origem das luzes? Deveria 
convid-la para jantar fora? Ou limitar-se a abra-la? 

Estava perante o problema tpico que afeta uma relao quando as emoes comeam a 
turvar as guas. Era como se Lexie esperasse que ele Fizesse ou dissesse exatamente, no 
momento preciso, o que quer que fosse que ela considerava correto. Uma postura que, 
decidiu Jeremy, no era justa. 

De fato, amava-a. E tambm se preocupava com o futuro de ambos. Porm, enquanto ele 
pretendia procurar solues, Lexie agia como se j tivesse optado pela desistncia. Voltou 
pensando em na conversa que tinham tido. 

Se tiveres uma oportunidade, talvez fosse bom ires v-la antes de partires. 

No dissera se tivermos uma oportunidade". Se tiveres. E quanto ao comentrio final? 
Aquele: Claro. Porque somos amigos. A nica coisa que ele conseguiu fazer foi morder a 
lngua para no lhe responder. Amigos? " deveria ter ripostado, Depois da noite passada, 
consegues dizer que somos apenas amigos? Foi tudo o que significou para ti? " 

No era maneira de falar com algum de quem se gosta. No era maneira de tratar algum 
que se deseja voltar vendo e, quanto mais pensava na conversa, mais gostaria de lhe ter 
respondido  letra. Ests a pr-te de fora? Posso fazer o mesmo. Pretendes uma briga? 
Vamos a isso! Ao cabo e ao resto, no fizera nada de mal. O que acontecera na noite 
anterior tivera tanto vendo com ele como com ela. Tinha tentado comunicar-lhe o que 
sentia; ela no parecera disposta a ouvir. Tinha-lhe prometido tentar arranjar solues; ela 
nunca se preocupara em discutir a idia. E, no final, fora ela quem o conduzira ao quarto, 
no fora o contrrio. 

De lbios contrados, ficou a olhar pela janela. No, pensou, no ia continuar a jogar 
segundo as regras dela. Se ela quisesse conversar, muito bem. Mas se no quisesse... bem, 
nesse caso, a situao evoluiria como tinha de evoluir, e, honestamente, sentia que no 
podia fazer nada para a alterar. Como no estava disposto a voltar para ela a rastejar, a 
implorar e a argumentar, o futuro imediato estava nas mos dela. Sabia onde podia 
encontr-lo. Estava decidido a sair da biblioteca logo que acabasse e a regressar ao 
Greenleaf. Talvez assim ela pudesse pensar no que realmente queria, ao mesmo tempo que 
lhe dava a entender que no estava disposto a ficar  roda dela para ser maltratado. 

Logo que ele saiu, Lexie recriminou-se, a desejar ter encontrado uma forma melhor de lidar 
com o problema. Pensara que passar algum tempo junto da av poderia ajudar a clarificar a 
situao, mas no conseguira mais do que um adiamento. O episdio seguinte foi a entrada 
de Jeremy pelo gabinete, alegre e satisfeito, a agir como se no houvesse qualquer 
alterao. Como se o dia seguinte no pudesse alterar tudo. Como se no estivesse de 
partida. 

Sim, sempre soubera que ele tinha de regressar, que ia deix-la para trs como Fizera Mr. 
Renaissance, mas o conto de fadas que ele havia iniciado na noite anterior continuava a 
agit-la, a alimentar fantasias em que as pessoas viviam felizes para sempre. Se conseguira 
encontr-la na praia, se tivera a coragem de lhe dizer o que disse, no seria capaz de 
encontrar uma forma de ficar ali? 

L no fundo, sabia que Jeremy alimentava a esperana de que ela o seguisse at Nova 
Iorque, s que no via como tal seria possvel. No seria capaz de perceber que ela no se 
preocupava nada com dinheiro ou com fama? Ou com a freqncia de lojas e espetculos, 
ou com a possibilidade de comprar comida tailandesa a meio da noite? A vida no se 
resumia a essas coisas. Viver era ter companhia, ter tempo para passear de mos dadas, 
conversar calmamente enquanto se assiste a um pr-do-sol. Nada de deslumbrante, mas, 
em muitos aspectos, o melhor que a vida nos pode proporcionar. Como  que era o velho 
ditado? Quem  que, no leito de morte, disse que desejaria ter trabalhado mais? Ou ter 

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perdido menos tempo a apreciar um calmo fim de tarde? Ou ter passado menos tempo junto 
da famlia? 

No era suficientemente ingnua para negar que a cultura moderna tinha os seus encantos. 
Ser famoso, rico e bonito, freqentar festas exclusivas, como meio para ser feliz. Era uma 
forma de lavagem ao crebro, a cano do desespero. Se assim fosse, qual a razo de haver 
tantas pessoas ricas, famosas e bonitas a tomar drogas? Qual o motivo de no conseguirem 
manter o casamento? Por que ser que esto continuamente a ser presas? Por que se 
sentiro to infelizes quando no esto a ser iluminadas pelos holofotes? 

Suspeitava de que Jeremy se deixara seduzir por aquele mundo, por mais que se recusasse 
a admiti-lo. Adivinhara quem ele era no momento em que se conheceram e resolvera logo 
que no se deixaria envolver. No entanto, lamentava a forma como estava agora a 
comportar-se. Quando Jeremy aparecera no gabinete, ainda no se sentia preparada para 
conversar, mas achava que devia ter-se limitado a dizer o que tinha de ser dito, em vez de 
se manter separada dele pela secretria e de negar que se passava algo de anormal. 

Podia, de fato, ter agido melhor. Quaisquer que fossem as divergncias entre eles, Jeremy 
merecia melhor. Amigos, pensou novamente. Porque somos amigos. 

Irritava-o a maneira como ela tinha dito aquilo, fazia-o abanar a cabea enquanto, com ar 
ausente, batucava no bloco de apontamentos com o lpis. Tinha de acabar a tarefa. A fazer 
rodar os ombros para diminuir a tenso, pegou no ltimo dirio e chegou a cadeira para 
diante. 

Em vez de notas curtas e pessoais, o dirio era uma coleo de ensaios, com datas e ttulos, 
e fora escrito entre 1955 e 1962. O primeiro referia  construo da igreja episcopal de St. 
Richard, em 1859, e  descoberta, durante as escavaes, do que parecia ser uma antiga 
aldeia dos ndios Lumbee. O ensaio cobria trs pginas e era seguido de outro sobre o 
destino da fbrica de curtumes Me-Tauten, construda em Boone Creek, junto s margens do 
rio, em 1794. O terceiro ensaio, que levou Jeremy a erguer um sobrolho, dava a opinio do 
autor sobre do que verdadeiramente acontecera na ilha de Roanoke, em 1587. 

Ao recordar-se vagamente de que um dos dirios pertencera a um historiador amador, 
Jeremy comeou a folhe-lo mais depressa. a ler os ttulos, a procurar nos artigos qualquer 
referncia... a passar apressadamente de uma pgina para outra. vendo-as pela rama. para 
parar subitamente ao aperceber-se de que vira qualquer coisa interessante e a voltar para 
trs, para ficar paralisado ao confirmar o que tinha visto. 

Recostou-se na cadeira, a pestanejar, enquanto percorria a pgina com os dedos: 

Solucionado o Mistrio das Luzes no Cemitrio de Cedar Creek 

Durante anos, alguns residentes na vila afirmaram a presena de fantasmas no Cemitrio de 
Cedar Creek e, h trs anos, o Journal of the South publicou um artigo onde se discutia o 
fenmeno. Embora no fosse avanada qualquer soluo, depois de conduzir a minha 
prpria investigao, acredito ter resolvido o enigma de as luzes parecerem deixar-se ver em 
certas condies e no aparecerem noutras alturas. 

Posso afirmar em termos definitivos que no se trata da presena de fantasmas. Na verdade, 
as luzes provm do sistema de iluminao da Fbrica de Papel Henrickson e so 
influenciadas pela passagem dos comboios no viaduto, pela localizao de Riker's Hill e pelas 
fases da lua. 

Ao continuar a leitura, Jeremy deu consigo a suster a respirao. Embora o autor no 
tentasse explicar as razes do afundamento do cemitrio -sem o qual era provvel que as 
luzes nunca se tivessem tornado visveis -a sua concluso era, nos restantes aspectos, 
essencialmente a mesma a que ele prprio tinha chegado. 

O autor, quem quer que ele fosse, tinha resolvido a questo h quase quarenta anos. 
Quarenta anos. 

Marcou a pgina com um pedao de papel e foi consultar a primeira pgina do livro,  

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procura do nome do autor, a recordar-se da primeira conversa que tivera com o presidente 
da Cmara. E, assim, verificou que as suas suspeitas se ajustavam como os retalhos de um 
quebra-cabeas. 

Owen Gherkin. 

O dirio tinha sido escrito pelo pai do presidente, a pessoa que, segundo o filho, sabia tudo 

o que havia a saber sobre aquela terra". A pessoa que descobrira a origem das luzes. Que 
certamente teria informado o atual presidente da Cmara, seu filho. E este, desde ento, 
ficou a saber que o fenmeno nada tinha de sobrenatural, embora fingisse o contrrio. O 
que significava que o presidente Gherkin lhe tinha mentido desde o incio, na esperana de 
utilizar Jeremy para o ajudar a obter dinheiro dos visitantes que no suspeitavam da 
tramia. 
E Lexie. 

A bibliotecria. A mulher que insinuara que os dirios poderiam conter a resposta que ele 
procurava. O que implicava que tivesse lido o relato de Owen Gherkin: O que significava que 
tambm ela tinha mentido, preferindo alinhar com o presidente da Cmara. 

Bem gostaria de saber quantos seriam os habitantes da vila que conheciam a resposta. A 
Doris? Talvez, pensou. No, decidiu de imediato, ela tinha de saber. Na primeira conversa 
que tiveram, ela tinha afirmado, preto no branco, o que as luzes no eram. No entanto, tal 
como acontecera com o presidente e com a Lexie, no falara da verdadeira origem do 
fenmeno, embora fosse provvel que tambm ela a conhecesse. 

O que queria dizer... que tudo no passara de uma palhaada. A carta. A investigao. A 
festa. Contudo, o palhao era ele. 

E agora a Lexie estava a desligar-se, mas no o fizera antes de lhe contar o episdio em que 
a av a levou ao cemitrio para ver os espritos dos pais. E aquela bonita histria de os pais 
dela terem querido que ela o conhecesse. 

Coincidncias? Ou planeamento total? E pela maneira como estava agora a agir. 

Como se quisesse que ele partisse. Como se no sentisse nada por ele. Como se soubesse 
de antemo o que iria acontecer... 

Tudo aquilo teria sido planeado? E se tivesse sido, porqu? Agarrou no dirio e encaminhou-
se para o gabinete da Lexie, disposto a conseguir algumas respostas. Mal notou que tinha 
atirado com a porta da sala; tal como no reparou nas expresses dos voluntrios que 
viraram as cabeas para o olhar. A porta do gabinete da Lexie estava entreaberta e deu-lhe 
um empurro para entrar. 

Com os livros que se encontravam espalhados devidamente arrumados, Lexie empunhava 
uma lata de cera para tratamento de mveis e um pano, e estava a dar brilho ao tampo da 
secretria. Levantou os olhos quando Jeremy agitou o dirio  sua frente. 

-Oh, ol - saudou, ao olhar para ele, a forar um sorriso. 
-Estou quase a terminar. 
Jeremy olhou-a fixamente. 
-Podes acabar a representao - anunciou. 
Mesmo do outro lado da mesa, ela sentiu a fria latente e, instintivamente, arrumou uma 
mecha de cabelo atrs da orelha. 

-De que  que ests falando ? 
-Disto - esclareceu Jeremy, a mostrar-lhe o dirio. - J leste isto, no  verdade? 
- bvio - respondeu com a mxima simplicidade, ao reconhecer o dirio de Owen Gherkin. 
-Conheces a passagem em que fala das luzes de Cedar Creek? 
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- claro que conheo. 
-Mas no me falaste nisso. Porqu? 
-Mas, falei! Falei-te dos dirios da primeira vez que vieste  biblioteca. E se bem me lembro, 
at te disse que talvez encontrasses as respostas de que andavas  procura, recordas-te? 
-No faas jogos de palavras -rosnou Jeremy, a semicerrar os olhos. -Tu sabias aquilo que 
eu procurava. 

-E acabaste por encontrar - contraps Lexie, a elevar a voz. 
-No vejo onde  que est o problema. 
-O problema  que tenho andado a perder o meu tempo. Este dirio responde a todas as 
dvidas. No existe aqui qualquer mistrio. Nunca existiu. E tu nunca deixaste de colaborar 
nesta pequena charada. 

-Qual charada? 
-No tentes negar -replicou Jeremy, a no a deixar prosseguir. Ergueu o dirio bem alto. Tenho 
aqui a prova, recordas-te? Mentiste-me. Mentiste mesmo na minha cara. 

Lexie olhou-o fixamente, a notar a profunda clera dele, a sentir a sua prpria fria a 
aumentar. 

- esse o motivo da tua vinda ao meu gabinete? Vieste c para me fazer acusaes? 
-Tu sabias! - gritou ele. 
Ela ps as mos nas ancas. 
-No. No sabia. 
-Mas leste isto! 
-E ento? -contraps Lexie, tambm a gritar. -Tambm li o artigo publicado no jornal. E li 
os artigos das outras pessoas. Como diabo  que eu podia ter a certeza de que Owen 
Gherkin tinha razo? 

Tanto quanto sei, deitara-se a adivinhar, como aconteceu com todos os outros. Isto, 
partindo do princpio de que o assunto me interessa. Francamente, pensas que, antes de c 
chegares, eu me detivera mais de um minuto pensando em nisso? No me interessa! Nunca 
me interessou! E se tivesses lido o dirio h dois dias tambm no terias a certeza. Ambos 
sabemos que, de qualquer das formas, no deixarias de fazer a tua prpria investigao. 

-A questo no  essa -replicou Jeremy, a no querer encarar a hiptese de ela ter razo. A 
questo  tudo isto ser uma tramia. O circuito, os fantasmas, a lenda, tudo uma vigarice, 
pura e simples. 

-O que  que ests para a a dizer? O circuito tem vendo com manses antigas e,  
verdade, acrescentaram a visita ao cemitrio. Para aproveitar a mar. No fundo, trata-se de 
proporcionar um fim-de-semana agradvel no meio de uma estao triste. Ningum est a 
ser vigarizado, ningum  magoado. E, com mil diabos, crs que haja assim tanta gente a 
acreditar verdadeiramente em fantasmas? Na sua maioria, as pessoas dizem que acreditam 
porque acham piada. 

-A Doris sabia? -inquiriu Jeremy, voltando a interromp-la. -Do dirio de Owen Gherkin? perguntou, 
a abanar a cabea, furiosa por ele se recusar a ouvir. 

-Como  que ela poderia saber da existncia do dirio? 
-Vs -respondeu ele, a erguer o indicador como um professor falando com um aluno, a dar 
nfase a uma idia. 

- essa a parte que eu no entendo. Se no queres que o cemitrio seja includo no circuito, 
se a Doris tambm no o quer ver includo, por que motivo no vo ambas  redao do 
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jornal e revelam vendodade? Qual a razo que a levou a pretender envolver-me no vosso 
jogo? 

-No quis envolver-te. E no se trata de um jogo.  um fim-de-semana inofensivo, a que 
ests a conferir propores desmesuradas. 

-No lhe estou a conferir quaisquer propores. Tu e o presidente da Cmara 
encarregaram-se disso. 

-Portanto, agora passei a fazer parte do grupo dos maus da fita? 
Como Jeremy ficasse calado, ela semicerrou os olhos e prosseguiu: 
-Ento, por que seria que te passei o dirio para a mo? Por que no me limitei a deix-lo 
ficar onde estava guardado? 
-No sei. Talvez tenha algo vendo com o livro de apontamentos da Doris. Desde que aqui 


cheguei que as duas no deixam de me falar do livro. Talvez tivessem partido do princpio 
que o livro no era suficiente para me trazer at c; por isso, urdiram toda esta teia. 
Lexie inclinou-se para diante, com o rosto vermelho. 
-ser que no consegues perceber quanto  ridculo tudo o que ests para a a dizer? 
-Alto l! Para comear, estou apenas a tentar perceber o motivo que vos levou a trazerem-


me at c. 
Ela ergueu as mos, como se tentasse faz-lo calar-se. 


-No quero ouvir mais. 
-Aposto que no. 
-Sai! -mandou, enquanto guardava a lata da cera para mveis na gaveta da secretria. No 
s de c e no quero falar mais contigo. Volta para o lugar de onde vieste. 
Jeremy cruzou os braos. 


-Pelo menos, acabaste por admitir o que tens andado todo o dia a pensar. 
-Oh, agora ls os pensamentos? 
-No. Mas no  preciso saber ler os pensamentos para perceber os motivos que te levam a 
agir dessa maneira. 

-Bom, ento, deixa que leia o teu pensamento, est bem? -sibilou Lexie, farta da atitude 
superior dele, cansada dele. -Deixa que te diga o que vejo, est bem? -prosseguiu, a saber 
que falava suficientemente alto para ser ouvida em toda a biblioteca, mas sem fazer caso 
disso. 

-Vejo algum verdadeiramente bom a proferir as palavras certas e que, chegada a altura, 
no  capaz de fazer o que diz. 

-E isso quer dizer o qu? 
Lexie olhou-o do outro lado da sala, com a fria a endurecer-lhe cada msculo do corpo. 

-O qu? Julgas que no sei o que pensas sobre da nossa vila? Que isto no  mais do que 
um lugar de paragem para quem passa na estrada? Ou que, no fundo, no consegue 
perceber o motivo de algum querer viver aqui? E que, apesar de tudo o que possas ter dito 
na noite passada, achas ridcula a idia de poderes vir vivendo aqui? 

-No disse isso. 
-Nem tinhas que dizer! -gritou Lexie, a odiar o ar complacente com que ele lhe respondera. 
-A questo  essa. Quando falei em sacrifcios, sabia muito bem que pensavas que a 
sacrificada deveria ser eu. Que deveria deixar a minha famlia, os meus amigos, a minha 
terra, porque Nova Iorque  muito superior. Que eu devia ser a mulherzinha simptica que 
segue o seu homem para onde ele entende que deve ir. Nunca te passou pela cabea que 

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poderias ser tu a deslocar-te. 

-Ests a exagerar. 
-Ai, estou? Sobre de qu? Sobre esperares que deveria ser eu a partir? Ou estavas 
pensando em arranjar um guia de venda de propriedades quando, amanh, deixasses a vila? 
Escuta, deixa que te facilite a vida -aconselhou ao estender a mo para o telefone. -Mrs. 
Renolds tem o escritrio do outro lado da rua e tenho a certeza de que ficar encantada por 
te levar, esta mesma noite, vendo umas quantas casas, desde que estejas interessado em 
comprar. 

Incapaz de negar as acusaes, Jeremy limitou-se a olh-la fixamente. 

-No tens nada a dizer? -inquiriu, ao mesmo tempo que batia com o auscultador no 
descanso. -O gato comeu-te a lngua? Se preferes, esclarece-me sobre o seguinte: O que  
que pretendias exatamente dizer quando falavas em encontrarmos uma maneira de fazer 
funcionar a relao? Pensaste que eu estaria interessada em ficar  espera de, nas tuas 
visitas espordicas, darmos uma rpida cambalhota, sem qualquer possibilidade de vivermos 

o futuro juntos? Ou estarias pensando em em usar uma dessas visitas para me convencer 
dos meus erros, por pensares que estou a desperdiar a minha vida num lugar destes, que 
seria muito mais feliz se me atrelasse a ti? 
A fria e a mgoa da voz dela eram inegveis; o mesmo se podia dizer do que queriam dizer 
as suas palavras. Durante muito tempo, nenhum deles falou. 

-Por que  que no me disseste nada disto durante a noite passada? -indagou Jeremy, 
agora em voz mais baixa. 

-Eu tentei. O problema foi no quereres ouvir. 
-Ento, porqu? 
Deixou a pergunta em suspenso, mas a implicao foi clara. 
-No sei - confessou, e desviou o olhar. 
-s um homem simptico, passamos dois dias excelentes. Talvez estivesse disposta. 
Jeremy continuou a olhar para ela. 
-Foi s o que significou para ti? - perguntou. 
-No -admitiu ela, ao ver a expresso de dor no rosto dele. -Na noite passada, no. 
Contudo, isso no altera o fato de ter acabado pois no? 

-Ests, ento, a querer acabar? 
-No - respondeu. Para seu desgosto, sentiu os olhos a encherem-se-lhe de lgrimas. 
-No me atribuas as culpas. Quem se vai embora s tu. Foste tu que vieste at ao meu 
mundo. No foi o contrrio. Vivia contente at tu chegares. Talvez no totalmente feliz, 
talvez um pouco s, mas contente. Gosto da minha vida aqui. Gosto de ir verificar se a Doris 
est a ter um bom dia. Gosto de ler para as crianas durante a hora que lhes  destinada. E 
at gosto do nosso pequeno Circuito das Manses Histricas, mesmo que estejas a querer 
transform-lo numa vigarice s para conseguires uma grande presena na televiso. 

Ficaram a olhar-se mutuamente, quietos e finalmente sem palavras. Com tudo em aberto, 
com todas as palavras ditas, ambos se sentiram vazios. 

-No sejas assim - acabou por dizer Jeremy. 
-Assim como? Como algum que diz vendodade? 
Em vez de aguardar uma resposta, Lexie pegou na bolsa e no casaco. Pendurando-os no 
brao, caminhou para a porta. Jeremy desviou-se para a deixar passar e ela deslizou dali 
para fora, sem mais palavras. J se afastara alguns passos do gabinete quando, finalmente, 
Jeremy reuniu a coragem suficiente para falar. 

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-Aonde  que vais? 
Antes de parar, Lexie ainda deu mais um passo. Rodou sobre os calcanhares e respirou 
fundo. 

-Vou para casa -respondeu. Afastou uma lgrima da face e endireitou-se. -Como tu fars 
tambm. 

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Dezoito 

Mais tarde, naquela noite, Alvin e Jeremy instalaram as cmaras perto do passeio de 
madeira na margem do rio Pamlico. Ao longe, ouviam-se os sons da msica no celeiro de 
tabaco do Meyer, onde se realizava o baile. Todas as lojas da baixa tinham fechado; at o 
Lookilu fora abandonado. Resguardados pelos bluses, pareciam estar ss. 

-E depois? - indagou o Alvin. 
-Acabou-se - respondeu Jeremy. 
-Foi-se embora. 
-No foste atrs dela? 
-Ela no queria. 
-Como  que sabes? 
Jeremy esfregou os olhos, a reviver a discusso pela ensima vez. Passara as ltimas horas 
em transe. Lembrava-se vagamente de ter regressado  sala de livros raros, de pr a pilha 
de dirios na estante e de fechar a porta ao sair. No caminho de regresso ao hotel meditara 
no que tinha dito, com os sentimentos de raiva e de traio a misturarem-se com a tristeza e 

o arrependimento. Passou as quatro horas seguintes no Greenleaf, na cama, a tentar 
perceber se poderia ter conduzido melhor a questo. No deveria ter entrado de rompante 
no gabinete dela. Tinha ficado assim to furioso com o contedo do dirio? A ponto de 
pensar que tinha sido enganado? Ou estaria simplesmente zangado com a Lexie e, tal como 
acontecia com ela,  procura de um pretexto para iniciar uma discusso? 
Se ele no tinha certezas, Alvin, depois de ter ouvido o relato do que se passara, no 
descobrira quaisquer respostas. Jeremy apenas sabia que estava exausto e que, apesar de 
saber que tinham de ir filmar, lutava contra a vontade de ir a casa dela para ver se ainda 
haveria maneira de remediar a situao. Partindo do princpio de que ela estava em casa. 
Tanto quanto sabia, Lexie deveria estar no baile, tal como toda a gente. 

Suspirou, pensando em nos momentos finais na biblioteca. 

-Vi tudo na maneira como ela olhou para mim. 
-Ento, acabou-se? 
-Pois, acabou-se - concluiu Jeremy. 
Na escurido, Alvin abanou a cabea e voltou-se. No conseguia perceber como  que o 
amigo se deixara prender daquela maneira, em to curto espao de tempo. No a 
considerara assim to sedutora, no se ajustava  imagem que ele tinha das mulheres do 
Sul. 

No interessava. Sabia que se tratava apenas de uma experincia; no tinha dvidas de que 
Jeremy daria a volta por cima, logo que entrasse no avio para regressar a casa. Jeremy 
ultrapassava sempre aquelas situaes. 

No baile, o presidente Gherkin encontrava-se num canto, sozinho, sentado a uma mesa, com 

o queixo apoiado na mo. 
Alimentara a esperana de ver Jeremy aparecer por l, de preferncia em companhia da 
Lexie, mas, logo que chegou, ouvira os voluntrios da biblioteca falando da zanga a que 
tinham assistido. Segundo o que lhe disseram, fora uma discusso a srio, que tivera vendo 
com um dos dirios e com uma tramia qualquer. 

Pensando melhor, decidiu que nunca deveria ter doado o dirio do pai  biblioteca, mas, na 
altura, pareceu-lhe que tomara uma deciso da maior importncia, pois o dirio constitua 
um testemunho bastante preciso da histria da vila. A biblioteca era a instituio adequada 
para o acolher. Porm, quem iria adivinhar o que ia acontecer nos quinze anos seguintes? 

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Quem sabia que a fbrica de txteis seria encerrada ou que a mina seria desativada? Quem 
sabia que centenas de pessoas iam ficar sem trabalho? Quem sabia que muitas famlias 
jovens iam partir para nunca mais regressarem? Quem sabia que a vila acabaria a lutar pela 
prpria sobrevivncia? 

Talvez no devesse ter acrescentado o cemitrio ao circuito. Talvez no devesse ter feito 
publicidade aos fantasmas, quando sabia que se tratava apenas das luzes do turno da noite 
na fbrica de papel. Contudo, era preciso no esquecer o simples fato de a vila precisar de 
algo em que se apoiar, de algo que levasse os turistas a procur-la, algo que os levasse a 
passar uns dias na vila, de modo a poderem apreciar aquele lugar maravilhoso. Se 
conseguisse atrair pessoas em nmero suficiente, a vila podia eventualmente transformar-se 
num lugar preferido pelos reformados, como Oriental, Jashington ou New Bern. 

Os pensionistas procuram lugares hospitaleiros para comer e descansar, procuram lojas onde 
possam fazer compras. No aconteceria de imediato, mas era o nico plano de que dispunha 
e tinha de comear por algum lado. Graas  incluso do cemitrio e das suas luzes 
misteriosas, tinham conseguido vender mais umas centenas de bilhetes para o circuito, 
enquanto a presena de Jeremy lhes dava a oportunidade de serem conhecidos a nvel 
nacional. 

Era bvio que sempre considerara Jeremy suficientemente esperto e capaz de descobrir o 
que se passava, sem ajuda de ningum. No era isso que o preocupava. Que interessava 
que Jeremy expusesse vendodade numa televiso de mbito nacional? Ou at na sua 
coluna? As pessoas de todo o pas ouviriam falar de Boone Creek; talvez algumas 
mostrassem curiosidade em ir ver. Qualquer publicidade era melhor do que nenhuma. A 
menos, era evidente, que a palavra tramia" fosse utilizada. 

Era uma palavra que soava mal, alm de no ter qualquer relao com o que estava a 
acontecer.  certo que ele sabia a origem das luzes, mas vendodade era conhecida por um 
nmero restrito de pessoas e, de qualquer das formas, onde  que estava o mal? Os fatos 
eram simples: havia uma lenda, as luzes existiam e algumas pessoas acreditavam que eram 
fantasmas. Outras limitavam-se a ir na onda, pensando em que aquilo fazia a vila parecer 
diferente e nica. De momento, as pessoas precisavam, mais do que nunca, de pensar 
nestes termos. 

Com memrias agradveis da vila, Jeremy Marsh perceberia o que estava em jogo. 
Desagradado, talvez no percebesse. E, de momento, o presidente Gherkin no sabia quais 
as impresses que Jeremy levaria ao partir, no dia seguinte. 

-O presidente parece preocupado, no achas? -notou Rodney. Rachel olhou, a sentir-se 
orgulhosa por terem estado juntos durante a maior parte do sero. O prprio fato de ele 
olhar com alguma freqncia para a porta, parecendo procurar a Lexie por entre a multido, 
no fazia diminuir o sentimento que experimentava, pela simples razo de que Rodney 
tambm parecia feliz por estar com ela. 

-Talvez. Mas ele tem sempre aquela expresso. 
-No, no  a do costume. Est pensando em numa questo sria. 
-Queres ir falar com ele? 
Rodney Refletiu. Tal como o presidente ou, segundo parecia, tal como toda a gente, tambm 
ele ouvira falar da discusso na biblioteca; porm, ao contrrio do que acontecia com a 
maioria das pessoas, ele tinha idias assentes sobre o que estava a acontecer. Conseguia 
encaixar as peas do quebra-cabeas, especialmente depois de ter reparado na expresso do 
presidente. De repente, apercebera-se de que a preocupao do presidente tinha vendo com 
a forma como Jeremy pudesse vir a apresentar o pequeno mistrio ao mundo. 

Quanto  discusso, tentara avisar a Lexie do que ia acontecer. Era inevitvel. Era 
possivelmente a mulher mais dura de cabea que ele alguma vez conhecera, uma pessoa 
que nunca cedia terreno. Podia ser inconstante e Jeremy acabara por ter de provar o 

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veneno. Embora tivesse preferido que a Lexie no se visse de novo metida naqueles apertos, 
consolava-se com a idia de que o caso poderia estar quase encerrado. 

-No -respondeu Rodney -, o que  que poderia dizer-lhe. A soluo j no est nas mos 
dele. 

Rachel enrugou a testa. 

-O que  que j no est nas mos dele? 
-Nada. 
Fez um gesto de desinteresse. 
-No  importante. 
A moa ficou a estud-lo por instantes, mas acabou por encolher os ombros. Ficaram juntos 
a ouvir uma cano acabar e a banda a atacar a seguinte. Ao ver a pista de dana cada vez 
mais ocupada, Rachel comeou a acompanhar o ritmo com o p. 

Preocupado como estava, Rodney nem parecia ver os danarinos. Queria falar com a Lexie. 
No caminho para o baile tinha passado, sem parar, pela casa dela e vira as luzes acesas e o 
carro parado no caminho de acesso. Antes, tinha recebido um relatrio de um colega, a 
inform-lo de que o menino da cidade e o amigo esquisito estavam a instalar a mquina de 
filmar no passeio de madeira. O que significava que a discusso ainda no terminara. 

Se a Lexie ainda tivesse as luzes acesas quando ele fosse a caminho de casa, supunha que 
iria bater-lhe  porta, tal como fez na noite em que Mr. Renaissance se foi embora. Tinha a 
sensao de que ela no ficaria inteiramente surpreendida com a presena dele. Calculava 
que ficaria a olh-lo por momentos, antes de lhe abrir a porta. Faria um descafeinado e, 
exatamente como acontecera da ltima vez, ele sentar-se-ia no sof durante horas, a ouvi-la 
recriminar-se por ter sido to parva. 

Congratulou-se mentalmente. Conhecia-a melhor do que se conhecia a si mesmo. 

No entanto, ainda no estava preparado para essa diligncia. Para comear, ela precisava de 
um pouco mais de tempo sozinha, de analisar toda a situao. Enquanto ele tinha de admitir 
que estava um pouco cansado de ser visto como uma espcie de irmo mais velho, que no 
tinha a certeza de estar com disposio para a ouvir. Afinal, estava bastante bem e, de 
momento, no se sentia ansioso por acabar o sero a servir de calmante. 

Alm do mais, a banda nem era m de todo. Muito melhor do que a do ano anterior. Pelo 
canto do olho, viu Rachel a seguir o ritmo com o corpo, satisfeito por ela o ter escolhido para 
companhia, tal como fizera na outra noite, na festa. O convvio com ela sempre fora Fcil, 
mas ultimamente estava a acontecer uma coisa estranha: de cada vez que a via, a Rachel 
parecia sempre um bocadinho mais bonita do que a imagem que conservava dela. Tratava-
se, sem dvida, de imaginao sua, mas no conseguia deixar de pensar que naquela noite 
ela parecia particularmente bonita. 

Rachel reparou que estava a ser observada e esboou um sorriso de embarao. 

-Desculpa. Gosto desta msica. 
Rodney pigarreou. 
-Gostarias de ir danar? - indagou. Ela arregalou os olhos. 
-Queres? 
-No sou grande danarino, mas... 
-Adorava -interrompeu a Rachel, j a pegar-lhe na mo. Ao segui-la para a pista de dana, 
decidiu que mais tarde veria o que tinha de fazer a respeito da Lexie. 

Doris deixara-se ficar sentada na cadeira de baloio da sala, a olhar com ar ausente na 
direo da janela e pensando em se a Lexie apareceria. A intuio levava-a a duvidar dessa 

#
possibilidade, mas aquela era uma das situaes em que gostaria de estar equivocada. Sabia 
que a Lexie estava preocupada, o que no era bem um pressentimento, mas sim uma 
percepo do que era bvio, e tudo tinha vendo com o Jeremy. 

De certa forma, lamentava ter empurrado Lexie para ele. Agora, olhando para trs, sabia 
que deveria ter suspeitado de que tudo acabaria daquela maneira; ento, o que a teria 
levado a estar na origem da relao? Porque Lexie se sentia s? Porque Lexie estava num 
beco sem sada desde que se apaixonara pelo jovem de Chicago? Por ter chegado  
concluso de que Lexie se assustava com a possibilidade de voltar a apaixonar-se por 
algum? 

Por que razo no se limitara a apreciar a companhia de Jeremy? Na realidade, fora tudo o 
que pretendera que a neta fizesse. Jeremy era inteligente e encantador; tudo o que Lexie 
necessitava era de concluir que ainda havia homens como ele disponveis. A neta precisava 
de compreender que nem todos os homens eram como o Avery ou como o jovem de 
Chicago. Como  que ela lhe chamava? Mr. Renaissance? Tentou recordar-se do nome mas 
concluiu que no era importante. Importante era a Lexie; e a av estava preocupada com 
ela. 

Doris sabia que, com o tempo, ela ficaria bem. No tinha dvidas de que a neta acabaria por 
aceitar a realidade do que acontecera e de encontrar uma forma de prosseguir. Com o 
decorrer do tempo. Uma das caratersticas que reconhecia na neta era a sua capacidade de 
sobrevivncia. 

Suspirou. Sabia que Jeremy estava magoado. Se Lexie se apaixonara, Jeremy apaixonara-se 
ainda mais profundamente, alm de que ela tinha aprendido a arte de deixar relaes para 
trs e de continuar vivendo como se nunca tivessem acontecido. 

Pensava que o pobre Jeremy estava vivendo uma situao injusta. 

Lexie encontrava-se no cemitrio de Cedar Creek, envolta no nevoeiro cada vez mais 
espesso, a olhar o pedao de terra onde os pais haviam sido sepultados. Sabia que Jeremy e 
Alvin estariam a Filmar o viaduto e Riker's Hill a partir do passeio de madeira, o que 
significava que tinha toda a noite para se entregar s suas reflexes solitrias. 

No pensara demorar-se, mas, por qualquer razo, sentira-se compelida a ir ali. Fizera o 
mesmo depois de terminadas as relaes com Avery e com Mr. Renaissance; ao apontar o 
foco da lanterna para a pedra onde estavam inscritos os nomes dos pais, pensou quanto 
gostaria de os ter ali para falarem com ela. 

Sabia que tinha uma viso romntica dos pais, uma viso que mudava consoante os seus 
estados de esprito. Por vezes, gostava de os considerar conversadores e divertidos, mas 
havia alturas em que os via como ouvintes atentos. De momento, preferia consider-los 
sbios e fortes, pessoas capazes de lhe darem os conselhos que a levassem a considerar a 
situao menos confusa. Estava cansada de cometer erros. Ainda no fizera outra coisa, 
pensava com desespero, e naquele momento sabia que estava prestes a cometer mais um, 
fizesse o que fizesse. 

Do outro lado do rio, s as luzes da fbrica de papel eram visveis atravs do nevoeiro, com 
a prpria vila a perder-se na nvoa, como se fosse uma fantasia. Com a aproximao do 
comboio -pelo menos era o que dizia o horrio elaborado por Jeremy -Alvin fez a ltima 
inspeo  mquina apontada para Riker's Hill. Aquela era a filmagem que o preocupava. As 
imagens do viaduto no apresentavam dificuldades, mas como Riker's Hill se encontrava 
mais distante, alm de mergulhado no nevoeiro, no tinha a certeza de que a mquina 
funcionasse. No fora concebida para fotografia a longa distncia, o equipamento de que 
agora sentia a falta. Embora tivesse trazido as melhores objetivas e filmes de alta 
velocidade, antes de partir de Nova Iorque bem gostaria que Jeremy lhe tivesse transmitido 
aquele pequeno pormenor. 

Em parte, desculpava o amigo, pois havia alguns dias que Jeremy deixara de pensar com 
clareza. Em condies normais, numa situao como aquela, Jeremy falaria e contaria piadas 

#
sem parar, mas o seu estado de esprito atual obrigara-o a estar praticamente calado havia 
um par de horas. Em vez de uma filmagem fcil, uma espcie de perodo de frias, as duas 
ltimas horas tinham sido de trabalho a srio, especialmente devido ao frio. No fora para 
aquilo que se oferecera, mas tinha de agentar... s tinha de aumentar os honorrios e 
mandar a conta ao Nate. 

Entretanto, Jeremy continuava junto ao gradeamento, de braos cruzados, a olhar para um 
banco de nuvens. 

-J te disse que o Nate telefonou antes de sairmos? -perguntou Alvin, numa nova tentativa 
de chamar o amigo  realidade. 

-Ah, sim? 
-Interrompeu-me a sesta - esclareceu Alvin -, e comeou a berrar comigo por teres o celular 
desligado. 
Apesar de preocupado, Jeremy sorriu. 

-Aprendi a mant-lo desligado durante a maior parte do tempo. 
-Pois, bem... gostaria que me tivesses informado da deciso. 
-O que  que ele pretendia? 
-O mesmo de sempre. A ltima atualizao. Mas regista isto: perguntou se poderias 
fornecer-lhe uma amostra. 

-Uma amostra de qu? 
-Julgo que estava referindo-se aos fantasmas. Pretendia saber se eles exsudavam lquido, 
ou coisa do gnero. Pensou que talvez pudesses levar qualquer coisa  reunio da prxima 
semana. 
-se exsudavam lquido? 
Alvin ergueu as mos defensivamente. 


-A expresso no  minha,  dele. 
-Mas ele sabe que so apenas as luzes da fbrica de papel. 
Alvin acenou que sim: 

-Pois sabe. Pensou que seria um pormenor interessante. Qualquer coisa capaz de os 
impressionar. 

Jeremy abanou a cabea, sem querer acreditar. Ao longo dos anos o Nate distinguira-se por 
um conjunto de idias malucas, mas aquela parecia impossvel de conceber. Contudo, ele 
era assim. Tudo o que lhe viesse  cabea acabava por lhe sair da boca e, em metade das 
ocasies, nem se lembrava do que tinha dito. 


-Tambm disse que lhe devias ligar - acrescentou Alvin. 
-Ligarei - prometeu Jeremy -, mas deixei o celular no hotel - acrescentou. 
-No lhe falaste no dirio, pois no? 
-Quando falei com ele nem sabia da existncia do dirio. S me falaste nisso depois de ele 
ter telefonado. Como te disse, interrompeu-me a sesta. 
-se voltar a ligar, no lhe contes nada, pelo menos por agora, prometes? - pediu Jeremy. 


-No desejas que ele saiba que o presidente de Cmara montou a tramia? 
-No. Ainda no. 
Alvin olhou-o fixamente. 
-Ainda no, ou nunca? 
#
No obteve resposta imediata. O problema era esse, no era? 

-Ainda no decidi. 
Depois de olhar mais uma vez atravs do visor, Alvin comentou: 
-Uma deciso difcil. Como sabes, pode residir a o principal interesse da histria. Isto , as 
luzes so uma coisa, mas tens de concordar que a soluo no  l muito interessante. 


-O que  que pretendes dizer? 
-Para a televiso. No estou totalmente convencido de que se mostrem especialmente 
interessados no fato de as luzes serem provocadas pela passagem de um comboio. 

-No se trata apenas da passagem do comboio -corrigiu Jeremy. -O que interessa  a 
maneira como as luzes da fbrica de papel so Refletidas em Riker's Hill pela passagem do 
comboio; interessa saber que  a maior densidade do nevoeiro, devida ao afundamento do 
cemitrio, que faz as luzes aparecer. 

Alvin simulou um bocejo. 

-Desculpa. O que  que estavas a dizer? 
-No  uma explicao maadora - insistiu Jeremy. 
-J te apercebeste de quantas coisas tm de acontecer simultaneamente para que o 
fenmeno acontea? As pedreiras, que ao alterarem os nveis freticos provocaram o 
afundamento do cemitrio? A localizao do viaduto? As fases da lua, que s permitem que 
as luzes sejam vistas em alturas de escurido absoluta? A lenda? A localizao da fbrica de 
papel e o horrio do comboio? 

Alvin no se mostrou convencido. 

-Cr no que te digo.  uma maada com M maisculo. Para te ser franco, tudo seria bem 
mais interessante se no tivesses encontrado a soluo. Os telespectadores adoram 
mistrios. Especialmente em lugares como Nova Orles ou Charleston, em locais sofisticados 
ou romnticos. Mas umas luzes Refletidas em Boone Creek, Carolina do Norte? Acaso 
acreditas que as pessoas de Nova Iorque ou Los Angeles vo ligar a uma histria dessas? 

Jeremy ia abrir a boca para lhe responder, quando, de sbito, se recordou de que Lexie lhe 
dissera exatamente o mesmo. E ela vivia ali. No silncio que se seguiu, Alvin voltou  carga. 

-se ests determinado a entrar na televiso, tens de arranjar qualquer coisa para apimentar 
a histria; o dirio de que me falaste podia ser o condimento de que precisas. Podes 
apresentar a pea tal como a concebeste para, no final, fazeres saltar o dirio. Se fizeres 
tudo bem feito, talvez consigas atrair a ateno dos produtores. 

-Achas que devo lanar a vila s feras? 
Alvin negou com a cabea. 
-No disse isso. E, se queres que te seja franco, no tenho a certeza de que o dirio seja 
suficiente. S pretendo dizer-te que, a no conseguires levar-lhes um exsudado" qualquer, e 
se no quiseres fazer figura de idiota na reunio,  melhor pensares no uso que podes fazer 
do dirio. 

Jeremy olhou para longe. Sabia que o comboio ia aparecer dentro de minutos. 

-se eu fizer isso, a Lexie nunca mais me fala -comentou. Encolheu os ombros. -Partindo do 
princpio de que ainda deseje falar comigo. 
O companheiro no respondeu. Jeremy desviou os olhos para ele. 


-O que  que me aconselhas a fazer? 
Alvin respirou fundo. 
-Penso que tudo se resume a saberes o que  mais importante para ti, no achas? 
#
DEZENOVE 

Jeremy dormiu mal na ltima noite passada no Greenleaf. Ele e Alvin concluram as 
Filmagens -quando o comboio passou, Riker's Hill s absorveu uma pequena quantidade de 
luz Refletida -depois de verem o Filme, ambos concordaram que ficara suficientemente bom 
para se conseguir provar a teoria elaborada por Jeremy; s conseguiriam melhor se 
trouxessem equipamento mais potente. 

No entanto, no caminho para o hotel, Jeremy no pensou muito no mistrio. Em vez disso, 
voltou, uma vez mais, a rever mentalmente o filme dos ltimos dias. Recordou a primeira 
vez que vira a Lexie, no cemitrio, e as espirituosas conversas entre ambos na biblioteca. 
Pensou no almoo em Riker's Hill e na visita ao passeio de madeira, lembrou-se da 
espantosa festa dada em sua honra e como se sentiu na primeira vez que viu as luzes no 
cemitrio. Porm, acima de todos, recordou os momentos em que comeou a aperceber-se 
de que estava apaixonado por ela. 

Seria possvel que tivessem acontecido tantas coisas no curto espao de dois dias? Na altura 
em que chegou ao Greenleaf e entrou no seu quarto estava a tentar apontar o momento 
exato em que tudo comeara a correr mal. No podia ter a certeza, mas agora parecia-lhe 
que Lexie tinha andado a tentar fugir dos seus prprios sentimentos, no estava apenas a 
querer afastar-se dele. Nesse caso, quando  que ela teria comeado a sentir-se atrada por 
ele? Durante a festa, tal como ele? No cemitrio? Num ponto qualquer da tarde desse dia? 

No fazia idia de qual poderia ser a resposta. Sabia apenas que a adorava e que no 
conseguia admitir a idia de no voltar a v-la. 

As horas passavam lentamente; com o seu vo a partir de Raleigh ao meio-dia, tinha de 
deixar o hotel bem cedo. Levantou-se antes das seis horas, acabou de arrumar as suas 
coisas e carregou-as no carro. A manh estava fria; depois de se assegurar que as luzes do 
quarto de Alvin j estavam acesas, encaminhou-se para o escritrio. 

Jed, como se esperava, mostrou-se carrancudo. Ainda mais despenteado do que era habitual 
e com as roupas amarrotadas, dava a idia de ter-se levantado havia poucos minutos. 
Jeremy colocou a chave do quarto em cima do balco. 

-Tem aqui excelentes instalaes -reconheceu. -No deixarei de as recomendar aos meus 
amigos. 

Se possvel, a expresso de Jed tornou-se ainda mais mesquinha, mas Jeremy respondeu-lhe 
com um sorriso insinuante. No caminho de regresso ao quarto, viu faris a oscilar no meio 
do nevoeiro e um carro a entrar lentamente no caminho de acesso. Por breves instantes, 
pensou que era a Lexie e sentiu um aperto no peito; as suas esperanas desvaneceram-se 
com a mesma rapidez, logo que reconheceu o carro. 

O presidente Gherkin, protegido por um casaco e um cachecol emergiu do automvel. Sem 
mostrar qualquer partcula da energia que revelara durante os encontros anteriores, 
caminhou com cuidado at onde Jeremy se encontrava. 

-A preparar a partida, suponho - comeou. 
-Acabei agora mesmo. 
-O Jed no lhe apresentou a conta, pois no? 
-No. Obrigado por tudo. 
-No tem de qu. Como lhe disse, era o mnimo que podamos fazer por si. S espero que 
tenha apreciado a estadia na nossa excelente vila. 
Sem deixar de reparar no ar de preocupao do presidente da Cmara, Jeremy acenou que 

sim, que apreciara. 
Pela primeira vez desde que se tinham conhecido, Gherkin parecia lutar com a falta de 


#
palavras. Com o silncio a tornar-se insuportvel, teve de ajeitar melhor o casaco e o 
cachecol. 

-Bom, s quis vir dizer-lhe que tanto eu como as restantes pessoas da terra tivemos muito 
prazer em conhec-lo. Neste caso, sei que falo em nome da vila, o senhor deixou muito boa 
impresso. 

-Porqu o artifcio? - inquiriu Jeremy ao enfiar as mos nos bolsos. 
Gherkin suspirou. 
-A deciso de acrescentar o cemitrio ao circuito? 
-No. Estou a referir-me ao fato de o seu pai ter registado a soluo do mistrio no dirio e 
de o senhor no me ter falado nisso. 

Uma expresso de tristeza perpassou pelo rosto de Gherkin. 

-Tem toda a razo -reconheceu, passados momentos. Depois prosseguiu, com voz 
hesitante: - Na realidade, o meu pai resolveu o mistrio, mas suponho que no podia agir de 
outro modo -prosseguiu, a olhar Jeremy nos olhos. -Sabe a razo de ele se ter interessado 
tanto pela histria da nossa vila? 

Jeremy abanou a cabea. 

-Na Primeira Guerra Mundial, o meu pai serviu no exrcito com um homem chamado Lloyd 
Shaumberg. Era tenente e o meu pai era soldado raso. As pessoas de hoje parecem no 
perceber que durante a guerra no havia apenas soldados profissionais a combater nas 
linhas da frente. Na sua maioria, os homens tinham profisses comuns: eram padeiros, 
cortadores, mecnicos. Shaumberg era historiador. Pelo menos era assim que o homem se 
referia a si mesmo. De fato, era apenas professor de Histria numa escola secundria do 
Delaware, mas o meu pai jurava que se tratava do melhor oficial de todo o exrcito. 
Costumava entreter os seus homens com histrias do passado, histrias que quase ningum 
mais sabia, mas permitiam que o meu pai sentisse menos medo do que estava a acontecer. 
De qualquer modo, depois do desembarque no Sul da Itlia, Shaumberg, o meu pai e o resto 
do peloto foram cercados pelos alemes. Shaumberg ordenou aos homens que retirassem, 
enquanto ele ficava a tentar proteg-los. No tenho escolha, afirmou. Toda a gente soube 
que se tratava de uma misso suicida, mas Shaumberg era assim. 

Gherkin fez uma pausa. 

-Fosse como fosse, o meu pai continuou vivo e Shaumberg morreu; depois de regressar a 
casa, acabada a guerra, o meu pai disse que ia tornar-se tambm historiador, uma forma de 
homenagear o seu amigo. 

Como Gherkin no continuasse, Jeremy fitou nele um olhar de curiosidade. 

-Por que motivo est a contar-me isso? 
-Porque -respondeu Gherkin -, na minha maneira de ver, tambm eu no tinha escolha. 
Qualquer cidade ou vila precisa de qualquer coisa a que possa chamar sua, algo que possa 
lembrar os habitantes de que a sua terra  especial. Em Nova Iorque no tm de se 
preocupar com isso. H a Broadway, a Wall Street, o Empire State Building e a Esttua da 
Liberdade. Mas aqui, depois de as indstrias terem desaparecido, olhei  minha volta e vi 
que s nos restava uma lenda. E as lendas... bem, so apenas relquias do passado, uma vila 
precisa de mais do que isso para sobreviver.  tudo o que tenho tentado fazer, procurar um 
meio de manter a vila viva. Entre tanto, voc apareceu. 

Jeremy desviou o olhar, pensando em nos edifcios entaipados em que tinha reparado  
chegada, a lembrar-se dos comentrios da Lexie sobre do encerramento da fbrica de 
txteis e da mina de fsforo. 

-Portanto, veio aqui esta manh para me mostrar o seu lado da histria? 
-No - replicou Gherkin. 
#
-Vim aqui para lhe explicar que a idia foi inteiramente minha. No foi dos membros do 
Conselho Municipal nem dos habitantes da terra. Talvez fosse um erro da minha parte. 
Talvez voc no concorde comigo. Mas fiz apenas o que julguei melhor para esta terra e 
para quem aqui vive. S lhe peo que, quando tiver de escrever o seu artigo, no se 
esquea de que no houve outras pessoas envolvidas. Se o sacrificado tiver de ser eu, no  
caso que me apoquente muito. E julgo que o meu pai teria compreendido. 

Sem esperar pela resposta, Gherkin voltou para o carro e no tardou a ser engolido pelo 
nevoeiro. 

A madrugada viera mostrar um cu cinzento de nuvens baixas. Jeremy estava a ajudar o 
Alvin a carregar o resto do equipamento quando viu a Lexie chegar. 

Saiu do carro numa atitude semelhante  que ele lhe vira na primeira vez, a olh-lo com os 
seus impenetrveis olhos de cor violeta. Trazia na mo o dirio de Gherkin. Encararam-se 
por momentos, como se nenhum soubesse o que dizer. 

Alvin, que estava junto da bagageira do carro, quebrou o silncio. 

-Bom dia - saudou. 
Ela forou um sorriso. 
-Ol, Alvin. 
-Levantou-se cedo. 
Lexie encolheu os ombros e olhou para Jeremy. Alvin olhou para um e para o outro, antes 
de apontar o hotel com um gesto de cabea. 

-Julgo que  melhor dar uma ltima vista de olhos pelo quarto -desculpou-se, apesar de 
ningum parecer prestar-lhe ateno. Depois de o amigo se ter afastado, Jeremy respirou 
fundo: 

-No pensei que viesses. 
-Para te ser franca, tambm no tinha a certeza se viria. 
-Ainda bem que decidiste vir - agradeceu Jeremy. 
O cu acinzentado recordava-lhe o passeio pela praia nas imediaes do farol, fazia-lhe 
lembrar quanto a adorava. Embora o seu primeiro instinto tivesse sido eliminar o espao que 
os separava, a postura rgida de Lexie manteve-os longe um do outro. 
Lexie fez um aceno de cabea na direo do carro. 
-segundo parece, ests preparado para partir. 


-Sim. Est tudo pronto. 
-E terminaste as filmagens das luzes? 
Ante a banalidade da conversa, Jeremy hesitou. 
-ser que vieste aqui para falar do meu trabalho e para veres se o carro estava carregado? 
-No. No foi para isso. 
-Ento, vieste fazer o qu? 
-Pedir desculpa pela maneira como te tratei ontem na biblioteca. No devia ter agido 
daquela forma. No fui justa contigo. 
Ele mostrou um sorriso forado. 


-No faz mal. Vou conseguir ultrapassar isso. E tambm tenho de pedir-te desculpa. 
Lexie mostrou o dirio. 
-Trouxe-te isto. Para o caso de o quereres. 
#
-Pensei que no desejavas que eu o utilizasse. 
-E no desejo. 
-E vens entregar-mo. Porqu? 
-Porque devia ter-te falado nessa parte do dirio e no quero que penses que h outras 
pessoas envolvidas num pretenso encobrimento. Percebo o que te levou pensando em que a 
vila estava a preparar qualquer coisa; esta  uma oferta de paz. Mas quero assegurar-te que 
no existiu nenhum esquema... 

-Eu sei - interrompeu Jeremy. - O presidente da Cmara veio aqui esta manh. 
Ela assentiu, baixou os olhos e depois voltou a olh-lo de novo. Nesse instante, ele pensou 
que Lexie ia dizer qualquer coisa, mas acabara por se arrepender. 

-Bom, acho que  tudo -rematou, ao meter as mos nos bolsos do casaco. -ser melhor 
que te deixe acabar para poderes seguir o teu caminho. Nunca fui apreciadora de 
despedidas prolongadas. 

-Ento, isto  a despedida? - perguntou Jeremy, a tentar que ela no desviasse o olhar. 
Quase pareceu triste ao inclinar a cabea para um lado. 
-Tem de ser, no tem? 
-Ento,  isso? Vieste c s para me dizer que est tudo acabado? -indagou, de m 
catadura, a passar a mo pelo cabelo. - No tenho voto na matria? 
Lexie respondeu com voz calma: 
-Jeremy, j discutimos tudo isso. No vim aqui esta manh para discutir, nem tampouco 


para te fazer zangar. Vim c por lamentar a maneira como te tratei ontem. E por no querer 
que pensasses que esta semana no significou nada para mim. Significou. 
As palavras dela doam como murros e Jeremy teve de lutar para conseguir falar. 


-Mas tinhas a inteno de acabar. 
-A minha inteno  ser realista. 
-E se eu te disser que te adoro? 
Ela olhou-o durante um longo momento. 
-No digas isso. 
Jeremy deu um passo na direo dela. 
-Mas  verdade. Amo-te. 
No posso evitar este sentimento. 
-Jeremy... por favor... 
Ele avanou mais depressa, a sentir que finalmente estava a abalar-lhe as defesas, com a 
sua coragem a aumentar a cada passo. 


-Quero fazer tudo para que a relao funcione. 
-No podemos. 
- evidente que podemos -insistiu Jeremy, a dar a volta ao carro. -Podemos pensar numa 
maneira. 


-No! - exclamou, com a voz mais dura, a dar um passo atrs. 
-Porqu? 
-Porque vou casar com o Rodney, percebeste? 
A resposta deixou-o petrificado. 
#
-De que  que ests falando ? 
-A noite passada, depois do baile, ele foi a minha casa e conversamos. Falamos durante 
muito tempo.  honesto,  trabalhador, adora-me e  daqui. Tu no s. 
Estupefato com a notcia, ele ficou a olh-la. 


-No acredito. 
De expresso impassvel, Lexie devolveu-lhe o olhar. 
-Acredita. 
Como Jeremy no conseguisse responder-lhe, ela entregou-lhe o dirio, ergueu a mo numa 
breve despedida e recuou, sem desviar os olhos dele, quase como fizera no cemitrio no dia 
em que se conheceram. 


-Adeus, Jeremy - despediu-se, antes de se virar para entrar no carro. 
Ainda em choque, Jeremy ouviu o rodar da ignio e viu-a olhar por cima do ombro para 
fazer marcha atrs. Deu uns passos para a frente para pr as mos no cap, a tentar faz-la 
parar. Porm, quando o carro comeou a mover-se deixou que os dedos escorregassem pela 
superfcie mida, acabando por dar um pequeno passo atrs quando o carro comeou a 
rodar. 

Por um breve instante, Jeremy pensou ver-lhe um brilho de lgrimas nos olhos. Mas depois 
ela olhou em frente e ele soube, de uma vez para sempre, que no voltaria a v-la. 

Quis gritar, pedir-lhe que parasse. Quis dizer-lhe que podia ficar, que queria ficar, que, se 
partir significava perd-la, no fazia sentido voltar para casa. Mas as palavras no saram e, 
ainda que lentamente, o carro passou por ele e comeou a aumentar de velocidade para 
entrar na estrada. 

Envolto no nevoeiro, Jeremy manteve-se parado, a olhar at o carro ser apenas uma 
sombra, de que s se viam as luzes traseiras. E depois at as luzes desapareceram e o 
prprio som do motor desvaneceu-se no bosque. 

#
VINTE 

O resto do dia passou como se ele estivesse vendo atravs dos olhos de outra pessoa. 
Magoado e furioso, mal se recordava de ter seguido o Alvin pela estrada de acesso a 
Raleigh. Em mais de uma ocasio deu consigo a espreitar pelo retrovisor, a olhar o asfalto 
preto, observando os carros que o seguiam, com a esperana de que um deles fosse o da 
Lexie. Ela mostrara-se perfeitamente firme no desejo de terminar a relao, mas, mesmo 
assim, Jeremy sentia o nvel de adrenalina a subir sempre que avistava um carro parecido 
com o dela, a ponto de abrandar para poder ver melhor. Entretanto, Alvin ganhava terreno. 
Jeremy sabia que devia seguir atento  estrada que se estendia  frente do pra-brisas; em 
vez disso, passou a maior parte do tempo a olhar pelo retrovisor. 

Depois de entregar o carro alugado, atravessou o terminal e dirigiu-se para a porta de 
embarque. Ao passar por lojas apinhadas de gente, ao desviar-se de pessoas que se lhe 
atravessavam no caminho, nunca deixou de pensar nos motivos que levariam a Lexie a 
desistir de tudo o que ambos tinham partilhado. A bordo do avio, tais pensa mentos s 
foram interrompidos quando Alvin se sentou a seu lado. 

-Obrigado de teres arranjado as coisas de forma a viajarmos juntos -agradeceu Alvin em 
tom sarcstico, ao enfiar o saco na bagageira lateral do avio. 

-O qu? - indagou Jeremy. 
-Os lugares. Pensei que tratarias do assunto quando fizesses o chec-in. Ainda bem que 
levantei a questo quando iam entregar-me o carto de embarque. Estava destinado a 
sentar-me na ltima fila. 

-Desculpa - desculpou-se Jeremy. - Devo ter-me esquecido. 
-Pois, acho que sim -concordou Alvin, ao deixar-se cair no assento ao lado dele. Olhou de 
lado para o companheiro. - Ainda no queres falar do assunto? 
Jeremy hesitou. 


-Nem sei se h alguma coisa de que falar. 
-Foi o que me disseste h bocado. No entanto, tanto quanto sei, fazia-te bem. No tens 
ouvido aquelas discusses na televiso? Expressa o que sentes, liberta-te do sentimento de 
culpa, procura e achars? 

-Talvez mais tarde. 
-Como queiras. Se no queres falar, timo. Aproveito para dormir uma soneca -decidiu; 
recostou-se na cadeira e fechou os olhos. 

Jeremy ficou a olhar pela janela e Alvin dormiu durante a maior parte da viagem. 

Logo que apanhou um txi para sair do aeroporto de La Guardia, Jeremy comeou a ser 
bombardeado pelo barulho e pelo movimento febril da cidade: homens de negcios que 
corriam de pastas na mo, mes que rebocavam os filhos pequenos enquanto tentavam 
ajeitar os sacos de compras, o cheiro dos escapes dos automveis, buzinas a tocar, os uivos 
das sirenes da Polcia. Tudo perfeitamente normal, um mundo em que crescera e a que 
estava habituado; o que o surpreendeu, enquanto olhava pela janela do carro e procurava 
orientar-se pela realidade da sua vida, foi ter pensado no Greenleaf e no absoluto silncio 
daquele lugar. 

De regresso ao seu prdio de apartamentos, encontrou a caixa de correio atafulhada de 
folhetos de publicidade e de faturas para pagar; agarrou na papelada toda e seguiu escada 
acima. Dentro do apartamento, estava tudo como ele o tinha deixado. Revistas espalhadas 
pela sala, o escritrio desarrumado como era habitual e ainda havia trs garrafas de Heinken 
no frigorfico. Depois de largar a mala no quarto, abriu uma das garrafas de cerveja e levou 

o computador e a sacola para a secretria. 
#
Tinha toda a informao que acumulara durante os ltimos dias: os apontamentos e as 
cpias dos artigos, a cmara digital que continha as fotografias que tirara no cemitrio, o 
mapa e o dirio. Ao comear a tirar as coisas da mala, um mao de postais caiu em cima da 
secretria e ficou um momento pensando em onde os tinha obtido, durante o primeiro dia 
passado na vila. O primeiro postal mostrava uma panormica da vila a partir do rio. Rasgou 
a embalagem e comeou a apreciar os restantes. Encontrou fotografias da Cmara 
Municipal, a imagem desfocada pelo nevoeiro de uma gara azul a passear nas guas baixas 
de Boone Creek e barcos  vela reunidos numa tarde de mau tempo. Mais ou menos a meio 
do pacote de postais, deu consigo a olhar para uma fotografia da biblioteca. 

Ficou parado, pensando em em Lexie, a compreender uma vez mais quanto a adorava. 

O postal, reproduo de uma velha fotografia a preto e branco, mostrava a vila por alturas 
de 1950. Em primeiro plano, via-se o teatro com clientes bem vestidos na fila para compra 
de bilhetes; ao fundo, na pequena zona relvada ao lado da rua principal, havia um rvore de 
Natal decorada. Nos passeios viam-se casais a apreciarem montras decoradas com grinaldas 
e luzes, enquanto outros passeavam de mos dadas. Ao analisar as fotografias, Jeremy ps-
se a imaginar como seriam as festas em Boone Creek h cinqenta anos. Em vez de 
passeios de madeira, viu passeios cheios de mulheres de leno e homens de chapu, com 
crianas a apontarem para cima, para os pingentes de gelo suspensos de um sinal de 
trnsito. 

Enquanto olhava, deu consigo pensando em no presidente Gherkin. 

O postal mostrava no s o modo como se vivia em Boone Creek meio sculo antes, mas 
tambm a maneira como o presidente gostaria que se voltasse a viver. Uma existncia como 
a retrata Norman Rockwell, embora com um certo ar sulista. Ficou a olhar o postal durante 
muito tempo, pensando em em Lexie e a Refletir sobre o que ia fazer com a histria. 

A reunio com os produtores de televiso estava marcada para a tarde de tera-feira. Antes, 
Nate e Jeremy encontraram-se no seu restaurante preferido, o Smith and Wollensky. Nate 
alegre, como de costume, excitado por ver Jeremy e encantado por t-lo novamente na 
cidade, onde o podia vigiar. Logo que se sentou comeou falando do trabalho fotogrfico do 
Alvin, descreveu as imagens como fantsticas, como as daquela casa assombrada de 
Amityville, mas reais", e assegurou-lhe que os gestores da televiso iam ador-las. Jeremy 
manteve-se calado durante a maior parte do tempo, a ouvir o arrazoado do Nate, mas 
quando viu uma mulher de cabelo escuro a sair do restaurante, com o cabelo exatamente do 
mesmo comprimento do da Lexie, sentiu um n na garganta e, subitamente, pediu desculpa, 
alegando que precisava de ir  casa de banho. 

Quando regressou, Nate estava a analisar a ementa. Jeremy acrescentou adoante ao ch 
gelado que tinha pedido. Tambm ele passou os olhos pela ementa e disse que pensava 
mandar vir peixe-espada. Nate ficou a olhar para ele. 

-Mas isto  uma churrasqueira - protestou. 
-Eu sei. Mas apetece-me um prato mais leve. 
Com ar ausente, Nate olhou para o tronco, como se estivesse pensando em que devia fazer 
o mesmo. No final, enrugou a testa e ps a ementa de lado. 
-Prefiro o bife. Tenho pensado nele toda a manh. Mas, onde  que ns estvamos? 
-falando da reunio - recordou-lhe Jeremy, levando o Nate a inclinar-se para ele. 
-Ento, no se trata de fantasmas, pois no? Quando falamos ao telefone disseste que 
tinhas visto as luzes e que tinhas quase a certeza de qual era a sua origem. 

-No - acentuou Jeremy. - No so fantasmas. 
-Nesse caso, so o qu? 
Jeremy puxou dos apontamentos e gastou alguns minutos a explicar-lhe o que tinha 
conseguido descobrir, comeando pela lenda e descrevendo em pormenor o processo de 

#
descoberta. At ele se apercebeu da monotonia do seu discurso. Nate ouvia e acenava 
constantemente mas, ao terminar, Jeremy notou-lhe as rugas de preocupao na testa. 

-A fbrica de papel - comentou. 
-Tinha esperana de que fossem alguns testes levados a cabo pelo Governo, qualquer coisa 
do gnero. Com os militares a testarem um novo avio ou uma mquina dessas acrescentou. 
Depois de uma pausa, prosseguiu: -Tens a certeza de que no era um 
comboio militar? As gentes da informao adoram revelar segredos dos militares. Programas 
de armas secretas, coisas desse tipo. Ou talvez tenhas ouvido por l qualquer pormenor para 

o qual no encontres explicao. 
-Lamento -respondeu Jeremy com voz neutra -, mas trata-se apenas de luzes Refletidas no 
comboio. No ouvi quaisquer rudos. 

Ao observar o agente, Jeremy viu as suas possibilidades comearem a desmoronar-se. Sabia 
que, quando se tratava de uma histria, os instintos do Nate eram superiores aos dos 
editores. 

-No  grande coisa - comentou. 
-Conseguiste descobrir qual era vendoso verdadeira da lenda? Talvez pudssemos explorar 
o ngulo racista. 
Jeremy negou com acenos de cabea. 

-Nem consegui confirmar a existncia de Hettie Doubilet. Para alm das lendas, no fui 
capaz de encontrar vestgios dela em qualquer documento oficial. E Watts Landing 
desapareceu h muito tempo. 

-Escuta, no quero parecer desmancha-prazeres, mas, se queres ser aceite, tens de 
apimentar o trabalho. Se no mostrares entusiasmo, no so eles que vo mostrar-se 
excitados. Estou certo ou estou errado? Estou certo,  evidente. Mas, v l, s franco 
comigo. Encontraste mais qualquer coisa, no foi? 

-Ests falando de qu? 
-Do Alvin; quando foi entregar os vdeos fiz-lhe umas perguntas sobre da histria s para 
saber a opinio dele, e falou-me de uma outra coisa que encontraste, algo interessante. 
A expresso de Jeremy no se alterou. 

-Ah, sim? 
-As palavras no so minhas, so dele -esclareceu o Nate, a mostrar-se muito satisfeito 
consigo prprio. -Mas no me esclareceu do que se tratava. Disse que isso era contigo. O 
que significa que deve ser importante. 

Ao olhar para Nate, Jeremy quase sentia o dirio a abrir um buraco na bolsa a tiracolo. Do 
outro lado da mesa, o agente brincava com o garfo, fazendo-o rodar nos dedos. 

-Bom - comeou Jeremy, a saber que era chegada a altura de tomar uma deciso. 
Como no continuasse, Nate inclinou-se sobre a mesa. 
-Ento? 
Mais tarde, depois de terminada a reunio, Jeremy encontrava-se sozinho no apartamento, 
observando com ar ausente o mundo l de fora. Tinha comeado a nevar, os flocos 
formavam uma massa que caa em espiral e que as luzes dos candeeiros da rua tornavam 
hipntica. 

A reunio tinha comeado bem; Nate tinha comunicado tal entusiasmo aos produtores que 
estes ficaram transfigurados com o que viram. O agente tinha feito um excelente trabalho. 
Depois, Jeremy falou da lenda, a notar o crescente interesse dos interlocutores enquanto 
lhes falava de Hettie Doubilet, e referiu a forma meticulosa como abordou a investigao. 

#
Traou o paralelo entre Boone Creek e outras investigaes de fenmenos misteriosos e, 
mais de uma vez, viu os gestores trocarem olhares, claramente a pensarem na maneira de o 
integrarem no programa. 

Contudo, mais tarde, sozinho no apartamento, com o dirio pousado em cima das coxas, 
sabia que no iria trabalhar com eles. A sua histria, o mistrio do cemitrio de Boone Creek, 
era como um romance excitante que fracassava no final. A soluo era demasiado simples, 
demasiado normal, e no deixara de notar o desapontamento deles no momento da 
despedida. Nate prometera manter-se em contato, tal como eles fizeram, mas Jeremy sabia 
que no haveria mais telefonemas. 

Quanto ao dirio, no lhes falara nele, tal como fizera em relao a Nate. 

Mais tarde, telefonou ao presidente Gherkin. Tinha uma proposta simples a apresentar-lhe: 
Boone Creek deixaria de falar aos turistas inscritos no Circuito das Manses Histricas da 
possibilidade de verem os fantasmas do cemitrio. A palavra assombrado, seria retirada da 
brochura, bem como qualquer insinuao de que as luzes estivessem relacionadas com 
qualquer fenmeno sobrenatural. Em vez disso, a lenda seria aproveitada na totalidade e os 
turistas seriam informados de que poderiam assistir a um espetculo excepcional. Embora 
alguns dos turistas pudessem ver as luzes e imaginar que elas fossem os fantasmas de que 
falava a lenda, os guias voluntrios das visitas nunca poderiam aludir a tal possibilidade. 
Finalmente, Jeremy pedia ao presidente que retirasse das suas lojas da baixa todas as 
canecas e T-shirts com aluses ao fenmeno. 

Em troca, Jeremy prometia nunca fazer qualquer referncia ao cemitrio de Cedar Creek na 
televiso, na sua coluna ou em qualquer artigo independente. No denunciaria o plano do 
presidente da Cmara para tornar a vila uma verso de Roswell, no Novo Mxico, com 
fantasmas; nem informaria nenhum habitante da vila de que o presidente da Cmara sempre 
soubera vendodade. 

O presidente Gherkin aceitou a oferta. Depois de desligar, Jeremy ligou para Alvin, a quem 
obrigou a jurar que guardaria o segredo. 

#
VINTE E UM 

Nos dias que se seguiram  reunio mal-sucedida com os produtores, Jeremy concentrou-se 
na tentativa de voltar s rotinas habituais. Falou com o seu editor da Scientific American. J 
atrasado nos prazos, e a recordar vagamente uma sugesto do Nate, acordou escrever um 
artigo sobre dos perigos das dietas com baixos nveis de hidratos de carbono. Passou horas 
na Internet e consultou inmeros jornais,  procura de outros temas de interesse. 
Desapontado, ficou a saber que Clausen -com a ajuda de uma conhecida firma de 
publicidade de Nova Iorque -tinha ultrapassado a tempestade provocada pela apario de 
Jeremy no programa Primetirne e continuava em negociaes para conseguir ter um 
programa pessoal. Jeremy no deixou de reparar na ironia da situao e passou o resto do 
dia a lamentar a credulidade dos verdadeiros crentes. 

Pouco a pouco, estava a conseguir recompor-se. Ou, pelo menos, assim julgava. Embora 
continuasse pensando em em Lexie com freqncia, a imagin-la muito ocupada nos 
preparativos para o casamento com Rodney, fez o que pde para afastar tais idias da 
cabea. Eram demasiado dolorosas. Procurou, pelo contrrio, retomar a vida que fazia antes 
de conhecer a Lexie. Na sexta-feira foi a uma discoteca. A noite no lhe correu l muito 
bem. Em vez de se misturar e de tentar captar a ateno das mulheres mais prximas, 
sentou-se no bar e entreteve-se com uma s cerveja durante a maior parte do sero, 
acabando por sair muito antes da hora habitual. No dia seguinte foi a Queens visitar a 
famlia, mas ver os irmos e as mulheres com os filhos apenas o fez desejar uma vida que 
nunca poderia vir a ter. 

Durante a tarde de segunda-feira, com uma nova tempestade a assentar arraiais, 
convencera-se verdadeiramente de que estava tudo acabado. Lexie no tinha telefonado e 
ele tambm no. Por vezes, aqueles poucos dias de contato com Lexie pareciam-lhe nada 
mais do que uma miragem que tivesse andado a investigar. No podiam ter acontecido, dizia 
para si mesmo, mas ao sentar-se  secretria deu consigo a olhar de novo para os postais e 
acabou por pregar um deles, o que mostrava a biblioteca, na parede por trs da secretria. 

Pela terceira vez numa semana, encomendou o almoo ao restaurante chins que havia no 
quarteiro onde morava, para depois se recostar na cadeira, pensando em nas escolhas que 
tinha feito. Por instantes, imaginou que Lexie poderia estar a almoar ao mesmo tempo que 
ele, mas o pensamento foi interrompido pelo toque do intercomunicador. 

Pegou na carteira e dirigiu-se para a porta. Por entre os rudos de esttica do 
intercomunicador, ouviu uma voz feminina. 

-A porta est aberta. Pode subir. 
Passou os dedos pelas notas, tirou uma de vinte dlares e chegou  porta no momento em 
que ouviu bater. 
-Chegou depressa -comentou. -Habitualmente levam 
No conseguiu continuar, pois, ao abrir a porta, viu Doris  sua frente. 
Em silncio, ele e a visita fitaram-se, at que finalmente ela sorriu. 


-Surpresa! - exclamou. 
Ele pestanejou: 
-Doris? 
Doris bateu os ps para se libertar da neve. 
-H uma tempestade l fora -informou -, e est tanto frio que at pensei que no 
conseguia c chegar. O txi derrapava de um lado para o outro da rua. 
Jeremy continuava a olhar, a tentar encontrar significado para aquela sbita apario. 


#
Ela tirou a mala do ombro e olhou-o nos olhos. 

-Vai obrigar-me a ficar aqui no patamar, ou vai convidar-me a entrar? 
-Desculpe... claro. Faa favor - tartamudeou, a indicar-lhe que entrasse. 
Doris passou por ele e ps a mala em cima da mesa, perto da porta. Deu uma vista de olhos 
pelo apartamento e tirou o casaco. 

- agradvel - comentou, a andar  volta da sala. 
-Maior do que eu pensava. Mas as escadas so assassinas. Precisa mesmo de mandar 
arranjar o elevador. 

-Pois... Eu sei. 
A visita parou junto  janela. 
-Mas a cidade  bonita, mesmo com a tempestade. E tem tanto movimento! Percebo as 
razes que levam as pessoas a quererem viver aqui. 

-O que  que veio c fazer? 
- evidente que vim falar consigo. 
-Sobre da Lexie? 
No obteve resposta imediata. Doris suspirou e falou calmamente: 
-Entre outras coisas -admitiu, a encolher os ombros quando o viu enrugar a testa. -Por 
acaso, no tem por a ch? Ainda me sinto gelada. 

-Mas... 
-Temos muito de que falar -esclareceu Doris, mantendo a voz firme. -sei que tem dvidas, 
mas vamos precisar de algum tempo. Portanto, tem ou no tem ch? 

Jeremy dirigiu-se  pequena cozinha e aqueceu uma chvena de gua no microondas. 
Depois de lhe juntar um pacote de ch, levou a chvena para a sala, onde encontrou a Doris 
sentada no sof. Entregou-lhe a chvena e ela bebeu imediatamente um gole. 

-Peo desculpa por no ter telefonado. Reconheo que o devia ter feito. Deve ter ficado 
bastante chocado. Mas queria falar consigo, em pessoa. 

-Como  que descobriu a minha morada? 
-Falei com o seu amigo Alvin. Foi atravs dele. 
-Falou com o Alvin? 
-Ontem. Ele tinha dado o nmero de telefone  Rachel; por isso, telefonei-lhe, mostrou-se 
muito simptico e deu-me o seu endereo. Gostaria de t-lo conhecido quando esteve em 
Boone Creek. Pareceu-me um perfeito cavalheiro. 

Jeremy viu na conversa de circunstncia um sinal de crescente nervosismo e decidiu manter-
se calado. Sabia que ela estava apenas a 

tentar encontrar a forma de expressar o que tinha vindo dizer. O intercomunicador tocou de 
novo e Doris olhou de relance para a porta. 

- o meu almoo - informou Jeremy, aborrecido com a interrupo. - D-me um minuto, por 
favor. 
Ps-se de p, premiu o boto do intercomunicador e destrancou a porta; enquanto 
esperava, viu de relance a Doris a ajeitar a blusa. Um instante depois, tornou a mexer-se; 
fosse como fosse, o fato de ela estar nervosa ajudou-o a acalmar os prprios nervos. 
Respirou fundo e deu um passo para o patamar, onde se encontrou com o distribuidor logo 
que ele subiu o ltimo lano de escadas. 

Regressou e estava a colocar o saco em cima da bancada da cozinha quando ouviu a voz da 

#
Doris. 

-O que  que encomendou? 
-Carne de vaca com brcolos, arroz e porco frito. 
-Cheira bem. 
Talvez fosse a maneira como o disse que o obrigou a sorrir. 
-Agradava-lhe se eu fizesse dois pratos? 
-No gostaria de vir comer o seu almoo. 
-Chega para os dois -comentou, enquanto tirava os pratos. -E, alm disso, no me disse 
que gostava de conversar durante uma boa refeio? 
Dividiu a comida e trouxe os pratos para a mesa; Doris sentou-se ao lado dele. 
Mais uma vez, deixou que ela comeasse; durante alguns minutos, comeram em silncio. 


-Est delicioso - acabou ela por confessar. 
-No tomei o caf da manh e acho que nem me tinha apercebido de que tinha tanta fome. 
 uma grande viagem. Tive de sair de casa ao amanhecer e o vo estava atrasado. O mau 
tempo fez cancelar tudo e, por algum tempo, nem houve a certeza de que levantssemos 
vo. Alm disso, estava nervosa. Foi a primeira vez que viajei de avio. 

-Oh! 
-Nunca houve uma razo para isso. Lexie pediu-me que a viesse visitar quando viveu aqui, 
mas o meu marido no estava muito bem de sade, motivo por que nunca consegui fazer a 
viagem. Depois ela regressou. Bastante em baixo, na altura. Penso que a julga uma pessoa 
dura e forte, mas isso  apenas o que ela deseja que os outros pensem. Por baixo da 
carapaa,  uma pessoa como qualquer outra, e sentia-se esmagada pelo que tinha 
acontecido com o Avery. 

Chegada ali, Doris hesitou: 

-Ela contou-lhe, no foi? 
-Contou. 
-Sofreu em silncio, manteve a aparncia corajosa, mas eu sabia quanto estava perturbada. 
No podia fazer nada por ela. Escondia o que sentia ao manter-se sempre ocupada, a correr 
daqui para ali, falando com toda a gente, a assegurar-se de que todos ficassem com a 
impresso de que ela estava bem. Nem calcula quanto tudo isso me fazia sentir intil. 

-Qual o motivo de vir contar-me tudo isso? 
-Porque agora est a agir da mesma maneira. 
Jeremy remexeu a comida com o garfo. 
-Doris, quem acabou no fui eu. 
-Tambm tenho conscincia disso. 
-Ento, por que veio falar comigo? 
-Porque a Lexie no me ouve. 
Apesar da tenso, Jeremy soltou uma gargalhada. 
-Julgo que isso quer dizer que eu sou capaz de convencer as pessoas? 
-No - contraps Doris. - Significa que tenho a esperana de que no seja to teimoso como 
ela. 
-Mesmo que estivesse disposto a tentar de novo, a deciso continua a ter de ser dela. 
#
Doris observou-o demoradamente. 

-Acredita realmente no que est a dizer? 
-Tentei falar com ela. Disse-lhe que desejava encontrar uma 
forma de fazer a relao funcionar. 
Em vez de responder ao comentrio dele, Doris perguntou: 
-J foi casado, no  verdade? 
-H muito tempo. A Lexie contou-lhe? 
-No. Descobri isso durante a nossa primeira conversa. 
-Outra vez os dons psquicos? 
-No, nada disso. Tem mais vendo com a forma como interage 
com as mulheres. Porta-se com uma confiana que muitas mulheres 
consideram cativante. Ao mesmo tempo, tive a sensao de que compreende o que as 
mulheres desejam mas, por qualquer razo, no pretende entregar-se completamente. 


-O que  que isso tem vendo com o resto? 
-As mulheres desejam o conto de fadas. Nem todas,  evidente, mas, na sua maioria, as 
mulheres sonham com aquele gnero de homem que arriscaria tudo por elas, mesmo 
sabendo que podero acabar por sair magoadas -explicou. Fez uma pausa. -Uma situao 
do gnero da que criou quando foi ter com ela  casa da praia. Foi isso que a levou a 
apaixonar-se por si. 


-Ela no est apaixonada por mim. 
- bvio que est. 
Jeremy abriu a boca para negar, mas no conseguiu. Em vez disso, abanou a cabea. 
-De qualquer maneira, j no interessa. Vai casar-se com o Rodney. 
Doris encarou-o. 

-No, no vai. Contudo, antes que pense que foi uma maneira de o afastar, deve pensar 
que ela apenas disse tal coisa para, depois de voc partir, no ter de ficar acordada durante 
a noite pensando em no motivo por que voc nunca mais voltaria -esclareceu, fazendo nova 
pausa para deixar que as idias assentassem. - Alm do mais, no acreditou nisso, pois no? 
Foi a maneira como Doris disse aquilo que o fez recordar-se da sua prpria reao quando 
ela falou no casamento com o Rodney. No, apercebia-se agora, no tinha acreditado nela. 

Doris estendeu o brao por cima da mesa e agarrou-lhe na mo. 

- um bom homem, Jeremy. E merece saber vendodade; foi esse o motivo que me trouxe 
at c. 

Levantou-se da mesa. 

-Tenho de ir apanhar o avio. Se no regressar esta noite, Lexie vai perceber que anda 
qualquer coisa no ar. Prefiro que no saiba da minha vinda a Nova Iorque. 

-Uma grande viagem. Teria sido mais fcil telefonar-me. 
-Eu sei. Mas tinha de ver a sua expresso. 
-Porqu? 
-Pretendi saber que tambm estava apaixonado por ela -explicou, a dar-lhe uma 
palmadinha no ombro, antes de se dirigir para a sala de estar, onde recuperou a mala de 
mo. 

-Doris! - chamou Jeremy. 
#
Ela voltou-se: 

-O que ? 
-Encontrou a resposta que procurava? 
Doris sorriu. 
-vendodadeira pergunta deveria ser: O Jeremy encontrou a resposta? 
#
VINTE E DOIS 

Jeremy ficou a percorrer a sala a passos largos. Precisava de pensar, de avaliar as opes, 
de modo a decidir o que fazer. 

Passou a mo pelos cabelos e abanou a cabea. No dispunha de tempo para indecises. 
Agora no, depois de saber o que sabia. Tinha de l voltar. Meter-se no primeiro avio em 
que conseguisse lugar e voltar a procur-la. Falar-lhe, tentar convenc-la de que nunca 
falara mais a srio, em toda a sua vida, do que no momento em que afirmara que a amava. 
Dizer-lhe que no concebia a vida sem ela. Dizer-lhe que faria tudo o que fosse necessrio 
para poderem ficar juntos. 

Ainda antes de a Doris ter acenado a um txi no exterior do edifcio, j ele estava a telefonar 
para a companhia de aviao. 

Ficou a aguardar o que lhe pareceu uma eternidade, mais furioso a cada segundo que 
passava at que, finalmente, conseguiu ser atendido. 

O ltimo avio para Raleigh partia dentro de noventa minutos. Mesmo com bom tempo, a 
viagem de txi levaria metade desse tempo, mas a outra opo era esperar at ao dia 
seguinte. 

Tinha de andar depressa. Agarrando num saco de viagem, atirou l para dentro dois pares 
de calas de ganga, duas camisas, pegas e roupa interior. Vestiu o casaco e enfiou o celular 
num dos bolsos. Pegou no carregador que estava em cima da secretria. Computador 
porttil? No, no iria precisar dele. Que mais? 

Oh, pois claro. Correu  casa de banho e verificou o contedo do estojo de higiene. 
Lembrou-se da mquina de barbear e da escova de dentes e atirou-as l para dentro. 
Apagou as luzes, desligou o computador e pegou na carteira. Deu-lhe uma vista de olhos e 
verificou que tinha dinheiro suficiente para chegar ao aeroporto; chegava, para j. 

Pelo canto do olho viu o dirio de Owen Gherkin, meio enterrado numa pilha de papis. 
Meteu o dirio e o estojo de higiene no saco a tiracolo, tentou pensar se precisaria de mais 
qualquer coisa, mas acabou por desistir: no tinha tempo. Pegou nas chaves que estavam 
na mesa junto da porta e deu uma derradeira vista de olhos, antes de fechar a porta e 
desarvorar pelas escadas abaixo. 

Chamou um txi, disse ao condutor que estava com pressa e sentou-se, a respirar fundo,  
espera de que tudo corresse pelo melhor. Doris tivera razo: por causa do nevo, o trnsito 
estava difcil e uma simples paragem a meio da ponte do East River foi suficiente para o pr 
a praguejar em surdina. Para poupar tempo nas operaes de controlo de segurana, tirou o 
cinto e meteu-o no saco, juntamente com as chaves. O taxista estava a observ-lo pelo 
retrovisor. No escondia uma expresso de aborrecimento, e embora conduzisse depressa, 
fazia-o sem qualquer sentido de premncia. Jeremy mordeu a lngua, pois sabia que no 
ganharia nada em irrit-lo. 

Os minutos passaram. A queda de neve, que parara durante algum tempo, recomeou, 
reduzindo ainda mais a visibilidade. Faltavam quarenta e cinco minutos para a partida. 

A corrente de trnsito voltou a abrandar e Jeremy suspirou em voz alta, depois de consultar 
uma vez mais o relgio. Dez minutos mais tarde, chegaram ao aeroporto e foram direitos ao 
terminal. Finalmente. 

No momento em que o txi parou, abriu a porta e atirou duas notas de vinte dlares para o 
banco ao lado do condutor. Uma vez dentro do terminal, hesitou apenas durante uma frao 
de segundo perante o quadro eletrnico das partidas, a procurar saber qual era a sua porta 
de embarque. Felizmente, a Fila para obter o bilhete eletrnico era curta; logo que 
conseguiu o bilhete correu para o controlo de segurana. Sentiu um baque no corao ao 
verificar a extenso das Filas de espera, mas conseguiu uma aberta com a sbita abertura 
de uma nova passagem. As pessoas que estavam  espera comearam a deslocar-se 

#
naquela direo; numa corrida, Jeremy conseguiu adiantar-se a trs delas. 

Faltavam menos de dez minutos para encerrar o acesso ao vo e, logo que chegou  rea de 
verificao de segurana, Jeremy comeou a correr, em vez de andar em passo normal. 
Deslizando por entre as multides, pegou na carta de conduo e contou as portas de 
embarque que faltavam. 

Estava ofegante quando conseguiu alcanar a porta e sentia que comeava a transpirar. 

-Consegui? - perguntou, a ofegar. 
-S por ter havido um ligeiro atraso -esclareceu a funcionria do balco ao inserir o nome 
no computador. A assistente colocada junto da porta ficou a olhar para ele. 

A assistente recebeu-lhe o bilhete e fechou a porta logo que ele comeou a subir a rampa. 
Ao entrar no avio ainda no tinha conseguido normalizar a respirao. 

-No tarda que encerremos as portas.  o ltimo passageiro a entrar, pode sentar-se onde 
quiser - informou a assistente de bordo ao receber-lhe o carto de embarque. 

-Obrigado. 
Caminhou pela coxia, ainda espantado por ter conseguido, e viu um assento de janela vazio, 
a meio do avio. Estava a arrumar o saco na bagageira quando avistou a Doris, trs filas 
atrs dele. 

Doris devolveu-lhe o olhar mas manteve-se calada; limitou-se a sorrir. 

O avio aterrou em Raleigh s 15h30; Jeremy percorreu o terminal em companhia da Doris. 
Perto da sada, olhou por cima do ombro, a dizer: 

-Tenho de alugar um carro. 
-Terei muito gosto em dar-lhe uma boleia. Vou para esses lados. 
Ao v-lo hesitar, sorriu. 
-E deixo-o conduzir - acrescentou. 
Nunca deixou que a velocidade baixasse a menos de 120 e poupou quarenta e cinco minutos 
numa viagem de trs horas e meia; caa a noite quando se aproximou dos arredores da vila. 
Com imagens dispersas de Lexie a flutuarem-lhe na cabea, no deu pela passagem do 
tempo, nem se recordava muito bem da viagem. Tentou ensaiar o que pretendia dizer ou 
prever as respostas que ela lhe daria, mas teve de reconhecer que no fazia idia do que ia 
acontecer. Tambm no interessava. Por mais que matutasse, no conseguia imaginar uma 
outra maneira de fazer as coisas. 

Aproximavam-se do centro e puderam verificar que as ruas estavam calmas. Doris voltou-se 
para ele. 

-Importa-se de me deixar em casa? 
Olhou para ela, a aperceber-se de que mal tinham falado desde a sada do aeroporto. Com o 
pensamento fixo em Lexie, no reparara nesses pormenores. 

-No vai precisar do carro? 
-S preciso dele amanh. Alm disso, est frio para se andar por a  noite. 
A seguir as instrues de Doris, Jeremy chegou com facilidade  porta dela. Viu o seu jornal, 
que fora colocado junto  porta da pequena vivenda pintada de branco. A lua em quarto 
crescente aparecia logo acima da linha dos telhados e, naquela luz baa, deu uma olhadela a 
si mesmo no espelho retrovisor. Ao perceber que faltavam poucos minutos para ver a Lexie, 
percorreu o cabelo com os dedos. 

Doris notou o gesto nervoso e deu-lhe uma palmadinha na coxa. 

-Vai correr tudo bem. Acredite em mim. 
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Jeremy forou-se a sorrir, a tentar esconder as dvidas que o assaltavam. 

-H algum conselho de ltima hora? 
-No -respondeu Doris, a acenar com a cabea. -Alm disso, j recebeu tudo o que eu 
tinha para lhe dar. Est aqui, no est? 
Jeremy assentiu e Doris inclinou-se no banco para o beijar na face. 


-Bem-vindo a casa - sussurrou. 
Jeremy fez inverso de marcha, obrigando os pneus a chiarem ao acelerar na direo da 
biblioteca. Lexie tinha-lhe dito que mantinha a biblioteca a funcionar para as pessoas que 
saam dos empregos, no tinha? Numa das conversas entre ambos? Sim, pensou, tinha a 
certeza, mas no fazia idia de quando tinha sido. Teria sido no dia em que se conheceram? 
No dia a seguir? Suspirou, a reconhecer que a necessidade compulsria de rever a histria 
dos dias ali passados no passava de uma tentativa para acalmar os nervos. Vir ali teria sido 
sensato? Lexie ficaria satisfeita quando o visse? Qualquer confiana que tivesse sentido, 
evaporara-se com a aproximao da biblioteca. 

A baixa apareceu-lhe bem ntida, em contraste com as imagens de fantasia e nevoeiro que 
recordava. Passou pelo Lookilu e viu uma meia dzia de carros no parque de 
estacionamento, perto da pizzaria. Um grupo de adolescentes conversava numa esquina e, 
embora a princpio lhe parecesse que estavam a fumar, apercebeu-se de que via apenas a 
respirao deles a condensar-se no ar frio. 

Virou novamente; no lado mais afastado do cruzamento viu as luzes da biblioteca, acesas 
em ambos os pisos. Arrumou o carro e meteu-se na noite fria. A respirar fundo e em 
grandes passadas, no tardou a alcanar a porta principal e a abri-la. 

Sem ningum no balco de atendimento, parou para espreitar pelas portas de vidro toda a 
rea do primeiro piso. Entre os leitores, no viu sinais de Lexie. Mas no deixou de 
esquadrinhar os cantos da sala, s para ter a certeza. 

A pensar que a Lexie poderia estar no seu gabinete ou na sala principal, apressou-se a 
percorrer o corredor e a subir a escada, sempre a olhar  volta e a dirigir-se para o gabinete 
dela. De longe, verificou que a porta estava fechada e que no se via luz pelas frinchas. 
Experimentou a porta e notou que estava fechada  chave; a seguir, a caminho da sala de 
livros raros, espreitou para todos os corredores entre as estantes. Fechada  chave. 

Cortou caminho por entre as mesas da sala principal, sempre a andar depressa, a ignorar os 
olhares de pessoas que decerto o reconheciam. Ao caminhar para a porta principal, 
percebeu que deveria ter verificado se o carro dela estava no parque de estacionamento. 

Nervos, fez-lhe notar uma voz interior. 

Pouco interessava. Se o carro ali no estivesse, o mais provvel era que Lexie tivesse ido 
para casa. 

Uma das voluntrias mais idosas apareceu, carregada de livros, e os olhos brilharam-lhe 
quando viu Jeremy a aproximar-se. 

-Mr. Marsh -saudou na sua voz cantada. -No esperava voltar a v-lo! O que  que o traz 
por aqui? 

-Andava  procura da Lexie. 
-Saiu h cerca de uma hora. Penso que foi a casa da Doris, para ver como ela est. Sei que 
lhe tinha telefonado e que a Doris no respondeu. 
Jeremy no se deu por achado. 


-Oh! 
-E tambm soube que a Doris no estava no Herbs. Tentei convenc-la de que a Doris 
poderia ter coisas a tratar, mas sabe como  a Lexie quando est preocupada. Parece uma 

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me-galinha. Por vezes, consegue pr a Doris maluca, mas ela sabe que  apenas a maneira 
de a neta lhe demonstrar quanto se preocupa. 

A voluntria fez uma pausa, a aperceber-se subitamente de que Jeremy no dera qualquer 
explicao sobre do seu reaparecimento. Contudo, antes que pudesse perguntar fosse o que 
fosse, Jeremy trocou-lhe as voltas. 

-Escute, adoraria ficar aqui conversando, mas tenho mesmo que falar com a Lexie. 
-Outra vez a histria? Talvez o possa ajudar. Tenho a chave da sala de livros raros, se 
precisar de l ir. 

-No, no  necessrio. Mas agradeo na mesma. 
J ia lanado, quando ouviu a voz dela, vinda l de trs: 
-se ela voltar, quer que lhe diga que esteve c? 
-No - disse, sem se voltar. - Quero fazer-lhe uma surpresa. 
Estremeceu de frio ao sair da biblioteca e correu para o carro. 

Entrou na rua principal e fez a curva que leva  extremidade da vila, a reparar no cu 
cinzento e cada vez mais escuro. Acima das rvores, avistou as estrelas, milhares delas. 
Milhes. Por instantes, imaginou como pareceriam vistas do cimo de Riker's Hill. 

Entrou na rua onde morava a Lexie e sentiu que algo cedia ao ver que no havia luzes na 
casa e que o carro dela no estava no desvio. Sem crer no que via, passou pela casa 
lentamente, a confirmar se teria cometido algum erro. 

Se no se encontrava em casa nem na biblioteca, onde  que poderia estar? 

Ter-se-iam cruzado quando ele fora levar a Doris a casa? Tentou pensar. Ter-se-ia cruzado 
com algum? No, que se lembrasse, mas tambm no podia afirmar que estivesse com 
ateno. No entanto, tinha a certeza de que teria reconhecido o carro dela. 

Decidiu passar por casa da Doris, s para confirmar; a conduzir demasiado depressa dentro 
da vila, sem deixar de procurar o carro dela, correu para a vivenda branca. 

Uma vista de olhos foi suficiente para verificar que a Doris j se tinha deitado. 

Contudo, parou em frente da casa, a tentar perceber onde  que Lexie teria ido. A vila no 
era grande e as opes eram poucas. Pensou de imediato no Herbs, mas lembrou-se de que 

o restaurante no abria  noite. No vira o carro dela no parque do Lookilu; nem em 
qualquer outro local do centro. Sups que ela estivesse empenhada em qualquer atividade 
corrente: a comprar artigos de mercearia, a devolver um vdeo alugado ou a recolher roupa 
na lavandaria. ou. ou. E, assim, subitamente percebeu aonde ela estava. 
Agarrou-se bem ao volante, a tentar arranjar foras para completar a viagem. Sentia um 
aperto no peito e notou que respirava com demasiada rapidez, como lhe acontecera durante 
a tarde, ao tomar lugar no avio. Custava a acreditar que tivesse comeado o dia em Nova 
Iorque, pensando em que no voltaria vendo a Lexie, e que agora se encontrasse em Boone 
Creek, a planear o que julgara ser impossvel. Conduziu pelas estradas escurecidas, ainda 
enervado pela possvel reao de Lexie quando o visse reaparecer. 

O luar banhava o cemitrio de uma claridade quase azulada e as pedras tumulares pareciam 
iluminadas por luz interior. A cerca de ferro forjado acrescentava um toque fantasmagrico 
quele cenrio etreo. Ao aproximar-se da porta do cemitrio, viu o carro da Lexie parado 
junto do porto. 

Arrumou o carro a seguir ao dela. Ao sair do carro da Doris, ouviu os estalos do motor a 
arrefecer e das folhas secas que pisava. Respirou fundo. Colocou a mo no cap do carro da 
Lexie e sentiu o calor que ainda irradiava. Tinha parado havia pouco tempo. 

Passou pelo porto e viu a magnlia de folhas negras e lustrosas, como se tivessem sido 
mergulhadas em leo. Passou por cima de um ramo e recordou-se de ter andado aos 

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tropees pelo cemitrio, numa noite de nevoeiro em que estivera ali com a Lexie e no 
conseguia ver onde punha os ps. A meio do caminho, ouviu um mocho piar de cima de uma 
rvore. 

Deixando o carreiro, desviou-se de uma cripta a desmoronar-se e caminhou devagar, a 
tentar fazer o mnimo de rudo enquanto subia a pequena rampa. Por cima dele, viu a Lua 
pendurada no cu, como se tivesse sido colada numa folha de papel preto. Pensou ouvir um 
murmurar baixo e, ao parar para escutar, sentiu um fluxo intenso de adrenalina. Acabava de 
a encontrar, de se encontrar a si prprio, e sentiu o corpo a preparar-se para o que viria a 
seguir. Dobrou o cimo do pequeno morro, sabia que os pais da Lexie se encontravam 
sepultados do outro lado. 

Chegara a hora. Dentro de momentos veria a Lexie e ela v-lo-ia tambm. Arrumaria a 
questo de uma vez por todas, ali, onde tudo comeara. 

Lexie estava de p, no local exato em que esperava encontr-la, banhada pela luz prateada. 
O rosto mostrava uma expresso vaga, quase pesarosa, e os olhos eram de uma luminosa 
cor violeta. Viera preparada para enfrentar o tempo frio: cachecol  volta do pescoo e luvas 
pretas que faziam que as mos dela parecessem sombras. 

Falava em voz baixa, mas ele no conseguiu entender as palavras. Enquanto ele a 
observava, Lexie parou subitamente e ergueu os olhos. Durante um momento que pareceu 
interminvel, fixaram os olhos um no outro. 

Ao olhar para ele sem pestanejar, Lexie parecia uma esttua de pedra. Finalmente, desviou 
o olhar. Voltou a concentrar-se nas sepulturas e Jeremy percebeu apenas que no fazia idia 
daquilo em que ela estava a pensar. De repente, a vinda ali pareceu-lhe um erro. Ela no o 
queria ali, no o queria de maneira nenhuma. Sentiu a garganta endurecer, e estava prestes 
a rodar nos calcanhares para ir-se embora, mas reparou no ligeiro sorriso de Lexie. 

-Sabes, realmente no devias olhar dessa maneira -admoestou. -As mulheres gostam de 
homens que saibam ser subtis. 

Sentiu o corpo percorrido por uma sensao de alvio, sorriu e deu um passo em frente. 
Quando estava suficientemente perto para a tocar, estendeu o brao e ps-lhe a mo na 
anca. Lexie no se afastou; em vez disso, encostou-se a ele. A Doris tivera razo. 

Chegara ao lar. 

-No -sussurrou-lhe junto da orelha -, as mulheres gostam de um homem capaz de as 
seguir at ao fim do mundo, ou mesmo at Boone Creek, se necessrio. 

Apertando-a mais contra si, levantou-lhe o rosto e beijou-a, a saber que nunca mais a 
deixaria. 

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EPLOGO 

Jeremy e Lexie estavam sentados juntos, enroscados debaixo de um cobertor, a olhar a vila 
que se estendia mais abaixo. Era a noite de quinta-feira, trs dias depois do regresso de 
Jeremy a Boone Creek. As luzes brancas e amarelas da vila, cruzadas por ocasionais 
vermelhos e verdes, pareciam cintilar e Jeremy viu as plumas de fumo que se elevavam das 
chamins. O rio corria negro, como carvo lquido, a servir de espelho ao cu. Para l do rio, 
as luzes da fbrica de papel espalhavam-se em todas as direes, a iluminarem o viaduto 
ferrovirio. 

Nos dois ltimos dias, ele e a Lexie tinham passado muito tempo conversando. Ela pediu 
desculpa por ter mentido sobre do Rodney e confessou que afastar-se do Greenleaf, 
deixando-o parado na estrada de terra, fora a deciso mais difcil de toda a sua vida. 
Descreveu a tristeza do tempo em que viveram afastados, um sentimento de que Jeremy 
tambm partilhou. Por sua vez, ele contou-lhe que, embora o Nate no se deixasse 
entusiasmar pelo filme, o seu editor do Scientific American estava disposto a deix-lo 
trabalhar tendo Boone Creek por base, desde que ele se deslocasse regularmente a Nova 
Iorque. Contudo, no se referiu  visita de Doris  sua casa de Nova Iorque; no segundo dia 
depois do regresso, Lexie levou-o a jantar em casa da Doris; a av chamara-o de parte e 
pedira-lhe que no falasse do assunto. 

-No quero lev-la pensando em que interfiro com a vida dela -desculpou-se. -Acredite ou 
no, considera-me metedia. 

Por vezes, sentia dificuldade em compreender que estava realmente ali; por outro lado, 
custava-lhe a perceber que, da primeira vez, tivesse decidido ir-se embora. Estar com a 
Lexie parecia-lhe natural, como se ela fosse o abrigo que procurava h muito tempo. Embora 
a Lexie parecesse sentir o mesmo, no o autorizou vivendo em casa dela. 

-No quero dar  gente da terra motivos para fazer mexericos - insistia. No entanto, Jeremy 
sentia-se razoavelmente confortvel no Greenleaf, mesmo que ainda no tivesse conseguido 
arrancar um sorriso ao Jed. 
-Pensas, ento, que o caso do Rodney e da Rachel  srio? - indagou Jeremy. 
-Parece que  - respondeu Lexie. 
-Ultimamente, tm passado muito tempo juntos. Ela parece cintilar sempre que o Rodney 
aparece no Herbs e juro que fica corada. Penso que foram realmente feitos um para o outro. 

-Ainda nem quero crer que me disseste que ias casar com ele. 
Lexie deu-lhe um toque, ombro com ombro. 
-No quero voltar falando disso. J pedi desculpa. E preferia que no pensasses passar o 
resto da vida a lembrar-me tal coisa. 

-Mas, trata-se de uma bela histria. 
-Pensas assim porque pareces bom, se conseguires fazer de mim a m da fita. 
-Fui bom. 
Lexie beijou-o na face. 
-Pois foste. 
Jeremy chegou-a mais para si e ficaram vendo uma estrela cadente a cruzar o cu. Por 
momentos, mantiveram-se sentados em silncio. 

-Tens muito que fazer amanh? - perguntou Jeremy. 
-Depende. Em que  que ests a pensar? 
-Falei com Mrs. Reynolds e combinei ir ver umas casas. Gostava que me acompanhasses. 
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Num lugar como este, no me agradaria nada comprar casa num local inconveniente. 
Ela abraou-o com mais fora. 

-Adorarei ir contigo. 
-E gostaria tambm de te levar a Nova Iorque. Numa das duas semanas que vm. A minha 
me insiste em querer conhecer-te. 

-Tambm vou gostar de a conhecer. Alm disso, sempre adorei aquela cidade. Vivem l 
algumas das pessoas mais simpticas que conheci. Jeremy fez rolar os olhos nas rbitas. 

Por cima deles, pequenas nuvens passavam a flutuar pela frente da Lua e, no horizonte, 
Jeremy notou os sinais de uma tempestade que se aproximava. A chuva chegaria dentro de 
poucas horas mas, nessa altura, j ele e a Lexie estariam a beberricar vinho na sala de estar, 
a ouvir os pingos de chuva a bater no telhado. 

A dada altura, Lexie voltou-se para ele. 


-Obrigada por teres voltado. Por te mudares para c... por tudo. 
-No tive escolha. O amor provoca reaes estranhas nas pessoas. 
Ela sorriu. 
-Como sabes, tambm te amo. 
-Pois, eu sei. 
-O qu? No vais dizer o que deves? 
- necessrio? 
- evidente que sim. E tens de usar o tom certo. Tens de 
proferir as palavras como quem acredita nelas. 
Jeremy sorriu, pensando em se ela iria corrigir-lhe o tom, para sempre. 
-Amo-te, Lexie. 
L longe, ouviu-se o apito de um comboio e Jeremy vislumbrou 
um pequeno ponto de luz no meio da escurido. Se fosse uma noite de 
nevoeiro, as luzes no tardariam a aparecer no cemitrio. Lexie pareceu seguir-lhe o 
pensamento. 


-Ento, diga-me, Senhor Jornalista Cientfico, ainda duvida da existncia de milagres? 
-J te disse. Tu s o meu milagre. 
Antes de lhe pegar na mo, Lexie ficou durante uns instantes com a cabea encostada ao 
ombro dele. 

-Estou falando de verdadeiros milagres. Quando acontece qualquer coisa que nunca 
julgamos possvel. 

-No. Julgo que, se investigarmos com a devida profundidade, encontraremos sempre uma 
explicao. 

-Mesmo que o milagre tivesse acontecido a ns mesmos? 
Falara com voz suave, quase num sussurro, obrigando-o a olh-la de frente. Jeremy viu as 
luzes da vila Refletidas nos olhos dela. 

-De que  que ests falando ? 
Lexie respirou fundo. 
-H umas horas, a Doris deu-me uma notcia... 
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Jeremy ficou a observ-la, incapaz de perceber o que ela estava a dizer-lhe, embora Lexie 
fosse mudando de expresso, de hesitante para na expectativa, passando por um estado de 
animao. Olhou para Jeremy,  espera que ele dissesse qualquer coisa, mas as palavras 

continuavam a no fazer sentido na cabea dele. 

Havia a cincia e havia o inexplicvel; e Jeremy passara a vida a tentar conciliar as duas 
idias. Discorria sobre a realidade, zombava da magia e sentia d dos verdadeiros crentes. 
Contudo, ao olhar para Lexie, a tentar encontrar um sentido para o que ela estava a dizer-
lhe, comeou a sentir que a sua velha segurana parecia querer esfumar-se. 

No, no podia explicar tudo e, no futuro, no o faria. Era um desafio s leis da Biologia, 
deitava por terra as presunes sobre o homem que ele sabia ser. Resumindo: era 
impossvel; mas quando ela lhe pegou delicadamente na mo e a colocou em cima do 
prprio estmago, com uma euforia sbita, Jeremy acreditou nas palavras que pensava 
nunca chegar a ouvir. 

-O nosso milagre est aqui - sussurrou Lexie. -  uma menina. 
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